TEMAS SUBMETIDOS PELO

PROF. JOÃO AMÍLCAR SALGADO E/OU COLABORADORES A  CONGRESSOS DE HISTÓRIA DA MEDICINA

DE 2000 A 2005

 

5O BRASILEIRO, SANTOS, NOV 2000

1.0  - O ensino médico no Brasil antes de 1808

2.0  - A morte do filho de um Barão gera polêmica entre médicos e homeopatas, no Rio de 1846

3.0  - A visita de Maria e Irene Curie a Belo Horizonte em 1926.

4.0  – Egas Moniz e o efeito iatrogênico do thorotrast apontado por Luigi Bogliolo

5.0 - Os pioneirismos deliciosos e sempre atuais de Silva Melo

 

6O BRASILEIRO, BARBACENA, JUN 2001

1.0– Os primeiros esboços da História Da Medicina Mineira

2.0– Os 90 anos da Faculdade de Medicina da UFMG

3.0– Minas nasceu também gastroenterológica e a gastroenterologia brasileira nasceu de médicos

 mineiros

4.0– Barbacena e a ênfase ambulatorial em Psiquiatria

5.0– A UFMG e o Cinqüentenário da Psicofarmacologia

6.0– O ‘psiquiatra’ Guimarães Rosa e as correntes psiquiátricas

7.0– Aspectos antinômicos na história da medicina e as mentes bipolares

8.0– A fundação da Associação Mineira de Educação Médica (AMEM) em Barbacena

9.0– A origem na AMEM da Universidade Estadual De Minas Gerais

10.0– Os médicos e a Contrabucha Passaquatrense

11.0– Lepra epidêmica entre Minas e São. Paulo, desde o século 19

12.0 – Centenário de Hermínio Pinto


7O BRASILEIRO, RIBEIRÃO PRETO, NOV, 2002

1.0 - Nobre Lacaz, como esquecê-lo?!

2.0 - Os médicos e o iluminismo - na Escócia, na Holanda e em Minas.

3.0 - O paleontólogo Lund e o entomólogo Burmeister, em Minas

4.0 - Presença mineira na medicina paulista

5.0 - As mortes de Gambetta e de Tancredo

6.0 - O jovem Silva Melo

7.0 - O enigma de Saudades de Matão e a hanseníase

8.0 - Guimarães Rosa, Garcia Marques e Fidel Castro, em 1948   

9.0 - JK e os médicos

10.0 - Crime, romantismo e humor na história da propaganda na área da saúde

 

8O BRASILEIRO, SALVADOR, OUT, 2003

1.0  – O desagravo à inteligência lusa

2.0  – O desagravo genômico aos genealogistas

3.0  - Pedro Nava – centenário de um talento múltiplo

4.0  - Gratos textos e obras de arte sobre Pedro Nava

5.0  - Eco brasileiro ao Tan-Tan de Broca

6.0  - A relação médico-paciente na história da medicina

7.0  - Dois médicos e um marquês de Minas para o império

8.0  - A interdisciplinaridade é tão antiga quanto a sabedoria

 

1o MINEIRO, BARBACENA, AGO, 2004

1.0  - A Estrada Real, o ouro e a medicina

2.0  – Guimarães Rosa: o orador maior pelo menor

3.0  - Médicos ilustres da Mantiqueira

4.0  - Nava fala a Antônio Carlos

5.0  – Burla racial na admissão a educandários

6.0  – Tiradentes: de exumador pioneiro na Borda do Campo a passante à minha porta

7.0   – A pedagogia com humor e anti-humor em Minas

8.0  – Convergência totêmica em Minas

9.0  – Para-nobeis Mineiros

10.0– Einstein e Silva Melo

 

9O BRASILEIRO, RIO, NOV, 2004

1.0   - Os historiadores da medicina devem explicar aos jornalistas a origem dos Conselhos Federais Profissionais

2.0  - A comunicação coletiva como amplificadora histórica da desinformação em saúde

3.0  - Ao-Persistirem-Os-Sintomas é uma bofetada histórica na dignidade do médico

4.0  – Os Comitês-De-Ética-Da-Pesquisa impõem histórica assimetria ética à sociedade

5.0  – Os Sem-Terra neocupacionais da saúde

6.0  – Significado histórico do gangsterismo educacional e do estelionato pré-pago em saùde

7.0    – A origem anti-médica de Manguinhos, do Instituto Pasteur e da Fundação Rockefeller

8.0  – Manguinhos, o tenentismo médico e a Universidade do Distrito Federal

9.0  – Manguinhos, Flexner e a criação da Faculdade de Belo Horizonte

10.0  -  Contribuição mineira ao brilho da medicina do Rio de Janeiro

 

 

2º MINEIRO, JUIZ DE FORA, AGO, 2005

 

- Diamantina em texto de Júlio Verne

- Notícia sobre o autor de Saudade Do Matão em jornal de Patrocínio

- O médico judeu-português em quem Voltaire confiou

- Ataúlfo Costa Ribeiro como psiquiatra de Nietzsche

- Vamos convergir o prêmio Nobel e o centenário da descoberta de Carlos Chagas

- Pedro Nava e dois bronzes: de Pasteur e de Aurélio Pires

- Livro inédito do médico mineiro Agripa Vasconcelos sobre história da cirurgia

- Pedro Nava e os viadutos

- A idéia de um eventual código Da-Vinci nasceu em Minas

 - A saúde na história do rio das Velhas


 

 

 

 

 

1.0 - O ENSINO MÉDICO NO BRASIL, ANTES DE 1808

João Amílcar Salgado

É corrente a idéia de que o ensino médico se iniciou no Brasil em 1808. Antes de tudo, a data deveria referir-se ao ensino formal da medicina européia ocidental. Felizmente hoje parecerá excessiva arrogância eurocêntrica desconhecer o ensino médico existente no preparo dos pajés autóctones. Ainda mais que ainda agora estes continuam sob a cobiça de biopiratas do primeiro mundo. Sem deixar de extinguir tantas variantes culturais, o Ocidente prossegue rondando a sabedoria em saúde acumulada aqui, sem a qual a tecnologia médica de hoje não seria a mesma. Para isso basta citar o curare, o quinino, a pilocarpina e a emetina.

Mesmo para o ensino formal europeu, a data não procede, pois esta se liga à necessidade de propagar a soma de benefícios chegados com o Príncipe Regente.  É que o próprio Príncipe emitiu cartas régias autorizando mais de um curso de cirurgia, obstetrícia e anatomia, o mais duradouro dos quais foi o ministrado em Vila Rica desde 1801. O mais antigo em registro foi o do Rio de Janeiro, de 1796. Registra-se também carta emitida para São Paulo, em 1803 ou antes. De autorizações para Salvador e para Olinda ou Recife, não temos notícia mas devem ser pesquisadas.

Dos três comprovados, os do Rio e de São Paulo foram instalados, mas por breve tempo, enquanto o de Vila Rica se prolongou por três décadas, com produção contínua de profissionais. Tais circunstâncias levaram o historiador Fernando Pieruccetti a localizar em Minas o início de fato do ensino médico europeu no Brasil.

Curiosamente os dois cursos de 1808, em Salvador e no Rio, foram guindados a faculdades em 1832, para a graduação de médicos, enquanto o de Vila Rica não o foi – daí este ter-se fechado a seguir. Em seu lugar prosperou a Escola de Farmácia de Ouro Preto, talvez como compensação. Esta é a primeira do Brasil (1839), embora as Faculdades de Medicina de Salvador e do Rio passassem a formar farmacêuticos, seguindo o exemplo de escolas européias, como a de Bordéus.

Houve também cursos não oficiais e de certa maneira clandestinos, como os oferecidos por José Xavier Dantas em Salvador, BA, por José Eustáquio Gomes em Recife, PE, e por Gervásio Lara na cidade de Lage, hoje Resende Costa, MG. Outra vertente da pré-história da educação médica européia no Brasil é o ensino de cuidados de saúde, que os missionários, principalmente jesuítas e beneditinos, recebiam em sua formação, ocorrida desde cedo no período colonial.

 

2.0– A MORTE DO FILHO DE UM BARÃO GERA POLÊMICA ENTRE MÉDICOS E HOMEOPATAS NO RIO DE 1846

João Amílcar Salgado

Lúcio Guimarães de Lemos era filho do Barão do Rio Verde, João Antônio de Lemos, e, em 1846, acabara de regressar da França, onde fora aperfeiçoar-se na fabricação de chapéus, preparando-se para assumir a fábrica do pai, o primeiro a fabricá-los no Brasil, em São Gonçalo de Sapucaí, Minas Gerais. Com vários casos de tuberculose na família, adquiriu doença respiratória diagnosticada como pneumonia. Como era pessoa de grande importância na corte, foi assediado pelos médicos, cada qual propondo salvá-lo, vindo a falecer aos 19 anos. No necrológio publicado, os médicos fizeram saber como o óbito sobreveio apesar da ótima assistência oferecida por eles.

 Conhecendo o tratamento dispensado ao jovem industrial, os homeopatas vieram também a público para mostrar que, se o moço tivesse sido assistido por eles, sem dúvida estaria ainda vivo, pois estava claro ter sua morte resultado de excessos terapêuticos. Esta polêmica ocorreu em 1846, 36 anos após a publicação do Organon de Samuel Hahnemann, em Leipzig, a obra fundamental da homeopatia européia. A importância histórica deste conflito bem documentado está na posição pouco defensável da doutrina e dos métodos da medicina oficial exercida nessa época no Brasil. Vale lembrar que foi nessa década do século 19, a partir de 1832, que o Brasil passou a ter suas duas primeiras faculdades de medicina (escolas médicas de nível superior), sendo que demoraria largo tempo para chegar até aqui a prática médica resultante das contribuições de Claude Bernard, Virchow, Pasteur e Lister, contemporâneos da controvérsia. Na própria Europa, estes revolucionários só no século 20 conseguiriam influenciar os clínicos.

É possível que as autoridades imperiais (Pedro II foi presenteado com uma cartola confeccionada por Lúcio Lemos pouco antes de adoecer), tenham sido tocadas por tais acontecimentos, ao tentar o real aprimoramento dos profissionais já em exercício, acionando a Academia Nacional de Medicina. Este era um objetivo longínquo da Sociedade de Medicina, embrião da Academia Nacional de Medicina, esta criada em 1835, cujo primeiro presidente foi o sabarense Joaquim Soares Meireles. 

A tragédia do filho não pouparia o pai de sua própria tragédia, pois seria assassinado pelo esposo de sua sobrinha neta, o médico Joaquim Gomes de Souza, de reconhecida competência, mas que se viu vítima de insanidade mental, razão do crime (ver texto em separado). A se dar crédito aos homeopatas - pai e filho tiveram morte causada por médicos. Gomes de Souza é trisavô de dona Sarah Souza Lemos, esposa do também médico Juscelino Kubistschek. É ascendente também de renomados médicos mineiros.

Evidência de que a homeopatia encontrou, de início, fértil terreno no Brasil é a publicação nesta época de completo manual em Ouro Preto. Por outro lado, o engenheiro francês Pedro Renault (ascendente do poeta Abgar Renault) a considerava a alternativa ideal para um país carente de médicos, pois poderia ser praticada por não-médicos, passando ele próprio a estudá-la e a exercê-la com aparente sucesso.

 

3.0– A VISITA DE MARIA E IRENE CURIE A BELO HORIZONTE EM 1926

João Amílcar Salgado

Em 1926, a polonesa Manya Sklodowska Curie (Madame Curie) havia recebido dois prêmios Nobel. O primeiro de física, em 1903, com o marido Pierre e com Henri Becquerel, pela descoberta da radiatividade, e o segundo, de química, em 1911, pela descoberta do metal radiativo radium. Neste ano, fazia 20 anos que enviuvara pelo atropelamento de Pierre e sua filha francesa Irene ainda não havia recebido seu prêmio Nobel de química, unto com o marido Frederico Joliot, com quem se casaria neste mesmo ano de 1926. Recebeu-o oito anos depois, pela descoberta do primeiro isótopo artificial. Ambas chegaram de trem a Belo Horizonte em agosto desse ano e vieram acompanhadas da deputada paulista Maria José de Queiroz, uma das pioneiras feministas no Brasil. Tiveram o privilégio de ouvi-las, na Faculdade, os quintanistas de medicina Pedro Nava, Pedro Sales e Juscelino Kubistchek, o terceiranista Amílcar Martins, o segundanista João Guimarães Rosa e o primeiranista Osvaldo G. Costa – todos futuros famosos ex-alunos.

A razão da presença das cientistas era o Instituto do Radium. Belo Horizonte fora escolhida para sediá-lo no Brasil, como primeiro das Américas e parte da rede internacional de institutos dedicados ao uso e ao estudo do radium em medicina. A escolha se explica pelo relacionamento de seu realizador Borges da Costa (um dos fundadores da primeira escola médica mineira, acima referida, hoje da UFMG, e um dos pioneiros da moderna cirurgia em Minas) com os centros médicos da Europa, especialmente na França. Sua inauguração foi prevista para o centenário da Independência (com 25 centigramas de radium), mas coincidiu também com a chegada da Companhia Siderúrgica Belgo-Mineira. A Bélgica era o único fornecedor do radium, graças às minas de urânio de Katanga no então Congo Belga. Curiosamente, Artur Bernardes, que, com Barbosa Lima Sobrinho, forma a dupla de maiores nacionalistas brasileiros, apoiou a construção e esteve presente na inauguração do Instituto. A maquete deste, mostrando notável arquitetura, foi levada a Estrasburgo no centenário de Pasteur. Desta cidade viria, depois das Curies, o grande cirurgião René Leriche, para cirurgias demonstrativas no Instituto.

Integravam a equipe do Instituto que recebeu as cientistas: Baeta Viana, em vias de criar a maior escola de bioquímica da América Latina; Mário Pena, o primeiro curieterapêuta do país; e Carlos Pinheiro Chagas (primo do descobridor Carlos Ribeiro Chagas), patologista que brilhara como aluno de McCallum na Universidade de Colúmbia, EUA, mas que se fez célebre como orador no sepultamento de João Pessoa, no início da Revolução de 30.

Enquanto o Instituto do Radium (hoje Borges da Costa), a visita das Curies e Costa representavam forte ligação de Minas com a França, Luxemburgo e a Bélgica, em nome da nova tecnologia - um mineiro de Juiz de Fora, Antônio da Silva Melo, seria o nexo entre Minas e o Instituto do Radium de Berlim, onde participou dos estudos - no contexto da competição franco-germânica – que delimitaram os riscos da nova terapia..

 

4.0– EGAS MONIZ E O EFEITO IATROGÊNICO DO THOROTRAST APONTADO POR LUIGI BOGLIOLO

João Amílcar Salgado

Antônio Egas Moniz (1874-1955) é o solitário detentor do prêmio Nobel, em área científica, no âmbito luso-brasileiro. Também se dedicou à história da medicina. Ganhou o prêmio em 1949, junto com Walter Hess, pelo desenvolvimento da lobotomia frontal, como terapia anti-psicótica. Melhor seria se o tivesse recebido, junto com Almeida Lima, pelo desenvolvimento da arteriografia cerebral, em 1927, pois este é o mérito que permanecerá. Já o prêmio à lobotomia só veio aumentar a controvérsia sobre o significado desta terapêutica na história da medicina.

Para a arteriografia, Moniz valeu-se de outros contrastes, até que em 1931 passou a usar o thorotrast, um produto radiativo usado desde 1928, no exame de vias biliares e urinárias. A pomada de radium chegou a ser usada no começo do século até como cosmético. Afonso Pavie a usou em lesões neoplásicas em Itamarandiba, MG, antes da inauguração do Instituto do Radium, em Belo Horizonte, em 1922. Por causa do abuso inicial, já se conhecia o risco de produtos radiativos, tendo participado de tais estudos o brasileiro Silva Melo em Berlim. Assim, a introdução do thorotrast, por Blühbaum e col,. pode ser qualificada de verdadeira temeridade.

Entre os estudos sobre a iatrogênese específica pelo thorotrast, encontra-se a pesquisa em animais publicada em Gênova, em 1937, por Luigi Bogliolo, quando era docente na Universidade de Pisa. Este patologista sardo chegaria ao Brasil, perseguido pelos fascistas, e viria a ser o líder da grande escola brasileira de patologia. Seus ex-alunos e discípulos muito se orgulham da genealogia científica que os ligam, de um lado, a Virchow e, de outro, a Morgagni e Galileu. A Vida e Obra de Luigi Bogliolo, escrita por Luiz Savassi Rocha (1992), nos revela estes e outros dados de nossa história recente, sendo de leitura obrigatória.

O caso thorotrast é impressionante, pois, apesar da ciência contraindicar seu uso ainda no início da década de 30, e mesmo antes, ele continuou a ser empregado no Massachussets General Hospital, na Lahei Clinics, na Universidade de Michigan de Ann Arbor e em outros notáveis centros médicos até 1954! O efeito a médio e longo prazo veio inexoravelmente, com centenas de casos de tumores, principalmente do fígado, documentados por todo o mundo.

 

5.0 - OS PIONEIRISMOS DELICIOSOS E SEMPRE ATUAIS DE SILVA MELO

João Amílcar Salgado

Antônio da Silva Melo (1886./1973) é figura extraordinária da medicina brasileira. Juiz-forano formado em Berlim, assombrou os alemães com sua enorme biblioteca em meia dúzia de idiomas. Maior que ela era sua cultura geral, científica e médica. Mesmo assim, não deixou de, mineiramente, cultivar o prazer de clinicar. Focalizou, em livros e artigos, todos os nossos problemas fundamentais: ensino médico, alimentação, cuidado materno-infantil, influência estrangeira e os demais. Devemos beber aí muita história da medicina. Com medo de seu brilho, não lhe deram a cátedra acadêmica - e ele então criou para si uma cátedra mais democrática: a revista médica com que, com eficácia, educou do médico da roça e dos estudantes ao mais arrogante dos arquiatras. Focalizaremos dois de seus pioneirismos.

 Sabe-se que, a partir de 1970, a OMS divulgou o parto de cócoras, mostrando que tal prática ancestral era mais fisiológica do que a chamada posição ginecológica. Esta foi criada, no século 19, na França, para conforto, não da parturiente, mas dos obstetras – quando a obstetrícia, antes desdenhada, foi incorporada pelos médicos. Ora, Silva Melo, bem antes da OMS, estudou a defecação de cócoras e reconheceu-a mais fisiológica que a sentada. Projetou então a latrina científica. Seu projeto foi localizado por seu biógrafo Gilberto Vasconcelos e será confeccionado um exemplar com a estátua de Melo sobre ele, para figurar em sua honra, bem ao seu estilo, no Centro de Memória da Medicina de Minas Gerais.

Em 1997 a revista Newsweek saiu com a figura de Adão e Eva ostentando a pele e o cabelo africanos, para anunciar a comprovação genética da hipótese de Darwin de que toda a humanidade é originária da África. A capa do periódico teve o efeito colateral de acicatar os racistas neonazistas. Mas também serviu para mostrar que Silva Melo, muito antes da medicina molecular, concluíra pela superioridade matricial do homem tropical. Seu livro A Superioridade do Homem Tropical, de 1965, veio para lavar a alma de todos nós nascidos no terceiro mundo, que, há mais de 500 anos, nos vemos explorados pelo primeiro mundo, sob a cínica justificativa - ora direta, ora indireta - de que merecemos tal agressão por sermos geneticamente inferiores.

No capítulo Os Meios de Vida, as Infecções e o Destino do Homem, do livro ora reeditado Doenças Infecciosas da Infância e Adolescência de Tonell & Freire (2000), fazemos a revisão crítica das designações eurocêntricas patologia exótica e medicina tropical, bem como dos demais preconceitos que, desde as primeiras medicinas canônicas, vêm enviesando sobretudo a capacidade de nos auto-conhecermos.

             

 

6.0 - OS PRIMEIROS ESBOÇOS DA HISTÓRIA DA MEDICINA MINEIRA

João Amílcar Salgado

             Os primeiros esboços da história da medicina mineira são, até o presente estado de nossas investigações, a lista de celebridades de Diogo Pereira de Vasconcelos, de 1808, os almanaques do final do século 19, as biografias de médicos constantes dos quatro volumes das EFEMÉRIDES MINEIRAS de Xavier da Veiga, de 1897, o artigo HISTÓRIA CIENTÍFICA DE MINAS GERAIS (CONTRIBUIÇÃO PARA O DICIONÁRIO DO CENTENÁRIO DA INDEPENDÊNCIA) de Aurélio Pires no número dois da revista RADIUM, de maio de 1921, e a lista de HOMENS EMINENTES de Minas publicada, pelo governo Melo Viana, no gigantesco compêndio MINAS GERAIS EM 1925, organizado por Victor Silveira. Aqui nos limitaremos ao primeiro texto.

             Diogo Pereira de Vasconcelos, no 12o capítulo de seu livro BREVE DESCRIÇÃO GEOGRÁFICA, FÍSICA E POLÍTICA DA CAPITANIA DE MINAS GERAIS, registra 87 PESSOAS CÉLEBRES DA CAPITANIA, das quais 19 que já não existem e 68 pessoas existentes. Do total, dez devem ser apreciados na história da ciência e da medicina, sendo cinco médicos: Romão de Aquino Belo, Vicente Coelho Seabra, Francisco de Melo Franco, José Vieira Couto e Luís José de Godoi Torres, e cinco ligados às ciências naturais (flora, fauna, minérios e matemática): Joaquim Veloso Miranda, José Mariano da Conceição Veloso, José de Sá Accioli Bittencourt, Luís Fortes de Bustamante & Sá e Manoel Jacinto Nogueira da Gama. Os demais são religiosos, advogados e militares.. 

Com o conhecimento que temos hoje podemos concluir que Vasconcelos não teve condições de saber da importância, por exemplo, de Luís Gomes Ferreira, autor do ERÁRIO MINERAL, de 1735, mesmo porque este era apenas cirurgião e não médico. Por razões políticas, omite Domingos Barbosa Lage, médico inconfidente de suas relações pessoais. O mesmo se aplica aos demais médicos, outros profissionais da saúde e os poetas definitivos Tomás Gonzaga e Cláudio Manoel da Costa, condenados pela então recente e fracassada conjura. Inconfidentes que escaparam da devassa não são omitidos.

 Em outro texto, mostro que Vasconcelos, também inconfidente, ficou fora da devassa por razões ligadas à morte de Manoel da Costa. Conseqüentemente, de seu texto histórico, escrito para o governante, omitiu os nomes apontados. Analogamente, é natural que não pudesse citar ou nem tivesse notícia de Diogo Corrêa do Vale, médico queimado vivo pela Inquisição, o primeiro mártir da história de nossa medicina, nos primeiros dias da presença européia em Minas Gerais.

Evidentemente não bastam a lista original e a lista complementar que estamos levantando. Cumpre, além de estudar as razões das omissões, biografar, com pormenor, cada nome, tarefa a que ora também se volta nossa pesquisa.

 

7.0 – OS 90 ANOS DA FACULDADE DE MEDICINA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS

João Amílcar Salgado

A medicina mineira tem bela história a dizer ao mundo. A Minas européia inicia-se 200 anos depois do Brasil, e, já em 1735, produz o primeiro manual brasileiro para a clínica diária: o ERÁRIO MINERAL, do cirurgião português Luis Gomes Ferreira. Nesse tempo, ocorre o martírio de Diogo do Vale e a Europa lê, a partir de 1749, sobre a Lagoa Prodigiosa (Lagoa Santa), que atrai Lund, Burmeister e Saint-Hilaire. Ainda no século 18, contamos com o enciclopédico Vieira Couto, com o inigualável Francisco Melo Franco: pioneiro na puericultura, na sexologia e na pedagogia superior, e com Silva Teles, o inaugurador da química luso-brasileira - enquanto os estudantes de medicina inconfidentes deflagram a saga engajada dos estudantes brasileiros. Eram cúmplices de Tiradentes, este também pioneiro nos hoje chamados cuidados primários de saúde

Em 1801, Vila Rica dá início ao ensino médico regular neste país. Aí começa a imprensa nacional com manuais, farmacopéia e até elixir licencioso. Minas oferece ao novo país o múltiplo Gonçalves Gomide, nosso primeiro psiquiatra, Soares Meireles, fundador da Academia Nacional de Medicina, Sinfrônio de Abreu,  que nos traz muito cedo a anestesia geral, Basílio Furtado, vanguardeiro da arqueologia e Ferreira Pires, dos primeiros no mundo em radiologia clínica - entre outros nomes nacionais, como Ildefonso Gomes, Paula Cândido, Vieira de Matos, Balbino da Cunha, Camilo Armond, Aureliano Pimentel, João dos Santos, Lima Duarte e João Penido, ao lado de heróicos doutores do interior e de profissionais imigrados. Se Minas origina a indústria nacional de saúde, com estâncias hidro-termais, sanatórios e remédios, a Escola de Farmácia de Ouro Preto evangeliza o país com o primor técnico e o saber humanístico.

A medicina mineira inicia luminosa o século 20, com Vital Brasil. Ocorre então a maior realização da ciência brasileira: a descoberta da doença de Chagas. A segunda foi também na área médica e também mineira: a descoberta da bradicinina por Wilson Beraldo (ao lado de Silva e Rosenfeld). Brilham também Hermenegildo Vilaça, pioneiro da cirurgia moderna, Matias Vilhena, insuperável clínico, e Agripa Vasconcelos, fecundo escritor-historiador, seguidos de outros notáveis, inclusive futuros docentes no Rio, Minas, S. Paulo e Goiás, como Bernhaus de Lima, Belizário Pena, Silva Melo, Alípio Correia, Ribeiro do Vale, Guilherme Milward, Joaquim Dutra, Adauto Botelho, Pedro A Pinto, Ribe Portugal, Aleixo de Brito, Marques Lisboa, Rezende Alves, Clóvis Salgado, Carlos Pinheiro Chagas, Hugo Ladeira, Joffre Marcondes e Domingos Junqueira. Mas o celeiro só viria com a fundação da Faculdade de Medicina hoje da UFMG (FMUFMG).

É a primeira escola superior médica distanciada do litoral, idealizada pelo mestre Aurélio Pires e institucionalizada pelo gigante Cícero Ferreira. Irmã gêmea da descoberta de Carlos Chagas, da modernidade de Belo Horizonte e da corrida internacional a nosso minério, é também subproduto da tuberculose. A doença de Hugo Werneck, de Ezequiel Dias e de Borges da Costa, três de seus fundadores, nos traz a Santa Casa modernizada, a filial de Manguinhos e o Instituto Radium, respectivamente. Os demais fundadores são: Alfredo Balena, Samuel Libânio, Antônio Aleixo, Olinto Meireles, Honorato Alves, Otávio Machado, Zoroastro Alvarenga e Cornélio Vaz de Melo.

             Reter os ricos estudantes mineiros no Rio era manobra econômica que Pires neutralizou em combate memorável, resumido em seu livro. Este, Chão de Ferro e Beira Mar de Pedro Nava, os textos de Mário Mendes Campos, de Pedro Sales, de Hilton Rocha e de Corrêa & Gusmão, o das 100 primeiras turmas e ainda o do processo curricular e várias teses – fazem desta a mais bem historiada faculdade, brindada ainda com rico e efervescente Centro de Memória. Demais, o currículo de 1975, com o internato rural e outras inovações, colocou a UFMG entre as quatro vanguardas internacionais do ensino médico. O conto Rosarita de Drummond na revista estudantil Radium, o poema Mestre Aurélio Entre As Rosas, de Nava, e a oração de Carleto Chagas a João Pessoa são demarcatórios na literatura brasileira.

A longa lista de egressos invejáveis da FMUFMG começa por formidáveis figuras: Juscelino Kubitschek, o maior governante brasileiro; Baeta Viana, prógono da bioquímica latinamericana; Beraldo, já citado; Pedro Sales, pontífice em história; Nava, o maior memorialista do idioma; Guimarães Rosa, o mais criativo prosador da língua; Melo Campos, descobridor do escorpião amarelo; Osvaldo Costa, expoente mundial da dermatologia; Lemos Monteiro, mártir da ciência; Amílcar Martins, epígono da parasitologia nacional; Paulo Pinheiro Chagas, eminente orador e escritor: Bogliolo, primaz da patologia; Noronha Peres, grão-mestre da virologia brasileira; Rezende Neves, comprovador da anticoncepção no homem; Hilton Rocha, maior oftalmologista do país; Veiga Sales, partícipe primordial da química nuclêica; Ivo Pitangui, maior cirurgião plástico do mundo; Tafuri, descobridor da primeira estrutura secretora autonômica; Marcelo C. Christo, revolucionário da cirurgia do baço; Wilson Mayrink, imunizador contra a leishmaniose; Hélio Pellegrino e Darci Ribeiro, os mais originais ideólogos políticos do país; e Sérgio A Oliveira, astro da cirurgia cardíaca brasileira. Chanina, Konstantin, LOR, Razuk, Dângelo e Tostão ornam a lista com sua arte consagrada.

 

8.0– MINAS NASCEU TAMBÉM GASTROENTEROLÓGICA E A GASTROENTEROLOGIA BRASILEIRA NASCEU DE MÉDICOS MINEIROS

João Amílcar Salgado

             Em outra oportunidade afirmamos que o Brasil e Minas nasceram dermatológicos, em virtude, respectivamente, da dermatopatia que acometeu o próprio médico de Cabral, em 1500, e a que foi curada pelas águas prodigiosas de Lagoa Santa, divulgada em 1749. Como o livro ERÁRIO MINERAL, de Luiz Gomes Ferreira, é de 1735 e como ele se detém em várias síndromes abdominais (obstrução do fígado, do mesentério e do baço), além de verminoses e do mal do bicho – podemos dizer que Minas nasceu também gastrentoerológica.

             Por outro lado, a gastrentoerologia como especialidade nasceu de dois médicos mineiros atuantes no Rio de Janeiro. O primeiro é Silva Melo. Segundo Ernesto Llopart Castro, em seu livro DA VENTOSA À RESSONÂNCIA MAGNÉTICA – UMA VIDA A SERVIÇO DA MEDICINA, foi na 8a enfermaria da Santa Casa do Rio de Janeiro, que Silva Melo iniciou a gastroenterologia brasileira, como especialidade, em 1944. O gaúcho Castro e os mineiros Vitório Caparelli e Estefanes Abi Samara (este o primeiro nos país a obter uma serigrafia duodenal) foram os assistentes do genial juiz-forano, neste pioneirismo, entre muitos que empreendeu. Melo, como gastroenterologista, se estendeu desde o mau-hálito e o projeto de latrina científica até aspectos psicossomáticos da esfera digestiva, mas muito se preocupou com a nutrição. No caso dos aspectos sociais da nutrição, Silva Melo forma com Nelson Chaves e Josué de Castro o trio histórico brasileiro de projeção internacional.

O segundo é Geraldo Siffert de Paula e Silva, formado pela hoje UFMG, na primeira turma a ser paraninfada por Baeta Viana, em 1931, tendo sido contemporâneo de Guimarães Rosa. Foi o primeiro, no Brasil, a ter no consultório a palavra gastroenterologia. A partir de Silva Melo e ao lado de outros brasileiros, inclusive outros coestaduanos, como João Galizzi, Romeu Cançado, Francisco Alves dos Reis e Milton Mourão, foi fundador da Federação Brasileira de Gastroenterologia, em 1947, da qual foi secretário geral (presidente) por largo tempo. Esta federação prenunciou a Associação Médica Brasileira, criada em 1951, cujo primeiro presidente foi o também mineiro Alípio Corrêa Neto. Siffert e Ivo Pitangui, por outro lado, representam Minas como pioneiros da pós-graduação na área profissional da medicina, na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.

Mourão e Galizzi, em 1958, conseguem trazer Rudolf Schindler para Belo Horizonte, onde formou os notáveis endoscopistas Noel Moreira e Celso Affonso de Oliveira (João Amílcar Salgado foi seu estagiário). Minas, assim, recebeu diretamente de seus criadores alemães as modernas citoscopia (de Alexander Lichtenberger mestre de Silva de Assis), colposcopia (de Hans Hinselman mestre de Henrique Rocha) e esôfagogastroduodenoscopia.

 

 

 

9.0 – BARBACENA E A ÊNFASE AMBULATORIAL EM PSIQUIATRIA

João Amílcar Salgado

A ênfase ambulatorial em Minas Gerais, que iria influenciar o ensino e a atenção à saúde no estado e no país, começou na cadeira de Pediatria da hoje Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Foi liderada por Ênio Leão, com o apoio indispensável do catedrático Berardo Nunan e com a participação ativa do demais corpo docente: Celso Lobo, Aquiles Tenuta, Augusto Severo e Mário Moreira. A mudança, ocorrida a partir de 1959, foi facilitada pelo tamanho reduzido de apenas 44 alunos da turma formada em 1960, quando o ensino pediátrico, antes predominantemente teórico, passou a centrar-se no atendimento efetivo feito pelos estudantes em ambulatório.

Em 1971 realizou-se na Faculdade um seminário sobre o papel do ambulatório como instância resolutiva de problemas, para que a internação hospitalar se ocupasse de pacientes necessitados de cuidados cada vez mais intensivos. Foi patrocinado pela Organização Panamericana de Saúde / Organização Mundial de Saúde, com base nas idéias defendidas, entre outros, por Bobenrieth e César Garcia, visando a preparar a implantação do cuidado progressivo no Hospital das Clínicas, onde então se instalou a primeira unidade de cuidado intensivo (depois CTI) completa do Brasil. Garcia, em 1974, criticou o início da inovação pelo CTI e não pelo ambulatório resolutivo. Os ex-alunos da UFMG Davidson Pires de Lima, Murilo Zeitune e Bruno Piancastelli, além do gaúcho Kurt Kloetzel e com o apoio de Nelson Santos e Elza Cotrim, desenvolveram experiências de ambulatório no ensino da clínica geral, em 1974/75, em Londrina, PR. Kloetzel participara antes, com Naftale Katz e comigo, de inédita pesquisa de epidemiologia clínica da esquistossomose, projeto da OMS.

Em 1975, a ambulatorização do ensino clínico e cirúrgico, de adulto e de criança, foi assumida curricularmente para todo o curso da UFMG. Quatro especialistas colaboraram no esforço de levar o ensino da psiquiatria, da psicologia médica e das relações humanas, quer interpessoais, quer médico-paciente, ao novo modelo de atenção: Jairo Bernardes, Célio Garcia, Domingos Gandra e Clara Feldman. A principal proposta para a saúde mental, ou seja, a criação de atendimento em equipe entre os cursos de medicina, psicologia, enfermagem e odontologia foi inviabilizada pela recusa dos demais currículos em abandonar o ensino exclusivamente teórico. 

Em 1981 realiza-se em Barbacena o IV CONGRESSO MINEIRO DE PSIQUIATRIA, coordenado por Jairo Furtado Toledo, quando toda a dramática crise da saúde mental foi revista. Dele participei, discutindo a ambulatorização e o ensino extramural da UFMG e principalmente analisando as dificuldades de estendê-los à saúde mental. As visitas de Basaglia e Berlinguer (1978/79) vieram reforçar as visitas anteriores de Foucault e de Lapassade, bem como as quase visitas de Piaget, Illich, Habermas e Nise da Silveira (visitantes virtuais, pois houve debates preparatórios para recebê-los). Documentação interessante sobre tudo contra que se lutava pode ser encontrada em NOS PORÕES DA LOUCURA – UM CONTUNDENTE RETRATO DOS CAMPOS DE CONCENTRAÇÃO DA PSIQUIATRIA BRASILEIRA, livro de Hiran Firmino (Codecri, 1982), e na vídeofita EM NOME DA RAZÃO de Helvécio Ratton.

 Tais repercussões externas serviram de contraponto ao ambiente ditatorial vigente e estimularam, no ano seguinte, 1982, a realização, do seminário sobre ALTERNATIVAS DE ATENÇÃO À SAÚDE MENTAL, em Belo Horizonte. Neste, em plena ditadura, foi impedida a exibição de UM ESTRANHO NO NINHO (premiadíssima filmagem de 1975, dirigida por Milos Forman, da novela de Ken Kesey), mas houve a exibição de impressionante audiovisual-surpresa sobre o Hospital Psiquiátrico de Havana, apresentado por Luiz Cisalpino Carneiro, além do célebre debate entre José Guilherme Merquior e Márcio Vasconcelos Pinheiro, bem como a primeira palestra de Herbert Daniel após o exílio.

O movimento anti-psiquiátrico do mundo todo (Inglaterra, França, Itália, EUA, Cuba e União Soviética) vem-se modificando e seus melhores desfechos apresentam inteira semelhança com as propostas de ambulatorização ouvidas muito antes em Belo Horizonte e em Barbacena.

 

10.0 – A UFMG E O CINQÜENTENÁRIO DA PSICOFARMACOLOGIA

João Amílcar Salgado

             Nos anos 50 do século 20, houve dois acontecimentos importantes na atual UFMG: a visita, em 1959, de Daniel Bovet, prêmio Nobel de medicina, e a chegada logo em seguida de certa quantidade de LSD, na época inocente novidade psicofarmacológica. 

Após dominar a primeira metade do século, os soníferos e sedativos (barbitúricos e brometos) viram chegar, numa só década, os antipsicóticos (ataráxicos, neurolépticos), alucinógenos (psicodélicos, psicotomiméticos, psicotógenos), um singular estabilizador psíquico (o carbonato de lítio), os tranqüilizantes (ansiolíticos), os antidepressivos e os anti-histamínicos. A rauvólfia, de uso milenar no oriente, foi purificada em 1931, chegando-se à reserpina, usada em 1958 como o primeiro dos tranqüilizantes. Foi logo substituída pelo meprobamato, já conhecido, sem este emprego, desde 1954, e este pelo clordiazepóxido, o primeiro benzodiazepínico, sintetizado (1957) também antes. A química de corantes de tecido tornou possível tanto a primeira das sulfas, como a prometazina, que poderia ter sido usada como antipsicótico ainda no final do século 19. Esta deriva do azul de metileno, aliás proposto como antipsicótico em 1890 por Ehrlich (seu discípulo Schaudinn morreu intoxicado por este corante). O derivado clorpromazina, sintetizado em 1950 e popularizado como amplictil, foi eficaz contra manifestações paranóides de uma mulher, tratada por Sigwald, em 1951, há meio século. O cirurgião francês Laborit e equipe pesquisavam aperfeiçoar a anestesia e observaram a eficácia do amplictil em paciente com quadro maníaco, em 1952. Panaceicamente atraente, inclusive como antiemético, o amplictil foi proposto como potenciador da anestesia, em 1953, e depois como componente de coquetel capaz de produzir a hibernação artificial, pela mesma equipe. Agia por neurolepsia, isto é, em vez de sono ou inconsciência, produzia estado sonolento de indiferença ambiental, semelhante à hibernação dos animais. Buscou-se, então, um fármaco que, em vez de efeitos vários, tivesse exclusiva ação neuroléptica e chegou-se ao haloperidol, em 1958.  Já os antidepressivos derivaram-se, em 1957,  da ação euforizante observada em quimioterápico para a tuberculose. O carbonato de lítio, como estabilizador emocional, foi introduzido a partir de 1949, pela observação acidental de letargia em animais. Mas o brilho psicofarmacológico da década de 50 é perturbado, quando esta se fecha com o trágico advento do hipno-tranquilizante talidomida, causador de arrepiante epidemia iatrogênica.

Bovet (1907-1992), cidadão italiano nascido na Suíça, recebeu o prêmio de 1957 pela descoberta dos anti-histamínicos (1944) e pelo desenvolvimento dos curarizantes sintéticos (1949 - mas a sucinilcolina já existia desde 1906). Ele nos causou admiração, pois ora falava francês, ora inglês, ora italiano, ora esperanto. Ele, Laborit e colegas falavam de um coquetel lítico (talvez o primeiro uso do termo coquetel em terapêutica), capaz de fazer a lise do sistema de alarme ligado ao stress, descrito por Selye (outro que nos tinha visitado antes), produzindo-se a já referida hibernação artificial, pela mistura de anti-histamínico, opióide e o neuroléptico amplictil. Logo o poder de hibernar humanos encantou os anestesistas, que passaram a usar o coquetel como pré-anestésico, visando a economizar anestésico inalatório. O resultado foram muitos casos de choque iatrogênicos, inclusive porque cirurgiões supunham poder dispensar o anestesista, usando apenas o coquetel como anestesia menor para cirurgias menores. Na época, entretanto, Bovet chegou aqui como modernizador revolucionário da anestesia..

De qualquer modo a visita de Bovet e seu coquetel psicoativo fez coro (psicodélico, como se diria depois) com os textos AS PORTAS DA PERCEPÇÃO (1954) e O CÉU E O INFERNO (1956), de Aldous Huxley (ver texto a seguir), de tal modo que, quando o professor Santiago Freire, que trouxera Bovet, anunciou a LSD (no início era feminino, descoberta por Hoffman em 1947), não tivemos dúvida em acatar seu recrutamento. Ele buscava voluntários que soubessem desenhar, pintar ou tinham facilidade para escrever. Indiquei o hoje famoso pintor Jarbas Juarez e fomos eu e ele para o décimo andar do prédio da faculdade, ainda inacabado, onde nos reunimos a outros recrutas. Dali se avistava a Serra do Curral, hoje não mais alcançável. A substância foi ingerida e as cobaias passaram a desenhar, pintar ou relatar o efeito diante da paisagem. Não se sabe onde estão tais registros. Todos relataram sensação agradável de percepção expandida, entrecortada por mal-estar associado à cor vermelha. Esperavam-se sons musicais, mas ninguém os percebeu. Houve a recomendação do conhecimento prévio do experimento de Huxley, evidente e grave viés. Durante a ditadura de 1964-84, tememos que, à revelia do professor, os registros fossem usados contra aqueles de nós adversários do regime.

 Na década de 60, o cronista Rubem Braga, em artigo de circulação nacional, denunciou o aparente seqüestro do pintor Guignard para que pintasse sob efeito de LSD ou outro fármaco – e o artista foi resgatado por um comitê de alto nível. Presentemente se observa a corrida de biopiratas do primeiro mundo, em busca dos últimos xamãs do terceiro mundo. Querem expropriar e patentear seus mais diferentes alucinógenos, que, por definição, são suas preciosas ferramentas clínicas, das quais são íntimos há dezenas de milhares de anos.

 

11.0 – O ‘PSIQUIATRA’ GUIMARÃES ROSA E AS CORRENTES PSIQUIÁTRICAS

João Amílcar Salgado

Vários elementos da obra de Guimarães Rosa permitem colocá-lo entre os autores da maior importância na psiquiatria brasileira.. Outro médico não-psiquiatra e também mineiro, Silva Melo, tem a mesma relevância, inclusive no capítulo da chegada da corrente freudiana ao Brasil.. Outros escritores não-médicos, como Machado de Assis, Miguel de Cervantes e William Shakespeare, também devem ser encarados assim (ver tema a seguir). 

Além de GRANDE SERTÃO: VEREDAS, quatro textos de Rosa parecem particularmente dignos da mais cuidadosa análise: O RECADO DO MORRO, BURITI,  SORÔCO - SUA MÃE - SUA FILHA e A TERCEIRA MARGEM DO RIO. GRANDE SERTÃO, por ser fortemente demonográfico, tema evitado com razão pela psiquiatria, envolve apreciação mais abrangente, inclusive o aspecto sexológico. A TERCEIRA MARGEM, por ser fortemente metafísico, é o texto meta-psiquiátrico por excelência. SORÔCO, por sua vez, é o mais mineiro de todos, por tipificar antropo-sociologicamente o modo mineiro diante do ensandecer.

Este é tratado de frente também em O RECADO DO MORRO, mas aqui, em vez do colorido sempre dramático de SORÔCO, estamos diante de pleno tratamento poético a fascinante desfile de sandeus – a ponto de o considerarmos magnífico poema simpático a eles, ou seja, o elogio não da loucura, mas o elogio da poesia da loucura, ou melhor, da poesia concedida pela loucura. 

Entre os tipos do RECADO, deve ser anexado o Chefe Zequiel de BURITI, pois, se na estrutura das novelas não coube misturá-los, para a presente análise talvez seja interessante. Veja-se sua aparição no texto: “...exemplo aquele Chefe Zequiel, homem que chamava os segredos todos da noite para dentro de seus ouvidos. Mas nhô Gualberto carecia de tudo reduzir a um consabido peguento e trivial, feito barro de pátio. Nhô Gualberto explicava. – Um bobo, que deu em doido, para divulgar os fantasmas... Ao acho, por mim, será doença. Mal o senhor sabe? Cada raça de bicho tem seu confim de ouvir, com isso já crescem acostumados. A gente, também. Cachorro, ouve demais. Por causa, eles dão notícia de muito espanto, que não se saiba. Eles uivam. Cachorro que às vezes dá de uivar, até secar a voz para sempre, vira fica mudo. O Chefe, por erro de ser, escuta o que para ouvido de gente não é, por via disso cresceu nele um estupor de medo, não dorme, fica o tempo aberto, às vãs... Daí deu em dizer que está sempre esperando...” 

Veja-se, agora, a introdução de Gorgulho, o primeiro a comparecer ao RECADO, no ato mesmo de, embora surdo, receber do Morro da Garça o aviso do fim do mundo:   “Um homenzinho terém-terém, ponderadinho no andar, todo arcáico”...”Um velhote grimo, esquisito, que morava sozinho dentro de uma lapa, entre barrancos e grotas – um urubuquara – casa dos urubus, uns lugares com pedreiras. O nome dele, de verdade, era Malaquias.”...”Tinha um surrão a tiracolo, e se arrimava em bordão ou manguara. Como quase todo velho, andava com maior afastamento dos pés; mas sobranceava comedimento e estúrdia dignidade.”...”...calçava alpercatas, sua roupa era de sarja fusca, formato antigo – casacão comprido demais, com gualdrapas; uma borjaca que de certo tinha sido dono outro – mas limpa, sem desalinho nenhum; via-se que ele fazia questão de estar composto, sem em ponto algum desleixar-se.”...”E, nisso, de arranco, ele esbarrou, se desbraçando em gestos e sestros, brandindo seu cacete. Fazia espantos. Falou, mesmo, voz irada, logo ecfônico: - Eu?! Não! Não comigo! Nenhum filho de nenhum...Não tou somando! Tomou fôlego, deu um passo. Sem sossegar: - Não me venha com loxías! Conselho que não entendo, não me praz: é agouro! E mais gritava, batendo com o alecrim no chão: - Ôi, judengo! Tu, antão, vai p’r’ as profundas!..” ... “- H’hum...Que é que o morro não tem preceito de estar gritando... Avisando de coisas...” – disse, por fim, se persignando e rebenzendo, e apontando com o dedo no rumo magnético de vinte e nove graus nordeste. Lá – estava o Morro da Garça: solitário, escaleno e escuro, feito uma pirâmide. O Gorgulho mais olhava-o, de arrevirar bogalhos; parecia que aqueles olhos seus dele iam sair, se esticar para fora, com pedúnculos, como tentáculos.”

Esta citação ilustra as varias evidências de que Rosa procurou deliberadamente não ser temporal em sua ficção. Sendo médico estava a par da terminologia psiquiátrica de sua época e obviamente reconhecia o caráter fugaz da mesma. Mais ainda, conhecia da volubilidade das correntes psiquiátricas de que tinha notícia, antes e depois de formado em 1930. Em seu discurso de orador da turma, preferiu até ser futurólogo (e o foi com o acerto de um profeta), em vez de mostrar-se sintônico com a modernidade da época. Assim, seus personagens psiquiátricos recebem adjetivos e diagnósticos que o povo daria, não os que o autor médico, imensamente erudito, poderia usar.

 

12.0 – ASPECTOS ANTINÔMICOS NA HISTÓRIA DA MEDICINA E AS MENTES BIPOLARES

João Amílcar Salgado

Em apêndice a minha tese de doutorado, de 1981, cujo tema foi a relação entre realidade de saúde e ensino médico, fiz um levantamento preliminar dos estereótipos antinômicos que vêm acompanhando a medicina em sua história. A polaridade entre Apolo e Dioniso, sendo clássica, não deixa de ser comum a todas as culturas que divinizam o sol, por reconhecê-lo responsável pela domesticação dos alimentos. Esta gerou a necessidade de armazenamento que, por sua vez, trouxe a fermentação de vegetais. Assim,  o sol, em resposta à reverência geral, passou a se confraternizar com todos pela bebida alcoólica, subproduto agradável, alegre e celebrador de conquista tão crucial na história humana. Dioniso é, pois, Apolo bêbado, em regozijo por sua generosa fecundidade. Está aí a origem da relação sempre ambivalente entre médicos e álcool: vem desde Arnaldo de Vilanova (1240-1311), passa pelo tratado farmacológico de Goodman & Gilman (desde 1939), até Minas Gerais, onde, de cada cinco alambiques artesanais de cachaça fina, dois ou mais são de médicos.

O álcool é o alucinógeno democrático, que transforma qualquer indivíduo em xamã. Ou seja, a descoberta da fermentação veio quebrar o monopólio pré-agrícola dos xamãs, de conversar e confraternizar com os deuses, por meio de alucinógenos secretos, hoje alvo da cobiça dos biopiratas. Ao longo das eras, a experiência acumulada com o efeito destas substâncias modificadoras da percepção teria levado, segundo Aldous Huxley (1894-1963) à intuição da polaridade céu/inferno.

Outro estereótipo é a dupla polar Quixote/Sancho (o idealista / o prático), imortalizada por Cervantes (1547-1616), que pode ser pesquisada antes e depois de sua época, inclusive em sua extensão zoológica (o cavalo / o jumento) e racial (o visigodo / o mestiço). Na perspectiva médico/paciente, isto é, semiologia/patologia, podemos situar esta dupla como uma polaridade vista do lado do médico e da semiologia. E qual seria a dupla correspondente à polaridade vista do lado oposto, do paciente e da patologia? Quem responde a esta pergunta não é também médico (talvez nem pudesse ser) e sim um artista, Robert Louis Stevenson (1850-1894) – o Guimarães Rosa do sertão de Samoa - ao criar a dupla Dr. Jekyll / Mr Hyde (o médico / o monstro), que também pode ser pesquisada antes (por exemplo, o doutor / a bruxa) e depois de sua época. No último caso, a literatura, o cinema e a televisão seriam responsáveis por vários sucedâneos, inclusive humorísticos: o Dr. Frankenstein e a criatura, o médico radiativado e o incrível Hulk, o médico magalopolitano Dr. Killdare e as monstruosidades urbanas, a medicina tecnológica e o homem de seis milhões de dólares, a medicina tecnológica e Robocop. Assim, temos duas polaridades, bifurcando cada polo da polaridade médico/paciente: Quixote/Sancho, numa ponta, e Jekyll/Hyde, na outra. Curiosamente nesta relação há o nome de dois médicos com a palavra kill embutida ou disfarçada, e dare no do primeiro

Mas há outra dupla bifurcação a considerar. Os estudos feitos por psiquiatras e psicólogos diagnosticaram a personalidade de Quixote como esquizotímico e de Sancho como ciclotímico. Ora, o termo ciclotímico é por definição bipolar, na antinomia maníaco/depressiva. Resta saber se o esquizotímico padece de polaridade a seu modo, ou seja, se se processa aí uma esquizo-estruturação mental por si também bipolar. E de fato assim acontece, pelo menos segundo o ponto de vista dos que apontam, na esquizofrenia, os sintomas positivos como um polo e os sintomas negativos como outro polo - hoje já com neurotransmissores sugeridos para cada qual.

Na história da medicina é importante a polaridade anjo/demônio da cultura judeu-cristã (com análogos dissentâneos, por exemplo, no panteão afro-brasileiro), pois a concepção da loucura como possessão diabólica serviu para fazer do exorcismo sua primeira terapêutica branda no ocidente, em substituição ao espancamento e ao assassinato. 

Finalmente, seria imperdoável esquecer a dupla Sherlock/Watson, simbologia criada pelo oftalmologista Conan Doyle (1859-1930), para satirizar o médico de seu tempo - um monstro em sua simplória refratariedade ao potencial da ciência nascente - confrontado com o médico modernamente possível, mas improvável. Sim, o médico virtual Sherlock é tão improvável que se disfarça de detetive, para não deixar-se enlouquecer na ociosidade de seu poderoso intelecto.

A oportunidade do tema para a filosofia da ciência advém da admirável proximidade metafísica – incidente sobre a distância cosmológica de 4000 anos ou mais – que une o dígito oracular do yin/yang ao oráculo digital do ciberespaço.

 

13.0 – A FUNDAÇÃO DA ASSOCIAÇÃO MINEIRA DE EDUCAÇÃO MÉDICA (AMEM) EM BARBACENA

João Amílcar Salgado

Em 1979 coube a Minas Gerais receber o congresso anual da Associação Brasileira de Educação Médica (ABEM). Esta corporação foi fundada em Belo Horizonte, em 1962, e tinha sede oficial nesta cidade, mas sua direção fora transferida unilateralmente para o Rio. Seu nome original designava associação de escolas de medicina, segundo o modelo norte-americano trazido por seu patrocinador, a Fundação Rockefeller. Até então os temas e conferencistas chegavam ao estado anfitrião já decididos no Rio. Em 1979, o diretor da Faculdade de Medicina da UFMG, Luiz de Paula Castro, após reunir-se com os demais diretores das escolas médicas do Estado, comunicou à direção da ABEM que toda a programação seria decidida em Minas e que os congressos aqui seriam doravante interiorizados, a começar por Poços de Caldas, sede daquele ano, em vez de Belo Horizonte. A ABEM ameaçou suspender o congresso e Minas respondeu com a manutenção do evento, sendo neste caso patrocinado por uma corporação dissidente: a ASSOCIAÇÃO MINEIRA DE EDUCAÇÃO MÉDICA (AMEM), que seria criada imediatamente. Houve afinal um acordo, pelo qual a programação foi metade mineira e metade nacional, e que a AMEM seria encarada não como dissidência, mas como início da descentralização da ABEM, a partir daí composta de núcleos regionais.

Ainda em 1979, foi enviada ao ministro da Educação e Cultura, Eduardo Portella a proposta colhida nesse congresso de criação da remuneração docente-assistencial. Após a fundação da AMEM, solicitação semelhante foi enviada ao mesmo ministro, ao da Saúde, Waldir Arcoverde, e ao da Previdência e Assistência Social, Jair Soares, que, como serviçais da ditadura, nada responderam. Em fevereiro de 1980, o reitor da UFMG, Celso Vasconcelos Pinheiro, diante dos elogios de seus pares às inovações do curso médico, aceitou visitar o internato rural junto com docentes contrários ou céticos em relação à novidade. Visitaram-no, ao longo do roteiro Montes Claros, Francisco Sá, Grão Mogol, Botumirim e Cristália. Ao final, o reitor enviou correspondência ao secretário de Saúde Eduardo Levindo Coelho, com o seguinte final: “... lembramos que estamos diante de uma expectativa nacional, pois as escolas médicas de todo o Brasil encontram-se na esperança de que Minas Gerais, por ter-se lançado à frente, passe a liderar o País na solução de seus graves problemas de saúde e no exemplo de como a Universidade e o Estado podem integrar-se criativa e duravelmente. “

Em 14-15/03/1980 houve a pré-fundação da AMEM em Belo Horizonte, quando se preparou o seminário de visitas das escolas médicas mineiras a programas de integração docente-assistencial no Brasil: Goiás, Pará, Ceará e Pernambuco. Todos estes se limitavam a programas específicos, sendo de adesão opcional, com o caráter, portanto, de extensão universitária. Careciam, assim, da mais fundamental característica da experiência mineira, o compromisso curricular obrigatório, na graduação. Com a proposta de que a AMEM, ao ser criada, condicionasse a realização de abrangente programa - bem mais que de integração docente-assistencial, mas de verdadeira integração discente-atencional - esta foi criada no mesmo ano, em 18/09/1980, em memorável encontro no hotel Grogotó, em Barbacena. Seu estatuto passou a ser modelo de organização democrática para iniciativas semelhantes. Homenageamos aqui três representantes decisivos deste momento histórico da educação médica mineira: Antônio Dilson Fernandes e Antônio Cândido Carvalho (articuladores incansáveis), José Américo Rezende (organizador do encontro) e Arnaldo Godoi de Souza (primeiro presidente da AMEM).

 

14.0 – A ORIGEM NA AMEM DA UNIVERSIDADE ESTADUAL DE MINAS GERAIS

João Amílcar Salgado

A partir da criação da Associação Mineira de Educação Médica (AMEM), foi desenvolvido o programa de integração docente-assistencial financiado pela Fundação Kelogg. O objetivo final seria estender a todas então nove escolas médicas de Minas currículos discente-atencionais, adequados à realidade de saúde circunvizinha. Verificou-se que as escolas médicas mineiras, ao contrário da crise então vivida nos estados do Rio e S. Paulo, poderiam facilmente constituir inédito sistema estadual de ensino médico inovador, de alta qualidade e adequado às peculiaridades de cada sub-região. Diferentemente de outras no país, cada faculdade era idônea e tinha então um mínimo de condições e o máximo de interesse na concretização desse projeto. O subprograma mais aplaudido foi a distribuição gratuita a todos os médicos e estudantes de medicina do Estado do BOLETIM DE MEDICAMENTOS E TERAPÊUTICA, de contra-marketing, decorrente do pioneirismo da UFMG em relação à prescrição de medicamentos genéricos. Outro subprograma, ainda hoje a mostrar seus frutos, foi o estímulo à preservação descentralizada da memória da medicina.   

Durante a preparação e o exercício do governo estadual de Tancredo Neves, tais idéias foram reforçadas, a ponto de, na preparação do governo federal do mesmo líder, ter-se levantado a proposta de que todas essas escolas médicas passassem a ser públicas. Caso Neves não tivesse falecido, poder-se-ia concretizar o plano de dotar Minas de inovador complexo federal de ensino superior, criando-se cinco novas universidades federais em Montes Claros, S. J. del Rei e Itajubá (e, numa segunda etapa, as de Uberaba, Lavras e Diamantina), bem como uma universidade estadual distribuída pelo estado. As escolas médicas de Montes Claros, de Itajubá e de Uberaba ficariam nas respectivas universidades e a de Barbacena integraria a de S. J. del Rei. A escola médica de Pouso Alegre e a Faculdade de Ciências Médicas de Belo Horizonte seriam as primeiras unidades a compor a Universidade Estadual. A criação de novas escolas médicas seria disciplinada, a partir do princípio de que seriam preferencialmente criadas, caso necessário por rigoroso planejamento, naquelas cidades ainda sem escolas médicas, mas com unidades federais: Diamantina, Ouro Preto, Viçosa e Lavras.  

Tais idéias foram debatidas no I SEMINÁRIO SOBRE MUDANÇA CURRICULAR E ENSINO MÉDICO DA FACULDADE DE CIÊNCIAS MÉDICAS DE MINAS GERAIS – DIRETÓRIO ACADÊMICO LUCAS MACHADO, em 15-17/05/1984, sob a palavra-de-ordem Mudança Curricular Urgente!, que inovou o currículo da Faculdade de Ciências Médicas. Uma das decisões na plenária final foi obter de todos os candidatos ao governo estadual que incluíssem em sua plataforma, com destaque, o compromisso com a universidade estadual. Esta e a Fundação de Amparo à Pesquisa (FAPEMIG) foram garantidas na constituinte estadual, especialmente a partir de encaminhamento do então altamente prestigiado Conselho Estadual de Saúde. A partir do governo Newton Cardoso, o conselho de saúde foi virtualmente extinto e a concretização da universidade estadual veio sendo ensaiada, sem qualquer referência aos antecedentes acima, ainda mais com duas instituições, em vez de uma - de tal modo que hoje se propõe a radical revisão do modelo esboçado, desta vez tendo por referência a proposta inicial.

 

 

 

15.0 – OS MÉDICOS E A CONTRABUCHA PASSAQUATRENSE

João Amílcar Salgado

BUCHA foi termo corrente entre os estudantes da Faculdade de Direito de São Paulo no final do século 19. É a corruptela de BURSCHENSCHAFT, designação de irmandade estudantil criada na Universidade de Iena, em 1815, em prol da unificação alemã. A burschenschaft brasileira lutava pela república e vários de seus integrantes eram parentes entre si, por troncos bandeirantes comuns a São Paulo e Minas Gerais. A Faculdade de Medicina de São Paulo, inaugurada em 1913, teve sua bucha tardia, e a organização comparável na Faculdade de Belo Horizonte, hoje da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), anterior à paulista (1911), pode ser identificada no grupo da revista RADIUM, mas cuja pretensão parecia apenas literária e científica.

A bucha evoluiu, após a graduação dos estudantes de direito, para uma espécie de clube de políticos ansiosos por dirigir o país, tanto que vários de seus seguidores já estavam no poder mesmo antes da queda da monarquia. Em posições estratégicas, foram decisivos para a proclamação do novo regime. A articulação bem sucedida se prolongou até a revolução de 1930, por meio da política do café-com-leite, acordo de alternância entre bucheiros de São Paulo e de Minas na presidência.  

Nesta perspectiva, a revolução de 30 foi uma frente anti-bucha. Só a partir de 32, já em contexto getulista, surgiria uma articulação correspondente àquela derrotada, para a qual propus a designação de contra-bucha (in ORIGEM E EVOLUÇÃO PEDAGÓGICA DA FACULDADE DE MEDICINA DA UFMG). A evidência desta é fácil de verificar, se se analisa a biografia dos líderes reunidos na cidade de Passa Quatro para enfrentar os paulistas. Dois se tornaram presidentes: Eurico Dutra e Juscelino Kubistschek (JK). Quatro governaram estados: Ernesto Dorneles, o Rio Grande do Sul, Benedito Valadares, Minas Gerais, Zacarias Assunção, o Pará, e o próprio JK, também Minas Gerais. Dois se tornaram reitores: Pedro Penido e Otaviano de Almeida, este duas vezes. 

Dois ex-alunos e um professor da Faculdade de Medicina da atual UFMG compõem esta relação: JK, médico da turma de 1927, Valadares, formado no fugaz curso de odontologia da mesma faculdade, em 1915, e Almeida, farmacêutico, médico, docente, organizador dos serviços médicos de campanha, apaziguador da vida acadêmica e mestre de JK.

Os estudantes de medicina apoiaram o movimento de 30, a ponto de um deles ser morto (José Ferreira Viana) e outro sofrer seqüela definitiva (Paulo de Castro Miranda), no incidente que envolveu o reitor Mendes Pimentel. Mas, em 32, já estavam do lado paulista, entrincheirados em frente à faculdade. Almeida, como médico da polícia, foi o herói que impediu o pior - partindo a seguir para Passa Quatro. Ao voltar, veio a ser reitor, para restabelecer a normalidade na universidade. A faculdade de medicina permaneceu foco anti-getulista e a pregação do professor Baeta Viana, ídolo dos estudantes, foi importante fator na queda da ditadura. A própria presença dele como reitor da fugaz Universidade do Distrito Federal antes pesara no desfecho do golpe de 1937. 

Os ex-estudantes da época e os estudantes e médicos posteriores se mantiveram majoritariamente anti-getulistas, anti-valadaristas e anti-juscelinistas, a ponto de virtualmente terem expulso JK da Associação Médica. Apenas no final de seu governo é que houve reconciliação parcial, quando o presidente foi recebido festivamente para a aula magna do ano letivo de 1960. A avaliação isenta de JK como médico e governante só foi feita, entre historiadores médicos, após a criação do Centro de Memória da Medicina de Minas Gerais, na mesma UFMG, em 1978, culminando com a recente publicação do livro de Fernando Araújo, JUSCELINO KUBISTSCHEK, O MÉDICO (2000).

Os historiadores em geral, interessados no fenômeno da contra-bucha passaquatrense, nas razões mineiras da oposição à ditadura Vargas e na história das universidades brasileiras, terão no livro de Araújo referência preciosa.

 

16.0– LEPRA EPIDÊMICA ENTRE MINAS E SÃO PAULO, DESDE O SÉCULO 19


João Amllcar Salgado

             Entre as infecções que pouco se fazem epidêmicas, a lepra clássica, se inicia em progressão lenta, sem sinais agudos ou sem sinal algum, ou seja ela já se estabeleceria endêmica. No capítulo OS MEIOS DE VIDA, AS INFECÇÕES E O DESTINO DO HOMEM, do livro Doenças Infecciosas na Infância e Adolescência, de Tonelli & Freire, explico a relação epidemia/endemia, pela razão de que a segunda vem a ser o principal meio natural de as populações se defenderem da primeira - sendo o remédio da vacinação um símile tecnológico da endemização. A aplicação do conceito de epidemia a doenças não infecciosas ou até a fenômenos não propriamente médicos, bem como o advento da epidemia também relativamente lenta e silenciosa da AIDS – estimulam a rever as prováveis epidemias de lepra da história, tendo sempre em vista a mencionada relação epidemia/endemia. As informações básicas encontram-se nos livros clássicos LA LÈPRE A TRAVERS LES SIÈCLES ET LES CONTÉES de Zambaco Pacha, de 1914, e A HISTÓRIA DA LEPRA NO BRASIL (1500 a 1952) de Heráclides Souza-Araújo, de 1946 e 1956.

             Na Europa houve aparente epidemia após as invasões dos bárbaros e depois das Cruzadas, neste caso chegando-se a 19 000 os leprosários. Parece ter havido epidemia também quando leprosos europeus, em corrida a promessas terapêuticas, contaminaram as primeiras ilhas a que chegaram os portugueses no Atlântico. A contaminação dos africanos islamizados foi menor, por já disporem de lepra endêmica, e maior entre os do Congo, Angola e Moçambique, destituídos de imunidade, como os ameríndios. Entre estes houve o paradoxo da prevenção de epidemias notórias, porque outras epidemias, concomitantes e mais agressivas, matavam antes a maioria dos candidatos a leprosos.

             Na macro-região que engloba o atual Sul-Sudoeste de Minas Gerais e o Oeste-Noroeste de São Paulo parece ter havido uma epidemia ou surtos epidêmicos reentrantes de lepra, do meio do século 19 ao início do século 20. Em outras regiões do Brasil, como a balneária de Goiás, o centro do Pará e a ilha de Itaparica (e em países vizinhos, por exemplo, no centro do Paraguai) aconteceu o mesmo, chegando, nesta, ao acometimento de quase toda a população. Parece que, sendo ilha, não ofereceu condições para a diáspora de doentes, que costuma acontecer após a epidemia.

             Em Minas, desde 1749 a hoje Lagoa Santa deve ter atraído leprosos, daí a necessidade do leprosário de Sabará. Antes de 1840 a fonte hidromineral de Água Santa, em Caxambu, também causou o aldeamento de doentes. Coisa parecida ocorreu em São João del Rei. Em São Paulo, em Itu, foi criado o leprosário do Padre Pacheco, em 1837, enquanto um francês não licenciado, Charles Etecheoin atraia muitos leprosos, pois garantia a cura em Itapetininga. Em Goiás, com a divulgação de cura radical com banhos nas termas, houve aumento espantoso de pacientes em Caldas Velhas e Caldas Novas, a partir de 1835, tendo o técnico Moretti Foggia sugerido criar ali o centro nacional anti-morféia.

             Na segunda metade desse século e início do século 20, esta situação se agravaria no território entre Minas e São Paulo pelo enriquecimento regional, pela proximidade dos grandes centros e pela facilidade de locomoção ferroviária, com inédito movimento de população (migração interna e imigração de europeus de várias origens). Além disso havia o predomínio aí dos negros pouco imunes, de origem angolana, conga e moçambicana. Para culminar, a propaganda de águas termo-sulfurosas, mais minerais do que as goianas, encheram de esperanças os leprosos de todo o país e até de nações vizinhas, já que seriam mais indicadas para dermatoses do que para reumatismos.

             O notável clínico Mário Mourão, em 01/07/1914 alertou a Sociedade de Medicina e Cirurgia de São Paulo sobre “... o enorme contingente de lepra nos Estados de São Paulo e Minas. Abrindo a carta geográfica há, infelizmente para o futuro da Nação, manchas negras que podem ser consideradas verdadeiras leproserias nacionais. Há municípios, tanto em um como em outro Estado, sobretudo em certas zonas limítrofes, em que o contingente de morfea é enorme, havendo no sul de São Paulo um município célebre pelo grande número de casos ....” Depois, em sua fundamental comunicação A MORPHÉA NOS ESTADOS DE MINAS E SÃO PAULO – SUA PROPHYLAXIA, SUA CURABILIDADE ao I Congreso Médico Paulista, em 1916, Mourão afirma: “Poços de Caldas pela sua situação de estância única no Brasil de águas sulfurosas quentes, tem o condão de atrair anualmente de todos os recantos da Nação indivíduos portadores de todas as dermatoses. Entre todas ... há uma, cuja grande freqüência assombra. É a lepra. O nosso espírito de brasileiro fica alarmado ...à medida que o flagelo se alastra ...” “...acorrem a Poços de Caldas, isto em pura perda, visto que as águas são contra-indicadas nessa triste enfermidade, apressando-lhe a evolução nas formas mistas e fazendo aparecer lepromas tuberculosos na forma nervosa ...” ... “os médicos ..., com uma grande consciência, procuram docemente afastar uma  freqüência que só pode prejudicar a estância de águas. No entanto, a insistência dos portadores, cada vez mais numerosa, ...faz-nos tremer diante do triste futuro que nos aguarda.” Em tal confluência havia bastante gente em grau maior de imunidade e amplo horizonte para diáspora ao oeste e ao sul - favorecendo-se a endemização, que, mesmo com a terapêutica hoje eficaz, se prolonga ao início do século 21.

             Por contrastar seu posicionamento com os de Osvaldo Cruz, Adolfo Lutz e Emílio Ribas, mais voltados às epidemias clássicas, faço aqui especial homenagem à coragem de Mário Mourão. E pode dizer-se que ainda hoje prevalece a censura sobre esta infecção e sua história, mesmo depois da certeza de que não é hereditária e da eficácia dos atuais medicamentos. O impacto na região foi tal que em textos memorialísticos de médicos, como os de Navantino Alves e Paulo Pinheiro Chagas, a discreção é mantida. E a letra enigmática de uma das mais belas canções sertanejas só pode ser compreendida na medida em que traduz a desdita de um paciente-poeta. Assim, os escassos e dúbios registros que foram deixados têm de ser lidos sob frestas do velho estigma, tão bem estudado por Domingos Gandra em A LEPRA: INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO FENÔMENO SOCIAL DA ESTIGMATIZAÇÃO (UFMG, 1970).  

Os genealogistas topam com mudanças de sobrenomes que sob esta luz ganham explicação, bem assim com mudanças de domicílio correspondentes à referida diáspora. Curioso é que os médicos que desconheciam o fator imunitário anotaram a diminuição da doença ao longo do tempo e a atribuíram à melhor higiene física e alimentar. É que a imunidade não só previne a doença como substitui os casos ostensivos por manifestações clínicas difíceis de perceber pelos próprios médicos. Ela também deu falsa razão aos apaixonados leprólogos que negaram a etiologia bacteriana até os anos 20 do século 20. Tal negação os empurrou para a causação hereditária e desta ao racismo.

             Em favor da ilusão da causa genética ocorreu o fenômeno da perpetuação da doença entre famílias ricas mais que entre as pobres. Para estes o leprosário era compulsório e para os outros não. A manutenção doméstica tornava íntimo o contato e maior o contágio, reforçando o encadeamento familial, com a falsa impressão de hereditariedade. Os africanos foram acusados no Brasil de disseminadores do mal. Seriam eles os contaminadores dos descendentes dos europeus, exatamente por disporem de menos imunidade frente a estes, os verdadeiros contaminadores. Médicos competentes não caíram neste erro e foram até agredidos, como foi o caso de Juliano Moreira, coincidentemente mulato. Foi alfinetado por um historiador da lepra, que disse ser Moreira um exaltado defensor de sua raça, ao negar a fonte africana.

 

 

17.0– CENTENÁRIO DE HERMÍNIO FERREIRA PINTO

João Amílcar Salgado

             Hermínio Maia Ferreira Pinto (1901-1987) nasceu em Guapé, MG, foi criado em Boa Esperança e exerceu a medicina em Formiga e Belo Horizonte. Pelo lado Maia, descende de gente brava e inquebrantável, honrada por rol de insignes médicos e cientistas. Estudante brilhante desde criança, foi um dos ativistas da célebre revista estudantil RADIUM, do então Centro Acadêmico da Faculdade de Medicina, hoje da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). 

             A revista Radium teve apenas seis números (1920-1923), mas é marco na história da imprensa mineira e é referência para a literatura brasileira. Nela sobressaíram, além de Hermínio Pinto, os futuros médicos-poetas Mário Mendes Campos (seu colega de turma) e Tolentino Miraglia e o futuro farmacêutico-poeta Carlos Drummond. Seu nome comemora o advento do radium, novidade tecnológica em que o Instituto do Radium (hoje Hospital Borges da Costa), inaugurado em 1922 para celebrar o centenário da Independência, foi pioneiro nas Américas. Hermínio, respeitado pelo domínio da anatomia, recebeu o prêmio de melhor aluno entre os apenas oito formandos da sétima turma, diplomada, em 1923, pela jovem faculdade, inaugurada em 1911 e a completar, hoje, 90 anos. Outro nome famoso da turma é o eminente cirurgião Júlio Soares, futuro cunhado de Juscelino Kubistschek.

              Em 1926, enquanto Maria e Irene Curie visitavam esse Instituto, Hermínio Pinto seguia para a Europa, aperfeiçoando-se em Paris e Berlim. Em 1928, com a tese SOBRE A DISTOCIA PELVIANA, se faz docente-livre da cadeira de obstetrícia na recém criada Universidade de Minas Gerais (hoje UFMG), em brilhante concurso. Desenvolveu numerosa clínica privada, atendendo no Hospital São Lucas, sem deixar de dedicar-se zelosamente ao atendimento público na Maternidade Hilda Brandão, no Hospital Militar e na previdência estadual.

Integrou a equipe do inesquecível governo Milton Campos, chefiando o Pronto Socorro Policial e o Departamento de Medicina Legal. Lecionou na faculdade que o formou, na Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais, na Escola de Enfermagem Carlos Chagas e nos cursos de odontologia e farmácia da atual UFMG. Dirigiu a Clínica Cirúrgica de Mulheres da Santa Casa de Belo Horizonte, hoje chamada Enfermaria Hermínio Ferreira Pinto. 

Quando cursei a disciplina de obstetrícia, tive o privilégio de tê-lo como regente da cátedra, pois o titular Clóvis Salgado era ministro do governo Kubitschek. Era enérgico e educado, escondendo, atrás do prazer em externar sua versátil cultura, a cativante prosa de sul-mineiro. Integravam sua equipe: Otávio Guimarães, Renzo Antonnini, Newton Brandão, João Leite e Iracema Baccarini. Meu colega de turma Márcio Tornelli era noivo da filha do regente, a linda Diva, sendo os dois o casal mais belo da formatura. A secretária da disciplina era a meiga Élcia Queiroz, tão atenciosa e inteligente que foi nossa homenageada, representando  o setor administrativo.

Hermínio Pinto era membro da Academia de Medicina e escrevia artigos de jornal, fiel a seu tempo de estudante. Antes de falecer, ainda exibiu sua erudição clínica, ao discorrer sobre a doença e a morte de Tancredo Neves. Sua viúva, Áurea Pinto, que dividia com o esposo o prazer de viajar, o gosto pelas coisas da inteligência e o amor pelas artes, brindou o Centro de Memória da Medicina de Minas Gerais com importante acervo sobre esta notável figura de nossa medicina. De fato, ele deteve os três principais traços dos grandes médicos mineiros: sólida formação básica, competência clínica geral anterior à dedicação especializada e tudo isso em conciliação feliz com as humanidades.

 

 

 

 

 

 

 

18.0- NOBRE LACAZ, COMO ESQUECÊ-LO?!

João Amílcar Salgado


             Carlos da Silva Lacaz foi das mais nobres figuras da medicina de todos os lugares e de todos os tempos: fez e continuará fazendo de cada um dos historiadores da medicina brasileira seu discípulo permanente e seu amigo inesquecível.

             Carlos Lacaz e eu estávamos preparando um ato para simbolizar a união fraterna entre as medicinas paulista e mineira – a ser efetivado no 7o Congresso Brasileiro de História da Medicina, em Ribeirão Preto. Consistiria na troca de duas réplicas de esculturas existentes nos museus de São Paulo e de Minas. Em 1912, os médicos paulistas homenagearam Carlos Chagas por sua descoberta, ofertando-lhe magnífico busto de Pasteur, obra de A. Gaudez, com a frase: Ao Dr. Carlos Chagas, lembrança da classe médica de São Paulo – 6/9/912. Pedro Nava recebeu o busto da família de Chagas, logo após o falecimento da esposa do cientista, dona Íris Lobo Chagas, da qual Nava foi médico. Este o doou ao Centro de Memória da Medicina de Minas Gerais, em 1977. Tal gesto e a placa afixada no saguão da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais, em comemoração aos 50 anos de formatura dos chamados primogênitos da Universidade (formados no ano de criação desta, em 1927, entre os quais figuram também Juscelino Kubistschek e Pedro Sales) demarcam a criação do Centro.

Por outro lado, na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, o professor de química médica, engenheiro e médico Guilherme Bastos Milward, mineiro de origem britânica (parente de Tancredo Neves), tido como excêntrico pelos docentes, mas muito querido entre os jovens, foi homenageado por seus amigos. Solicitaram a Tarsila do Amaral que esculpisse o busto do mestre, com a frase: Ao Prof. G. B. Milward, homenagem de seus amigos, em 14 novembro 1937 - hoje uma das atrações do Museu Lacaz. Seriam feitas réplicas em gesso de ambas as esculturas, que seriam então trocadas no congresso, ficando cada museu com o original e a cópia respectivos. A cerimônia fica adiada, mas não cancelada.

             Tais entendimentos foram iniciados no café da manhã dos três dias do 5o Congresso, em Santos, quando o queridíssimo Lacaz se mostrava impaciente para que eu descesse logo ao restaurante do hotel. Queria conversar sobre isso e sobre variados temas, mas a conversa reincidia em Chagas, Marie Curie e Kubitschek. Nesta oportunidade pude aquilatar as verdadeiras dimensões do gigante que aquela baixa estatura escondia. Daí eu passar a cognominar Lacaz de o Littré brasileiro. Emílio Littré, sobre ser uma enciclopédia científica, foi insuperável lexicógrafo. Lacaz, sendo o pontífice da micologia brasileira, foi o líder, o organizador, o aglutinador, o editor e o autor, seja em medicina tropical, seja em história da medicina. Não contente com tudo isso, era essencialmente um poeta, um homem puro e um ser humano de altíssima sensibilidade. Seu perfil plutárquico evoca a sentença de Cobo Borda de que todos os poetas são santos.

             Sempre prometia a nosso museu fotos dele ao lado de Juscelino, flagrados na casa paterna em Guaratinguetá. Datam de um ano antes do acidente fatal. Hoje finalmente enriquecem nossa exposição sobre o centenário do presidente. Nelas, Kubitschek aparece ao lado de Carlos Lacaz e da mãe deste, dona Judite Lacaz. Os três foram padrinhos do casamento de Francisco Assis Barbosa (primo de Lacaz) com dona Iolanda Barbosa, oficiado pelo cardeal mineiro dom Carmelo Vasconcelos Mota, arcebispo de São Paulo. Num de seus últimos artigos, lembra: em 15/12/1983, tive o privilégio de inaugurar, no Museu de História da Faculdade de Medicina, uma sépia de Juscelino Kubitschek, de autoria de meu assistente Edward Porto, falando na ocasião o acadêmico Francisco de Assis Barbosa (1914-1991), membro da Academia Brasileira de Letras, biógrafo do homenageado. A seguir, Lacaz diz de Juscelino o que a ele próprio se aplica plenamente: E agora, quando já se foi o pranteado colega à serenidade dos prêmios eternos, daqui o contemplamos nas alturas a que se remontou, para integrar na bem-aventurança o grande e belo ideal de sua vida. Que os moços o tomem como exemplo.

Adrien Étienne Gaudez (1845-1902), Pasteur - Busto de bronze.

Busto de PASTEUR DOR GAUDEZ.

UMA RÉPLICA PERFEITA FOI OFERECIDA A CARLOS CHAGAS POR MÉDICOS PAULISTAS EM 1912

 

19.0 – OS MÉDICOS E O ILUMINISMO - NA ESCÓCIA, NA HOLANDA E EM MINAS

João Amílcar Salgado

             Na Europa, o iluminismo médico é mais importante na Escócia e na Holanda do que na França. No Brasil, o iluminismo provocou várias Inconfidências, sendo que, na Inconfidência Mineira, houve a participação de estudantes de medicina, cirurgiões e médicos, sendo seu mártir um tiradentes apelidado de Tiradentes. Por outro lado, médicos mineiros de formação iluminista – não-participantes da sedição – tiveram papel especial na história da medicina brasileira, nos séculos 18 e 19.

             Em estudo anterior, lembramos a tese de Afonso Arinos Melo Franco sobre o iluminismo europeu e seu nexo com a imagem do índio brasileiro, sendo que sua relação com a educação e o pensamento crítico envolve o luso-francês Miguel de Montaigne. Este e outros iluministas da Europa continental eram duros críticos dos médicos. Já na Escócia, a faculdade de medicina de Edimburgo foi centro de renovação não só médica mas filosófica e até econômica. Os médicos João Locke e Tomás Sydenham devem ser estudados na história da medicina dentro do mesmo fenômeno intelectual. Mas a maior figura do iluminismo propriamente médico é o holandês Hermano Boerhaave, cuja escola, em Leyde, influenciou o mundo ocidental e toda a medicina moderna.

             Um notável médico iluminista, José Vieira Couto, de Diamantina, esteve sintonizado com Leyde e outro, Antônio Gonçalves Gomide, de Caeté, esteve diretamente ligado a Edimburgo. Outro iluminista, Francisco de Melo Franco, de Paracatu, causou impacto à medicina de Portugal. Este e Gomide são pioneiros na crítica ao ensino médico. Se a Inconfidência Mineira tivesse triunfado, o médico iluminista Domingos Barbosa Lage, de Juiz de Fora, teria sido o primeiro estadista do novo país. Outros médicos mineiros de formação iluminista, importantes na história da medicina brasileira, são Vicente Seabra Silva Teles, de Congonhas, primeiro a escrever sobre química em português, e Joaquim Soares Meireles, de Sabará, fundador da Academia Imperial de Medicina.

ESTA PUBLICAÇÃO SE FRUSTROU, PELO EXTRAVIO DO TEXTO

 

 

 

20.0– O PALEONTÓLOGO LUND E O ENTOMÓLOGO BURMEISTER, EM MINAS

João Amílcar Salgado

             Dois precursores de importantes acontecimentos científicos encontraram-se em Minas, no século 19: o médico dinamarquês Lund, precursor das conclusões de Darwin, e o médico prussiano Burmeister, precursor da descoberta de Chagas. A partir de 1749, chegou à Europa a notícia da Lagoa Prodigiosa (hoje Lagoa Santa), cujas águas seriam medicinais. Cerca de um século depois, ainda houve quem viesse a Minas para conferir tal prodígio.

Pedro Lund, cujo bicentenário de nascimento acabamos de comemorar, chegou a Minas em 1833, para realizar pesquisas na paisagem calcárea da lagoa. Veio a ser pioneiro em paleontologia nas Américas, quando descreveu o homem americano primitivo e o tigre dente-de-sabre – sem deixar de estudar também o abacaxi nativo. Seu sábio desejo de ter foguetes em vez de lágrimas, por sua morte, levou ao trágico uso de seus preciosos livros para a confecção daqueles.

Já Hermano Burmeister, apesar de ter-se formado em medicina, logo se fez naturalista exclusivo, sendo dos primeiros subespecializados (tendência ensejada pela Revolução Francesa - em seu caso com interesse especial por insetos). Provavelmente levado por Lund a descer grutas, fraturou a perna, imobilizada por este. Um e outro não deram suficiente valor ao repouso, sendo necessário que um terceiro médico - este inglês e rigoroso, da mina de Morro Velho - obtivesse a consolidação óssea. Burmeister foi declarado inimigo dos ouro-pretanos e, por isso, foi para a Argentina, onde descreveu o barbeiro, depois identificado por Chagas como vetor da doença de Chagas, e onde organizou notável museu.

 

21.0 – PRESENÇA MINEIRA NA MEDICINA PAULISTA

João Amílcar Salgado

             Luiz Gomes Ferreira, autor do primeiro manual de clínica de origem brasileira, o Erário Mineral, embora luso, deslocou-se de Minas para São Paulo, onde assinalou o bócio endêmico. Luís Melo Franco foi dos primeiros médicos de Campinas - irmão do célebre Francisco. Vital Brazil é o herói internacional contra o ofidismo. Matias de Vilhena foi o grande clínico de São Paulo (no dizer do Dr. Arnaldo). Guilherme Milward, inaugurou o ensino da química médica em terras paulistas. Alípio Correa Neto foi notável cirurgião, também líder universitário e da classe médica. Lemos Monteiro, eminente pesquisador, fez-se mártir da ciência em acidente de laboratório. Rafael Souza foi professor na Faculdade de Saúde Pública. Dante Pazzanese foi o notável fundador da Sociedade Brasileira de Cardiologia. Adauto Barbosa foi o clínico da primeiro procedimento de circulação extra-corpórea no país. Ribeiro do Vale, o decano dos farmacologistas brasileiros, também historiador, foi um dos forjadores da Escola Paulista de Medicina, ao lado de Leal Prado e Luciano Castro. Leal Prado, Moura Gonçalves, Veiga Salles, Wilson Beraldo, Carlos Diniz, Lopes Faria, Baeta Henriques, Olga Bohomoletz e Ferreira Fernandes representam a dinastia científica de Baeta Vianna. Na USP, em Ribeirão Preto, sobressaiu o patologista Hugo Brandão e, na Capital, brilham o psiquiatra Oscar Resende Lima, os cirurgiões Adib Jatene (acreano, que se fez mineiro desde a adolescência) e Sérgio Almeida - e ainda os cientistas Dalton Chamone e Márcio Castro Filho, sendo que os clínicos Ronan Vieira e Murilo Zeitune se distinguem na Universidade de Campinas. Também brilharam em Campinas João Penido Burnier (nascido incidentalmente na Bahia) e Antônio Augusto de Almeida. E não pode ser esquecido o aplaudido escritor Cecílio José Carneiro.

Chegaram a clinicar em São Paulo: Pedro Nava, o maior memorialista da língua, Oswaldo Costa, o famoso dermatologista; e Olavo Diniz, notável pediatra. São conhecidos também os psiquiatras Marcos Chaves (também historiador), Wilson Almeida e Geraldo Barros. Madrid nos revelou o areadense Antônio Luna e o uberabense José Montezuma, da medicina limeirense Em outras cidades deve haver registro análogo.  Finalmente, citamos Renato Monteiro, o menino paulista adotado por casal mineiro, objeto de um livro encantadoramente lacazeano: A RODA DA SANTA CASA DE MISERICÓRDIA DE SÃO PAULO E O EXPOSTO 3381.

 

 

 

 

22.0 – AS MORTES DE GAMBETTA E DE TANCREDO

João Amílcar Salgado

Léon Gambetta (1838-1882), líder francês da implantação republicana pós-império, e Tancredo Neves (1910-1985), líder da redemocratização brasileira, faleceram inesperadamente - e suas doenças merecem comparação histórica.  Gambetta, advogado e estadista francês, que perdeu o olho esquerdo aos 16 anos, faleceu após outro acidente, aos 44 anos. Foi líder estudantil do Quartier Latin, em oposição ao governo imperial. Usou a eloqüência como arma na guerra Franco-Prussiana, para a resistência fora de Paris, inclusive deslocando-se em balão. Percebeu na guerra oportunidade para a República definitiva, da qual seria peça fundamental. Mas, em 27/11/82, feriu-se na mão com seu próprio revólver. Enquanto a lesão cicatrizava, manifestou acometimento abdominal que o levou à morte em 31/12.

Tancredo Neves, advogado e estadista brasileiro, viu também sua vida balizada por tragédias. Era ministro de Getúlio Vargas, quando este se suicidou em 1954, e, em 1985, adoeceu um dia antes da posse como primeiro presidente civil, após vinte anos de ditadura. Ex-aluno de franciscanos holandeses e da atual UFMG, na crise resultante da renúncia do presidente Jânio Quadros, em 1961, chegou a primeiro ministro. Mesmo com a frustração da eleição direta, quando percorreu o país, foi indiretamente eleito, em 15/1/85. Ao falecer, em 21/4, já organizara sua equipe e preparara seus primeiros atos.

Gambetta, ao falecer, tinha a seu lado 14 médicos (um deles Charcot), que também acompanharam sua necropsia. No caso de Tancredo, coisa análoga aconteceu. Lannelongue, professor da Faculdade de Medicina de Paris e cirurgião dos principais hospitais, que de perto assistiu Gambetta, escreveu em seu livro LIÇÕES DE CLÍNICA CIRURGICA, de 1905, o capítulo FERIMENTO E DOENÇA DE GAMBETTA – RELATO DA AUTÓPSIA. Nele é registrada a evolução clínica diária do doente (fato sujeito a discussão ética), sendo o laudo necroscópico de autoria de Cornil. No caso de Tancredo, nada foi publicado do ponto de vista estritamente médico. Segundo o livro, Gambetta teria morrido de apendicite e, segundo uma das versões da imprensa, Tancredo teria morrido de diverticulite.

 

23.0– O JOVEM SILVA MELO

João Amílcar Salgado

             Pedro da Silva Nava e Antônio da Silva Melo são médicos juiz-foranos, quase contemporâneos, mas enquanto do primeiro conhecíamos a juventude, do segundo só agora podemos ler sua autobiografia juvenil. O ambiente da cidade para o então menino Pedro Nava encontra-se no livro BAÚ DE OSSOS. Já o livro HISTÓRIAS DE UM MENINO E AS TRANSFORMAÇÕES DO MUNDO (Ponte da Cadeia, S.J. Del Rei, 2001), recém editado, mostra aspectos notáveis da personalidade de Silva Melo.

             Os textos autobiográficos de Melo explicam o médico diferente que veio a ser, mas principalmente seu modo diferente de fazer-se médico. Ele próprio sempre deu importância aparentemente exagerada a sua decepção com o início de seu curso de medicina. Tal exagero não existe para quem é especialista em ensino médico. Daí que seu inconformismo e as peripécias dele resultante fazem de Silva Melo também notável em pedagogia médica, sendo que em seu caso, como lhe é próprio, com grande originalidade, pois a ele, ao pedagogo precoce, foi negado o posto docente - e com isso a mesma faculdade lhe causou uma segunda decepção. Pode-se mesmo afirmar que os dois maiores pedagogos da medicina no Brasil são dois mineiros adiante de seu tempo: Francisco de Melo Franco e Antônio da Silva Melo, pois ambos se notabilizaram pelo traço comum de se insurgirem contra a mediocridade e o imobilismo acadêmicos.

             Outra comparação inevitável é entre Melo e Pedro Nava. Ambos são juiz-foranos, ambos cedo se viram órfãos (Nava apenas do pai médico), ambos estão na história da medicina como inauguradores nacionais de especialidades clínicas (gastroenterologia e reumatologia, respectivamente) e ambos se projetaram fora da medicina como escritores. Nos escritos de ambos descreve-se a Juiz de Fora da virada do século 19 para o 20. 

 

24.0 – O ENIGMA DE SAUDADES DE MATÃO E A HANSENÍASE

João Amílcar Salgado

             Muitos admiradores da canção Saudades de Matão, das mais populares e tradicionais do Brasil, consideram enigmáticos seus versos. Há a versão de que seu verdadeiro autor é o hanseniano José Carlos da Piedade. Se for o caso, o enigma desaparece.

          Segundo França de Lima, corroborado por Francisco Poel, o maestro José Carlos da Piedade nasceu em Patrocínio, MG, em 1869, e, em 1904, ele próprio já executava sua valsa em casamentos, em Araguari. Transferiu-se para Barretos, Franca, Campinas, Matão e provavelmente outras cidades. Faleceu na Colônia Santa Isabel, em Betim, MG, antes de 1939. Aí ainda compôs Dobrados da Santa Isabel e Suspiros de Santa Isabel. Saudades de Matão foi proposta para música de Franca (daí ser chamada de francana) e hoje é o prefixo do coral Tangarás de Santa Isabel. Provavelmente recebeu a letra atual depois do diagnóstico.

             O estigma obrigou os hansenianos ao nomadismo, daí serem acometidos pela saudade daqueles lugares dos quais são direta ou indiretamente expulsos. As cidades percorridas por José Carlos localizam-se no contexto da lepra epidêmica que acometeu Minas e São Paulo entre os séculos 19 e 20.

             Em Minas, desde 1749, a hoje Lagoa Santa deve ter atraído leprosos, daí o leprosário de Sabará. Antes de 1840 a fonte hidromineral de Água Santa, em Caxambu, aldeou doentes. Coisa parecida ocorreu em São João del Rei. Em São Paulo, em Itu, foi criado o leprosário do Padre Pacheco, em 1837, enquanto um francês não licenciado, Charles Etecheoin atraia muitos leprosos, pois garantia a cura em Itapetininga. 

             Prevalece a censura sobre a infecção e sua história. O impacto na região foi tal que, em textos memorialísticos de médicos, a discrição é mantida e, demais, se estende à letra enigmática de Saudades de Matão, que vocalizaria a desdita do paciente-poeta. Há que se reconstituir a verdade sob as frestas do velho estigma, tão bem estudado, no mesmo sanatório de Betim, por Domingos Gandra em A LEPRA: INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO FENÔMENO SOCIAL DA ESTIGMATIZAÇÃO (UFMG, 1970).

 

25.0 - GUIMARÃES ROSA, GARCIA MARQUES E FIDEL CASTRO, EM BOGOTÁ, EM 1948

João Amílcar Salgado

             A Organização dos Estados Americanos (OEA) foi criada em Bogotá em 1948. Por razões diferentes estavam ali Rosa, Marques e Castro: o médico mineiro, como diplomata, Marques, como jornalista, e Castro, como agitador estudantil. Afora os motivos que os levaram a convergir para este lugar, nesta data, há algo em comum no modo de se expressarem. Marques usava a palavra para a comunicação jornalística, Fidel, para a oratória política, e Rosa para a ficção. Marques evoluiu do jornalismo para a ficção e Castro igualmente, pois o sonho igualitário prossegue sendo a mais sedutora e pertinaz ficção humana. Outro ponto em comum é a área da saúde, embora, dos três, Rosa seja o único médico. Marques tematizou a saúde em seu livro O AMOR NOS TEMPOS DO CÓLERA e Castro comandou a construção de um dos melhores sistemas de saúde do mundo.

             Quando estavam ali, ocorreu o bogotazo, grande agitação popular. Em entrevista a Marques, Castro garantiu que o fenômeno foi espontâneo e ele apenas tentou direcionar o movimento. Houve até sua célebre exortação quando, do meio dos manifestantes, se dirigiu ao guarda do palácio, de arma em riste contra todos – tentando convencê-lo a mudar de lado. No lado da OEA, os delegados estrangeiros ficaram protegidos num bairro de luxo de Bogotá. Em seu discurso de posse na Academia de Letras, Rosa descreve o medo de que a revolta chegasse até eles. Garantiu que a coisa foi amenizada pela prosa paregórica de João Neves da Fontoura.

 

26.0 – JUSCELINO KUBITSCHEK (JK) E OS MÉDICOS

Carlos Amílcar Salgado

João Amílcar Salgado

 

Os médicos eram oposição a JK, quando este realizava seus memoráveis governos. Nos diferentes relacionamentos de JK com os médicos, convém assinalar que, antes do curso superior, JK se viu separado do pai por determinação médica. Depois, configuramos três períodos distintos. De 1927 a 1932, graduaram-se por nossa Faculdade, dentre outros, o próprio JK, Pedro Nava, Pedro Sales, Amílcar Martins, Guimarães Rosa e Osvaldo Costa - respectivamente, o maior dos dirigentes brasileiros, o maior memorialista da língua portuguesa, o primeiro historiador sistemático da medicina brasileira, o maior parasitologista do país (ao suceder a Samuel Pessoa), o mais original prosador do idioma e o maior dermatologista das Américas de seu tempo - sendo que em 1932 se dá o episódio do túnel da Mantiqueira, de que JK participou como cirurgião. 

Entre 1939 e 1941, o médico mineiro Aloísio Resende Neves é o primeiro a comprovar o efeito esterilizante no homem dos hormônios sexuais, o que impressionou JK, pois na época os teria consumido, como era moda também entre médicos. Tais dados podem contribuir para desfolclorizar seu comportamento boêmio, compreensivelmente o lado mal-estudado de sua biografia. O terceiro período vai de 1954 a 1958, quando JK se vê desafiado pela Associação Médica, é virtualmente expulso da mesma e depois, com Clóvis Salgado, cria os Conselhos de Medicina. A chamada trifurcação corporativa das profissões não foi aceita pela OAB. É dessa ocasião o enterro simbólico de JK pelos estudantes de sua Faculdade - do Diretório Acadêmico à Igreja São José - quando o presidente foi acusado de se submeter ao FMI.

Ao longo das turbulências, merecem louvor médicos fieis: Otaviano de Almeida, Adelmo Lodi, colegas de turma e de serviço, Martins Teixeira, Clóvis Salgado e Pinheiro Chagas, os dois últimos também políticos. Historicamente, JK resistiu à oposição de seus colegas e de outras forças, por pertencer a um sistema de poder descrito por um de nós como a contrabucha passaquatrense.

 

 

27.0 - CRIME, ROMANTISMO E HUMOR, NA HISTÓRIA DA PROPAGANDA NA ÁREA DA SAÚDE

Carlos Amílcar Salgado

João Amílcar Salgado

             A medicina e a propaganda são duas irmãs, filhas da religião. A propaganda do álcool fermentado, como vinho de melissa (desde Elias, no monte Carmelo), do álcool destilado, como água-da-vida (a partir da invenção do alambique, celebrado por Arnaldo de Vilanova), e de novos medicamentos vindos com as especiarias é uma seqüência que precede o uso da imprensa para este fim. Com esta, a propaganda médico-farmacêutica ensaia as demais propagandas comerciais, chegando, no século 18, à guerra do antimônio e à guerra da variolização. Já no século 19, a Coca-Cola, originalmente um medicamento, é rótulo-símbolo da publicidade moderna, do marketing e do consumismo – sendo corrente mesmo em inglês a palavra cocacolização. O consumismo, com base nos meios de comunicação coletiva, trouxe não só prejuízos na atenção à saúde, mas escândalos e até tragédias, como a da talidomida. O simbolismo da Coca-Cola é maior por referir no próprio nome a dois produtos xamânicos, um da América e outro da África. Entretanto, os cursos de publicidade do Brasil começavam não com a Coca Cola, mas com o Bromil, o amigo do peito.

             Por outro lado, há inegável aspecto romântico, pelo menos no humor dos almanaques ou no poema de Manuel Bandeira referente à embalagem de um sabonete: As três mulheres do sabonete Araxá me invocam / ... ... / Se me perguntassem: queres ser estrela? queres ser rei? queres uma ilha no Pacífico? um bangalô em Copacabana? / Eu responderia: ... / O meu reino pelas três mulheres do sabonete Araxá!.

Em Belo Horizonte, na época da indústria sanatorial anti-tuberculose, ficaram clássicos, por ser uma celebração do nexo eros-tânatos, estes versos, exibidos nas laterais internas de cada bonde da cidade: Veja, ilustre passageiro, / O belo tipo faceiro / Que o senhor tem a seu lado! / No entanto, acredite, / Quase morreu de bronquite, / Salvou-a o Rhum Creosotado!  Estes versos foram recitados há certo tempo em Havana pelo grande poeta Nicolás Guillén, ao relatar a Ronaldo Simões que, na década de 40 do século passado, os memorizou dos bondes brasileiros, pois se sentiu orgulhoso com a propaganda do rum, bebida de sua pátria.

 

28.0 - O DESAGRAVO À INTELIGÊNCIA LUSA

João Amílcar Salgado

             Como resíduo das relações de dominação colonial, passou a vezo no Brasil agravar com debiques a capacidade intelectual de nossos avós portugueses. Relevado em geral e até pelos próprios atingidos, houve disso, contudo, um efeito de todo indesejável, talvez até subconsciente, que foi o menoscabo à contribuição lusa à ciência, inclusive a medicina. Diante disso, o Centro de Memória da Medicina de Minas Gerais vem estudando, com crescente interesse, vultos de alto relevo para a medicina mundial e que até em Portugal não recebem a atenção merecida: São João de Deus, Papa João 21, João Fares, Garcia de Orta, Andrade Velosino, João Batista Silva, Francisco Sanches, Luís Gomes Ferreira, e Egas Moniz.

             Esta iniciativa se vê reforçada agora quando cientistas lusos acabam de causar impacto em distintos campos da ciência. João Magueijo hoje é proeminente astrofísico da universidade britânica de Cambridge, depois que propôs o conceito de tempo granular, com a conseqüente revisão do dogma einsteiniano da constância da velocidade da luz. João Zilhão e Cidália Duarte são autores de importante descoberta paleoantropológica: o fóssil de criança com evidências de ser híbrida entre as espécies neandertal e atual. Antônio R. Damásio (do Instituto Salk, EUA), por sua vez, tornou-se o maior nome contemporâneo em neurociência, autor de dois livros revolucionários: O Mistério da Consciência e O Erro de Descartes – Emoção, Razão e Cérebro Humano.

 

29.0 - O DESAGRAVO GENÔMICO AOS GENEALOGISTAS

João Amílcar Salgado

             Os historiadores costumam-se dividir em quatro categorias: 1) os narradores, 2) os biógrafos, 3) os genealogistas e 4) os intérpretes. Estes costumam desdenhar os demais, mas desprezam em particular os genealogistas, causa de atritos e mágoas. Esta verificação é de especial importância em culturas totêmicas, como em Minas Gerais, onde ignorar parentescos pode levar a vieses graves. Assim os intérpretes em Minas se acomodam considerando genealogias sem confessá-lo.

             Com o advento do método de DNA para documentar parentesco, inclusive remontando a milhares de anos, os paleontrópologos surgem como genealogistas ultracientíficos, que, para profundo despeito dos historiadores-intérpretes, estão aí para desagravar os humilhados e ofendidos. O mais pitoresco dessa reviravolta é que os intérpretes posavam de mais científicos do que os demais, por manipularem métodos tomados emprestados da sociologia, da psicologia e da economia. Ora, tais ciências são inexatas em comparação à precisão bioquímica da antropogenética. Assim, os genealogistas, escudados pelos novíssimos irmãos, se sentem tão ultracientíficos quanto estes.

Nesta contenda entram como mediadores os médicos-historiadores. É que pesquisadores em história egressos da medicina têm percorrido as quatro categorias sem qualquer preconceito. Sua desinibição decorre de provirem de território científico clássico, do qual, aliás, emergiu a genética. Por outro lado sempre compareceram como adeptos de uma quinta categoria afim, a dos memorialistas, na qual é célebre o médico Axel Munthe e o maior entre nós é justamente o médico e historiador da medicina Pedro Nava. Assim tudo resultará numa conciliação geral, isenta de quaisquer esnobismos.

 

 

30.0 - PEDRO NAVA - CENTENÁRIO DE UM TALENTO MÚLTIPLO

João Amílcar Salgado

             O médico mineiro Pedro Nava, completa centenário em 2003. É o maior memorialista lusófono e, como tal, também historiador de nossa medicina, pois, em suas memórias, focaliza médicos da época de seu pai e de seu próprio tempo. Formou-se na Faculdade de Medicina hoje da UFMG em 1927, sendo colega de turma de Juscelino Kubistschek, o extraordinário presidente, e de Pedro Sales, insigne historiador da medicina. O poeta maior Carlos Drummond, formado em farmácia em 1925, teve aulas em comum e conviveu com os três. Guimarães Rosa, o mais criativo ficcionista da língua, graduado em 1930, foi-lhes contemporâneo por três anos. Manuel Bandeira situou Nava entre os grandes poetas bissextos do Brasil. Naveanos admitem que, se se dedicasse às artes plásticas, seria aí dos maiores. Uma sua poesia era da predileção de Pablo Neruda. Era grande amigo de Vinícius de Morais, que lhe dedica emocionado poema, ao receber a notícia de sua morte..

             Antes de ser memorialista era conhecido como nosso maior reumatologista, fundador da especialidade no Brasil, depois de se tornar discípulo de De Sèze em Paris. Perguntei-lhe por que não se fez escritor antes de se aposentar. Respondeu-me que, se o fizesse, seus colegas, inclusive seus discípulos, passariam a tratá-lo como se ele nada mais soubesse de medicina, muito menos de clínica e muito menos ainda de reumatologia. Apoiei-o, ao lembrar ter isso ocorrido com Juscelino, que, ao se dedicar à política, sofreu a difamação de médicos udenistas de que era nulidade em medicina. Sua turma, sendo das mais brilhantes e mais bem formadas da história da faculdade mineira, produziu excelentes clínicos e cirurgiões, cuja competência jamais poderia ser invalidada por outra eventual vertente de talentos, que, sobre serem incomuns, eram múltiplos.

 

31.0 - GRATOS TEXTOS E OBRAS DE ARTE SOBRE NAVA

João Amílcar Salgado

Márcio Moreira

             Para os cem anos de Nava, em 2003, o Centro de Memória da Medicina de Minas Gerais apresentou a réplica, esculpida em madeira por Celso Vieira, de seu quadro de formatura. Admiradores foram convocados por Paula Moraes e as comemorações culminaram com a reunião destes com a família Nava em Juiz de Fora, onde, no Centro de Cultura Murilo Mendes, foi organizada inesquecível exposição do arquivo naveano. Os parentes foram convocados pelo sobrinho Joaquim Nava, também reumatologista e que antes doara ao Centro objetos e livros do tio.

Textos sobre Nava ou que sejam subsídios ao estudo de sua biografia e obra, foram também reunidos, a seguir. Antônio Sérgio Bueno: Vísceras da Memória, Paula Moraes: Oração da Fã, Joaquim Nava: Contribuições Originais de Nava à Reumatologia, João Amílcar Salgado: O Iníope da Insensatez Oculta, Monique Moing: A Solidão Povoada, Adélia Sales: Aqueles Velhos Bons Tempos, Nífia Werneck: Rua da Bahia, Paulo Mellilo: célebre convite de formatura da Turma Pedro Nava (1998), Anny Silveira: A Capital e o Sonho de uma Petit Paris, Geraldo Gama: O Médico Pedro Nava, Carmen Gama: Compadre Nava, Geraldo Guedes: A Oração de Nava a Antônio Carlos, Ilma Salgado: Pedro Nava – Mulheres Reveladas e Veladas e Juiz de Fora nas Memórias de Pedro Nava, Carlos Alberto Santos: A Culinária na Obra de Pedro Nava (Nos Descaminhos da Memória), Túlio Alves: À Mesa com Pedro Nava, Eunice Vivacqua: Contribuição ao Centenário de Pedro Nava, Raquel Guimarães: Pedro Nava Leitor de Drummond, Ivone Vieira: Vanguarda Modernista nas Artes Plásticas – Zina Aita e Pedro Nava nas Minas Gerais da Década de 20, Humberto Werneck: O Desatino da Rapaziada, Edina Panichi: O Linguajar Médico na Escrita de Pedro Nava, Cristina Vilaça: Medicina e Sociedade Brasileira nas Memórias de Pedro Nava, Revista Verbo de Minas: Pedro Nava e Outros Textos, Suplemento do Minas Gerais: Pedro Nava Memória e Tempo, Marcus Collen: O Fragmento do Viaduto, Márcio Moreira: Textos esparsos de Pedro Nava, Valéria Cristófaro: Acervo Pedro Nava – seleta em CD, Ozório Couto e Hipólito Faria: Dois Poetas Um Centenário (Moura e Drummond), FF: documentário cinematográfico, Paulo Penido: textos póstumos e reeditados. Serão incorporados, além de outros, os textos de Vanda Arantes, Darcy Castro e José Batista Coelho.

 

 

32.0 - ECO BRASILEIRO AO TAN-TAN DE BROCA

Sebastião N. S. Gusmão

Nathan Gusmão

João Vinícius Salgado

Pierre Broca, cirurgião e antropólogo francês, publicou, em 1861, em Paris, o artigo Perda da fala: amolecimento crônico e destruição parcial do lobo anterior esquerdo do cérebro, no Boletim da Sociedade de Antropologia (Bull. Soc. Anthropol 1861, 2, 219), texto pioneiro sobre o sinal clínico da afasia. Conclui por apontar a localização cerebral da linguagem. Seu estudo foi ocasionado por um paciente que, depois de lesão em tal área, deixou de falar, passando a emitir, repetitivamente, apenas a expressão tan-tan. Daí, o termo tantã passou a designar, na linguagem vulgar, pessoa amalucada ou ligeiramente débil mental. No dicionário Aurélio, o autor do verbete, mostra ignorar a origem da palavra e pergunta se não deriva de tonto. É possível, entretanto, que a vulgarização do vocábulo tenha decorrido da semelhança sonora entre tan-tan e tonto. Estudos posteriores mostraram que o resquício de linguagem capaz de permanecer em afásicos está ligado à esfera emotiva mais profunda.

Na memória de uma família brasileira, recolhida por um dos presentes autores, há o registro de um avô que, após derrame cerebral, passou a responder a qualquer tentativa de diálogo com forte palavrão (puta que pariu). Esta pessoa antes não fazia uso de linguagem chula, inclusive por exercer a atividade de terapeuta prático na cidade mineira de Itamarandiba, onde não havia médico, no final do século 19. Guiava-se pelo Chernoviz e outros livros. Passou sua ocupação ao filho e vários de seus descendentes e colaterais têm-se distinguido como clínicos e cirurgiões. Depois da doença, mesmo sem dialogar, prosseguiu clinicando, inclusive transportado a cidades vizinhas, sendo que, a qualquer dúvida sobre sua prescrição escrita, apresentava a mesma resposta. Curiosamente, o caso brasileiro foi contemporâneo do relatado por Broca.

 

33.0 - A RELAÇÃO MÉDICO-PACIENTE NA HISTÓRIA DA MEDICINA

João Vinícius Salgado

Carlos Amílcar Salgado

A compreensão da relação médico-paciente deve remontar à biologia não-humana e à antropologia. Sua peculiaridade humana mais relevante e mais anterior está ligada à diferença entre a prolongada dependência infantil humana e a relativa independência dos demais filhotes animais. Os fundamentos categóricos de seu desenvolvimento podem ser reencontrados seqüencialmente no que os presentes autores denominam a parábola dos náufragos. Nela são apontadas a relação de cuidado e a assunção de papeis de médico e de paciente, bem como são descritas quatro interferências peculiares que usualmente incidem sobre as mesmas. A seguir são relatadas as modificações sofridas por tais fundamentos ao longo da evolução histórica da medicina até os nossos dias. Esta abordagem permite útil maneira de se compreender e aquilatar a grave lesão que o consumismo em saúde infringe à relação médico-paciente.

 

 

34.0 - DOIS MÉDICOS E UM MARQUÊS DE MINAS PARA O IMPÉRIO

Carlos Amílcar Salgado

Luiz de Paula Castro

Os mineiros Joaquim Soares Meireles (1797-1868) e Francisco de Paula Cândido (1805-1864), desempenharam papel decisivo na medicina imperial. Ambos foram beber na fonte francesa as águas lustrais da revolução iluminista, depois que estas se acalmaram na acomodação imperial. Seu caminho à França tinha sido aberto pouco antes pelos estudantes de medicina que, cursando as faculdades de Montpellier e Bordeaux, foram os ativistas externos da Inconfidência Mineira.

Meireles, graduado no Rio e em Paris, é fundador e primeiro presidente da Academia Imperial de Medicina, instituição fundamental no encaminhamento do ensino e da assistência à saúde nos primeiros passos do novo país. Deve ser considerado pioneiro historiador da medicina, pois sua tese na França tratou da história da elefantíase. Após envolver-se na revolução liberal mineira de 1848, foi deportado. Cândido, também graduado em Paris (tese sobre eletricidade médica), chegou com completo laboratório de ensino, único na época, e suas atualizadas preleções de física médica na Faculdade foram o contraponto claudebernardiano da anatomia vesaliana, que até então era (ao lado dos fundamentos farmacêuticos) o núcleo pedagógico preclínico.

Ambos estavam ali na corte certamente patrocinados pelo Marquês de Sapucaí, Cândido Araújo Viana (1793-1875), o preceptor de Pedro II. Viana, formado em direito em Coimbra, era o filho ilustrado de um boticário e foi a influência determinante do apreço do segundo imperador pela ciência e pela cultura. Deu início à dinastia de Vianas notáveis, vários ligados à ciência médica, como o bioquímico José Baeta Viana (1894-1967) e o parasitologista Amílcar Viana Martins (1907-1990), enquanto Fernando Melo Viana (1878-1954) veio a ser governador de Minas (propôs a atual UFMG) e vice-presidente do Brasil.

 

 

35.0 - A INTERDISCIPLINARIDADE É TÃO ANTIGA QUANTO A SABEDORIA

Carlos Amílcar Salgado

Luiz de Paula Castro

O conhecimento interdisciplinar passou de interesse a necessidade, em virtude dos excessos da especialização, quer no domínio científico, quer na atividade profissional. A especialização, entretanto, não é questão nova: ela nasceu com a chamada civilização ocidental. E até mesmo para além do próprio conhecimento humano, a atividade especializada é própria e, portanto, congênita, às coisas da natureza, particularmente dos seres vivos. 

O homem percebeu logo a vantagem de devassar a natureza por meio de ramos limitados do conhecimento, as disciplinas. Demais, tal recurso pareceu útil à transmissão didática. Mas surgiram aspectos indesejáveis, no afã de fracionar algo que em si é totalidade, acarretando protestos como o do sábio universal Goethe. Daí chegamos à busca aberta do corretivo interdisciplinar. Na verdade trata-se de uma espécie de nostalgia da sabedoria perdida, pois, enquanto o estoque de saber o permitiu, todo ele era passível de ser abarcado por intelectos poderosos, a exemplo dos primeiros sete sábios do mundo antigo. Isso mostra que a interdisciplinaridade é tão antiga quanto o primeiro desejo de saber.

             Entre os conhecimentos acumulados pelos sábios estava a medicina e, entre os maiores filósofos (espécie de sábios menos ambiciosos), alguns se sobressaíram como médicos, a exemplo de Alcmeon, Empédocles e Demócrito. Ao prevalecer a corrente clínica da escola hipocrática, foi desaconselhado aos médicos cuidar de filosofia, embora médicos filósofos continuem a existir com brilho até os dias atuais, por exemplo, Pedro Hispano na idade média, Francisco Sanches no renascimento, John Locke no século 18, Joaquim Gomes de Souza no século 19 e Carlos Jaspers no século 20.

 

36.0 - A ESTRADA REAL, O OURO E A MEDICINA

João Amílcar Salgado

O esboço da estrada real significou procurar ouro e gemas em terra incógnita e balda de sendas certas. Isso tem a ver com a medicina, pois para tanto era necessária gente sadia e resistente.  De onde e de que aquela gente tirou saúde? De que se nutriram antes e que comeram no caminho? E depois? Se alguém se acidentava, adoecia ou falecia, como se fazia? Que doenças pre-existiam nos caminhos e nas minas? Que doenças adicionais trouxeram os forasteiros?

A resposta a indagações tão cruciais envolve a contribuição indígena à alimentação bandeirante, a gênese da estratégia alimentar do tropeiro, o cuidado solidário dos acidentados, doentes e defuntos, a hipótese de febre maculosa para a morte de Fernão Dias e o modo de penetração da malária, da doença de Chagas e da esquistossomose em Minas. Por fim, mas não de menor importância, o bicho-de-pé e sua relação com o complexo milho-suíno e com o pedilúvio e o cafuné.

 

37.0 - GUIMARÃES ROSA: O ORADOR MAIOR PELO MENOR

João Amílcar Salgado

Ao se graduar em medicina, em 1930, Guimarães Rosa foi o orador da turma. Tive o privilégio de também ser o orador da turma em 1960, na mesma faculdade e exatos trinta anos após Rosa. Pode haver interesse no que tem a dizer o orador menor sobre o maior. A primeira idéia foi traduzir o discurso, ou seja, usar de minha condição de médico e de historiador da medicina para facilitar a qualquer pessoa seu conteúdo. Por exemplo, cabe aí comentar fato surpreendente. A turma de 30 se formou sob o impacto da revolução que acabara de acontecer e sob o impacto talvez maior de dramático incidente que envolveu estudantes, principalmente de medicina, um deles morto, em reunião do Conselho Universitário. Pois bem, ambos não comparecem à oração de Rosa, exceto se determinados trechos forem interpretados como insinuações. 

Pelo interesse mais geral, acentuo aqui duas passagens que julgo antecipadoras de sua opção criativa. De fato, já nos dois primeiros parágrafos o médico Guimarães Rosa parece dizer de sua inclinação artística, renunciando a qualquer engajamento científico:

Quando o excesso de seiva levanta a planta jovem a escalar o espaço, só à custa de troncos alheios logra ela chegar à altura – faltando-lhe as raízes, que somente os anos soem improvisar, restar-lhe-á apenas o epifitismo das orquídeas.

Tal a lição da natureza que faz com que a nossa turma não vos traga pela minha boca a discussão de um tema científico, nem ponha nesta despedida tese alguma de medicina aplicada, que oscilaria, aliás, inevitavelmente, entre a parolagem incolor dos semidoutos e o plágio ingênuo dos compiladores.

Adiante ele diz a razão da escolha do paraninfo (Samuel Libânio, um dos fundadores da Faculdade). Ela veio dos corações, num brotar de espontaneidade, quando, logo aos primeiros contatos, nele identificamos ARIEL. Ficaram inesquecíveis para nós aquelas aulas, quando ele conduzia o bando de aventais brancos por entre os leitos da enfermaria, em excursão “não menos instrutiva por menos variada que a VOYAGE AUTOUR DE MA CHAMBRE”, segundo palavras dele próprio.

A VOYAGE é célebre texto de Xavier de Maistre, de 1794, em que um homem é condenado à reclusão em seu próprio quarto, na companhia de um criado e um cão. Ali, em vez de se entregar à melancolia, propõe ao mundo nova maneira de viajar: ao redor do quarto. Ora, se Libânio considerava a ronda de leitos da enfermaria tão instrutiva quanto a VOYAGE, é quase certo que Rosa, em sua viagem ao redor do regionalismo de seu sertão nativo, o considerasse universalmente grande. Ou seja, como de Maistre, Rosa propôs ao mundo nova maneira de ser literariamente universal, conforme consagração brindada por leitores de todos os continentes. Proposta análoga fora feita por James Joyce, em uma viagem também universal ao redor de um dia e em outra ao redor de uma noite.

Luiz Savassi Rocha, nosso maior roseólogo, assinala que Carlos Drummond (formando em farmácia quando Rosa era calouro no mesmo ambiente universitário) dá notícia de outra VOYAGE ocorrida no Brasil, por sinal realizada dentro da opção descartada por Rosa no início do discurso. Foi empreendida nos limites da cela da prisão da Ilha Grande pelo eminente ornitólogo Helmut Sick, quando, por ser alemão, ali ficou recluso à época da 2a guerra mundial. Drummond diz: Aí, não podendo estudar aves em sua cela, estuda míseros companheiros de solidão: pulgas, percevejos, cupins – só destes últimos, identifica onze espécies desconhecidas.

Na mesma ocasião do Grande Sertão, Aldous Huxley propõe uma sexta VOYAGE: em torno da própria mente, com auxílio de alucinógeno – a qual Timothy Leary chamou psicodélica e de cujo culto surgiu uma seita, o delismo, para alguns, infernal.

 

38.0 - MÉDICOS ILUSTRES DA MANTIQUEIRA

João Amílcar Salgado

Invejável é o elenco de médicos da Mantiqueira. Mais ainda se o enumeramos dentro do conceito de Civilização Mantiqueira. Mais de três séculos de convivência gregária, ao longo de toda a área abrangida pelo complexo de montanhas em torno dos cumes da Serra da Mantiqueira, delimitado, na vertente paulista e fluminense, pelo vale do rio Paraíba e, na vertente mineira, pelo vale do rio Grande, geraram determinado modo humano de ser, com economia, composição étnica, linguagem, psicologia e cultura ainda hoje amplamente peculiares. Interesses alheios a tal identidade fracionaram a região entre São Paulo e Minas e, nesta, em zonas chamadas das vertentes, da mata e do sul, resultando em perda da perspectiva correta para apreciação de seu todo, por exemplo, seus médicos. Os historiadores da medicina que queiram estudá-los podem beneficiar a compreensão dos demais componentes civilizatórios, pois terão forte alicerce de nomes e fatos fundamente enraizados e confirmatórios do incomum caráter desta belíssima e generosa paisagem.

 

39.0  - NAVA FALA A ANTÔNIO CARLOS

João Amílcar Salgado

Geraldo Luiz Moreira Guedes

 

             Pedro Nava não foi, como desejava e esperava, o orador da turma em 1927 e teria ficado magoado com Juscelino Kubitschek, que optou por Odilon Behrens. Mas a decepção foi compensada pela indicação de Nava, talvez urdida por Juscelino, para porta-voz de expressivo agradecimento ao governante Antônio Carlos Ribeiro de Andrada. A turma estava tendo o privilégio de formar-se já sob a égide da novíssima Universidade de Minas Gerais, instituída, a 7 de setembro, pelo Andrada, e da qual passaram a se autodenominar primogênitos. Isso ocorreu quando era forte a amizade entre um dos filhos do governante e Nava, nas rodas literárias, desfazendo-se assim antagonismos datados da infância do memorialista em Juiz de Fora. Com isso, o recém-formado Nava é nomeado para ser homem do governo, na saúde, em Juiz de Fora, mas, intrigado com o bispo, lá não fica.

O parágrafo inicial do discurso diz:- Mesmo para aqueles de mais apoucada observação dos fatos e das coisas do nosso meio, mesmo para os até aqui obnubilados diante do desdobrar-se da vida nacional, há um fenômeno que se não pode esconder, há um fato que não se pode sofismar: é o ambiente amargo de dúvida em que neste momento vem tateando o espírito brasileiro.

Eis o final:- ...esta é a mocidade que vos cerca neste momento e que pela minha palavra agradece a realidade em que tornais as suas aspirações, o governo fecundo que vamos tendo, e mais do que isso, o exemplo inspirador que nos vem da elegância ateniense de vossas atitudes, das vossas virtudes de raça e das qualidades excepcionais do homem público que sois.

Que a semente de vossa boa vontade floresça e frutifique para a grandeza desta terra de Minas Gerais, guardadora das tradições de nossa gente, fecho e pedra de canto da nacionalidade.

 

.40.0 - BURLA RACIAL NA ADMISSÃO A EDUCANDÁRIOS

João Amílcar Salgado

             Estabelecida no Concílio de Trento (1545-73) e efetivada pelo papa Paulo V (1605-21), a Habilitação Racial e Moral à carreira eclesiástica exigia comprovação, acompanhada inclusive de invetigação secreta, de que o candidato era isento de sangue judeu, mouro, mulato e negro, ou de que não era herege ou sambentinado. Outro sangue proibido, por extensão, veio a ser o indígena das terras recém-descobertas. A presença de muitos sacerdotes mulatos e até negros, na história de Minas, indica ter sido comum burlar tal barreira racial, da colônia à república. Recentemente uma vestibulanda de pele totalmente branca e de cabelos e olhos claros se auto-identificou como negra para beneficiar-se da cota a negros inaugurada em uma universidade pública brasileira. Assim, burla racial poderá ser freqüente agora, recíproca àquela ocorrida antes.

             Muitos cristãos-novos (judeus convertidos) e mestiços conseguiram ordenar-se sacerdotes católicos, porque o descumprimento da norma acabou sendo feito graças à simples declaração verbal de eventual poderoso padrinho. Na condição de atual ou potencial benemérito do educandário, bastava que apenas afirmasse ser o afilhado isento de quaisquer de tais sangues. Outro modo era quando a autoridade eclesiástica perdoava o aspirante de portar sangue indesejável. No caso dos jesuítas, o descumprimento foi além, pois seu próprio fundador, Inácio de Loyola, e seu mais criativo intelectual, Antônio Vieira, eram cristãos-novos.

             Na medicina, houve também censura racial, embora mais contraditória que na religião, pois médicos judeus e árabes eram tidos como melhores que os demais. Por exemplo, Garcia de Orta foi condenado mais por ser judeu. Diogo Corrêa do Vale, que clinicava em Mariana, foi queimado vivo em Lisboa. Em compensação, antes, o judeu João Fares gozou do posto de médico da frota de Cabral, sendo autor do primeiro trabalho científico no Brasil. Na França há o exemplo de João Batista Silva, médico judeu de origem lusa, o único em que Voltaire confiava. Foi perseguido pela corporação médica, mas era o preferido também de Luiz 15.

 

41.0 - TIRADENTES: DE EXUMADOR PIONEIRO NA BORDA DO CAMPO A PASSANTE À MINHA PORTA

João Amílcar Salgado

             Ciro Gomide Loures deve ser considerado a maior autoridade mundial na vida e obra de Tiradentes. Entre os aspectos pouco conhecidos do herói mineiro, ressaltados por Loures, aprecio os seguintes: a) não era apenas dentista mas terapeuta de todo o corpo, b) não era mero arrancador de dente, mas hábil restaurador, c) não era dentista prático, pois na época não havia o dentista diplomado, d) fez talvez a primeira exumação medico-legal referida no Brasil, no adro da capela da fazenda da Borda do Campo e e) percorreu caminho que hoje são conhecidas ruas de Belo Horizonte. Entre as ocupações ligadas à área da saúde havia as de boticário, cirurgião, obstetra, tiradentes e sangrador, todas exercidas por pessoas não diplomadas em medicina e que podiam ou não ser acumuladas com as funções de barbeiro. Podiam também ser ou não acumuladas por quem exercia funções análogas para animais, especialmente capadores.

             Sobre a exumação apenas se sabe, por enquanto, que, segundo Diogo de Vasconcelos, Tiradentes foi incumbido de exumar corpo na Borda do Campo para efeito de esclarecer a morte.

             Sobre as ruas que hoje correspondem ao caminho percorrido por Tiradentes, podemos dizer que datam da ligação entre Vila Rica e Sete Lagoas, na picada velha de Goiás, com trechos enfim controlados por Silva Ortiz. Tiradentes foi o primeiro comandante do destacamento de Sete Lagoas, encarregado de fiscalizar a boca do sertão, contra contrabandos que desciam o rio das Velhas e o Paraopeba, rumo ao São Francisco e à Bahia. Na hoje Belo Horizonte, o caminho desce pela margem direita do córrego Acaba Mundo, até atingir o rio Arrudas junto ao Parque Municipal e daí até Sete Lagoas. Na atual zona sul da Capital, ele começa na favela do Acaba Mundo, passa pela praça Juscelino Kubitschek, acompanha a avenida Uruguai, a rua Grão Mogol e a rua Professor Morais, para descer a avenida Afonso Pena até a rua Pernambuco. Ali havia pequena ponte que dava acesso à capela primordial do Curral del Rei (o último dos currais ao sul), substituída hoje pela catedral da Boa Viagem. Após rezar, o cavaleiro prosseguia pela margem esquerda até a pequena cachoeira no hoje Parque Municipal (mais tarde pintada por Guignard), logo alcançando o rio Arrrudas e dali rumando ao norte para Sete Lagoas.

             Como resido na rua Professor Morais, Ciro Gomide me cumprimentou pela honra de morar tão íntimo desse trajeto histórico, a que respondi propondo que o ginete-médico Hélio Tavares Filho, líder de célebre cavalgada na Estrada Real, comande a cada ano outra cavalgada, com éqüidas de raças mineiras, rememorativa das andanças do nosso mais notável herói.

 

42.0 - A PEDAGOGIA COM HUMOR E ANTI-HUMOR EM MINAS

João Amílcar Salgado

             Preceito pedagógico que remonta às escolas medievais impunha a abstinência do riso entre os rigores disciplinares de nossos primeiros educandários. A fonte inicial dessa ética foi o exemplo de Jesús que jamais teria rido. Quando o cristianismo se aproximou de Aristóteles, a conseqüência seria a aceitação do riso, que, mesmo assim, sofreu resistência por séculos. Ao mesmo tempo cristólogos progressistas advogam ter Jesús rido humanamente. No Brasil o uso do riso pelos indígenas, em sua amena pedagogia, era contraditório com a violência da vara-de-marmelo, unanimidade pedagógica européia. Há, aliás, evidencia de que os defensores europeus da brandura na escola se tenham inspirado no bondade de nosso selvagem. Não distante do Caraça, a Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais, consolidou interessante tradição do uso do riso no ensino, sendo que seus estudantes cultivam igual tradição em suas críticas aos docentes, ao ensino e aos governantes, por meio do Show Medicina, ora a completar meio século.

 

43.0- CONVERGÊNCIA TOTÊMICA EM MINAS

João Amílcar Salgado

             Estudiosos reconhecem, entre os traços antropológicos da gente mineira, significativa inclinação totêmica. Parece que isso se fez mais forte em Minas por ter convergido aí imigrantes totêmicos europeus e escravos totêmicos da África, somados certamente a igual tendência indígena. Na migração lusa para Minas, houve predominância de gente de origem galega e na africana houve maioria banto, ambas com tal traço. É admirável que dois dos maiores prosadores universais estejam incluídos nesta característica cultural, quer pela origem, quer pela própria obra: James Joyce, irlandês, de cultura irmã da galega, e o mineiro João Guimarães Rosa, cujo Guimarães denuncia sua origem luso-galega.

 

44.0- PARA-NOBEIS MINEIROS

Carlos Amílcar Salgado

João Amílcar Salgado

             Propomos sejam designados para-nobeis aqueles mineiros, nativos, oriundos ou adotivos, que, em suas biografias, guardam relação direta ou indireta com ganhadores do prêmio Nobel. A lista preliminar é a seguinte: José Ferreira Pires e Álvaro Alvim ligados indiretamente a Wilhelm Roentgen, Nobel de 1901; Borges da Costa a Marie Curie, Nobel de 1903 e 1911, e a Irene Curie, Nobel de 1935; Silva Melo a Albert Einstein, Nobel de 1921; Carlos Chagas, ele próprio Nobel não consumado de 1921; Noronha Peres a John Enders, Nobel de 1954; Americano Freire a Daniel Bovet, Nobel de 1958; e João Veiga Sales a Severo Ochoa, Nobel de 1959.

 

45. 0 - EINSTEIN E SILVA MELO

João Amílcar Salgado

Gilberto Vasconcelos

 

             Silva Melo, antes e depois de terminar o curso médico em Berlim se ligou à trindade alemã fundadora da gastroenterologia mundial: os mestres Senator, Ewald e Boas. Assim, a gastroenterologia brasileira é congênita a esse nascedouro ilustre. Tendo sido assistente do sucessor Rudolf Ehrman, Melo veio para o Brasil e seu ex-chefe foi para os EUA. Einstein, dispéptico, continuou cliente de Ehrman no Novo Mundo e este indicou Melo para referencia médica e cicerone a Einstein, em viagem ao Brasil. Tal distinção ao extraordinário médico mineiro merece o pleno conhecimento dos historiadores da medicina brasileira. Quando Melo reencontra Einstein nos EUA, este veio, com um abraço efusivo, agradecer algo que Melo lhe ensinara: em toda cidade a que chegava em suas inúmeras viagens, o mercado municipal passou a ser o primeiro local que exigia visitar.

 

 

 

46.0- OS HISTORIADORES DA MEDICINA DEVEM EXPLICAR AOS JORNALISTAS A ORIGEM DOS

             CONSELHOS FEDERAIS PROFISSIONAIS

João Amílcar Salgado

Em 2004, a organização sindical dos jornalistas brasileiros propõe ao legislativo a criação de seu conselho federal. Dados do Centro de Memória da Medicina de Minas Gerais permitem o seguinte levantamento sobre a questão.

As corporações, sobretudo as de profissionais liberais, desenvolveram mecanismos de autoproteção e auto-regulação, com base nas guildas, que angariaram legitimidade institucional na Idade Média. Antes disso, entretanto, a corporação religiosa já desfrutava do privilégio de ter seus membros, quando réus, julgados em foro interno. A corporação religiosa alongou o privilégio a suas extensões seculares, que são a medicina, a magistratura e a milícia. Esta o estendeu dos engenheiros militares aos civis e a magistratura aos advogados.

Da Idade Média aos dias atuais, as associações de profissionais liberais, crescentemente poderosas, passaram a zeladoras dos deveres, dos direitos e do status dos membros respectivos – ou seja, passaram a acumular três atribuições: deontológicas, sindicais e de bem-estar. São exemplos, entre nós, a Associação Médica Brasileira (AMB) e a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Com a sociedade de consumo, surgiu forte constrangimento à dissociação tripartite dessas funções. No Brasil, na década de 60 do século 20, tal pressão culminou com a trifurcação das associações em a) conselhos regionais e federal (deveres), b) sindicatos (direitos) e c) associações enfraquecidas (agarradas a um status hoje quase simbólico, do qual vêm sendo destituídas).

A trifurcação brasileira se deu sob duas circunstâncias especiais. A OAB de certa forma desacatou a trifurcação e a AMB, na época talvez mais forte que a outra, foi submissa. A força da AMB decorreria de: 1) as fortes associações estaduais tinham acabado de se reunir em poderosa associação nacional e 2) o presidente da república era o médico Juscelino Kubitschek (JK) e seu mais influente ministro era outro médico e também autoridade em educação, Clóvis Salgado. Ora, não seria crível que ambos pudessem criar algo contra os médicos. Mas poucos ou nenhum dos médicos do país puderam correlacionar a tal trifurcação com a mágoa que JK e Salgado deviam ter da associação de Minas. De fato, quando o governador JK despontava como candidato presidencial, os médicos mineiros, quase todos udenistas, tentaram provocar sua expulsão da associação mineira, com o objetivo, que se frustrou, de abortar sua candidatura.  

 

 

47.0- A COMUNICAÇÃO COLETIVA COMO HISTÓRICA AMPLIFICADORA DA DESINFORMAÇÃO EM SAÚDE

 

Carlos Amílcar Salgado

João Amílcar Salgado

 

Os abusos consumistas da indústria de saúde tem sido amplificados pelo desenvolvimento da comunicação coletiva. Cabe aos historiadores documentar a evolução do nexo entre comunicação e saúde.

Quase todos os atuais artifícios de comunicação coletiva já existiam esboçados pelas religiões, mesmo sem as máquinas atuais. A primeira profissão laica a utilizá-los foi a medicina. A propaganda de médicos e de medicamentos se multiplicou logo que surgiram os primeiros livros impressos e os primeiros periódicos. O merchandising dos profissionais, antes restrito aos ambientes palacianos, hoje inunda a televisão, mas como concorrente menor do marketing de serviços e produtos (medicamentos, alimentos e equipamentos). Todos são caudatários da coca-cola, que, de estimulante manipulado em farmácia no século 19 (com dois ingredientes xamanísticos: a folha de coca e a noz de cola), passou a símbolo da sociedade consumista. 

A publicidade brasileira já foi notória internacionalmente, o que é motivo de orgulho mas também de preocupação, como atesta o fiasco ético do anúncio de cigarro protagonizado pelo craque Gerson. Sabe-se que, no treino desses publicitários, utilizaram-se os reclames célebres do bromil, do biotônico, do rum creosotado e do vinho Silva Araújo (este esportado como medicamento para os EUA durante a lei seca). Por sinal, o jeca-tatu de Lobato fez explodir o consumo do biotônico, quando qualquer médico sabia que sua fórmula era imprópria à anemia do jeca, enquanto seu fabricante também sabia que a fórmula própria prejudicaria sua aceitação.

Essa mesma publicidade foi usada para abafar e desinformar erros trágicos da indústria, quando a comunicação engatinhava. Hoje, quantos crimes estão sendo abafados e desinformados? Cumpre aos historiadores revelar o encoberto e substituir a desinformação por informação, ao longo dos séculos. A fiscalização e a punição aí têm sido historicamente ridículas, sendo hoje insignificante diante da influência difusa de super-poderosas empresas. Tudo facilita sua perversa cobiça, principalmente o afrouxamento e a relativização dos escrúpulos éticos, tão característicos do mundo globalizado, que culmina com a aceitação natural e até a instituicionalização de agentes corruptores ora designados pelo eufemismo de lobistas.              

 

 

48.0- AO-PERSISTIREM-OS-SINTOMAS É UMA BOFETADA HISTÓRICA NA DIGNIDADE DO MÉDICO

 

João Amílcar Salgado

 

A automedicação foi objeto de pouca ou nenhuma pesquisa por parte dos historiadores da saúde. Dados coligidos em Minas Gerais indicam que sua história está superposta à da religiosidade popular, das terapias hoje chamadas alternativas e das ocupações da saúde não exercidas por médicos.

Reciprocamente, a vigilância sanitária na área química e farmacêutica também tem sido evitada pelos historiadores. Na química nascente do século 18, aconteceram cem anos de invalidez e morte, pelo uso a esmo de doses maciças das primeiras substancias purificadas, a ponto de surgir a homeopatia, que, sob tal perspectiva, foi um pedido histórico de clemência, em favor da diluição dos tóxicos. Ingenuamente se acreditou que as farmacopéias, inicialmente não-oficiais e depois oficiais, fossem suficientes para corrigir abusos decorrentes da cupidez mercantil. Veio então a polícia médica de Peter Frank no começo do século 19. Desde então, a vigilância ficou estagnada ou apenas maquiada, na justa medida em que a mercantilização se tornou imensamente poderosa.

Tal descalabro culmina com inacreditável anúncio com que somos agredidos diariamente. Trata-se de ostensivo apelo à automedicação, que se completa com acintoso e cínico lembrete: ao persistirem os sintomas o médico deverá ser consultado. A vigilância sanitária, os ministérios da saúde e das comunicações, bem como as entidades médicas e dos farmacêuticos são, portanto, inescapáveis co-réus deste duplo crime. Duplo por que? Não contente em pôr em risco a população pelo incitamento à automedicação, o anunciante constrange os médicos, e à própria revelia destes, a passivos cúmplices e a humilhados legitimadores de tão infame e perversa gana consumista.

Diante de tanto descalabro, resta à vigilância sanitária ouvir um apelo: que se distancie do século 19 e se encoraje para enfrentar o gigantismo dos interesses do narcotráfico, do terrorismo químico e biológico, dos fabricantes de venenos agrícolas e domésticos, da indústria de alimentos, bebidas e tabaco, das transnacionais farmacêuticas e da neoindústia do doping e dos transgênicos.

.  Como fazer vigilância de tantas ardilosas atividades, por meio de pachorrenta burocracia, altamente vulnerável à corrupção, que, ao mesmo tempo, tem de ficar super-alerta contra o recrudescimento veloz das pestes infecciosas, não só humanas, mas animais e vegetais?

 

 

49.0- OS COMITÊS-DE-ÉTICA-DA-PESQUISA IMPÕEM HISTÓRICA ASSIMETRIA ÉTICA À SOCIEDADE

Carlos Amílcar Salgado

João Amílcar Salgado

 

Os comitês de ética da pesquisa aparentemente são um avanço na proteção contra o uso de sujeitos humanos como cobaias. Os autores de tal iniciativa deveriam ter sido alertados de que a ética é exigente para com todas suas necessárias implicações. Em outras palavras, certa medida ética, em determinada área, exige equânime coerência para com as demais áreas. O Centro de Memória da Medicina de Minas Gerais arquiva estudos feitos desde a década de 70 do século 20, referentes à ética ligada ao ensino médico. Entre os participantes de tais estudos, havia cientistas de alta reputação e pugnazmente ciosos em assegurar condições ótimas, inclusive éticas, para suas pesquisas. Colegas pedagogos e sanitaristas, nesses estudos, pediram, então, aos cientistas que fossem coerentes e transpusessem, para as áreas da educação e da atenção à saúde, as mesmas exigências de condições ótimas, inclusive éticas. Daí surgiram iniciativas curriculares consideradas inovadoras.

Na década de 90, quando a grande indústria farmacêutica passou a se interessar por ensaios terapêuticos multicêntricos, surgiram os tais comitês de ética da pesquisa, inclusive impulsionados por novo tipo pugnaz de especialista, os bioeticistas. Os pedagogos e sanitaristas da década de 70 certamente estão aguardando o surgimento dos comitês de ética na educação e os comitês de ética na atenção médica. Parecem comitês particularmente urgentes, quando se agrava a total insensibilidade para com a educação pública e para com a atenção púbica à saúde. Ainda mais, quando a indústria altamente lucrativa de escolas médicas e de chamados planos de saúde adquire poder decisivo e até decisório junto às instâncias governamentais.

 

 

 

 

 

50.0 - OS SEM-TERRA NEOCUPACIONAIS DA SAÚDE

João Amílcar Salgado

Paulo Cordeiro de Faria

 

Várias ocupações da área da saúde podem ser caracterizadas como novidades neocupacionais e que estão surgindo, ou por exigência do desenvolvimento tecnológico ou por exigência apenas do mercado. O Centro de Memória da Medicina de Minas Gerais vem estudando as ocupações não-médicas em saúde, decorrentes da importância delas na história de Minas, a exemplo de Tiradentes e, antes dele, de Gomes Ferreira, o cirurgião (não-médico) autor do Erário Mineral.

Por outro lado, é possível documentar como a medicina, que detinha uma ocupação não muito diversa da exercida pelos sacerdotes, passou a incorporar, como suas, diversas atividades exercidas por gente subalterna e até por escravos. Para usarmos o paralelo referente à propriedade agrária, diríamos que os médicos passaram a grilar as ocupações antes desprezadas, quando, já no início do século 20, se tornou uma profissão latifundiária.

A partir do advento da medicina de consumo, surge fenômeno oposto, pelo qual o vasto território ocupacional apossado pelo médico passa a ser invadido e ocupado por aqueles que seriam os sem-terra da saúde. E entre estes identificamos tanto os terapeutas alternativos como os neoprofissionais atuais. O curioso é que, na denominação destes, observam-se nomes que são mais genéricos do que as respectivas denominações exclusivas de médicos (por exemplo, fisioterapeuta versus fisiatra, fonoaudiólogo versus  foniatra). Ou então tendem desafiadoramente a usar, na composição do nome da neocupação, o próprio vocábulo médico, como se fosse uma desinência (por exemplo, para-médico, bio-médico).

A corporação médica, destituída de seu antigo prestígio feudal, se limita humildemente a lutar para que acatem sua própria definição do que é ato médico, antes que nem isso consiga preservar.

 

51.0– SIGNIFICADO HISTÓRICO DO GANGSTERISMO EDUCACIONAL E DO ESTELIONATO PRÉ-PAGO EM SAÚDE

João Amílcar Salgado

 

Um dos serviços que os historiadores da saúde podem prestar ao país é esclarecer a evolução conjunta, havida na educação e na saúde, que desembocou em dois fenômenos dramáticos da presente crise social brasileira: o gangsterismo educacional e o estelionato pré-pago em saúde. O Centro de Memória da Medicina de Minas Gerais dispõe de dados que permitem apontar atores e autores dessa derrocada.

No âmbito do que ainda era a promessa do governo federal de Tancredo Neves, foi reunido em Brasília um grupo de trabalho do qual participei ao lado de Sérgio Arouca, Maria Cecília Donnangelo e Hésio Cordeiro. O objetivo era discutir a perspectiva para a saúde e a educação, naquele momento de redemocratização. A morte de Tancredo levou tudo por água abaixo, pois o governo Sarney passou a acatar ostensivamente a conspiração que se armara, na surdina da ditadura, em favor da mercantilização da educação e da saúde. A seguir, tivemos a doce ilusão de que a constituinte e a nova constituição eram nossa resposta mortal contra tal iniquidade. 

Conseguimos até acabar com o corrupto Conselho Federal de Educação, útero do gangsterismo educacional. Foi em vão: seu substituto logo era sua imagem. Por outro lado, as empresas de serviço pré-pago em saúde já se preparavam para tornar-se seguradoras tradicionais, quando perceberam que a constituição não era para valer. E hoje desabusadamente levam o ministro da saúde ao ridículo seu de cada dia, enquanto lucram com bilhões extorquidos dos rebaixados rendimentos das classes média e pobre. A pusilanimidade do governo e de todos nós está às vésperas de institucionalizar de vez não só o gangsterismo educacional como o estelionato pré-pago em saúde.

 

 

 

 

 

 

52.0- A ORIGEM ANTI-MÉDICA DE MANGUINHOS, DO INSTITUTO PASTEUR E DA FUNDAÇÃO ROCKEFELLER

Carlos Amílcar Salgado

João Amílcar Salgado

 

Parte dos interessados na história da medicina está sendo desinformada por autores que procuram narrar triunfalmente a evolução da ciência e da tecnologia médicas, à maneira dos filmes épicos de Hollywood. No século 19, por exemplo, quando aconteceram radicais transformações na ciência e na tecnologia, a medicina oficial era refratária a qualquer ameaça a seu status quo, recheado de fossilizados resquícios da velha prática medieval. Os grandes avanços foram feitos por não-médicos (os químicos Pasteur e Curies, o dentista Morton, o frade Mendel, o naturalista Darwin, a enfermeira Nightingale, o engenheiro Roentgen) e, quando alcançados por médicos, estes eram médicos marginais (os médicos rurais Jenner, Long e Koch, o rousseauniano Bernard, o forasteiro Semmelweiss, o comunista Virchow, o escorraçado Freud).

Para a criação do Instituto Pasteur foi necessária a contribuição de estrangeiros, tal a oposição médica ao microbiologista, sendo a instituição erguida longe da universidade. A imensa fortuna de Rockefeller doada à saúde se fez Fundação também longe de instituições médicas, por influência do homeopata particular do doador.

No Brasil, Osvaldo Cruz localizou Manguinhos na diagonal oposta à Faculdade de Medicina e essa polaridade veio a atingir Carlos Chagas, sucessor de Cruz, com o consequente impedimento para que recebesse o prêmio Nobel de 1921. 

 

 

53.0- MANGUINHOS, O TENENTISMO MÉDICO E A UNIVERSIDADE DO DISTRITO FEDERAL

João Amílcar Salgado

Márcio Moreira Mendonça

 

O movimento tenentista se opunha a quase todos e a tudo que representassem a Primeira Republica. Por coerência, portanto, deveria opor-se a Manguinhos. Uma circunstância da política mineira de certa forma preservou Manguinhos, pois Carlos Chagas era seu diretor durante o tenentismo, enquanto seus primos do ramo Pinheiro Chagas eram ativistas tenentistas. 

Por outro lado, pode-se caracterizar um tenentismo médico no grupo que se beneficiou das primeiras incursões brasileiras da Fundação Rockefeller, no Rio, em Minas e em São Paulo. Nele está incluído o patologista Carlos Pinheiro Chagas (orador no enterro de João Pessoa), do bioquímico Baeta Viana (reitor da Universidade do Distrito Federal), dos inauguradores da Universidade de São Paulo e, de certo modo, o próprio Carlos Chagas. A morte inesperada tanto de Carlos Chagas como de seu primo Carlos Pinheiro Chagas impôs um período crítico a Manguinhos até a queda de Vargas, quando o plano SALT trouxe forte ingrediente adicional dos EUA.

 

 

54.0- MANGUINHOS, FLEXNER E A CRIAÇÃO DA FACULDADE DE BELO HORIZONTE

João Amílcar Salgado

Ájax Pinto Ferreira

A criação em Belo Horizonte, em 1911, da primeira escola médica brasileira afastada do litoral foi de pouco antecedida pela criação também aí de uma filial de Manguinhos e coincidiu ainda com a apresentação nos EUA do relatório Flexner sobre educação médica. O ensino na nova faculdade foi moldado no do Rio, sendo este baseado no modelo francês.

Caso os fundadores da filial e da faculdade estivessem atentos ao relatório, a oportunidade teria sido ótima para dar um salto à frente na formação de nossos médicos. Isso porque a proposta de Flexner era substituir os laboratórios didáticos preclinicos por verdadeiros laboratórios de pesquisa, como os de Manguinhos, onde os futuros médicos seriam preparados para se comportarem como cientistas na prática clínica. 

Isso não se deu porque, mesmo que Ezequiel Dias, concunhado de Osvaldo Cruz, tenha sido um dos fundadores da nova faculdade, prevaleceram aí o peso do modelo francês e a experiência de Cruz no relacionamento polar com a escola médica.

 

 

 

 

 

55.0- CONTRIBUIÇÃO MINEIRA AO BRILHO DA MEDICINA DO RIO DE JANEIRO

João Amílcar Salgado

Sebastião N. S. Gusmão

Honra a medicina mineira ter contribuído para o brilho da medicina do Rio de Janeiro. Vital Brasil, Carlos Chagas, Pedro Nava, Silva Melo, Martinho da Rocha, Ivo Pitangui e Hélio Pellegrino são os nomes mais notórios desta participação. Longa, entretanto, é a lista de outros ilustres mineiros, natos ou oriundos de famílias mineiras.

Historicamente ela se inicia com três notáveis: Vicente Silva Teles, o primeiro a escrever livro de química no idioma luso, Joaquim Soares Meireles, fundador da Academia Imperial de Medicina e Francisco de Paula Cândido, modernizador claude-bernardiano do ciclo preclínico e herói da epidemia de cólera em Paris.  

E seguem-se nomes à mesma altura: Adauto Botelho, Aleixo de Brito, Álvaro Aguiar, Álvaro Alvim, Basílio Furtado, Belizário Pena, Camilo Armond, Carlos Chagas Filho, Célio do Carmo, Domingos Junqueira, Eurico Vilela, Evandro Chagas, Francisco Furquim Werneck, Geraldo Siffert, Gonçalves Gomide, Ivolino de Vasconcelos, Júlio Sanderson, Lauro Sollero, Lima Duarte, Leonel Gonzaga, Lúcio de Sena, Pedro A. Pinto, Ribe Portugal, Teófilo de Almeida, Vieira Matos e Walter Teles.

Vale lembrar a notoriedade dos sextanistas Agripa Vasconcelos, Bernhaus de Lima e Cícero Ferreira, bem como do expedicionário de submarino Hélio Lopes. Para representar aqueles que clinicaram no interior fluminense, citamos Amir Azevedo, o memorialista que tantos serviços prestou a Barra Mansa. Reciprocamente, médicos do Rio de Janeiro marcaram com brilho a medicina mineira, como Álvaro de Barros, Borges da Costa, Eduardo de Menezes, Ezequiel Dias, Fernandes Figueira, Henrique Sá e Hugo Werneck.

 

56.0- DIAMANTINA EM TEXTO DE JÚLIO VERNE

Oscarino Figueiredo

 Sebastião Gusmão

João Amílcar Salgado

      O francês Júlio Verne (1828-1905) é escritor de reconhecida influência nos séculos 19 e 20 e guarda interessantes relações com Minas e com a medicina mineira. A cidade mineira de Diamantina é personagem de um de seus livros. Outra ligação existe de Verne e Afonso Pavie (ambos nascidos em Amiens) com Itamarandiba, pois esta é cidade adotiva do segundo, sendo vizinha a Diamantina. A seguir, vem a influência de Verne sobre dois singulares homens de Minas: o admirável médico Antônio da Silva Melo e o extraordinário inventor Santos Dumont. Finalmente, temos a relação indireta de Júlio Verne com o francês Xavier de Maistre e deste com Samuel Libânio e Guimarães Rosa.

 

 

57.0- NOTÍCIA SOBRE O AUTOR DE SAUDADE DO MATÃO EM JORNAL DE PATROCÍNIO

Valênio Peres França e

João Amílcar Salgado

      Em dois congressos anteriores, apresentamos estudo sobre o verdadeiro autor da canção Saudade do Matão, que é o músico mineiro José Carlos da Piedade, acometido de hanseníase. Após sua morte no Sanatório Santa Isabel, em Betim, sua música, uma das consagrações seculares de nosso cancioneiro, foi registrada por terceiros. A propósito de pesquisa sobre a biografia do cardiologista Vicente Soares, localizamos agora documento importante referente ao autor e sua canção, que é uma notícia no jornal Gazeta de Patrocínio, cidade natal de Piedade, datada de 1938. Nela se lê: Pobre e infeliz, sozinho e doente, José Carlos da Piedade, recolhido no Pavilhão de Patrocínio da Colônia Santa Isabel, talvez nem saiba que a sua música esteja fazendo tanto sucesso. O sucesso referido, de música composta bem antes, ocorria então, em virtude do boom alcançado pela radiodifusão, no final dos anos 30 do século 20.

 

 

58.0  O MÉDICO JUDEU-PORTUGUÊS EM QUEM VOLTAIRE CONFIOU

João Vinícius Salgado, Carlos Amílcar Salgado e João Amílcar Salgado

             Voltaire (1694-1778) desprezava e satirizava os médicos de seu tempo, acusando-os de incompetentes. Era dispéptico e recorria a remédios caseiros para este ou qualquer sintoma. Havia, entretanto, um médico no qual confiava e este era de origem portuguesa. Portugueses judiados em Portugal refugiaram-se em colônia próxima a Bordeus e ali nasceu o famoso Docteur Silva, clínico de Voltaire. A colônia, nesta época, já estava bastante afastada de sua origem lusitana. Os demais médicos o perseguiam no exercício da profissão, acusando-o de judeu, e isso o fazia mais assediado ainda pelos clientes. O rei Luís 15, ao ser coagido a agir contra Silva, lembrou que se o adversário dos médicos o tinha como competente, ele, o rei, o queria para si. E o fez médico da corte.

 

 

 

 

 

59.0- ATAÚLFO COSTA RIBEIRO COMO PSIQUIATRA DE NIETZSCHE

João Vinícius Salgado

João Amílcar Salgado

                   O livro A PSICOSE DE NIETZSCHE, ora em publicação, representa o coroamento dos textos escritos pelo psiquiatra, poeta e ensaísta Ataulfo Costa Ribeiro, formado na UMG (UFMG) em 1949. O autor é, sem dúvida, a maior autoridade brasileira em Nietzsche e, sendo psiquiatra e erudito, é a pessoa adequada para estudar o lado mais enigmático do insigne filósofo: sua demência no final da vida. Seus colegas do Centro de Memória da Medicina de Minas Gerais o aconselham a publicar o livro também no exterior, pois parece que nenhum estudo semelhante foi feito no mundo até o momento. Entre outros méritos, a pesquisa de Costa Ribeiro vem desfazer, com rigor técnico, a insinuação maldosa dos que o dizem demente desde seus primeiros textos.

 

60.0 – VAMOS CONVERGIR O PRÊMIO NOBEL E O CENTENÁRIO DA DESCOBERTA DE CARLOS CHAGAS

Carlos Amílcar Salgado

João Amílcar Salgado

             Em 2009, acontecerá o centenário da maior realização da ciência brasileira, a descoberta da doença de Chagas, realizada por um médico mineiro, Carlos Chagas, em seu próprio Estado, na cidade de Lassance. Trata-se de fato singular no âmbito da nosologia, pois o processo pelo qual o cientista chegou à nova verdade científica difere das demais descobertas de doenças. Enquanto estas são de caráter indutivo, Chagas o fez por meio dedutivo. Além disso, o próprio descobridor se encarregou de ele próprio esclarecer quase todos os aspectos da nova doença, da parasitologia à epidemiologia, da clínica à prevenção. Ora, tão formidável feito, em qualquer país, significaria a conquista de premiação máxima. Todas as indicações apontam para o fato de que Chagas foi agraciado com o prêmio Nobel de 1921, ou seja, foi efetivamente premiado, mas, por razões políticas, foi impedido de receber a distinção. Não se trata, pois, de ser agraciado post mortem, o que não é possível, mas de receber o prêmio que já está concedido. É nosso dever lutar para que o receba no centenário da descoberta.

 

61.0- PEDRO NAVA E DOIS BRONZES: DE PASTEUR E DE AURÉLIO PIRES

Ájax Pinto Ferreira

João Amílcar Salgado

             O Centro de Memória da Medicina de Minas Gerais foi inaugurado de fato, em 1978, por uma doação feita pelo maior memorialista lusófono, Pedro Nava, que também é ex-aluno da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais e fundador da reumatologia brasileira. Ele fez a doação de um busto de Pasteur, que os médicos paulistas haviam oferecido a Carlos Chagas, em 1912, em homenagem a sua descoberta. A família Chagas o doou a Nava, em agradecimento pelos cuidados clínicos que prestou a Dona Íris Lobo Chagas, viúva do descobridor. Pouco antes da doação, Nava protestara junto ao diretor Luiz de Paula Castro pela ausência, no saguão da mesma Faculdade, do nome de Aurélio Pires, entre os fundadores. Castro prometeu reparar a ausência, mas a providência concreta só foi tomada no centenário de nascimento de Nava, em 2003, pelo diretor Geraldo Brasileiro Filho. Foi confeccionada a réplica em bronze da assinatura de Aurélio Pires, que, mais que fundador, foi o idealizador da Faculdade. A assinatura, entretanto, não foi colocada ao lado das demais, por objeção surgida na Congregação da Faculdade. Felizmente, em 2005, a justiça à memória de Aurélio Pires foi decidida em votação vitoriosa naquele colegiado, devendo seu nome ser afixado festivamente em breve.

 

 

62.0 - LIVRO INÉDITO DO MÉDICO MINEIRO AGRIPA VASCONCELOS SOBRE HISTÓRIA DA

              CIRURGIA

Mara Vasconcelos Mancini

João Amílcar Salgado

No arquivo pessoal do admirável médico mineiro Agripa Vasconcelos foi encontrado o manuscrito inédito intitulado HISTÓRIA CRÍTICA DA CIRURGIA BRASILEIRA, datado de 1933. Trata-se de obra de grande importância, seja para a história da literatura brasileira, seja para a história da medicina. De fato, Agripa Vasconcelos é tido como autor exclusivo de biografias romanceadas de personagens da história de Minas, como Dona Beja, Dona Joaquina, Chica da Silva e Chico Rei. Havia a curiosidade sobre eventual obra deste ilustre escritor (também fino poeta) que tratasse de história não romanceada. Do ponto de vista da historia da medicina mineira e brasileira, o novo livro vai compor conjunto fundamental, de autoria de médicos mineiros. Ficará definitivamente na companhia ilustre dos livros posteriores de Lucio Nelson de Sena, de Pedro Sales e de Pedro Nava.

 

63.O - PEDRO NAVA E OS VIADUTOS

Marcus Gazel Colen

João Amílcar Salgado

             O viaduto de Santa Tereza em Belo Horizonte é personagem de Carlos Drumond de Andrade, de Pedro Nava e da memória de toda a juventude belorizontina da primeira metade do século 20. Se Drumond andou sobre seus arcos, Nava teve para com ele anseios de eros e tanatos. Um de nós, Marcus Colen, estava passando de madrugada pelo viaduto da Floresta, que faz par com o de Santa Tereza, e notou que seu prolongamento sobre o rio Arrudas estava em vias de depredação. Receoso de que acabasse descaracterizado, tentou recolher para si um fragmento semi-desprendido de sua ornamentação. O pedaço, entretanto, não se desprendeu de todo. Por telefone, Nava ouviu o relato do fato e urgiu que a peça fosse recolhida de qualquer maneira, acompanhando a providência com outros telefonemas. Assim foi feito e a peça ficou resguardada em um escritório, aguardando a visita do memorialista. Certo dia, aquele troféu não mais estava em seu local habitual e a faxineira informou que aquilo fora levado pelo caminhão de lixo, pois ela decidira que era algo impróprio à aparência do escritório.  

 

 

64.0- A IDÉIA DE UM EVENTUAL CÓDIGO DA-VINCI NASCEU EM MINAS

João Amílcar Salgado

 Fernando Araújo

             Recentemente um livro e um documentário na televisão tratam daquilo a que se dá o nome de CÓDICO DA-VINCI. Consiste na interpretação de que o pintor cifrou no quadro da Santa Ceia a mensagem de que Maria Madalena não só foi um dos apóstolos, como teve uma filha com Jesus. Ora, a idéia de eventual código Da-Vinci nascera bem antes em Minas, no início da década de 60 do século 20, de estudo feito pelo professor Santiago Americano Freire, catedrático de Farmacologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais. Freire propôs que a Santa Ceia fora de fato criada por Da-Vinci como instrumento para transmitir leis astronômicas descobertas por ele, mas que decidira trazer à posteridade sob forma cifrada, por temor à inquisição. O livro foi publicado pela Universidade e hoje é raridade, mas que, com a primazia aqui assinalada, deve ser objeto de estudo comparativo com o outro código.

 

65.0 - A SAÚDE NA HISTÓRIA DO RIO DAS VELHAS

João Amílcar Salgado

      No livro VIAGEM PELO RIO DAS VELHAS DAS MINAS AOS GERAIS, editado por Eugênio Goulart para o Projeto Manuelzão, contribuo com o capítulo HISTÓRIAS SUBMERSAS NO RIO QUE NÃO QUER MORRER, no qual menciono vários aspectos da saúde inaugural de Minas. Estes se estendem desde a febre que causou a morte de Fernão Dias, passando pelo bócio endêmico, até a poluição precoce causada não só pelas catas altas, mas por faisqueiras de qualquer espécie ou lugar. E chegam também ao vasilhame de estanho e à captação jusceliniana do próprio rio. Considero também os aspectos sanitários da transição entre as locomoções tropeira, fluvial e ferroviária, hoje substituídas pela rodoviária e aérea. Outro fato é a repercussão internacional da Lagoa Prodigiosa (hoje Lagoa Santa) e a presença cedo em Minas de médicos e cirurgiões provenientes de vários países.

 


ANEXOS

 

 

Manifesto sobre prêmio Nobel a Carlos Chagas

 

 

Manifesto contra saque a bens históricos e culturais de Minas

 

 

Documento histórico sobre saúde e educação em Minas e no Brasil