AO PERSISTIREM OS SINTOMAS...

OS MÉDICOS DEVERÃO SER CONSULTADOS SOBRE O COLAPSO DE SUA DIGNIDADE PROFISSIONAL


Nós, os médicos, estamos sendo agredidos a cada momento com o apelo em favor da auto-medicação: é quando a propaganda de remédio finaliza cada anúncio com a cínica advertência de que AO PERSISTIREM OS SINTOMAS, UM MÉDICO DEVERÁ SER CONSULTADO. É como se o fabricante de tais remédios esteja a dizer ao sofrido povo brasileiro: OLHE, CONSUMA EM MASSA ESTA PORCARIA PARA QUE EU LUCRE MACIÇAMENTE, MAS, SE ALGO DER ERRADO, FIQUE TRANQÜILO, OS MÉDICOS SERÃO MEUS CÚMPLICES. Sim, os médicos cuidarão da trapalhada e terão renda adicional às custas desta mesma trapalhada. Em suma, esta farsa está levando o médico a participar de gravíssimo crime, que é o incitamento à auto-agressão. Como os Conselhos Federal e Estadual de Medicina até agora não agiram - tal cumplicidade já deixou de ser condenavelmente passiva para ser inacreditavelmente ativa. Em minhas palestras, sempre toco nesse assunto, para dizer que a PERSISTENCIA DESSA CÍNICA ADVERTENCIA deve ser assumida como indicador central do colapso da profissão médica no Brasil. No dia em que tal advertência deixar de ser veiculada, será o sinal de que enfim o médico brasileiro começa a recuperar sua dignidade profissional. Nesse dia, o médico estará começando a se reerguer das bofetadas que lhe vêm sendo infligidas a cada anúncio. E, nesse dia, os órgãos corporativos estarão deixando de se curvar, saindo de sua posição de vergonhosa submissão e de inofensiva complacência, para afirmarem que existem de fato.

ADENDO

Quando meu ex-aluno Francisco Caldeira Reis era presidente do Conselho Regional de Medicina de Minas Gerais, enviei a este um texto pedindo providências contra a propaganda referente “ao persistirem os sintomas....” Aleguei que o anunciante exercia ilegalmente a medicina e se este exercício desse errado, ele cinicamente mandava a vítima procurar um médico. De propósito, dirigi a correspondência ao plenário do Conselho. Recebi, em vez de um documento oficial escrito, um telefonema. Um conselheiro, também ex-aluno meu e infelizmente falecido precocemente, disse que o presidente repassara a ele minha correspondência para que preparasse uma resposta. E que tomou a liberdade de, em vez de encaminhá-la ao plenário e em vez de uma resposta por escrito, esclarecer-me que minha manifestação estava superada por um ajustamento de conduta entre o Conselho Federal de Medicina e a corporação dos fabricantes daqueles remédios "livres para venda sem receita". De fato, eu ignorava a existência de tal corporação. Ele concordou que, logo após tal ajustamento, começou a recomendação, a cada anúncio de remédio, de que "se persistirem os sintomas, um médico deve ser consultado". No telefonema, o conselheiro percebeu que fiquei abalado com tal informação, mas acrescentou que o tal ajustamento era resultado de uma posição política adotada pelo Conselho Federal (CFM), que consistia em evitar ofender o mercado. Ou seja, se eu não me desse por atendido e insistisse em providências, eu estaria constrangendo o CFM a ofender o mercado, colocando muito mal o CRM mineiro diante do CFM e diante do mercado. Só me restou concluir que insistir com essa gente não mudaria nada, já que a vaca já tinha ido para o brejo. Um conselheiro federal me confidenciou, bastante tempo depois, que o tal ajustamento foi invocado quando começou a epidemia de dengue, de modo a manter inalterada a propaganda de antitérmicos. Mas não me calei: minha posição foi resumida no capítulo PUBLICIDADE NA ÁREA DA SAÚDE de meu livro ENSINO DA MEDICINA NO BRASIL E EM MG (2013).

COMO HISTORIADOR DA MEDICINA, PUBLIQUEI, EM 1997, O RESUMO DE MEU ESTUDO SOBRE A TRIFURCAÇÃO CORPORATIVA DA MEDICINA, RELACIONADA À EXPULSÃO DE JK DA ASSOCIAÇÃO MÉDICA DE MG:

A TRIFURCAÇÃO CORPORATIVA DOS MÉDICOS E SEU EFEITO NO ENSINO E NA QUESTÃO DO CHAMADO ERRO MÉDICO

 

  Na década de 50 foi efetivada tal como existe hoje a separação das corporações profissionais brasileiras em associações, conselhos e sindicatos. A única corporação que continuou atuando de forma unificada foi a Ordem dos Advogados e em geral se atribui a este fato o prestígio político e moral que ela conserva e que as demais perderam.

  O Centro de Memória da Medicina de Minas Gerais estuda por que a corporação médica tão facilmente abriu mão do prestígio assegurado, justamente quando governava o país um médico e outro médico era o Ministro da Educação.

  A trifurcação corporativa em sindicato, que cuida dos direitos, em conselho, que cuida dos deveres, e em associação, que cuida dos demais aspectos, não só é relacionável ao papel social da corporação, mas à política de formação do respectivo profissional, bem como a questões como a do chamado erro médico.

   A trifurcação corporativa está diretamente ligada ao advento da medicina de consumo e é um dos fatores impeditivos da lúcida discussão seja sobre formação, seja sobre avaliação adequada do desempenho técnico e da conduta dos profissionais.

  Com a trifurcação, os maus governos conseguem causar danos irreversíveis tanto ao interesse dos profissionais, quanto ao das comunidades a que governo e profissionais devem servir.

 

NOTA. O COMPORTAMENTO DO CFM E DOS CRMS, DURANTE A PANDEMIA E LOGO DEPOIS, FOI LAMENTÁVEL, AINDA MAIS SENDO AGÊNCIAS ENCARREGADAS DE QUESTÕES ÉTICAS NA SAÚDE. IGUALMENTE LAMENTÁVEL É A RESOLUÇÃO CFM 2336/2023