O MEU ANGELIN

MEU COMPARSA NO HUMOR

Em 25/5/26 presenciei, no auditório Feluma, essa peça do meu dileto amigo Jair Raso, teatrólogo e neurocirurgião. Não havia como ser tomado de grande emoção, pois eu era ali, entre todos, o maior e mais antigo amigo do Ângelo Machado, o Angelin. Isso porque o Dângelo não estava presente. Se tivesse seríamos ambos. Eu já era fã do Carlos Nunes, MESTRE em riso, mas, como autor de um livro chamado Riso Dourado, diplomo-o DOUTOR, diante de seu perfeito Angelin. Houve momentos em que ele era tão Angelin que percebi psicografada sua performance. Aplaudo de pé, a seu lado, além do Jair, Diego Krisp e Carolina Cândido, talentos insinuantes.

Do Angelo eu disse, em 2005, em homenagem aos seus 70 anos: 

Homem com chapéu na cabeça

Descrição gerada automaticamenteDiagrama

Descrição gerada automaticamenteO Humor do Show Medicina

O Luiz Savassi Rocha convocou-me para participar, com outros admiradores, da homenagem ao Angelin setentão. Cada qual deveria relembrar sua convivência com o homenageado. Respondi-lhe que já o fizera n´O RISO DOURADO DA VILA, de 2003, reeditado em 2020, livro de minhas memórias, obviamente recheado de Ângelo Machado. Não obstante me apresento para a comemoração, com o maior prazer.

Pelo que ali narro, não conheci o monômio Ângelo, mas quase sempre um binômio Ângelo-e-um-bicho-anexo. O primeiro binômio foi Ângelo-Josias, sendo Josias um frango. O segundo foi Ângelo-libélulas, sendo que até hoje sinto o cheiro característico de quando ele, ajudado por mim, remexia em  sua coleção, a maior do mundo. O terceiro foi Ângelo-Rodolfo, sendo Rodolfo um tamanduá. Depois Ângelo-grilos, Ângelo-sapos e assim por diante, inclusive Ângelo-cebídeos (só que não me lembro de qualquer macaco, mas do piloro do macaco). Certo dia ele me apresentou um padre, em sua sala {hoje Banco do Brasil}, com o seguinte elogio: este meu amigo é a maior autoridade no mundo em rola-bosta. É o padre Francisco Silvério Pereira (1913-91).

Objetos também lhe eram associados em nossa época, por exemplo, Ângelo-microscópio, sempre exalando à parafernália histológica, ou então Ângelo-motoca. Sim, eu era garupeiro da(s) sua{s} motoca(s) e hoje me admiro da ausência de medo com que o garupava pelas ruas da Capital, rumo ao DCE ou à Cantina do outro Ângelo, naqueles anos dourados. Outra lembrança marcante foi quando o Ângelo, o Lineu Freire-Maia, o Marcos Mares Guia, o Armando Gil, o Jáder Siqueira e o Sebastião Pereira e eu nos reunimos para discutir a criação de um cursinho pré-vestibular no Diretório Acadêmico, aberto a vestibulandos carentes. Esta iniciativa teve um sucedâneo privado, o curso Pitágoras, e um sucedâneo estatal, o Colégio Técnico da Universidade.

E como poderia esquecer o principal binômio: Ângelo-riso, ou melhor Ângelo-gargalhada? Aliás, ô Ângelo, que foi feito da mulher-sofrimento-do-ano? Há poucos dias recebi de presente um livro, cujo tema é a preocupação que dominou você por uns tempos, quando surgiu tal sofrida criatura em sua vida. A questão era: se a gente conseguia produzir riso com o sofrimento de ano inteiro de uma pobre senhora, quais são os fundamentos neurocientíficos do riso? Deveriam ser fundamentos muito sérios...

O Clarindo Cerqueira é outro na busca de estudos sobre o riso. Daí que me ofertou um livro intitulado LAUGHTER – A SCIENTIFIC INVESTIGATION, de Robert Provine, do Centro de Biologia de Sistemas Naturais da Universidade Washington. Folheei-o logo para procurar ali a mínima notícia do buffet escasso, que, ancorado no talento de Carlos Nunes, ficou em cartaz por mais de seis anos. Sem este, sem os risos do show-medicina e sem meu modesto riso dourado, o precioso livro ianque ostenta a imperdoável ausência do humor mineiro. Em contrapartida, recentemente foi incorporada ao Centro de Memória da Medicina a doutora alemã Úrsula Kirchner que chegou ao Brasil em pesquisa para seu doutorado e não mais quis sair daqui. Ela representa o lado ioga do culto ao riso, até então lacuna entre nós, que a apelidamos de Úrsula Gargalhada.

Em minhas memórias relato a chegada do Ângelo de viagem que fizera à Amazônia, quando me procurou para participar de meus plantões no Pronto Socorro. Este capítulo do Ângelo como plantonista de emergências não pode ficar fora de sua biografia. Por exemplo, ali ele retirou um besouro do ouvido de uma paciente, que estranhou aquele esquisito doutor, mais interessado no inseto do que no pânico em que ela se encontrava. Na condição de seu auxiliar na retirada do besouro, posso dar meu testemunho desse causo, relatado em várias versões. O diálogo inicial foi comigo: – João, cuidado para não produzir qualquer lesão!Sim, Ângelo, estou tendo muito cuidado com o canal auditivo. – Mas, João, estou me referindo ao coleóptero, se for para publicar, ele tem de estar íntegro!... Seguiu-se o diálogo da paciente com o Ângelo: - Doutor, isso é grave? – É raro!...

O Ângelo se diplomou dois anos antes de mim, mas lá estava ele em todas as festas de minha formatura, de tal forma que é impossível evocá-las sem que estejam associadas a seus chistes e encenações, por exemplo da maminha gentil e da cabeça derradeira – sendo que minha turma contava com excelentes sambistas. Nossa convivência se prolongou no clube Umuarama, onde ficávamos na piscina, com a cabeça perigosamente ao sol, numa roda de causos. Isso sem descuidarmos do nado de nossas crianças. Por sinal, foi dessa época o advento do Ângelo-autor-para-crianças. Saindo dágua, íamos para a mesa do Euricão (Eurico Alvarenga), onde o papo era nutrido a cerveja, e ali aparecia o Ênio Cardillo, o Giovanni Gazzineli e outros baetófilos.

Depois, o Ângelo, como cientista e escritor, se transformou em celebridade e só consigo vê-lo e ouvi-lo no programa do Jô Soares, mas o Ângelo de nossa mocidade está sempre a meu lado e é personagem cotidiana de minhas conversas. Nas reuniões semanais do Centro de Memória da Medicina, o Antônio Dílson, o Antônio Cândido e o Ernesto Lentz, três tremendos humoristas, chegaram a esboçar um projeto para registro do melhor humor de nossa Faculdade. A idéia está ligada ao lançamento do livro da dupla Jota Dângelo & Ângelo Machado: O HUMOR DO SHOW MEDICINA, de 1991. A cada sábado os saudosistas se reuniriam em lugar agradável, regado a cerveja, e o papo seria discretamente gravado em vídeo. A lista dos que deveriam participar começava com o Ângelo, o Dângelo, o Osvaldo Costa, o Noronha Peres, o José Menoti Gaetani, o Carlo Fattini, o Carlos Faquir Queiroz, o Júlio Weimberg, o Evaldo Assunção e o Júlio Anselmo de Souza. Infelizmente não conseguimos concretizar tão magnífica idéia. De tanto querer o melhor, deixamos de efetivar o bom.

Do Dângelo digo:

Já o José Geraldo Dângelo, o Jota Dângelo, o conheci no SHOW MEDICINA. Eu era calouro e meu queixo caiu de ouvi-lo a declamar um poema dele mesmo. Que ator!, que poeta! Parece que escondeu não só seus poemas, mas seus sambas, alguns destes furtados por compositores. Criou em São João del Rei uma escola de samba digna de desfilar no Rio, mas também não o fez. Provoquei-lhe um arrepio, quando confessei que estava escrevendo sobre a origem do desfile de samba nas procissões da semana santa sanjoanense. Em São João, o mago da encenação religiosa setecentista foi o fabuloso ex-jesuíta Matias Salgado, para honra dos Salgados.

O Geraldo foi arguidor em meu doutorado, quando disse: esta tese é a coisa mais iconoclasta que já li! O Carlos Diniz, outro arguidor, acrescentou: Tão iconoclasta que nem referencias bibliográficas tem! Quando me aposentei, ele proclamou: estamos perdidos, preparem-se, o João já era o homem da UFMG que mais lia, agora, aposentado, é que ele vai ler muito mais!

Em 1980 inauguramos a sala Borges da Costa no Centro de Memória. Lá estava Tancredo Neves, que sugeriu criar centro igual para a Faculdade de Direito - e nos apoiou nas greves contra a ditadura e em favor da eleição direta de diretores e reitores. Dai surgiu a campanha das diretas e veio minha participação, ao lado do Dângelo e de outros, no preparo do malogrado governo federal de Tancredo.

Dângelo é o principal autor de OH, OH, OH, MINAS GERAIS, (1968), O FEITIÇO DA VILA (1988) e escreveu OS ANOS HEROICOS DO TEATRO EM MINAS (1950-1990) (2010), sendo clássicos seus livros de anatomia, com Carlo Fatini. Escreveu com o Angelo Machado, O HUMOR DO SHOW MEDICINA (1991). Fui um a pressionar os dois para produzir este livro, que veio encher de alegria e nostalgia um ror de nós. Um dos últimos espetáculos do Dângelo foi no centenário do Pedro Nava, em 2003. Dirigentes ignorantes proibiram o nome de Aurélio Pires no saguão da faculdade. O bronze foi então colocado sobre uma mesa e a emoção foi máxima, quando o ouvimos declamando, ao mestre Aurélio sobre a mesa, o MESTRE AURÉLIO ENTRE AS ROSAS, do próprio Nava.

Se a dupla Ângelo-Dângelo se fizesse um trio, o terceiro nome seria Júlio Anselmo de Souza, o sulmineiro que iniciei cientificamente e que acumulou os títulos de ilustre neuranatomista, líder teatral e nobilitado enólogo.