Archivo:Gregorio Marañón - retrato.pngGREGORIO MARAÑÓNDE OLIVARES segundo VELAZQUEZ

 

João Vinícius Salgado

João Amílcar Salgado

           Ao mesmo tempo em que Karel Rokytansky (1804-1878), Sigmund Freud (1856-1939), Alfred Adler (1870-1937), Carl Jung (1875-1961), Sabina Spielrein (1885-1942) e respectivos discípulos e dissidentes debatiam propostas inéditas sobre a sexualidade humana, um médico espanhol, Gregório Marañón, fazia estudos sobre o mesmo tema, só que de um ponto de vista muito peculiar. Apoiado em enorme competência clínica, especialmente na nascente área da endocrinologia, aliada a magnífica erudição humanística, e também em privilegiado talento de escritor e poliglota, Marañón fez audacioso uso do método de estudo de caso para analisar o comportamento sexual de figuras históricas.

           O madrileno Gregório Marañón y Posadillo (1887-1960) percorreu invejável trajetória de uma vida nunca contemplativa. Sem deixar de ser influente intelectual católico e médico de confiança da Casa Real espanhola - participou do início do movimento republicano, discordou dos republicanos extremados e foi hostilizado pela ditadura franquista. Entre importantes contribuições cada vez mais atuais para os problemas humanos, fez fascinante exame da SÍNDROME DE DONJUANISMO a partir do próprio João Tenório histórico. No livro DON JUÁN, ENSAYO SOBRE EL ORIGEN DE SU LEYENDA, de 1940, seu propósito foi caracterizar o quadro nosológico, de modo a abranger tanto o lado psiquiátrico como o endócrino. O próprio lema atribuído a Don Juan, de que a conquista é tudo, a posse é quase nada, lhe é precioso instrumento semiótico.

Para apreciar o contexto da ousadia dessa temática, vale lembrar que, exatamente em 1940, o médico mineiro Aloísio Resende Neves verificou, pela primeira vez no individuo humano, o efeito esterilizante dos hormônios sexuais, principio da pílula anticoncepcional - ocasião em que a autoridade católica de Belo Horizonte considerou seu comunicado científico como indecente. Em contrapartida, supõe-se que os posicionamentos de Marañón, em questões éticas, tenham influído nas diretrizes assumidas pelo Papa Pio 12 (1876-1958). Demais, esta  foi a época do pensamento eugenista, que, no caso do Brasil, está resenhado criticamente no livro NOS SERTÕES DE GUIMARÃES ROSA de Carlos Alberto Correa Salles, de 2011.

           O livro de Gregório Marañón mais difundido é ENSAYOS SOBRE LA VIDA SEXUAL, de 1946, elaborado a partir de TRES ENSAYOS SOBRE LA VIDA SEXUAL, de1926. Ora, é possível que exatamente a projeção de Marañón de  respeitado intelectual católico tenha causado forte curiosidade por esse livro. Exemplo disso é o interesse que despertou em Pedro Vidigal (1909-2006), conhecido ex-padre mineiro que também se manteve humanista católico, depois de se casar sob licença papal. As idéias de Marañón entusiasmaram tanto Vidigal que o levaram a formular uma teoria endócrina dos sete pecados capitais. O brasileiro levou-a pessoalmente ao sábio espanhol, que o ouviu com vivo interesse e estímulo. Presenteou o ex-sacerdote, inclusive, com a coleção autografada de suas obras completas.

           Na Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais, Marañón foi muito lido e comentado, principalmente no meio estudantil, durante os chamados anos dourados (entre 1945 e 1964). Ele esteve no Brasil em 1939. Foi autor de realce  inclusive para aqueles atarefados no atendimento clínico, pois seu MANUAL DE DIAGNÓSTICO ETIOLÓGICO, de 1946, com numerosas edições e reedições em todo o mundo, foi popular vade-mécum de várias gerações de médicos. É um livro, por sinal, que exibe o soberbo domínio do autor sobre o panorama geral da medicina e sua inovadora maneira de mostrar como o médico inteligente pode otimizar seus neurônios em favor de célere percurso propedêutico. Tal competência ele a bebeu na excelente tradição clínica espanhola e a complementou, no âmbito da pesquisa científica, quando, no Instituto de Terapia Experimental em Frankfurt, na Alemanha, foi auxiliar de Paul Ehrlich (1854-1915) na descoberta do salvarsan, o primeiro medicamento eficaz contra a sífilis. O suntuoso polímata Gregório Marañon e Severo Ochoa (1905-93), prêmio Nobel de 1959 (quase veio para Minas Gerais), são os discípulos de Santiago Cajal (1852-1934, prêmio Nobel de 1906), que desmentiram o pessimismo do mestre diante do futuro da ciência espanhola.

           Sugerimos aos psiquiatras mais jovens que conheçam Gregório Marañón e sua obra, especialmente as síndromes descritas por ele, através do citado método de estudo de caso: o don-juanismo antes mencionado, a timidez em seu livro AMIEL (1932), o ressentimento em TIBÉRIO (1939), a intriga e traição em ANTONIO PEREZ (1947) e a paixão de mandar em  EL CONDE DUQUE DE OLIVARES (1936). Neste último, é relatado que o conde-duque, em sua avidez pelo poder, se envolve em episódio tão incrível que chegou à posteridade, recheado de acréscimos e distorções, mas que traz particular interesse atual. Vamos referi-lo nas próprias palavras de Marañón:

“O primeiro acontecimento escandaloso verificou-se em 1628 e foi um episódio típico da seita dos Iluminados, segundo a qual o homem professo na mesma, padre ou frade, se deveria juntar com várias mulheres santas para engendrar nelas profetas. Esta era a essência da sua doutrina: o iluminado, abismado na essência divina, aniquilando-se por assim dizer, chega a um estado de perfeição e irresponsabilidade tal que o pecado cometido deixa de ser pecado. [É oportuno lembrar que a idéia de que a estrutura mental dos místicos possa ser traço hereditário (polar em relação à dos esquizofrênicos) foi retomada mais tarde por Aldous Huxley, com base no efeito de alucinógenos, no livreto CÉU E INFERNO, de 1956]

Desta última ordem de personagens, mais cínicos do que heterodoxos, era, sem dúvida, frei Francisco Garcia Calderón, prior e confessor das monjas beneditinas [do convento] de São Plácido. Tinha cinqüenta e seis anos de idade, o que torna menos desculpável a sua pouca vergonha. Abusando da enorme autoridade que tinha sobre as monjas, a começar pela prioreza, Dona Teresa de La Cerda, provocou ou contribuiu para provocar nelas uma verdadeira crise de histerismo, que atingiu vinte e seis das trinta mulheres que compunham a comunidade, algumas quase crianças ainda. Nem é preciso afirmar que este desequilíbrio coletivo foi diagnosticado pelo médico do convento como um caso de indubitável possessão demoníaca. Julgaram as infelizes, e na melhor boa fé, que estavam possuídas por um diabo feroz, chamado Peregrino Raro, e elas próprias descrevem os fenômenos nervosos e as visões que tinham, nas suas declarações ao Tribunal da Inquisição. São documentos clínicos de valor indiscutível, mas que para o caso não interessam. Julgando-se possessas, prestaram-se a exorcismos e a práticas quejandas do frade, que satisfazia nelas o seu instinto de domínio, reprimido em tantos homens fracassados, e que no fim acaba por se saciar em condições anormais. Uma vez informada a Inquisição, foram presos as monjas, o capelão e uma beata. As sentenças, pronunciadas em 1630, foram misericordiosas, tendo em conta os delitos que nelas parecem confirmados. D. Francisco foi condenado à reclusão perpétua num convento e D. Teresa a permanecer quatro anos num convento de S. Domingos el Real, de Toledo. As demais monjas foram repartidas por diferentes mosteiros.” Em 1647 todas as mulheres foram indultadas. A condenação amena desses monges contrasta com a violência usada pela mesma Inquisição contra Giordano Bruno (1548-1600), queimado vivo 47 anos antes.

A relação do Conde-Duque com esta história é que ele era visitante assíduo das religiosas desse convento de São Plácido, aonde ia a pretexto de obter das possessas antevisões para seus projetos. Isso causou, inclusive, histórica derrota militar dos espanhóis sob os holandeses, pois a prioreza previu que estes perderiam a luta, e De Olivares deixou de enviar reforços. Sua paixão de mandar, aliás, parece que foi retratada por Diego Velazquez (1599-1660, nascido de fato em Portugal) por meio da desproporção cabeça-corpo, em um dos retratos que fez de seu mecenas.

Na oportunidade em que rememoramos tais acontecimentos, estamos presenciando a articulação, propiciada pela internete, de grupos autodenominados Iluminados, com diferentes tendências, inclusive naquela propensa ao terrorismo.



João Vinícius Salgado  é professor adjunto de Neuroanatomia da Universidade Federal de Minas Gerais e João Amílcar Salgado é professor titular de Clínica Médica da mesma Universidade. Ensaio  do Centro de Memória da Medicina de Minas Gerais.