JOÃO AMÍLCAR  SALGADO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

OS 44 DE 55

CINQÜENTENÁRIO DE FORMATURA DA TURMA DE 1960 da UFMG

 

 

 

belo horizonte

2010


sumário

1.APRESENTAÇÃO

OS GLORIOSOS 44 DE 55. Ou os 44 da 44ª turma de médicos, diplomada em 1960 pela Universidade Federal de Minas Gerais

2. A TURMA


2.1 – Armando Gil de Almeida Neves

2.2 -.Carlos Eduardo Ferreira

2.3 – Celso Dias Avelar

2.4 – Dilair de Faria

2.5 – Edson Razuk

2.6 – Elias Tergilene Pinto

2.7 – Ely da Conceição de Souza

2.8 – Emyr Francisco Soares

2.9 – Ernesto Lentz Carvalho Monteiro

2.10 – Fábio Araújo Reis

2.11 – Fábio Ribeiro Monteiro

2.12 – Geraldo Alves Coutinho

2.13 – Geraldo Evaristo Canabrava 2.14 – Gilberto Lino Vieira

2.15 – Jairo Guerra da Silva

2.16 – João Amílcar Salgado

2.17 – João Augusto Teixeira

2.18 – João Cândido dos Santos

2.19 – José Aloysio da Costa Val

2.20 – José Carlos C. de Mendonça

2.21 – José Maria Moraes

2.22 – Luiz Antônio Luciano

2.23 – Luiz Fábio Rocha

2.24 – Marcelo Carvalho Ferreira

2.25 – Márcio Luiz Tornelli

2.26 - Marcus Vinícius A. Coutinho

2.27 – Maria do Carmo Calmeto

2.28 – Marie Louise Stein

2.29 – Maurício Kalil

2.30 – Mauro Tostes Ferreira

2.31 – Omar Guimarães

2.32 – Órion Luzardo Alvarez

2.33 – Oswaldo Garcia

2.34 – Paulo Lener P. de Araújo

2.35 – Paulo Raimundo Lobo Dias

2.36 – Penha Furtado Campos

2.37 – Penido de Oliveira

2.38 – Pérsio Godói

2.39 – Renny Pádua Ferreira

2.40 – Ruy Esteves Pereira

2.41 – Ruy Carlos Paolucci

2.42 – Sebastião Lopes Pereira

2.43 – Sérgio Almeida de Oliveira

2.44–SílvioRibeiro


 

3. HOMENAGEADOS

           3.1 PARANINFO

                       Javert Barros

           3.2 HOMENAGEADOS ESPECIAIS

                       3.2.1 – José Feldman

                       3.2.2 – Oswino Álvares Pena Sobrinho

           3.3. HOMENAGEADOS

                       


3.3.1 – Armando Achiles Tenuta

3.3.2 – Eurico Alvarenga de Figueiredo

3.3.3 – Hilton Ribeiro da Rocha

3.3.4 – José Antônio Rodrigues

3.3.5 – José Baeta Viana

                       

3.3.6 – Liberato João Afonso DiDio

3.3.7 – Nelo Moura Rangel

3.3.8 – Nereu de Almeida Júnior

3.3.9 – Paulo Nogueira Resende

3.3.10 – Wilson Luiz Abrantes


           3.4 HOMENAGEM ADMINISTRATIVA

                       Hélcia Queiroz Guimarães




APRESENTAÇÃO

 

OS GLORIOSOS 44 DE 55

Ou os 44 da 44ª turma de médicos, diplomada em 1960 pela Universidade Federal de Minas Gerais

           

Em 2010 a turma de médicos, diplomada em 1960 pela Faculdade de Medicina da atual Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), completa 50 anos de formatura. A data de 2010 também é o ano de véspera do centenário dessa Faculdade, que foi fundada em 1911. Assim os congraçamentos, realizados ao longo de 2010, referentes ao cinqüentenário dessa turma, fazem parte das comemorações do centenário da instituição que a diplomou. Uma deles é justamente o lançamento da presente publicação, que tem por objetivo contribuir à memória não só dos formandos de 1960 e de seus homenageados, como da centenária Faculdade.  

           2010, demais, coincide ser o centenário do Relatório Flexner, considerado o marco da mudança da hegemonia mundial em medicina, que se transferiu da Europa para a América do Norte. O Relatório significou trazer para a medicina a educação liberal, proposta tanto na Europa como na América, em substituição à educação autoritária, até então vigente. Professores adeptos da proposta flexneriana tentaram implantá-la no Brasil em suas cadeiras, quase sempre com a oposição da maioria conservadora das congregações das faculdades. Tal foi o caso em Minas Gerais de José Baeta Viana e Carlos Pinheiro Chagas, nas cadeiras de bioquímica e de patologia, respectivamente. Em 1955 a proposta flexneriana foi trazida não mais como iniciativa individual, mas como diretriz geral a todas as cadeiras, para as duas Faculdades de Medicina da Universidade de São Paulo e para a Faculdade de Medicina da UFMG. Essa iniciativa foi gerenciada pelo médico parasitologista estadunidense Robert Brigss Watson, em nome da Fundação Rockefeller. Com o financiamento em dólares, Watson trouxe, além da diretriz liberal em educação, os componentes estruturais respectivos, que são os modernos laboratórios pré-clínicos, destinados à integração efetiva entre ensino e pesquisa, e o hospital universitário, destinado a essa mesma integração na área clínica. O hospital, pertencendo à própria Universidade, seria autônomo para cumprir seu apropriado papel educacional – com isso isentando o curso médico do vínculo externo a hospitais criados apenas para a assistência a indigentes ou a outros fins, em maioria alheios à pesquisa científica.

           Em Minas Gerais, a primeira turma a cursar esse novo ensino foi exatamente a que ingressou em 1955 na UFMG. O principal impacto dessa novidade ocorreu no exame vestibular, pois fazia parte da diretriz flexneriana a forte conotação elitista. Assim o número de vagas ao exame vestibular que era 80 passou para 60, sendo esta a quantidade de gabinetes individuais para os estudantes nos citados laboratórios pré-clínicos, financiados pela Fundação Rockefeller. Mesmo com a redução para 60 vagas o exame vestibular foi organizado de modo a ser mais rigoroso, com a introdução da prova escrita e oral da língua portuguesa e com a recomendação de maior severidade nas provas orais de biologia, química e física. Tal dificuldade adicional visava a reduzir o ingresso a 40 alunos, embora tenham sido 44 os aprovados. Dessa rigidez na admissão surgiu a expressão os gloriosos 44 de 55, atribuída ao professor e anatomista Liberato DiDio, principal representante de Watson na Faculdade, sendo Zeferino Vaz, outro parasitologista, o principal representante dele em São Paulo.

O número de 40 não era nenhuma numerologia cabalística, mas sim, pragmaticamente, o número das escolas médicas então existentes no Brasil - uma vez que, para efeito multiplicador do projeto Rockefeller, estava prevista a alocação, como docentes, de um a três dos novos egressos em cada uma dessas escolas. Assim o elitismo original chegou ao exagero no Brasil. Acrescentou-se à proposta flexneriana de formar médicos-cientistas ou cientistas-médicos - uma missão a mais: a de serem disseminadores da pedagogia em que foram formados.

Bastam os dados indicados para mostrar a importância histórica e pedagógica da turma de 1960, com seus escassos 44 médicos de elite. O ingresso dessa turma na Universidade em 1955 representa um momento de guinada no ensino médico, quando o desgastado modelo francês é substituído pelo modelo exportado dos EUA, cujo way of life era distribuído pelo mundo como modernismos de bem viver ou simples modismos.  Tudo era recebido sem críticas, longe de ser visto como intervenção mas como dádiva, ainda em função da vitória aliada na segunda guerra mundial e dos planos de recuperação da Europa e do Japão. Só depois a face imperial do gigante do norte foi percebida, a partir de sucessivas intervenções militares ocorridas na América Latina, no Líbano, na Coréia e no Vietnam.

Na vida brasileira, esse curso médico, transcorrido entre 1955 e 1960, coincidiu com o governo federal de Juscelino Kubitschek, ex-aluno da mesma Faculdade, sendo que Clovis Salgado, um de seus catedráticos, foi o Ministro da Educação. Como documenta meu livro de memórias, O RISO DOURADO DA VILA (2003), esses seis anos foram um remanso feliz de desenvolvimentismo e alegria - balizados por duas crises. Antes ocorreu a crise do suicídio de Getútlio Vargas e da posse de Kubitschek e depois veio a crise da renúncia de Jânio e do golpe militar. Considerando tal balizamento, deduz-se que a história pessoal e profissional dos médicos de 1960 constitui precioso documentário sobre etapas tão críticas e fascinantes da história brasileira.

Diversas perguntas podem e devem ser feitas em função desses fatos. Por que sendo o Relatório Flexner datado de 1910, só chegou ao Brasil em 1955? Que tem isso a ver com outras ingerências norteamericanas na educação e na saúde, bem como em outras áreas, a exemplo do chamado Plano SALTE (saúde, alimentação, transporte e energia, proposto para entre 1950-54), a criação não só da Escola Nacional de Saúde Pública, mas de Escolas de Saúde Pública nos Estados e do Serviço Especial de Saúde Publica, bem como o Ponto 4 e o financiamento das Escolas de Agricultura e da Extensão Rural? Quão fácil era, nessa época, reduzir vagas na universidade pública? Os vestibulandos não tinham o direito de saber aquilo a que seriam submetidos? Que papel tiveram Juscelino e Clóvis Salgado, ambos no governo estadual e depois no governo federal, em tal mudança?

Como grupo, os doutores de 1960 pela UFMG podem ser distinguidos por quatro características:

1-   Os dotes intelectuais e de cultura, que os fizeram triunfar na seleção deliberadamente severa a que foram submetidos no exame vestibular, continuaram a ser reconhecidos não só durante o curso médico, mas ao longo da vida profissional

2-   O traço comum, independente da especialização escolhida, veio a ser a versatilidade, ou seja, os privilégios de formação, propiciados pelo ensino que inauguravam, resultaram em médicos pluri-aptos, capazes inclusive de mais de uma especialização, concomitante ou em seqüência.

3-   A enorme carga horária em anatomia, certamente um recorde histórico, produziu cirurgiões excepcionais. e ao mesmo tempo fez, dos que optaram pela medicina interna, cirurgiões frustrados. Vice-versa, o abrangente preparo cientifico e clínico fez, dos que optaram pela clínica cirúrgica, internistas frustrados

4-   A adoção do ensino flexneriano, mais de quatro décadas após sua proposta e em país diferente de sua origem, formou doutores de elite distantes da realidade do Brasil. O país, na década de 60, estava em crise em vários aspectos da saúde, bem como na sociedade em geral, inclusive sob violência institucional. No plano internacional, tudo era agravado pelo agigantamento da sociedade de consumo e especificamente do consumismo em saúde – causadores do neo-liberalismo, que tornou superados todas os sonhos do velho liberalismo do início do século 20, um deles o paradigma Flexner. Assim, os citados dotes intelectuais e privilégios de formação dos diplomados da turma de 1960, tiveram de ser explorados ao máximo para a ultrapassagem de tão formidáveis obstáculos - o que contrasta com a vida profissional vitoriosa, prestigiosa e tranqüila, que era de se esperar em cenário oposto.


Uma questão curiosa é o número de alunos da turma. Na verdade o nome dela seria OS 44 DE 55 ou OS 43 DE 60. Em meu livro O RISO DOURADO DA VILA (2003), ao falar da bela e brilhante colega Ieda de Barros Siqueira, esclareço: Foi um raríssimo talento que Minas perdeu, pois ganhara antes um prêmio nos EUA e, sem completar um semestre de curso, foi-se para não mais voltar, deixando os 44 abandonados pela musa e duplamente diminuídos a 43. Outros quatro dos selecionados também não puderam, por razões várias, iniciar com a turma: Acácio Rocha Filho, Jairo Guerra da Silva, Vicente Paulo de Souza Barbeiro e Volney Moreira. Ao longo do curso o número de 44 colegas chegou a ser recomposto, mas na lista oficial, que consta do livro CINQUENTENÁRIO DA FACULDADE DE MEDICINA DA UNIVERSIDADE DE MINAS GERAIS (1961), escrito pelo querido professor Mário Mendes Campos, de quem fomos os últimos de seus alunos, o total chega apenas a 43. Por questão de estética, chegamos ao consenso de reincluir o Jairo Guerra da Silva, em razão do período maior com que nos acompanhou física e afetivamente, restabelecendo assim o número para que o nome fique OS 44 DE 60 da 44ª TURMA.                          .
















A TURMA


ARMANDO Gil de ALMEIDA NEVES

Além de cientista artífice de licores, é sobrinho de um latinista melômano

        

Todas as vezes que encontro meu colega de turma Armando Gil de Almeida Neves nossa conversa borboleteia por variados, agradáveis e risonhos assuntos até cair inevitavelmente em dois específicos: o tio Flávio e os licores. Tive a dita de ser colega de vestibular e de curso médico do Armando Gil e ainda igual sorte de ser aluno de seu tio Flávio Neves. Não bastando isso, vivi a satisfação de ver meus filhos companheiros dos seus, no clube Umuarama e no Instituto Decroly.

           Quando meus colegas do colégio Estadual souberam que eu e o Acácio Rocha Filho estávamos inscritos no vestibular de medicina e não no de engenharia, acharam que aquilo era brincadeira, pois contavam certo que iríamos sobressair no vestibular do Instituto Tecnológico da Aeronáutica. Nos meses que antecederam o exame, passei a me impacientar com vestibulandos de engenharia que iam à pensão a me pedir esclarecimentos e até aulas completas. Quando ingressei na medicina, fiz a besteira de abandonar em definitivo a matemática. Logo descobri que um dos colegas de primeiro ano, o Armando Gil cultivava um hobby exatamente na contramão desse meu propósito, que era resolver problemas de alta matemática oferecidos pelo periódico Scientific American - nessa época disponível apenas em inglês. Isso fez do Armando um estagiário precoce do Baeta Viana. Dois parentes meus, meu primo Décio Lourenção e meu tio Aprígio Salgado, dois ex-estagiários do Baeta, me tinham como certo no laboratório baetiano, principalmente por meu estudo precoce do alemão. Tal possibilidade deixou de existir para mim por causa dessas tais férias da matemática, ainda mais que levei exageradamente a sério uma frase do próprio Baeta: bioquímica sem matemática, física e química é feijoada.


           Pois bem, só mais tarde soube que a mesma frase fez o Armando mergulhar no estudo do cálculo, estimulado pelo matemático Edson Júdice Durão, que o Baeta levou ao laboratório para algumas aulas desmistificadoras. O Armando, antes já um az no assunto, deslanchou e passou uma noite remexendo equações exponenciais. De manhã tinha certeza de ter feito uma dedução matemática original. Mostrou para o Baeta, que disse com aquela entonação que todos conhecíamos: Interessaaante!, e daí, o que você vai fazer com isso?Vou testar experimentalmente essa minha teoria. Então vou testar isso com você... Ambos foram para o laboratório e a coisa foi comprovada experimentalmente. Antes que o estagiário saísse aos pulos de alegria pelo corredor, o Baeta reclinou-se na cadeira, do jeito que sempre fazia, levou a mão atrás na estante, pegou um livro e mostrou: Divertimos muito, mas Newton descobriu a mesma coisa trezentos anos antes de você. Para os entendidos, a lei do resfriamento de Newton-Neves é a seguinte: Outra surpresa que o Armando Gil me ofereceu foi, bastante tempo depois, quando fui fazer conferencia na faculdade de Ribeirão Preto em 1979 e deparei com o Armando também ali numa banca examinadora. Ele então me propôs dispensar o carro que me levaria de volta, para voltar em seu avião. Perguntei: você conhece bem o piloto?, ele pilota bem? E ele: conheço demais, porque o piloto será um tal de Armando Gil...

           Em compensação produzi nele a surpresa de ler em meu livro de memórias sobre gente de Pedra Azul e vários causos daquela sua cidade natal. Outra surpresa foi quando, recentemente, ficou sabendo de meu parentesco com Carlos Ribeiro Diniz, de quem sempre foi discípulo, amigo e confidente e de quem somos ambos ferrenhos admiradores. Na verdade o Armando foi o único que ficou com o Baeta Viana, entre aqueles de minha turma que tinham jeito para cientistas básicos. O Gugu (João Augusto Moreira Teixeira), principalmente, era o que nos parecia mais baetófilo, mas acabou não ficando. O Armando também foi o único a sair logo para os EUA. Eu seria outro, mas acabei vetado pelo ódio que provoquei no Oscar Versiani com meu discurso de orador da turma. Quando o Armando chegou à universidade de Yale como post-doctoral research fellow (1963-65), estava dando seqüência ao estágio feito ali por seu ídolo Baeta Viana, nos anos 20 do século 20 

Entre os estudantes já estagiários do Baeta eu era mais ligado ao Marcos de Mares Guia e, entre os docentes, todos nós, inclusive o Armando, tínhamos por guru o Euricão (Eurico de Alvarenga Figueiredo). Este era assim chamado por ser alto, parecendo galã de cinema, por quem minha prima Iracema disse ter sido apaixonada, quando ele era estudante em Lavras – ela e todas as moças da cidade.

           No sul de Minas alguns Figueiredos têm esse porte, daí que me é freqüente encontrar um ou outro euricão por lá. Dessa região saíram alguns dos notáveis discípulos do Baeta: Diniz, Eurico, Beraldo, Leal Prado, João Batista Veiga Sales e Ênio Cardillo Vieira. Nossa turma era muito irreverente e vários, especialmente o Armando, já chegávamos para a aula com a matéria já lida em várias fontes, o que exasperava certos docentes, mas não o Eurico. Este, ao contrário, tinha prazer em entrar no bate-boca, que, em vez de ser sobre futebol ou política, era sobre tampões ou o ciclo (do ácido cítrico) de Krebs. Daí a minha emoção, quando em 1976, apresentado por Sidney Truelove, conversei com Hans Adolf Krebs, de cabelo branquinho, na Radcliffe Infirmary, em Oxford. Ele era alemão mas foi para a Inglaterra em boa hora, em 1931, antes dos plenos poderes do outro Adolf. Nessa ilha ele esclareceu seu ciclo em 1937, ganhou o prêmio Nobel e foi feito Sir. Minha emoção foi ainda maior porque o encontrei não no laboratório, mas acompanhando a apresentação de casos clínicos, que, naquele dia, acompanhei a seu lado.

           O Armando fez dupla comigo no estágio obstétrico. Éramos obrigados a fazer, cada um, pelo menos vinte partos e participar ativamente de uma cesariana. Ele cumpriu a obrigação, mas durante a discussão dos casos ficava mudo, exceto uma vez quando disse: a maior verdade da gineco-obstetrícia foi dita por um embriologista, o Patten, segundo o qual a menstruação é antes de tudo um útero desapontado pela não-fecundação. A professora Iracema Baccarini ficou incomodada com esse seu silêncio, sempre a rabiscar equações. Quis saber o que era aquilo e ela se deu mal, pois o Armando tentou ensinar-lhe cálculo integral aplicado ao trabalho de parto. De fato ele é capaz de aplicar sua vasta ciência à solução de qualquer desafio, o último dos quais foi, depois de aposentar-se, fabricar licores. Eu, que sou seu degustador oficial, afirmo que o mais delicioso é o de marolo, mas todos são inebriantes e finíssimos. E só poderiam ser assim, pois são bioquimicamente confeccionados.

           O pedra-azulense Armando Gil de Almeida Neves é sobrinho do psiquiatra Flávio Neves, baiano de Caitité, que foi meu professor no curso de filosofia. Ele veio estudar em Minas por um obstáculo na viagem ao colégio baiano a que se dirigia, como ele próprio relata em seu livro RESCALDOS DA MEMÓRIA. E veio justo para São João del Rei, no mesmo colégio Santo Antônio onde também estudaram meu pai (João Salgado Filho), Osvaldo Reis (pai de nosso colega de turma Fábio Reis), Tancredo Neves, Guimarães Rosa e Osvaldo Costa. Flávio adquiriu desde aí formidável erudição, inclusive sendo respeitadíssimo conhecedor de música clássica. Como poliglota, só perdia para Rosa, formado um ano antes dele. Foi colega de Kubitschek (formado quatro anos antes) na polícia militar e no túnel de Passa-Quatro. Membro de um grupo de médicos ouvintes coletivos de Bach, Mozart, Beethoven e Wagner (tertúlias iniciadas por Baeta Viana, paraninfo de sua turma), passou a fazer em latim as atas dos encontros, aos quais chamou de melofilia hipocrática. Aí traduzia até nomes próprios dos compositores e dos aficcionados, por exemplo Clovis Salgado era Clodoveus Salsus e José Feldman era Josephus Agrigenta.

           Sobre a latinaria de seu tio, Armando Neves relata o seguinte. “Meu tio e padrinho Flávio Neves costumava dizer que o latim acrescentava um toque de seriedade e erudição à palavra. Flávio tinha um talento especial para línguas. Falava fluentemente português do Brasil e de Portugal, francês, italiano, alemão e inglês. Em reunião em sua casa, o vi conversando com o cônsul dos EUA e o cônsul inglês, dirigindo-se a um em inglês americano e ao outro com impecável british accent. Vejam como no dizer latino de tio Flávio o ditado chulo de que no dos outros pimenta é refresco ganhou dimensão nova: alieno culo piper refrigerium. Olha a beleza do título do artigo de Flávio no ESTADO DE MINAS, quando o Atlético conquistou o primeiro campeonato nacional: De Bello Gallus. Só o Laurentis não gostou! Flávio era um lutador pela preservação das tradições e ficou revoltado quando em uma de suas visitas a Diamantina ficou sabendo que um vereador havia proposto a mudança do nome antigo de um beco para o nome de um figurão da cidade. Flávio escreveu em latim uma carta dirigida ao prefeito de Diamantina protestando contra a mudança do nome do beco. O nome do beco era (ou é) Quebra-Bunda, que em latim ficou mais elegante como Cunem Frangentis”.


CARLOS EDUARDO FERREIRA

Seu perfil é emoldurado pela condição de neto do Fundador

           

A turma diplomada em 1960 pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais acumula enobrecedoras distinções. Uma delas é contar, entre os graduados, com um neto, Carlos Eduardo Ferreira, e com um sobrinho-neto, Ernesto Lentz, do fundador Cícero Ferreira. Carlos e Ernesto, mesmo em tão heráldica dimensão, não foram dispensados de, no trote aos calouros, ajoelharem-se diante do busto de Cícero, para repetirem de memória a frase ali inscrita: Cícero Ferreira foi bom, foi justo, foi realizador: não morrerá de todo.

           O Carlos Eduardo, durante todo o curso, mostrou-se reservado em relação a seu avô, o que era afinal uma atitude compreensível, não só por ser estilo da família, mas por servir de defesa contra gente ínvida, que, por ser insignificante, acaba doentiamente interessada em atingir quem não tem culpa de ser quem é. E o parentesco desse neto com aquele avô é duplamente digno de orgulho para os graduados em 1960: primeiro, pelo papel maiúsculo de Cícero Ferreira na institucionalização e na sobrevivência inicial da Faculdade e, segundo, por coincidir ser ele, por sua vez, consangüíneo de Carlos Chagas, autor da maior realização cientifica do país até hoje. Ora, este parentesco colocou as cidades de Bom Sucesso (onde nasceu Cícero) e de Oliveira (terra natal de Chagas), em Minas Gerais, em evidência nos anos de 2009 (centenário da descoberta da doença de Chagas) e de 2011 (centenário da fundação da Faculdade), salientando-se entre tais datas o ano de 2010, quando a turma do neto Carlos Eduardo Ferreira comemora os 50 anos de formatura. E estas três efemérides estarão com sua auspiciosa convergência ainda mais enfática, se lembrarmos que a esposa de Cícero, Laura Chagas, avó de Carlos Eduardo, é prima-irmã de Carlos Chagas.

           Outra coincidência digna de comemoração - inimaginável para o fundador, que tantas agruras penou para fazer subir e manter o nível da instituição iniciante - foi o ingresso do neto em momento único em toda a vida da Faculdade. Carlos Eduardo Ferreira iniciou seu curso em 1955, quando a Fundação Rockefeller foi admitida como parceira da Faculdade para fins de introduzir em seu ensino o modelo flexneriano adotado nas principais escolas médicas dos EUA. No Brasil ele seria implantado em três faculdades brasileiras: na capital paulista, em Ribeirão Preto e em Belo Horizonte – e a partir daí ser disseminado pelas demais escolas médicas brasileiras. Para isso os calouros desse ano teriam instalações novas nas cadeiras básicas e no hospital das clínicas, sendo que nomeadamente inaugurariam laboratórios de anatomia com um cadáver para cada dois alunos e gabinetes individuais de bioquímica e patologia, além da melhor biblioteca médica do país na época. Mas a principal mudança incidiu sobre o número de alunos: o número de vagas anuais que era de 80 foi reduzido nesse ano para 60 e o representante da Rockefeller exigiu maior rigor no exame vestibular, para que passagem apenas 40 vestibulandos. Afinal passaram 44 dos 600 candidatos.

           Independentemente da crítica que se possa fazer a esta ingerência estrangeira e ao próprio modelo elitista de ensino, acatados subservientemente pela Faculdade, não há como negar que esta turma e as que lhe seguiram até 1965, usufruíram de condições incomparáveis de aprendizagem. Por exemplo, nossa turma cursou gigantesca carga horária de anatomia: anatomia sistêmica, anatomia topográfica, anatomia cirúrgica (técnica operatória em cadáver), anatomia patológica, histologia e embriologia. Depois de percorrer os principais centros médicos internacionais e percorrendo a historia da medicina posso afirmar que foi a maior carga horária anatômica cumprida no tempo e no espaço. Curiosamente esse recorde foi ironicamente propiciado por uma desgraça: as condições abjetas em que viviam os pacientes do Hospital Colônia de Barbacena, documentado em livro, cinema e no álbum Hospital Colônia, editado por Jairo Furtado Toledo. Coerentemente, saiu, dos que ingressaram em 1955, proporção majoritária de cirurgiões, todos excelentes. Nosso Carlos Eduardo Ferreira não é um deles, mas se o quisesse teria sido, pois outra característica dos egressos dessa turma é a versatilidade. Sim, jamais, aqui ou alhures, foram diplomados médicos tão polivalentes, na razão direta de tão amplo e sólido preparo pré-clínico e tão intensa e abrangente prática no ciclo clínico.

           E algo admirável deve ser assinalado: quando Cícero institucionalizou a nova Faculdade, em 1911, fazia apenas um ano que surgiu nos EUA o famoso relatório Flexner, que mudou o ensino naquele país. Cícero não poderia saber de seu valor, sequer deve ter tido conhecimento dele. Para ele o modelo de ensino só poderia ser europeu, o mesmo de sua faculdade-máter no Rio. E não é que seu neto veio a matricular-se na Faculdade que criou no exato ano em que chegava ao Brasil a exportação dos ditames de Flexner? Pois bem, estamos vivendo este momento mágico em comemoramos os 50 anos de formatura do neto, que coincide com os 100 do tal Relatório que deu subsídio à formação dele e que antecede de um ano os 100 anos da fundação da Faculdade efetivada pelo avô.

           Com a refinada formação flexneriana, Carlos Eduardo tornou-se, facilmente, completo clínico, tendo estagiado por dois anos, ainda estudante, na cadeira de neurologia e psiquiatria. E foi inevitável: acabou vítima da mesquinharia antes citada. Apesar de pertencer a turma tão pequena, o catedrático Washington Pires alegou-lhe, com a expressão facial mais desavergonhada, que a vaga que reconhecia lhe caber para médico bolsista (hoje médico residente), ele, naquele ano, a estava reservando a outro, que não fora estagiário e que ainda nem doutorando era – em razão de compromisso assumido em seu curral eleitoral. Superando a mágoa causada por tão deslavada indignidade, nosso Carlos voltou-se, facilmente, para a cardiologia, mas foi pouco a pouco desafiado a assumir aspectos administrativos do hospital que herdou do pai, Ary Ferreira.

Rápidas mudanças na demanda hospitalar da Capital sobrevieram na década de 60 e 70 do século 20. Com seu proeminente desempenho nesta área, passou a ser ouvido entre os responsáveis pelos demais hospitais privados. Assumiu afinal a liderança desse setor em Minas e no Brasil. Isso o colocou em pólo oposto ao meu, pois defendo a atenção estatal na saúde (posição também antaes defendida por Cícero Ferreira para a educação e a saúde). Carlos Eduardo e eu jamais tivemos qualquer choque fora do campo das idéias. Acabamos nos convergindo em nome da ética, pois, se a freqüente prática antiética do setor privado sempre recebeu sua desaprovação, passei a ser crítico severo dos incompetentes que não souberam organizar e vêm levando ao fracasso o sistema único de saúde - constitucional desde 1988.

           Sendo um cavalheiro, o Carlos Eduardo Ferreira, quando estudante, nos recebia lautamente em sua residência, na Rua Ceará. Depois da formatura, nos recebeu principescamente em seu sítio em Lagoa Santa. Além da proximidade de poucos quilômetros entre Bom Sucesso, terra dos seus ascendentes, e Nepomuceno, terra dos meus, ele se casou com a Glene Vilela, de outra cidade próxima, Carmo do Rio Claro. Sendo eu Vilela por parte de mãe, isso resultou no seguinte episódio. Numa festa em Lagoa Santa, sua família observou que minha neta era muito parecida com a neta do Carlos Eduardo. Isso era dito a cada momento. Eu estava conversando com ele, quando ele me diz: minha neta está ali, traga sua neta para perto dela, quero ver se são mesmo parecidas. Respondi de pronto: não é necessário, aquela ali é a minha...


CELSO DIAS DE AVELAR

Ás da mnemônica e da medicina interna

         Sendo Avelar, o baldinense Celso Dias de Avelar é consangüíneo do maior dos Avelares, o também médico sete-lagoano João Antônio de Avelar, escritor, humorista, teatrólogo, interlocutor de Rui Barbosa e parteiro do bebê Guimarães Rosa, cujo João lhe foi feliz homenagem. O historiador e oftalmologista Valênio Perez descobriu outra façanha de João Antônio: foi o primeiro a descrever a lei que veio a ser conhecida por LEI DE MURPHY, segundo a qual “se alguma coisa pode sair errada, com certeza sairá”. Quando soube disso, o Celso começou imediata campanha em apoio ao Valênio, para que os mineiros passassem a denominá-la LEI DE AVELAR.

           O Celso iniciou o curso médico com mais idade e já casado, com três Marias em casa: a esposa Maria de Lourdes e as filhas Maria de Fátima e Maria Clarete. Depois de formado ainda lhe nasceu mais uma Maria: Cláudia Maria. Cedo ficou impressionado com a memória de alguns colegas e, não querendo levar desvantagem para os mais jovens, usou de estratégia militar, já que era oficial da aeronáutica: tornou-se exímio em criar artifícios mnemônicos. Os mais famosos foram os truques de memorização que criou para os aminoácidos no curso de química fisiológica. Isso se transformou em esporte e diversão de todos nós ao longo de nossa graduação.

           Tudo isso, de engraçado passou a útil, pois a mnemônica nosológica do Celso o fez dono de invejável cultura clínica, tanto que ultrapassou a medicina interna e alcançou a psicossomática, em que ele e o Geraldo Caldeira passaram a ser identificados como aqueles clínicos que cuidavam da área, sem terem sido inicialmente psiquiatras. Quando recebemos sua enorme biblioteca no Centro de Memória, fiquei impressionado com a quantidade de livros médicos e não-médicos, que ele não só adquiriu, mas leu e anotou, e que abrangiam gama surpreendente de temas.

           Ele, o Luiz Fábio e o Maurício Kalil se tornaram professores de clínica médica na cátedra do professor Osvaldo de Melo Campos, enquanto o Edson Razuk e eu ficamos na cátedra do professor João Galizzi, daí nossa convivência próxima no Hospital das Clínicas. Com a reforma curricular, o Celso e eu ficamos na semiologia e passamos a preparar aula juntos, em momentos prazerosos recheados de chistes. O Melão (apelido, entre docentes e alunos, de Melo Campos) era conhecido e admirado por valorizar, ao exagero, os meios desarmados de diagnóstico, tal como dois de seus fieis escudeiros: Hugo Pereira de Resende e o Celso. Certo dia este me veio falar sobre uma paciente que antes eu atendera no ambulatório e fora internada no Melão. E o rosto do Celso era um misto de apreensão e riso, diante de como eu reagiria ao que estava para dizer. É que em meu relatório constava a suspeita de tuberculose, mas no final acrescentei “abreugrafia negativa”. O Melão ouviu a anamnese feita pelo Celso e disse: procure a caverna. O Celso então lhe mostrou o que escrevi. O mestre balançou negativamente a cabeça e pediu uma toalha com que recobriu o tórax da paciente. Fez a ausculta direta e disse: aqui está a caverna. Eu tinha auscultado com o estetoscópio e nada encontrara, talvez influenciado pela abreugrafia. Aí eu disse ao surpreso Celso que, em se tratando do Melão, eu não ousava discordar. Procuramos nosso paraninfo, o radiologista Javert Barros, que fez ele próprio um raio-x de chapa grande e lá estava a caverna.

           Num encontro da turma, lembrávamos essas coisas e perguntei ao Celso se ele ainda sabia de memória trechos do padre Vieira. Ele reproduziu ali de pronto lindas frases. E acabou confessando seu sonho de viajar à Europa e dar um jeito de chegar à cidade de Rimini na Itália. Indagamos em coro: por que Rimini? Ele nos ensinou que foi ali, beira-mar, que Santo Antônio, o grande pregador luso, fez o SERMÃO AOS PEIXES. Vieira havia também tentado pregar aos moradores de Rimini para que deixassem a devassidão e eles o escorraçaram. Ele, então, em vez de insistir junto aos humanos pregou aos peixes. Dessa atitude resultaram dois sermões, obras-primas de todos os tempos: o do franciscano Antônio e o do jesuita Vieira (ambos lusos), que genialmente aproveitou o mote do primeiro.

O Celso, então, finalizou voltando a recitar Vieira: O efeito do sal é impedir a corrupção; mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que têm ofício de sal, qual será, ou qual pode ser a causa desta corrupção? Ou é porque o sal não salga, ou porque a terra se não deixa salgar. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores não pregam a verdadeira doutrina; ou porque a terra se não deixa salgar e os ouvintes, sendo verdadeira a doutrina que lhes dão, a não querem receber. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores dizem uma cousa e fazem outra; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes querem antes imitar o que eles fazem, que fazer o que dizem. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores se pregam a si e não a Cristo; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes, em vez de servir a Cristo, servem a seus apetites.

Aí, lhe veio aquele sorriso típico, diante de nossos aplausos e hurras... Pedi silencio e disse: o Celso agora, pela primeira vez, vai-nos repassar o truque criado por ele para memorizar Vieira!... Ele, surpreso, afinal disse, entre solene e brincalhão: esse segredo é tão sensacional que não estou preparado para contar, talvez no próximo encontro vocês ficarão sabendo, vocês merecem!... A seguir, disfarçadamente, me puxou de lado e disse: você me pegou!, eu próprio não me tinha dado conta de que, para saber Vieira de cór, nunca precisei de recurso nenhum!...

           Por outro lado, num de nossos últimos encontros, como que de despedida, o Celso nos pediu silêncio. Não era para nos recitar Vieira. Era porque sua querida Marlene ia cantar uma canção. E ela cantou: Ai, ioiô / Eu nasci pra sofrer / Foi olhar pra você / Meus zoinho fechou / E quando os óio eu abri / Quis gritar, quis fugir / Mas você / Eu não sei porque / Você me chamou // Ai, ioiô / Tenha pena de mim / Meu senhor do Bonfim / Pode inté se zangar / E se ele um dia souber / Que você é que é / O ioiô de Iaiá (...).

Enquanto eu ouvia coisa tão linda, fiquei observando a feição do Celso, que eu conhecia bem de outras vezes, denunciadora de estar transportado de emoção. Pensei comigo: esta manifestação de ternura, o Padre Vieira não condenaria!

           Acabei de confirmar então que o Celso no fundo, por mais martelado pela lógica-de-ferro de Melo Campos, nunca deixara sua essência barroca – entranhada, mineiramene, avelarmente, vieiramente, em sua alma...

 

         


 

DILAIR DE FARIA

De simpaticíssima presença feminina em nossa turma à invejável projeção em Goiás

        

Não me lembro da Dilair durante o exame vestibular, mas, logo que a vi tão festiva entre os aprovados, me interessei por tudo que dizia, entre gostosas risadas. Pensei comigo: como ela se parece com a gente de Minas! A partir daí não parei mais de estudar Goiás como extensão de Minas. Sua estatura alta também chamava a atenção e decorre da ascendência alemã. Por sinal, em meu álbum de formatura ela deixou este autógrafo: Salgadinho, grande filósofo, grande cultura e grande amigo, um abraço grande da Dilair (grande). O tratamento de Salgadinho aí data dos primeiros dias do curso, quando a todo momento ela comentava minha aparência: mesmo para 17 anos, ele parece  muito menino...

           Outra lembrança vem de quando éramos segundanistas. O Celso deu idéia de estudarmos fisiologia juntos, em horário vago. Ele tinha pedido a um assistente do Magalhãesinho que explicasse o que era meio interno e pelo jeito isso era novidade também para aquele docente. Para a primeira reunião de estudos, cada um prepararia a exposição de um tópico e o Celso olhou para mim com cara de sádico e disse: para explicar o que o professor não soube, só mesmo o João. Relato isso aqui só para dizer que, depois daquela minha breve aulinha de vinte minutos, o elogio recebido da Dilair me fez decidir pela carreira docente. Acontece que ela, por sua vez, nos deu uma aulinha especialmente marcante não só pela clareza mas pelo ingrediente do riso. Mais tarde eu iria ser estudioso da didática pelo riso e do riso na história da medicina. A descontração risonha da Dilair em conversas ou em aulas, levou o João Cândido a dizer que ela era dhilariante.

           Advogo a idéia de que a Dilair, por sua vez, deve ter decidido inconscientemente ser ginecologista no dia em que chorou na aula de ginecologia, em episódio que narro em meu livro O RISO DOURADO DA VILA (2003): Na ginecologia o professor Rubens Monteiro, em uma de suas inesquecíveis aulas-shows (condimentadas pelo sarcasmo do já citado assistente Zeferino) ensinava que dosar hormônio feminino é bobagem, basta ver se há flores no estampado dos vestidos, e o tamanho das mesmas vai crescendo com o aumento dos estrógenos. Justo aí batem na porta, o próprio mestre vai abrir e entra a Dilair com enormes rosas no vestido. A estrondosa gargalhada da turma é seguida do choro convulsivo da querida colega que não entendia tanta risada - e a aula foi suspensa para unânimes pedidos de perdão. Não deu outra: nossa Dilair viria a ser a celebrada professora de ginecologia de Goiânia.

           Esta querida colega foi minha companheira no estágio no Pronto Socorro. No mesmo livro relato outro episódio com ela: Minha colega Dilair era da mesma equipe. Estagiários e médicos não permitiram que ela entrasse na sala, quando um homem chegou com a glande do pênis dependurada por um fiapo de pele. Hoje as numerosas alunas do curso médico não seriam assim protegidas e participariam do atendimento com naturalidade. Isso mostra que evoluímos de lá prá cá e que os próprios estudantes se faziam porta-vozes do conservadorismo. Naquele caso, a ficha clínica registrava que uma prostituta gulosa, em pleno ato, passou o gilete no órgão, decapitando-o. A correção cirúrgica foi feita e teve ótima evolução. Coincidentemente, em Goiás, logo no Estado da Dilair!, aconteceu, em 1971, em vez da hetero-ablação, a auto-ablação do pênis, em caso de intersexo. Também este fato foi considerado assunto sigiloso e a equipe goiana de cirurgiões, comandada por Délio Senna, que fez secretamente a substituição do resto peniano por satisfatória neovagina, hoje, em vez de processada pelo conselho de medicina, é glorificada como pioneira no país.

           Logo após a formatura, a Dilair fez estágio correspondente à atual residência médica na Maternidade Odete Valadares e treinamento em colposcopia, citologia e peritonioscopia na Faculdade onde se diplomou. A Dilair foi brindada pelos deuses com uma coincidência incrível: exatamente durante nosso curso, a Faculdade estava tendo o privilégio de ser o primeiro centro das três Américas a adotar a colposcopia de Hinselman, trazida para cá pelo próprio inventor, ao vivo. Poucos sabem que os ginecologistas dos EUA tomaram conhecimento concreto da colposcopia por meio de nosso Alberto Henrique Rocha, quando este chegou lá com um colposcópio a tiracolo. Ao mesmo tempo, o Roberto Alvarenga veio de Nova Iorque onde estagiou com o médico grego Geórgios Papanicolau e nos trouxe a objetividade do exame criado por este. E no mesmo ano de nossa formatura chegava a Belo Horizonte o professor Rudolf Schindler, criador do gastroscópio flexível, fato que gerou o efeito colateral do interesse pela peritonioscopia, de muito valor em ginecologia. Outro avanço tecnológico com que a Dilair teve o contato mais precoce talvez no Brasil foi a pílula anticoncepcional. De fato, enquanto os demais líderes da ginecologia brasileira ainda estavam bastante temerosos diante da posição da igreja católica em relação à novidade, Clóvis Salgado era a autoridade maior, ainda mais no posto de ministro, que surpreendeu o país ao encarar o planejamento familiar como mais um progresso, como os demais.

           O Rubens Monteiro de Barros passou a freqüentar o Centro de Memória e o convidei para dar uma aula no curso de história da medicina sobre a ginecologia na Faculdade. Ao apresentá-lo lembrei seu referido modo de dosar estrógeno. Após sua deliciosa conferencia, a conversa só poderia ser sobre a Dilair, personagem do caso. Ele então disse que se orgulhava com especial emoção de ter espalhado discípulos pelo Brasil e até fora dele. No caso de Goiás era com muito carinho que ele tinha na Dilair a mais proeminente representante desse panteon rubensiano para todo o Brasil Central.

           Segundo Nádia Lima, em texto recente, a vilaboense Dilair de Faria Vasconcelos é a ginecologista que está há mais tempo em atividade em Goiás. Recebeu a companhia de Iraídes Cunha Freitas, sua colega no Lyceu de Goiânia, e de Neusa Ayres. Elas constituem o trio feminino que participou da fundação da Sociedade Goiana de Ginecologia e Obstetrícia. Desde que chegou do curso médico em Minas, a Dilair é a estrela do Hospital Santa Helena de Goiânia, onde é particularmente respeitada na Comissão de Ética. Na atividade privada a melhor parte do lado feminino da elite goiana passou por seu consultório.

           Ao mesmo tempo é professora de Morfologia na Universidade Federal de Goiás, tendo sido homenageada por várias turmas de graduandos. Dos 44 de 55, a Dilair é a única que se dedicou à docência de anatomia, mesmo dividindo-a com a ginecologia. É, portanto, a realizadora solitária do sonho do professor DiDio de fazer de todos nós especialistas em anatomia, resultado que ele erroneamente julgava inevitável, em razão da carga horária recorde que a Faculdade despejou sobre nós, do primeiro ao quarto ano do curso. Outro de nossos colegas de formatura que também se fez docente de anatomia foi o Elias Tergilene, mas ele era da turma precedente, que, por razão de saúde, ficou para iniciar conosco.


EDSON RAZUK

Eis um artista maior que a própria vida

           

Edson Razuk, durante nosso curso médico, foi iterativamente dinâmico, festivo, brincalhão, inteligentíssimo e artista. Em qualquer atividade ligada às artes lá estava ele participante e quase sempre à frente, especialmente nos preparativos da formatura. De tão sintonizado com tudo, era ele que vinha lá pilotando um carro inédito entre nós: uma romizeta e quis que eu fosse o primeiro a sentar a seu lado para experimentar aquela coisa.

           Nos preparativos da formatura foi meu cabo eleitoral para orador da turma, mas ficou preocupado com minha fala mole, herdada dos Vilelas. Na hora H foi enérgico comigo: João, não vá  me sair com um fiasco, vê se endurece essa fala!. Não o decepcionei, falei com um locutor de rádio, ou melhor, como um locutor de alto-falante de parque-de-diversões. Até hoje agradeço essa esfrega, pois, se depois me tornei conferencista pelo país e até no exterior, foi por causa desse empurrão do Edson Razuk. Sim, talvez não me tivesse convencido de que era capaz de falar a platéias que não me conheciam.

           Logo em janeiro, após a formatura, encontrei o Edson num guichê da Faculdade. Perguntou meu rumo a seguir e respondi que estava tentando bolsa no exterior. Sempre a par das coisas, disse que aquilo podia demorar e que eu pegasse um bolsa numa cadeira aqui mesmo. Lembrou que na de Clinica Propedêutica Médica, do professor João Galizzi, havia duas vagas, uma era dele e havia outra para mim, se eu quisesse. Sou imensamente grato a ele por tamanha ajuda, pois, naquele instante, eu ignorava que o diretor da Faculdade se sentira ofendido pessoalmente com meu discurso e engavetara a bolsa que cabia a mim pela Rockefeller.

           O professor Galizzi nos recebeu efusivamente e começamos a trabalhar ali com ímpeto e fé, pois a cadeira estava cheia de inovações - e nós dois fazíamos parte delas. Edson Razuk passou a ajudar o professor Arnaldo Elian na montagem do setor de exames complementares em cardiologia e eu, além de auxiliá-lo aí, passei a acompanhar a maior dessas novidades, que era o serviço de endoscopia do professor Rudolf Schindler. A equipe de Elian era já legendária, tendo sido composta por, entre outros, Celmo Celeno Porto, Antonio Afonso Moretzsohn, Francisco Alberto Laender de Castro e Júlio Cotta Pacheco. Com a turma seguinte à nossa, se enriqueceu com Carlos Alberto de Barros Santos, Cid Veloso e Adahilton de Campos Bello, vindo depois Álvaro Piancastelli, Antonio Cãndido de Melo Carvalho e a geração mais recente.

Em 1962, o Razuk já estava às voltas com a organização 18º Congresso Brasileiro de Cardiologia que ocorreria em Belo Horizonte. Arnaldo Elian, com seu traquejo internacional, havia conseguido a vinda de vários luminares da especialidade, um deles Charles Hufnagel (primeiro no mundo em prótese de válvula aórtica), que veio para implantar o primeiro marcapasso cardíaco artificial entre nós. O paciente com bloqueio atrioventricular foi internado no leito sob minha responsabilidade. O Razuk, o Gilberto Lino, o Sérgio Almeida (estes dois da cadeira de cirurgia do professor João Resende Alves) e eu tínhamos de colocá-lo em condições para o dia da implantação. Nossa turma tem mais este galardão: quatro “médicos residentes” da mesma turma de 1960 participaram do primeiro implante de marcapasso artificial, com sucesso, realizado no Brasil (em outro texto sobre o fato, Razuk, injustificadamente, não foi citado por ter participado apenas do pré-operatório).

Nesse mesmo Congresso, Razuk, que era responsável pela programação social, inovou nesta área, tendo sido sua criatividade copiada nas convenções subseqüentes desta e de outras especialidades. De quebra, ele foi o principal arrimo dos professores Elian e Afonso Moreira Filho, abatidos com o impasse criado pelos estudantes de medicina (liderados por Henrique Santillo, futuro senador, ministro e governador de Goiás), que tentaram impedir a abertura daquele congresso.

Tanto destaque levou Edson Razuk à presidência da Sociedade Mineira de Cardiologia em 1966. Foi uma gestão sem precedentes, tal a sucessão de iniciativas formuladas por ele em cascata, conseguindo mobilizar os associados veteranos, bem como estimular a participação estudantil e dos jovens especialistas, num belo congraçamento democrático, culminando com a eleição direta na entidade. Todos somos gratos ao Razuk pelo curso de radiologia cardíaca recheados de truques, repassados sem qualquer segredo, pelo simpático Toshiyasu Fujioka. Isso foi possível graças à boa convivência entre os Hospitais das Clínicas de Belo Horizonte e São Paulo, estabelecida na época por intermédio de Arnaldo Elian e Sérgio Almeida, que culminou com o estágio de Razuk junto à equipe de Louis Décourt, este também um humanista.

Tendo atuado 20 anos junto a Elian na clínica privada, decidiu dedicar-se apenas às artes plásticas em 1979, inclusive pelo aplauso crescente a suas pinturas, expondo ao lado de celebridades como Inimá de Paula e Amílcar de Castro. A arte que era secundária à medicina passou a atividade principal – conseqüente também a duríssimos reveses em sua família. O próprio Razuk diz: Eu usava a pintura como um hobby, pois sempre achei que as pessoas têm de pensar que irão aposentar-se, envelhecer, ter momentos alegres e ter também de superar as horas difíceis da vida. E, aí, o que era hobby transformou-se em minha grande e indispensável muleta, atingido que fui por uma irrecuperável e terrível fatalidade. Então, juntei todas as minhas forças na confecção de telas e na realização de desenhos, tudo, enfim, que me fizesse encontrar um modo menos sofrido de existir, algo prazeroso que desse algum sentido à minha vida.

O que o Razuk disse aí equivale à frase do notável artista, ex-etudante de medicina, Bertold Brecht: Todas as artes contribuem para a maior de todas as artes, a arte de viver.

           

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ELIAS TERGILENE PINTO

Anatomista vezaliano e fino ortopedista, que escondia seu talento na poesia e no samba

 

O Elias era da turma anterior (de 59), mas sofreu trote tão violento que adoeceu e teve de iniciar o curso no ano seguinte, conosco. Seu caso foi o principal fator pelo qual nossa turma se rebelou contra o trote. Para essa rebelião criei uma pergunta, depois citada muitas vezes: aos calouros não bastaria o trote do mau ensino que os espera?. Ele costumava dizer que admirava minha serena tranqüilidade diante de tudo e esperava que eu lhe ensinasse esse segredo. Revelou-me que era ótimo datilógrafo e que ia procurar quem quisesse seu serviço. Coincidiu que o professor Oscar Negrão de Lima, parente de minha mãe, me procurou para rever o livro que acabara de escrever. Disse-lhe que o Elias sabia mais português do que eu e que, além disso, era exímio datilógrafo e poeta. O Elias então trabalhou para o catedrático nos dois romances que escreveu: TAQUARIL e LUZ OBLÍQUA. Enquanto isso os livros do Elias, de poesia e de prosa, continuam inéditos.  Na verdade, o Elias fazia poesia em sigilo e fui distinguido por ele como capaz de dar real valor a seus poemas. Demais, gostávamos do mesmo estilo de música. Numa viagem de ônibus a São Paulo, ele se abriu e se revelou notável sambista, em gostosa batucada. Fez-nos cantar o samba de Martinho da Vila CANUDO DE PAPEL, que, em 1971, retratava, com rara felicidade, nossa miséria educacional, a qual persiste pelo século 21 afora. Esta viagem fez parte do curso de Administração Hospitalar, em que o Elias e a Adélia foram meus colegas. Nele se conheceram e em conseqüência dele se casaram e tiveram os belos filhos que têm.


ELY DA CONCEIÇÃO SOUZA

Este líder sem par chama a si todas as missões do mundo e nenhuma lhe é difícil

           

A primeira imagem do Ely que me ficou, no início de nosso curso em 1955, foi aquela que lhe valeu o apelido de Ely-dos-Ossos, pois a cada momento o víamos, no laboratório anatômico, a sobraçar um esqueleto do membro superior humano: braço, antebraço e mão articulados. Tínhamos a certeza de que estava ali prenunciado um competentíssimo ortopedista, mas o que aqueles ossos de fato simbolizavam era sua vocação irresistível para estender sua mão fraternal e abraçar com desinteresse e tenacidade as causas mais nobres que se lhe ofereceram ao longo desses mais de cinqüenta anos de nossa rica convivência.

           Logo me liguei de perto ao Ely da Conceição, porque ele, o Paulo Dias, o Ernesto e eu entramos no curso de inglês do Instituto Cultural Brasil - Estados Unidos. Ali muito me divertia ouvir o professor Karl Löwi chamar o Ely de Míster Conceçón. Este curso foi útil não só para a leitura de textos médicos recém-publicados, com os quais surpreendíamos os próprios professores, afeitos ao francês, mas, mais tarde, para quando o Ely se tornou viajante contumaz a mil lugares.

           Importante em sua formação foi ter tido o privilégio de ser monitor, ao lado de Marcelo Ferreira, Ernesto Lentz e Lineu Freire Maia, da cadeira de fisiologia, na transição entre os professores Otávio Magalhães e Wilson Beraldo, quando raro papel, excepcionalmente ativo, foi assumido ali pelos estudantes – momento fecundo de nosso ensino, que só engrandece a memória desses dois mestres. A seguir, o Ely, o Pérsio Godoy, o José Carlos Carneiro de Mendonça, o Luiz Antõnio Luciano e eu vivemos fundamental treinamento clínico pré-formatura na cadeira de Terapêutica Clínica do professor Romeu Cançado - além de indormidos plantões em nosso Pronto Socorro, no qual o Ely foi chefe de equipe. Esta última experiência, somada à de estagiário do Serviço de Assistência Médica Domiciliar de Urgência  (SAMDU), inspirou ao Ely organizar, pela primeira vez na Faculdade, um curso de medicina de urgência (coordenado pelo professor Luiz Andrés), precursor da disciplina de traumatologia, criada em 1974.

           Ao mesmo tempo, ele se distinguiu como ativista estudantil católico, tendo vocação indiscutível para a política. Previ que seria parlamentar logo depois de formado, no embalo de sua atuação (do departamento científico à presidência) no Diretório Acadêmico Alfredo Balena, inclusive como redator do então combativo jornal pH7. Hoje ainda lastimo que a previsão não se tenha cumprido, mas me consola a boa razão dessa frustração vocacional. O fato é que meu colega veio a ser antes de tudo o médico por excelência e sua entrega profissional seria sem dúvida conflituosa com o jogo nem sempre limpo da luta partidária.

           Como líder estudantil, ele e Gilberto Lino Vieira estão definitivamente em nossos anais como protagonistas de fato inédito: nossa turma, sendo de apenas 44 alunos por série anual, a menor depois da federalização da Faculdade, atingiu a façanha de eleger dois presidentes sucessivos para o Diretório Acadêmico. Tão impressionante demonstração de liderança e prestígio está diretamente ligada à vontade férrea, à obstinação, à combatividade e ao desassombro de ambos, bem como da equipe de que se cercaram, da qual muito me honra ter participado. Outro dessa equipe é Henrique Santillo, aquele sucessor no Diretório que fez a carreira política que o Ely e o Gilberto poderiam ter feito: senador, governador e ministro.

           Ely de Souza registra em seu livro, ora em preparo, vários aspectos da militância de estudantes que vivemos nos anos dourados. De minha parte, apenas repito que meus estudos pedagógicos sobre currículo paralelo (a vivência extra-curricular do estudante) vêem na luta estudantil a principal fonte da formação de atitudes, sobretudo daquelas atitudes usualmente reunidas sob o chamado espírito universitário, que a universidade não prevê formalmente, mas que a tradição acadêmica oferece desde que apareceu na história da humanidade.

           Neste sentido, não tenho dúvida em proclamar meu colega de turma Ely da Conceição Souza como docente emérito do espírito universitário, matéria que ministrou a seis ou mais turmas de medicina, nos invejáveis anos dourados. De fato, enquanto nos anos anteriores os estudantes consumiam seu elã juvenil em estudantadas e reivindicações menores, tais como meio-bilhete para bonde e cinema, com o Ely e logo em seguida com o Gilberto Lino, os estudantes estavam arregimentados para atendimento no interior do Estado (prenúncio do internato rural implantado em 1978) e para discutir os principais problemas médicos-sociais, além do cultivo em alto nível de obras de teatro, música e literatura.       

           Quando fui morar na República Remanso de Hipócrates tive a honra de herdar a cama e o guarda-roupa do Ely. Este, mas não a cama, que era de solteiro, ele veio buscar, alegando que ia casar-se.. E ele teve o bom gosto de matrimoniar-se com uma artista plástica, a Mirna. Esta união de um médico diferenciado pela preocupação política e cultural com a discípula talentosa de Guignhard representou enorme ganho transbordante de cultura e sensibilidade para a comunidade navalimense.

Depois de formado, o Ely levou todo seu cabedal para Nova Lima, sua querida cidade nativa, onde foi muito bem criado como o mais velho de dez irmãos. Para lá levou de sobejo toda a competência clínica que a excelente formação desfrutada por nossa turma foi capaz de oferecer. Ali ele, de líder estudantil, se fez líder comunitário, secretário municipal de saúde, gestor hospitalar e dirigente de entidades médicas, chegando, no plano estadual, a vice-presidente da Associação Médica mineira - para, passadas várias décadas, continuar exibindo o mesmo entusiasmo daquele incansável presidente do diretório acadêmico. Continua chamando a si todos os desafios da vida e nenhum lhe parece grande demais. Voltou a Belo Horizonte para breve período como diretor do Pronto Socorro João XXIII (instituição a que tanto servira), onde sua administração ficou marcada nacionalmente por um incidente de desmando policial. Mais uma vez, se fez presente a experiência acumulada por esse calejado militante em prol dos direitos sociais. Sua pronta ação moderadora evitou que a coisa tivesse sangrento desfecho.

           Não bastando tanta vibração em sua biografia, ele está definitivo na história de um clube de futebol – o centenário e glorioso Vila Nova Atlético Clube (o popular Leão do Bonfim, mascote criado por meu inesquecível amigo Fernando Pieruccettti, o Mangabeira), também como dirigente, mas sobretudo como chefe do Departamento Médico da agremiação, onde prestou belo serviço durante anos. Com a televisão, ficou fácil a seus admiradores conferir a versatilidade do Ely, pois, no papel de médico esportivo, por sinal lidando com ossos, juntas e músculos, se saiu tão bem como no de pediatra e de internista

Hoje, nosso líder, compensa anos de frutífera trabalheira com o justificado prazer de satisfazer sua nunca disfarçada inclinação pelas coisas da cultura, sendo hoje - mercê das citadas viagens pelos confins do planeta - um homem cosmopolita, um cidadão do mundo, tão ao feitio da mais autêntica tradição mineira.


            


EMYR FRANCISCO SOARES

 Ele e Marcos de Mares Guia foram incríveis talentos tecnológicos

 

           

Em meu livro O RISO DOURADO DA VILA (2003) há o seguinte trecho: [Na primeira aula de anatomia o professor Liberato DiDio disse] que tratássemos de ler em inglês e alemão, se possível em russo, e que apenas em espanhol e francês não bastava. O Emir Francisco Soares e eu combinamos de logo aprender alemão, o que para o Emir foi especialmente útil, quando foi especializar-se em óptica avançada em países germânicos, onde aprendeu também a criar gado pardo-suiço. Quem nos orientou para que aprendêssemos alemão foi o terceiranista Marcos dos Mares Guia.

           Observando a biografia do Emir e do Marcos era de se esperar que a preocupação em aprender, ao lado deles, outras línguas me levasse, como os levou, ao empreendimento tecnológico. Não fiz o esperado, mas, em vez de empresário, me tornei entusiasmado estudioso da inovação tecnológica. Enquanto isso, o Emir criou uma fábrica de lentes de contato e o Marcos criou uma fábrica de medicamentos.

           Por sua inteligência incomum e pela tendência da turma de 1960 para a versatilidade, o Emir nos surpreendeu com sua decisão de especializar-se em oftalmologia desde segundanista. E ainda maior surpresa nos causou o professor Hilton Rocha, quando aceitou tal decisão, pois, a cada aula ou conferência, condenava a especialização precoce. Logo descobrimos que o Emir habilmente mostrava, a cada dia, junto ao mestre, seu evidente domínio da medicina em geral e de mais algumas outras ciências. O fato é que afinal o discípulo, que tanto impressionava seu ídolo, confessou a este que conseguiria fazê-lo nosso paraninfo. O que o Emir não sabia é que outros que tinham por ídolo o professor DiDio confessaram a este que conseguiriam coisa análoga. Rocha e DiDio foram homenageados, mas o paraninfo foi um tertius: Javert Barros.

           O capixaba Emir trouxe de sua meninice e adolescência o mundo e o sonho das gemas. Sabe-se que as gemas e as lentes são irmãs. Daí que quando o Emir foi para a Europa, entrou de cheio no lado europeu das gemas e das lentes. E era tão suspicaz que, de quebra, entrou em contato com a pecuária européia. Quando retornou tentou mas não conseguiu, ser empresário de gemas, mas em compensação foi vitorioso em lentes de contato e na pecuária. Os europeus, ao transferirem tecnologias de lentes para o terceiro mundo, nos exportavam sucatas tecnológicas. O Emir nos trouxe a vanguarda. O mesmo fez com o gado pardo-suíço, de que veio a ser importante criador. Por nossas conversas, suponho que, se vivesse mais tempo, teria sido importante empresário no ramo de bebida fina e até de comida sofisticada, territórios que também dominava. Hilton Rocha tinha razão: o Emir era um raro especialista acertadamente precoce - exatamente por ser paradoxalmente um raríssimo generalista precoce.

           Já Marcos de Mares Guia - inteligência vertiginosa - recusava todo e qualquer pensamento pronto que lhe aparecesse pela frente. Quando entrei na faculdade, ele e o Ângelo Machado estavam no terceiro ano. Logo se enturmaram comigo e, junto com o Lineu Freire Maia, um ano à minha frente, começamos a conversar sobre três necessidades: a de dominarmos outras línguas, a de induzirmos nossos professores a editar livros (em vez de reproduzir apostilas), e a de criarmos um curso pré-médico no diretório acadêmico. Lembro-me, nostálgico, que, até mesmo numa festa junina, o Marcos e eu, cada qual com sua namorada, conversamos sobre isso, no pátio enfeitado do Colégio Santa Maria

O Marcos, o Carlos Diniz, o Zigman Brener, o Amílcar Martins, líderes do diretório acadêmico e eu participamos de uma reunião para propor que, entre as chamadas reformas-de-base do governo João Goulart, fosse incluída a da indústria farmacêutica. Defendíamos a criação da Farmacobrás, espelhada na Petrobrás. Como era do estilo do Marcos, ele, mesmo em plena ditadura, prosseguiu defendendo uma indústria nacional de medicamentos e acabou substituindo a nossa Farmacobrás pela Biobrás. Para isso ele se valeu do que observara na Europa e na Norte-América, graças a seu referido preparo de poliglota.

 Marcos de Mares Guia foi criticado por aproveitar nossa experiência com o curso pré-médico para instituir o cursinho Pitágoras e de aproveitar a nossa proposta da Farmacobrás para instituir a Biobrás, ambas instituições privadas. Como seu admirador, lembro que ele não tirou nada de ninguém, pois era co-autor da experiência e da proposta, tanto como eu e os outros. E digo mais: sua capacidade realizadora percorreu o caminho que se abria a ela. Não havendo o golpe militar e sendo Kubitschek reeleito em 1965, é quase certo que a Farmacobrás fosse criada e que nosso colégio universitário, bem como os símiles do referido curso pré-médico, teriam tal envergadura que reduziriam os cursinhos pré-vestibulares a um fenômeno menor. E, quanto à edição de livros médicos, teríamos, em vez da Cooperativa Editora, uma editora de verdade.

A Biobrás ocupa lugar único na história da industria brasileira. Sua origem remonta, como foi dito, à proposta da Farmacobrás, mas sobretudo ao raciocínio imensamente criativo de Carlos Ribeiro Diniz, segundo o qual a escola bioquímica de Baeta Viana era a única a dominar de fato a enzimologia no hemisfério sul. E isso na terra do mamão e do abacaxi, fontes ultra-disponíveis dos dois mais potentes enzimas proteolíticos vegetais. Daí que cumpria aos bioquímicos mineiros a missão de fabricar medicamentos para o povo brasileiro, a partir de tais privilégios. Marcos de Mares Guia apresentou para tese de professor titular audaciosa proposta nesse sentido. Essa tese do Marcos e a minha de doutoramento têm este ponto em comum: em vez de meras peças acadêmicas, são um manifesto e um desafio em favor da solução de problemas da realidade brasileira. A quebra do monopólio da fabricação da insulina por um país do hemisfério sul foi uma das conseqüências de tal posição revolucionária, depois completada pela fabricação da insulina humana recombinante. Infelizmente a empresa brasileira assim criada hoje está nas mãos de uma indústria européia.

Outro fato, de que participei mais recentemente, está ligado ao desejo do Marcos de fabricar a vacina para a leishmaniose cutânea, desenvolvida por nosso querido Wilson Mayrink, concretizando um sonho de Samuel Pessoa. Técnicos governamentais obstaculizavam a autorização para que uma indústria mineira fabricasse a vacina de um cientista mineiro. O Marcos pediu ao Philadelpho Siqueira e a mim para falarmos com Sérgio Arouca em favor da causa de nosso Estado e este nos atendeu, depois que lhe sumariei o histórico acima.

Quando nossos filhos (meus e do Marcos e também de outros docentes da universidade) chegaram ao pré-primário, quase todos foram matriculados no Instituto Decroly, cuja pedagogia era Liberdade Para Aprender do Alexander Neill, o escocês de Summerhill. O Marcos então providenciou para que houvesse um curso primário oferecido pelo Pitágoras, destinado a recebê-los. Um belo dia ele foi procurar-me na Faculdade, pois não queria acreditar que meus filhos, em vez do Pitágoras, foram inscritos no Colégio Loyola. Ele disse: o Loyola é ensino jesuítico e nós vamos ser um prolongamento da pedagogia do Decroly. Para sua decepção, respondi que naquela decisão prevaleceram, em vez do casal de pedagogos, os caipiras do Sul de Minas, que escolheram o colégio mais perto de casa.

           Trabalhei como sextanista com seu pai, José Maria dos Mares Guia, ótimo pediatra, no hospital da previdência estadual. Ele era da famosa turma de 1931, primeira paraninfada pelo Baeta Viana. O Zé Maria me perguntou: você que é tão amigo do Marcos, por que não ficou na bioquímica? Respondi que, se eu fosse ficar lá, o Marcos e eu iríamos subverter a escola baetiana, pois íamos desenvolver o lado Iodobisman do Baeta. E não é que o Marcos na verdade não fez mais do que isso?

 


ERNESTO LENTZ MONTEIRO

Plurifacetado cirurgiáo, tratadista de técnica cirúrgica e líder nacional das Academias de Medicina

           

O Ernesto era aluno do turno da manhã no Colégio Estadual, ainda no Barro Preto, enquanto, no terceiro científico, eu era do turno da noite. Em virtude da distância entre nossos turnos, nosso contato veio a acontecer apenas no fim daquele ano de 1954, quando todos os formandos foram reunidos para uma foto. Do turno da manhã só me lembro de ter fixado, em tal ocasião, também as figuras da Norminha (Maria Norma Veloso Chaves), se não me engano a organizadora da foto, do José Guilherme Vilela (por causa do sobrenome) e do Sérgio Vasconcelos (meu contraparente pelo lado Negrão). Também vaga é minha lembrança de dois outros do turno da manhã: o Mauro Tostes e a Marie Louise Stein.

           Nas primeiras aulas de anatomia, o Ernesto, meu imediato admirador após o resultado do vestibular, veio me dizer que o DiDio comentara que a classificação dos aprovados havia sido injusta, pois o Mauro deveria ter passado em primeiro lugar. Os colegas logo quiseram saber se eu daria uma resposta ao DiDio. Respondi que, naquela altura do campeonato, eu não tinha nada mais a provar a ninguém, nem ao DiDio. A partir daí os colegas ficaram sabendo que meu negócio como estudante era criticar o mau ensino, ou seja, em vez de competir pelo resultado nesta ou naquela prova, legitimando o método docente, eu queria era desvalorizar, ridicularizar e mudar esse método – para isso usando inclusive meu destaque no vestibular. 

O Ernesto então passou a ser meu parceiro nesse processo crítico e em conversas de amplo espectro, desde música, religião, filosofia a parentescos. Daí fiquei sabendo três coisas dele, para mim importantes: era sulmineiro de Pouso Alegre. era sobrinho-neto do Cícero Ferreira, fundador da Faculdade, e, portanto, era primo de seu colega de turma Carlos Eduardo Ferreira, neto do mesmo Cícero. Eu já havia lido que o Cícero era de Bom Sucesso, cidade vizinha a Nepomuceno. Como no sul de Minas todo mundo é parente de todo mundo, me interessei em verificar se o fundador era meu parente. O Ernesto, desde então, me tem ajudado nessa investigação e para tanto me apresentou o tio Vadico (Osvaldo Carvalho Monteiro, advogado e linhagista da família) e o tio Xixico (Francisco Carvalho Monteiro, médico pela turma de 1931), dois tios dele que adotei. Daí resultaram dois textos meus sobre a questão: um trata do tio Vadico e outro, que divulguei no centenário da doença de Chagas, estuda o parentesco entre Cícero Ferreira e Carlos Chagas.

           O Ernesto e o Carlos Eduardo passaram todo o curso muito discretos sobre seu aristocrático ascendente. Só mais tarde concluí que esta era uma atitude correta, em virtude da vigilância a que fatalmente seriam submetidos pelos interessados em flagrar qualquer tipo de privilégio. Quando os dois filhos do Ernesto e meus dois filhos estudaram na mesma Faculdade, sendo nós professores influentes, não deu outra: os quatro foram objeto dessa vigilância, como sempre recheada de desprezíveis mesquinharias.

           A família Lentz, com forte inclinação musical, é da Alsácia (talvez com alguma ligação com os Lins, espalhados pelo Brasil) e em Minas se ligou aos Melo Franco, o que faz subir a nobiliarquia do Ernesto. Por coincidência a Alsácia é a mesma região de origem dos Andrés. Em acréscimo aos Lentz e Andrés, a própria medicina alsaciana tem fortes ligações com nossa Faculdade. Primeiro porque foi para Estrasburgo que Borges da Costa levou a maquete do Instituto do Radium, para ser exibida no centenário de Pasteur, em 1922. Depois de lá veio o magnífico cirurgião René Leriche para aqui operar no mesmo Instituto. E afinal, entre eles e nós, surgiu frutífero intercâmbio de estudantes, médicos residentes e pós-graduandos, apadrinhados principalmente por Sebastião Gusmão, no lado mineiro, e Daniel Metraux, no lado francês. Nisso estou envolvido por várias razões, não sendo a menor o fato de eu ser fanático pelo vinho alsaciano pinot gris.

           Ao longo do curso, o Ernesto se salientou em outros aspectos: suas vocações para tocador de gaita, atleta e galã, além de hilariante ator em sucessivos shows-medicina e ainda organizador e animador das festas da turma. Tudo isso e mais: documentou com fotos, cine-vídeos e cine-fitas todos os nossos encontros por cinqüenta anos. Até mesmo com a turma do Colégio Estadual ele mantém contato, sendo que nos cinqüenta anos de nossa formatura no segundo grau, em 2004, ele organizou um almoço, onde tivemos o nostálgico prazer de rever os bem vivos e bem humorados ex-professores Beatriz Alvarenga, Wagner Brandão, Elias Murad e Aluizio Pimenta.

           Desde o tempo do Colégio Estadual uma personagem extraordinária entrou em nossas vidas: a Emely Vieira. Ela era, junto com a Norma, ativa militante da Juventude Estudantil Católica e se tornou mais notória ainda, como cantora de voz envolvente, fazendo duo com sua irmã – eram as Irmãs Vieira. A Emely acabou passando a funcionária e psicóloga da Faculdade de Medicina e afinal se matrimoniou com nosso colega, o nefrologista Herculano Salazar, meu querido amigo (ver meu texto sobre ela).

           Em continuidade ao coleguismo que vem do Colégio Estadual, logo no começo do curso médico, o Ernesto e eu nos juntamos ao Ely da Conceição e ao Paulo Dias e entramos para o curso de inglês do Instituto Brasil-Estados Unidos e tivemos a imensa sorte de ser ali alunos da legendária Miss Helen (Helen Tornovsky), consagrada professora desse idiomaa - que ficou tão ligada aos estudantes de medicina, seus alunos, que se casou com o médico (bioquímico, cantor e empresário) Ildeu de Oliveira Santos. E mais: o filho Mário desse casal veio a ser colega de pré-escola de meu filho Carlos. 

            O Ernesto Lentz Monteiro se tornou aplaudido professor de Técnica Cirúrgica e o angioflebologista das pernas mais ilustres de Minas. Na verdade em qualquer sub-área da cirurgia cardiovascular ou da cirurgia geral ele seria igualmente vitorioso, tal a solidez de seu preparo em todos os respectivos fundamentos. Em cirurgia, integra a famosa escola de Borges da Costa, edificada sobre duas belas sustentações góticas: o domínio absoluto da anatomia e a rara elegância operatória. É discípulo mais imediato de três de nossos mais notáveis cirurgiões: Wilson Abrantes, José Sílvio Resende e André Esteves de Lima. Daí resultou ser o tratadista da obra TÉCNICA CIRÚRGICA (2006), juntamente com o saudoso Euclides de Matos Santana.

           Nossa amizade de múltiplas raízes foi posta à prova quando sobreveio o impacto da inovação pedagógica de 1975, da qual fui apontado como mentor. Os docentes conservadores, acovardados diante dos sólidos fundamentos desta, decidiram jogar um amigo e colega contra o outro. A estratégia era convencer o Ernesto (capaz de aulas teóricas invejáveis, grande orador e ator humorístico) de preparar uma tese (destinada a ser convenientemente explorada) na qual ficasse demonstrado o erro pedagógico de se desvalorizar a aula teórica no novo ensino. Isso na verdade era uma armadilha da qual ele se safou a tempo, de tal modo que nossa amizade ficou preservada sem um mínimo arranhão.

           E o contrário do que conspiraram aquelas mentes doentias aconteceu: com o passar do tempo nossa cooperação tem sido crescente, envolvendo de um lado a Academia Mineira de Medicina, onde o Ernesto vem consolidando impressionante serviço à medicina mineira, e, de outro, o Centro de Memória da Medicina de Minas Gerais, onde venho lutando pela memória dos fatos da saúde em nosso Estado. Essa confluência de esforços culminou quando o Ernesto assumiu o assento mais alto que um acadêmico pode alcançar: a presidência da Federação Brasileira das Academias de Medicina. E ele, em sua posse, me distinguiu com o convite para falar sobre a precedência de Minas no ensino médico brasileiro.

           Não se poderia ter cenário melhor para coroar tão fraterno companheirismo, que data do tempo em que nós dois mal saíamos da adolescência.

           


 

FÁBIO ARAÚJO REIS

Fino médico e vitorioso fazendeiro convergem em vulto ímpar da aristocracia sulmineira

      

Logo após o vestibular, meu avô - o pedagogo e historiador João de Abreu Salgado - chegou de Três Pontas e me disse da sua alegria em saber que o Fábio e eu cursaríamos medicina juntos. E acrescentou: o pai do Fábio, o dr. Osvaldo Reis, é excelente médico, afetuoso vizinho e amigo de todas as horas; além disso o Fábio foi meu aluno no ginásio e sempre foi muito bom  estudante. Desde então, era só me reencontrar e o vovô perguntava: o Fábio está gostando do curso? Era como se o professor João de Abreu tivesse dois netos na mesma turma da Faculdade.

           Nas relações de nossas famílias, Osvaldo Reis ocupa lugar adicional porque estudou no Colégio Santo Antônio de São João Del Rei, onde meu pai, João Salgado Filho, e meu tio, Clyde Alves Vilela, ambos farmacêuticos, também foram internos. E outras relações derivam de tal circunstância, já que este afamado colégio de franciscanos holandeses influiu na formação juvenil de celebradas figuras da história da medicina mineira, como Guimarães Rosa, Osvaldo Costa e Flávio Neves e também da história geral de Minas, como, entre outros, Tancredo Neves - não esquecendo que Antonio Lara Resende foi ali professor e que filhos da elite dos demais Estados brasileiros também compuseram seu alunado.

           Em meu livro O RISO DOURADO DA VILA (2003) o doutor Osvaldo tem citação obrigatória em virtude de ter sido adepto do esporte da caça, quando esta era permitida. Três outros importantes médicos mineiros que nunca perdiam oportunidade de caça eram o maior cientista brasileiro, Carlos Chagas, o maior cirurgião nascido em Minas, Hermenegildo Vilaça, e o grande clínico juizforano, João Penido os quais caçavam freqüentemente em dupla ou em trio. Osvaldo Reis formou com Júlio Lima (primo de minha mãe) outra dupla de caçadores célebres em nossa região e cito-os em meu livro, a propósito dos causos hilariantes do Vito Paca (Vítor Meneses Bernardes, especializado em pacas), meu querido amigo e contemporâneo de ginásio.

           Já o Fábio fez duradoura dupla em clínica com o Paulo Nogueira de Resende. Três Pontas sempre contou com grandes médicos, mas considero que, entre estes, o Paulo e o Fábio alcançaram o mais alto nível técnico na aplicação da medicina científica ao dia-a-dia do atendimento, seja do mais abastado ao mais humilde dos pacientes. E a contraprova disso está no fato de que Paulo Resende, formado em 1955, por nossa Faculdade, foi homenageado em nossa formatura. E a homenagem não se deu por política minha e do Fábio, foi espontânea e unânime. Paulo, o virtuose da clínica, e o Wilson Abrantes, o ás da cirurgia, foram os inusitados jovens homenageados numa faculdade cuja tradição era reverenciar provectos docentes. Caio Benjamin Dias me disse que considerava o Paulo Resende o internista modelar, com quem sempre sonhara: transitava com desenvoltura da reumatologia à gastroenterologia e da endocrinologia à nefrologia.

           Além de tudo isso, o Fábio Reis se distinguiu como estudante por aspectos incomuns. Naquele tempo, em cada turma, apenas um ou dois tinham automóvel e na nossa o Fábio era quem tinha um Chevrolet último tipo. Também era raro um que se casasse antes da formatura e o Fábio se casou - e logo com uma miss, a miss Lavras, a qual todos os mineiros consideravam injusto não ser miss Brasil. E todos nós a consideramos a eterna miss da turma, apesar do zeloso ciúme do Fábio. Até hoje a Tininha (Altina Moreira Reis, também ligada à nobreza da região, por meio do Barão de Lavras, patriarca da família Gouveia) mantém a majestade de miss, não só pela persistente beleza, mas pela fidalga simpatia e pela finíssima educação.  

           O hoje distinto cientista Ênio Cardillo Vieira, também sulmineiro, foi nosso monitor no segundo ano e observou mais de uma vez que nossa turma era excessivamente irreverente. No Fábio esta irreverência veio somada à altivez recebida de intrépidos ancestrais. Numa aula de microbiologia, esta foi desafiada por um desavisado assistente, metido a tratar universitários como se fossem colegiais pusilânimes. E o caldo entornou sobre o coitado, numa escaramuça com o Fabinho. O episódio está relatado em meu livro de memórias e é relembrado a cada nosso encontro, tal a admiração granjeada pelo insubmisso campeador de nossa turma.

Outra lembrança estudantil sempre acesa é a do respeito imposto pelo time da turma de 60 no futebol universitário, sobressaindo incisivamente o atacante Fabio Reis. Foi por meio dele que craques como Haroldo do Atlético e Amaury do Cruzeiro se obrigaram a tomar conhecimento do TAC (Trespontano Atlético Clube), que, em sua fase áurea, contou com três primos que brilhariam em qualquer clube profissional: Fábio, Everton e Edinho.

Depois do devotamento à clínica por largos anos, em impecável desempenho profissional, o Fábio Araújo Reis hoje é também soberano em desafios mais amenos. E se antes disputava ser artilheiro em canchas futebolísticas, agora freqüenta outros gramados, onde desfilam os mangalargas de seu plantel. Eis outro forte vínculo que me une ao Fabio, pois, como historiador do Sul de Minas, prezo esta apaixonante linhagem de cavalos. Nexo este ainda mais significativo porque, além do Fábio, outro importante criador sulmineiro é o Antônio de Lima Reis, detentor exclusivo de maréis da progênie original. Sendo o Antônio, o Fabio e eu ligados por laços não só de parentesco, mas de ilimitada amizade, tudo isso me faz virtual co-proprietário dos paladinos da raça, que ambos exibem a cada certame.



FÁBIO RIBEIRO MONTEIRO

Ele, José Ribeiro do Vale e eu somos da mesma matéria cósmica 

           

Quando prestei atenção ao Fábio Ribeiro Monteiro durante o exame vestibular, pensei comigo: aquele colega ali tem jeitão de nepomucenense. A coisa foi recíproca porque ele me achou com jeitão guaxupeano. Isso gerou indestrutível amizade, reforçada pela competição entre nós, colegas de turma, para saber quem era mais versátil em atividades clínico-cirúrgicas. O Fábio era tão bom em clínica que ficamos boquiabertos ao vê-lo restringir-se ao laboratório, após a formatura. Mas o laboratório o encantou exatamente pelo potencial deste de evidência científica, já naquela época, área em que foi precoce e pioneiro. Em outros termos, não quis ficar entre os baetófilos, por ser fascinado pela clínica, e não quis ser apenas clínico, por querer ficar mais próximo da objetividade que o laboratório lhe pudesse oferecer.

           A seguir, outra surpresa: o Fábio resolveu entrar na Aeronáutica. Ele facilmente passou ali no concurso para ser gastroenterologista. Pois bem, em 1963 fui ao Congresso Internacional de Doenças Tropicais, Rio, e no Hotel Glória havia uma fila do cafezinho do IBC, composta mais de estrangeiros. Um médico da aeronáutica, à minha frente, observou que eu era de Belo Horizonte e indagou se eu conhecia o Fábio. Então ele me disse: estamos encantados com a competência de dois mineiros: o Fábio Ribeiro Monteiro e o Ronaldo Furtado Ciruffo. Contou-me que havia um caso misterioso para o qual cada especialista dava um diagnostico diferente. Por acaso foi visto pelo Fábio e ele logo diagnosticou doença desmielinizante, o que apresentou em reunião geral. E completou: o Fábio demonstrou tanto conhecimento neurológico e tanta cultura médica que tentamos transferi-lo para a Neurologia e ele se recusou, alegando que gostava mesmo era de clínica geral; olha!, vocês têm um excelente curso de medicina!

           Ainda na Aeronáutica o Fábio foi para Campo Grande, MS. A partir dali prestou assistência a epidemias entre indígenas, experiência que me prometeu relatar em livro, dizendo: João, as coisas que vivi você nem acredita! A seguir se desentendeu com a Aeronáutica e se estabeleceu em Campo Grande, como docente da Universidade Federal e como dono do maior laboratório privado de analises clínicas – tudo isso com o mesmo brilho e a mesma mineirice.      Recentemente me disse, em Belo Horizonte, que estava estudando a velha medicina chinesa e queria saber o que eu sabia dela. Respondi de pronto que era nada diante dele, do que me era dedutível.

           Em visita a Belo Horizonte, Daniel Maitrot, do topo da neurocirurgia da França, perguntou-me como poderia conhecer o pantanal. Telefonei para o Fábio que providenciou tudo. O Maitrot ficou impressionado com o Fábio tanto como com o pantanal. Quando comentava a viagem, entremeava a cada instante uma referencia ao Monteirrô. Acho que o francês descobriu no Fábio seu almejado guru.

           O Ribeiro do Fábio é Ribeiro-do-Vale de Guaxupé. Isso o faz genuíno sulmineiro e, mais que isso, primo do médico José Ribeiro do Vale, formado em 1932 pela Universidade de São Paulo. Ribeiro do Vale é o primaz farmacologista do Brasil e um dos forjadores, ao lado de José Leal Prado, outro sulmineiro, e de outros, da conceituada Escola Paulista de Medicina (hoje Universidade Federal). Estes Ribeiros são um dos três troncos Ribeiros de Minas (do norte, do centro e do sul), cada qual mais ilustre. São também Salgados, além de cruzados com os Monteiros Costa e, como sói acontecer na região, com descendentes das célebres Ilhoas. Monteiros hispanos e lusitanos pontilham o Sul de Minas, de Bom-Sucesso a Guaxupé.

           Partilho com José Ribeiro do Vale a mesma paixão pela cidade natal e pelos avoengos, conforme lhe confessei, quando lhe escrevi pedindo dois de seus livros preciosos, que recebi junto com o convite para uma conversa sulmineira. Lastimo que seu falecimento tenha impedido nosso encontro e que lesse meu livro de memórias. Li de uma só vez seus livros E ELES TAMBÉM CRESCERAM E SE MULTIPLICARAM (1982), GUAXUPÉ – MEMÓRIA HISTÓRICA, A TERRA E A GENTE (co-autor Geraldo Ribeiro do Vale, 1984), e REMINISCÊNCIAS DE UM QUIDAM (quidam aí quer dizer pessoa de menor importância, 1998), sendo que bem antes disso eu era leitor de seus textos científicos e de história da medicina. No primeiro ele faz, como eu mesmo faço entre os meus, interessante estudo da consangüinidade entre seus parentes. Revela também que Vital Brasil, quando menino viveu em Guaxupé.  Depois de um lauto serviço de dados biográficos, nos oferece preciosa sobremesa: sua invejável genealogia científica, que, de um lado o liga a Regalo Pereira, Franklin Moura Campos, Walter Cannon e Karl Ludwig; de outro, a Eneas Galvão, Thales Martins, os Ozório de Almeida, Paul Bert e Claude Bernard.

           Era assim que José expressava suas saudosas reminiscências: Quem, no transcurso dos oitocentos, resolvesse viajar a cavalo, rumo noroeste, da antiga Freguesia de N. S. do Rio Pardo, hoje Caconde, a caminho de Dores de Guaxupé e de Santa Bárbara das Canoas, encontraria, por certo, casarões assobradados de taipa e adobe, edificados com sacrifício pelos primeiros desbravadores daquela região coberta com extensa mataria, incipientes pastagens e pequenas culturas. Poderia, por exemplo, apear de seu rozilho, adentrar a Fazenda da Bica da Pedra, do tio Indalécio, bater à porta e, após devida apresentação, aceitar a hospitalidade do senhorio e, no amplo salão da casa, após o café com rapadura e o cigarro de palha, comentar a fertilidade da terra, o trabalho dos escravos, a promessa da colheita e a engorda do gado. Prosseguindo depois a viagem, atravessaria [fazendas de vários tios, uma delas veio a ser de Ari Monteiro Dias] para alcançar a Bocaina, cuja sede ampla e confortável fora mandada construir na década de 1860 pelo então Tenente-Coronel Manoel Joaquim Ribeiro do Valle [futuro Barão de Guaxupé].

           ... Assim viviam os Ribeiros do Valle de antanho, os pais a sonhar talvez com filhos letrados e as mães a conjecturar o casamento das filhas com os primos mais próximos, pois o enlace já fora apalavrado pelos genitores. Nenhuma preocupação com a consangüinidade. Em casos de doença e à falta de médicos, atendiam os práticos ou farmacêuticos, quando os havia e, com freqüência, se serviam dos conselhos e das receitas do Barão de Guaxupé. Assim, aos 14 de agosto de 1889, ele enviava ao irmão Custódio, o seguinte bilhete: “O seu camarada deve tomar um vomitório de tártaro e falhar um dia para tomar um purgante de sal catártico. Deve lavar a boca amiúde com cozimento de tancagem ajuntando um pouco de vinagre e mel.” E acrescentava: “Desejo que esteja gozando de boa saúde. Por cá, vamos passando bem graças a Deus. Conto por certo com seu voto na eleição de 31 do corrente para deputado. Espero que não falte. Seu irmão que o estima, Manoel Joaquim Ribeiro do Valle.

           Depois desse exemplo, pergunto: quando o quidam Fabio Ribeiro Monteiro vai presentear-nos com suas reminiscências que, no seu caso, cobrem Guaxupé, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Campo Grande, o Pantanal e a Selva Amazônica?


GERALDO ALVES COUTINHO

Já quartanista operava melhor que colegas e docentes

 

Em meu livro O RISO DOURADO DA VILA (2003), o Geraldo Coutinho assim é referido: ... cada um de nós já era cirurgião desde quartanista, seja suturando no Pronto Socorro, seja operando fimose ou drenando abscessos na Santa Casa. Daí extraí o conceito de currículo informal (ou paralelo ou clandestino) de minha tese de doutorado. Um de nós brilhante na cirurgia tem sido desde cedo o Geraldo Alves Coutinho, o ídolo da medicina na região de Ouro Fino: dele fui auxiliar em gastrectomias e tireoidectomias e os docentes supervisores visivelmente o admiravam, reconhecendo implicitamente que aquele estudante operava melhor que eles. Certa feita eu e o Geraldo auxiliávamos uma gastrectomia e o assistente falou irônico: vamos, João, afaste o pâncreas, ele não morde! Eu, que honestamente cuidava de não traumatizar o órgão, respondi na bucha: pode até não me morder, mas tem corpo, tem cauda, tem cabeça e, olha aí, já nasceu mordendo o duodeno! Esta passagem está no folclore dos residentes de cirurgia, pois o Wilson Abrantes a incluiu no repertório humorístico com que brinda seus discípulos.

Em nossa turma não houve de jeito algum uma panelinha de sulmineiros. Havia sim uma afinidade que nos fazia lembrar e até repetir causos da região, os quais passaram a ser divulgados encadeadamente pela comunidade estudantil. Com isso conseguimos o feito de disseminar entre os colegas de outras regiões o modo de pensar, de agir e até de falar peculiar ao sul do Estado. Assim, em vez de nos segregar, fizemos o contrário: passamos os seis anos do curso fazendo de toda nossa turma verdadeira turma de sulmineiros. O Fábio Ribeiro Monteiro, o Fábio Araújo Reis, o Luiz Fábio Rocha (os três Fábios do sur) o Geraldo Coutinho, o Sérgio Almeida de Oliveira, o Ernesto Lentz, o Osvaldo Garcia, o Márcio Tornelli e eu chegamos mesmo a ser admirados por nossa simplicidade em sermos nós mesmos.  Exemplo disso aconteceu no quarto ano, numa aula de tisiologia, quando o professor José Feldman colocou uma chapa (didaticamente defeituosa) no negatoscópio e me perguntou: que você faria com este raio-x e por que? A resposta correta eu a dei, mas saiu mais ou menos assim: uai, sô, eu devorrvia ela! uai é purrquê o aparêio zangô ô intão o batedõ de chapa coisô ela, uai! E por todo o resto do curso e de minha longa convivência com o Feldman fui cobrado por esta minha comovedora fidelidade ao sotaque regional. Isso se repetiu nos EUA, quando meu inglês com acento sulmineiro fez um ianque me perguntar: em que cidade do Texas você nasceu?

A República Pasárgada era, nessa época, um reduto sulmineiro. E poderia haver nome mais inconveniente para ser a todo instante pronunciado por sulmineiros? O Geraldo Coutinho, que deixou um rastro de façanhas naquela República, até hoje titubeia e hesita ao dizer pasárrgada. Mas ali era ele o rei de quem cada um era ou queria ser amigo. Certo dia, era alta a madrugada e o inesquecível colega João Cândido dos Santos me puxava pelo braço, para irmos para a Pasárgada. E falava com a voz arrastada: vamos embora para Pasárgada, lá sou amigo do Geraldo Coitão, lá tenho a mulher que eu quero, na cama que escolherei, lá a existência é uma aventura, em Pasárgada tem tudo, é outra civilização, tem um processo seguro de impedir a concepção e tem prostitutas bonitas para a gente namorar... Além de traquinas, a Pasárgada era palco de cenas surrealistas, uma delas a do doutorando tão distraído que ia entrar sob o chuveiro aberto, mas voltou a seu quarto, pegou um guarda-chuva e o abriu ali para proteger-se daquela chuva.

O Guilherme Cabral era outro sulmineiro da Pasárgada e, estando um ano à nossa frente, veio sendo nosso monitor de histologia, fisiologia, anatomia patológica e técnica cirúrgica. Logo na histologia, o professor Luiz Carlos Junqueira, também de família sulmineira, nos fez operar ratos para preparar lâminas do fígado. E o primeiro de nós a cortar o rato foi o Geraldo, instruído pelo Guilherme, embora este também fosse novato naquilo. Mais tarde o Guilherme me disse que desde aquele início passara a considerar o Geraldo a mais impressionante vocação cirúrgica que conhecera. Este elogio ouvi de outros estudantes a nossa frente e dos melhores docentes das cadeiras cirúrgicas. 

Quando o Geraldo e eu fizemos dupla no estágio de cirurgia, no sexto ano, me vi no papel de auxiliar e expectador, porque ele, antes de graduar-se, já havia amadurecido a habilidade inicial em pleno estilo próprio, no qual a elegância e a precisão produziam verdadeiro efeito estético. Ora, se isso é verdade e se isso se confirmou ao longo de toda sua carreira profissional, uma pergunta se impõe: por que este virtuose renunciou a ser a referência acadêmica que prenunciava?

De fato o Geraldo Coutinho e o Rui Paolucci, na medida em que deixaram de fazer carreira universitária, expõem grave defeito de nossa universidade: a capacidade desta de desaproveitar gigantes para absorver anões, salvo honrosas exceções. Daí que tudo que escrevi, nesse contexto, sobre o Wilson Abrantes, por sinal nosso precoce homenageado na formatura, se aplica a estes dois colegas. E ambos contribuíram ao conceito de ensino paralelo e de universidade paralela, que venho debatendo em meus textos pedagógicos.

Um dia chego a Nepomuceno e o historiador e dentista João Menezes Neto me procura com um jornal publicado em Passos. Meu conterrâneo queria saber se o acontecimento ali descrito era mesmo possível e se o herói de verdade, seu autor, era meu conhecido. Um médico ourofinense salvara a vida de um suicida (que tinha parentes em nossa cidade), costurando a tempo o rombo no músculo do coração, causado pelo projétil de um revólver. Respondi: deixa-me ler o nome do médico, se é quem suponho, não tenha a menor dúvida. Sim, o cirurgião era “o doutor Geraldo Coutinho” e o fato heróico, o de salvar uma vida (um entre muitos em sua carreira) era verdadeiro! E o felizardo continua vivo até hoje... Sim, aplausos são rotina na vida do Coutinho, e desde pré-graduado, como sobredito. Ora o mais ouvido é o das madames para as quais devolveu a bênção da continência urinária, por meio de magistral técnica que adotou e aperfeiçoou.

Na entrada de Ouro Fino se vê enorme escultura do “Menino da Porteira”. Houve quem afirmasse que outra localidade de mesmo nome, em Goiás, fosse a referida na canção. Na festa oferecida pelo Geraldo Coutinho, a dúvida foi dirimida amigavelmente. Os visitantes goianos: Dilair, Rosari e Rui, em nomes de Marinez, Penido, Luzia e Luciano subscreveram, com a unanimidade dos presentes, a transferência definitiva desse privilégio a Minas, sem outro argumento exceto o de que a paixão pela música manifestada por esse cirurgião-cantor o fazia pleno merecedor de tal proclamação. Os subscritores mais entusiastas do documento fomos a Vera e familiares, a Leila e eu próprio, não só por sermos fãs incondicionais do  intérprete Geraldo, mas porque Ouro Fino significa muito para nós. Para mim, particularmente, é o lugar natal de quatro outras criaturas a quem prezo de modo especial: Luiz Apocalipse, meu ex-professor de ginásio, Álvaro Apocalipse, o magnífico artista dos bonecos Giramundo, Wilson Almeida, sofisticado psiquiatra da linha existencial, e a educadora Leide Guimarães, minha queridíssima colega de estudos sulmineiros.



GERALDO EVARISTO CANABRAVA PEREIRA

Este sertanejo curvelano realizou com felicidade o desejo inicial de seu quase-conterrâneo João Rosa

        

João Guimarães Rosa, nascido em Cordisburgo, vizinha a Curvelo, diplomou-se médico em 1930 pela mesma faculdade em que se diplomaria 30 anos depois o curvelano Geraldo Evaristo Canabrava Pereira. Rosa desejou inicialmente ser médico do sertão. Já casado antes de se formar, em vez de ir para o alto sertão da região de Curvelo, só conseguiu internar-se no baixo sertão de Itaguara. As voltas da vida nem aí deixou que o João ficasse. Bateu asas pelo mundo afora, fisicamente longe de ambos os sertões e longe também da medicina, mas para sempre sertanejo. Geraldo Canabrava teve desejo inicial idêntico. Mas ele, com o diploma na mão, voltou para sua terra, e de lá não saiu, exercendo, pela vida toda, magnífica medicina, imerso na intimidade de sua gente.

           Dos 44 que ingressaram em 1955, quatro colegas chamavam a atenção pelo modo calmo, descansado e sereno de enfrentar o curso, sobretudo sob o impacto inaugural do contato com os cadáveres: Geraldo Canabrava, Pérsio Godói , José Carlos Mendonça e eu. Tanto era assim que, na física médica, quando pediram alguém de cobaia para medir o metabolismo, todos olharam para o Canabrava, em episódio que narro em meu livro O RISO DOURADO DA VILA (2003). E quando o professor Americano Freire acoimou-nos de deficientes tireoidianos, todos olhamos para o Canabrava, esperando dele o revide à altura, mas que veio limitado a um convincente sorriso irônico – aliás distintivo deste coboclo tão capaz de crítica mordaz, mas sempre discreta. Essa faceta do Geraldo, a coligi muito bem na República Pasargada, onde moraram dois Geraldos de minha turma: ele e o Geraldo Coutinho.

           O Canabrava e eu, ainda no terceiro ano médico, resolvemos iniciar nosso primeiro estágio com responsabilidade clínica, no pavilhão de medicina tropical. Foi aí que a serenidade de meu colega ficou mais patente ainda e, com ela, ele se mostrou desvelado pediatra. E o Geraldo e eu nos perguntávamos por que a pediatria não era ensinada precocemente. Mais tarde, passei a defender e chegamos a implantar o ensino precoce de medicina geral de crianças. Nos debates sobre tal, às vezes rudes, um de meus apoios era a lembrança do principiante Geraldo a cuidar dos pacientes-meninos, na infectologia. E, como o Geraldo veio a ser pediatra e anestesista em Curvelo, a proposta de um pediatra que fosse também anestesista, apresentada em 1968, para compor a equipe mínima de médicos para cidades do interior, não pode ser dissociada desses nossos primeiros passos clínicos.

Certo dia fui ao laboratório clínico de meu grande amigo Luiz Carneiro e lá estava um rapaz que me pareceu gente conhecida. Era o irmão do Canabrava, de nome Álvaro, que vendia insumos para laboratórios clínicos. Desde então o encontrei ali e fora dali várias vezes e sempre recebia notícia do Geraldo, de permeio a lembranças de nosso curso e de sua cidade. Curiosamente a família não ficou com a sede da fazenda Canabrava, mas uma fazenda em Lassance. Mais tarde me tornei muito amigo do historiador e pediatra Olavo Gabriel Diniz, sendo ele, o irmão Sílvio e o pai Antônio os principais historiadores curvelanos. Deliciei-me com todas as histórias e estórias contadas por ele sobre as famílias Canabrava, Pena e Paula. O Olavo me perguntou: quem você conhece dos Canabravas, para ter tanto interesse assim por eles? Respondi-lhe que o principal era Geraldo Evaristo Canabrava Pereira, meu colega de turma, que também é Paula e, sendo Evaristo, é xará do Vô Varisto, aquele que, por intermédio de Cantarino da Mota, chamou a atenção de Carlos Chagas para o potencial patogênico do barbeiro. Só depois do Geraldo vinham o filósofo Euryalo Canabrava, de quem eu era leitor, o notável Canabrava Barreira, o maior cartógrafo do Brasil, de quem eu tinha todos os livros, e o Dalton Canabrava, que numa época em que todos os médicos eram anti-juscelinistas, ele era fiel juscelinista e também escudeiro de Clóvis Salgado.

           Em 1968 cheguei a Curvelo em busca de documentação para meu estudo sobre a paciente Berenice, a paciente em quem Carlos Chagas descobriu, em 1909, a doença de seu nome. A Berenice nasceu numa fazenda curvelana e Lassance, onde se deu a descoberta, pertencia a Curvelo em 1909. Pois bem, eu esperava que meu colega de turma, médico em Curvelo e fazendeiro em Lassance, me auxiliasse em minhas investigações. Achei um Geraldo Canabrava todo atarefado e a cada minuto assediado por funcionários e pacientes no Hospital Santo Antônio. Ele me viu e abriu largo sorriso de satisfação. Advertiu-me que eu era testemunha do desaparecimento daquela tranqüilidade que o fizera famoso durante o curso. Largou tudo ali e foi apresentar-me ao Monsenhor João Tavares de Souza, por quem fiquei fascinado, seja por sua impressionante figura de sacerdote autêntico, seja pela soma de conhecimentos de toda ordem. Ficamos duas horas conversando e, quando me despedi de ambos, o Geraldo quis que eu pernoitasse na cidade. Respondi que aquela era uma conversa sem fim, daí que eu voltaria pelo menos duas vezes: uma para discutir com o monsenhor os resultados das indicações que acabara de me fornecer e outra para visitar o cemitério da família Canabrava, onde teria sido sepultada uma filha natural de Carlos Chagas.

           Hoje me penitencio de não ter voltado para os dois compromissos. Quando quis reencontrar o Monsenhor, tive notícia de que ele deixara Curvelo e estava em Belo Horizonte. E, quanto à visita ao cemitério, veio sendo adiada. Remarquei-a todas as vezes em que reencontrei o Canabrava em Belo Horizonte, sendo a última na casa do Édson Razuk. Foi nessa data que ele me confidenciou estar muito feliz pela já evidente projeção de sua filha (hoje minha colega de docência na Faculdade e no mesmo Departamento): a brilhante dermatologista Luciana Baptista Pereira. O Geraldo, que dedicou toda sua competência e toda sua vida a seus conterrâneos, tem seu nome no Centro de Tratamento Intensivo do Hospital Santo Antônio. Também atuou dedicadamente no Hospital Imaculada Conceição. Não deverá ser esquecido na história da medicina entre os bravos doutores comunitários de Minas.


GILBERTO LINO VIEIRA

De humanizador do trote a vanguardista da cardiocirurgia brasileira

           

O Gilberto Lino foi um dos 44 selecionados pelo severíssimo exame vestibular imposto à atual Universidade Federal de Minas Gerais pela Fundação Rockefeller, em 1955. Logo nos chamou a atenção seu dinamismo nas aulas práticas e fora delas, bem assim sua incrível capacidade para tudo memorizar, desde nomes científicos até apelidos de colegas e docentes. O regime rockefelleriano na Faculdade de Medicina incluía tempo integral tão exagerado que as aulas práticas avançavam pela noite, sendo que as do monitor Ângelo Machado ultrapassavam as 23 horas. E o Gilberto não conseguiu conciliá-lo com seu ganha-pão de bancário, mas deu um jeito. Hoje os que o conhecem fazendeiro bem sucedido custam a imaginar seu aperto inicial. 

           Como segundanista, foi marcante em dois momentos. No primeiro, o aforismo de Baeta Viana, de que o aluno deve ser cobaia de si mesmo, nos obrigou a tirar sangue uns dos outros, para que dosássemos a uréia e a glicose de nosso próprio organismo. O Gilberto alardeou que passara de simples bancário a bancário-de-banco-de-sangue e daí que era craque naquilo. Fizemos fila para que ele nos espetasse. Depois de sangrar cinco, ele disse: confesso que foi a primeira vez que fiz isso, agora que viram que um novato não matou ninguém, ofereço minha veia para que um de vocês puncione pela primeira vez. E todos os cinco exigiram aprender nos dois antebraços do Lino.

           Outro episódio foi o trote humanizado. A troteada exagerada que nossa turma recebeu nos levou a lutar pela humanização da pseudo-brincadeira. E até hoje, no curso de História da Medicina, o Gilberto é lembrado pelo invento da seguinte encenação. Os calouros eram avisados de que o catedrático mais feroz da escola daria sua primeira aula. Tivessem o máximo cuidado com ele. Era tão feroz que sua ferocidade extravasou seu lobo frontal, a ponto de projetar-se à frente da testa, sob a forma de grossas sobrancelhas. Os calouros, então, acompanhavam trêmulos as absurdas instruções, recheadas de cataclísmicas ameaças, proferidas, aos gritos, por aquele pseudo-catedrático de cerdoso supercílio.

           Gilberto Lino só se tornou menos impetuoso quando foi domesticado por sua graciosa namorada, nossa colega de turma Penha Furtado Campos, que para isso usou o DNA apropriado, herdado de dona Joaquina do Pompéu. Sim, aquela aluna (depois excelente pediatra), cuja seriedade precoce aumentava ainda mais seu encanto, canalizou as energias ociosas do Gilberto para realizações cada vez mais elevadas. Ele foi um dos líderes da pesquisa coprológica a que nos desafiou René Rachou, o surpreendente professor de parasitologia que tivemos. Os resultados estão publicados e até hoje é ótimo exemplo de iniciação científica ainda na graduação. Liderou também a delegação da Faculdade ao melhor dos encontros científicos estudantis da época.

           Sua trajetória alcançou o ápice quando foi eleito presidente do Diretório Acadêmico Alfredo Balena, onde realizou diversas façanhas inéditas. Relembro a mais espetacular. Redigi uma declaração de Juscelino Kubitschek pela qual a Força Aérea levaria nossa turma, cuja seriação coincidia com o mandato dele, a conhecer Brasília, ainda em obras. Desafiamos o presidente Gilberto a que convencesse o presidente Juscelino a assinar o documento, por ocasião da aula magna que nos deu em 1960. No saguão da Faculdade, ele pediu que os dois mais altos de nós o erguessem e, com isso, alcançou o outro mandatário também no alto, erguido triunfalmente por puxa-sacos. E não é que obteve o jamegão?

           Quando o Gilberto Lino, o Sérgio Almeida e eu cursávamos o que hoje é a residência médica, participamos de um acontecimento histórico da medicina brasileira: a implantação do primeiro marca-passo cardíaco artificial bem sucedido no país. A partir daí o Gilberto participou ativamente das primeiras etapas da grande cirurgia cardíaca brasileira, inclusive desenvolvendo equipamentos autóctones. Pouca gente sabe que, nesse esforço tecnológico, participavam ora um habilidoso funileiro de Santa Luzia, ora o mineiro-adotivo Adib Jatene, ao volante de uma vemaguete, a percorrer a recém-asfaltada rodovia Fernão Dias. Além dos citados, participaram de Minas nesta vanguarda outros clínicos e cirurgiões: Adauto Barbosa Lima, Arnaldo Elian, André Esteves de Lima, Moreira Santiago, Ernesto Lentz, Luiz Fábio Rocha, Sílvio Ribeiro, Maurício Kalil e Luiz Ratton.

           Sou testemunha, ao longo de décadas, da inacreditável versatilidade - quer clínica, quer cirúrgica – do Gilberto Lino Vieira. Como estudioso da pedagogia médica, posso testemunhar também a origem de tanta capacitação. Nossa turma é recordista internacional e histórica em carga-horária anatômica. Para completar, houve outro fator que nos expôs, ainda na graduação, a intenso treinamento junto ao paciente, tanto em ambulatório, como no centro cirúrgico e na enfermaria. Inaugurou-se o primeiro bloco do Hospital das Clínicas e fez-se o arrendamento do Hospital da Cruz Vermelha, que se somaram aos demais hospitais da Capital, tudo isso oferecido a pequeno número de aprendizes. Então aconteceu um fenômeno inverso à especialização precoce, naquele tempo já tendência mundial. Estabelecemos uma saudável competição para saber quem era mais polivalente em medicina, durante e logo depois dos três últimos anos do curso. E Lino Vieira, por insistir em ser versátil a vida toda, merece o título máximo entre tão qualificados competidores.


JAIRO GUERRA DA SILVA

Ser excelente cirurgião plástico é apenas uma das facetas deste eterno romântico

           

Em meu livro de memórias O RISO DOURADO DA VILA (2003), assim aparece o Jairo: Outra cena do vestibular que me ficou foi a da banca de exame oral formada por um escrete de cientistas: Marques Lisboa, Amilcar Vianna Martins e Luigi Bogliolo. Só que o Marques Lisboa quase nós não o víamos, pois, miúdo, se escondia atrás de galhos e folhas usados para nos argüir sobre o mundo vegetal.. Quando nos sentamos eu e o Jairo Guerra (depois vitorioso cirurgião plástico) diante dos aureolados mestres, o Prof. Bogliolo nos olhou com o semblante paternal e comentou com os demais examinadores que parecíamos muito crianças para estarmos ali. E os veteranos que se divertiam atrás logo acrescentaram: não são nem crianças, são embriões que escaparam lá da maternidade.

O Jairo disputou comigo o troféu de qual de nós dois era mais amigo do João Cândido dos Santos. Ele começava com a vantagem inicial de que sua terra natal era mais próxima da do João. Afinal ambos concluímos que aquele colega era fora do comum até nisso. Convenceu-nos de que ficamos definitivamente empatados nesta saudável porfia.

           O Jairo veio ser meu vizinho no mesmo prédio e nossos filhos ainda bebês conviveram ali e tiveram a mesma educação inicial. O João Vinícius, um de meus filhos, teve um corte no rosto e a excelente correção que o Jairo lhe fez foi a oportunidade para que eu avaliasse tão de perto seu virtuosismo na cirurgia plástica. Quando sua esposa Vera Lúcia me disse que era Álvares da Silva, tive a satisfação de dizer-lhe que aquelas nossas crianças eram primas entre si, pois sou do ramo Silva Campos que foi de Pitangui para Três Pontas. Mas fiquei surpreso mesmo foi com a origem do sobrenome Guerra do Jairo, quando me disse originar-se de um herói Silva da guerra do Paraguai que, em Bom Despacho, de tanto se vangloriar desta, ficou sendo o João da Guerra. E, mais surpreendentemente ainda, é um fato bem mineiro: João Guerra teve duas esposas, sendo o Jairo descendente da primeira e a Vera da segunda – o que só souberam depois do início do namoro.

           A história do fiscal de matas João Batista Guerra, pai do Jairo, é digna de ser publicada, com grande interesse humano e histórico, pois documenta acontecimentos relativos ao desmatamento da mata da Zona da Mata e adjacências. A cidade natal de seu filho Jairo Guerra da Silva, Manhuaçu, tem para mim interesse especial, como terra de outros grandes amigos, como Ladislau Sales, Jaor Werner de Menezes e meu colega de colégio estadual José Guilherme Vilela, tragicamente assassinado em Brasília. Outro fato que me atrai é que para essa região migrou parte da família Salgado, daí originando dois Salgados célebres: Clóvis Salgado, estadista, e Sebastião Salgado, o melhor fotografo do mundo.

           O Jairo fez o curso ginasial em Rio Casca onde teve de ser balconista para se manter. Para o curso científico, veio para Belo Horizonte onde, no Colégio Santo Agostinho, foi semi-interno, pagando o estudo a troco de serviço na portaria, na secretaria e na limpeza, inclusive sanitários. Sobressaiu ali como datilógrafo, orador e ponta direita do time colegial - tanto que passou a ter remuneração adicional para pagar o quarto que alugava em sociedade com o futuro colega de formatura em 1961, Everardo Andrade da Costa (depois celebridade nacional, na Universidade Estadual de Campinas, em otorrinolaringologia e audiologia ocupacional).

           O exame vestibular do Jairo foi diferente do da maioria dos concorrentes, pois não fez nenhum cursinho pré-vestibular e se inscreveu apenas na faculdade federal de medicina o que torna sua vitoria altamente significativa. Ele próprio percebeu sua façanha quando no início do curso soube das facilidades usufruídas principalmente pelos que vinham de famílias ricas e com largo acesso à informação. O curso, sob o regime da Fundação Rockefeller, era feito de modo a impedir que o aluno trabalhasse para estudar. Mesmo assim o Jairo teve de arranjar emprego de tarefeiro na gráfica da Imprensa Oficial. Acometido de hiperidrose palmar, chegou a ser submetido a uma simpatectomia não invasiva, com isso tendo de fazer o terceiro ano com a turma seguinte, diplomando-se em 1961. Isso poderia levá-lo a abandonar o curso, mas amplo apoio que recebeu, principalmente de seu confidente João Cândido, fez com que ele transformasse o contratempo em vantagem. Sim, em vez de uma, passou a ser membro de duas turmas, amigo de todos.

           Conseguiu transferir-se da gráfica para o Pronto Socorro, foi monitor na cadeira do professor João Resende Alves, trabalhou em banco de sangue e em laboratório e passoua a fazer transfusões de sangue para o doutor Fábio Rabelo, recém-chegado da Inglaterra. Como outros colegas das duas turmas, realizou cirurgias antes de formar-se, tornando-se clínico e cirurgião de excelente preparo. Fez bela carreira como cirurgião plástico e tornou-se, aos 62 anos, estrela como perito judicial.

           Depois de formado fez simpatectomia intratorácica, sendo que no pós-operatório sofreu lobectomia. Recuperado, fez o equivalente à residência médica no Hospital Felício Roxo e breves estágios de cirurgia estética em São Paulo (com Victor Spina e Nelson Pigossi) e no Rio (com Ivo Pitangui). Passou a assistente do professor Resende Alves e vez viagem à Europa e aos EUA para conhecimento de grandes centros de cirurgia plástica. Fundou e chefiou vários serviços de cirurgia plástica, dentro e fora de Belo Horizonte, e foi professor na graduação e na posgraduação desta disciplina

           Entre notáveis realizações cirúrgicas, seu cometimento de maior repercussão foi um caso de neofaloplastia, infelizmente não divulgado como merecia. Ascânio Figueiredo teve a idéia feliz de dar notícia do fato em seu oportuno livro HPS – UMA HISTÓRIA DE PAIXÃO E SOLIDARIEDADE. Menciona que a façanha de Jairo Guerra da Silva foi apresentada no 19º Congresso Brasileiro de Cirurgia Plástica, realizado em Recife, em 1982, com o título: RECONSTRUÇÃO TOTAL DO PÊNIS COM NEO-URETRA E PRÓTESE DE SILICONE.

           A trajetória percorrida por Jairo Guerra da Silva pelos meandros da cirurgia plástica em Minas Gerais pode e deve ser adjetivada de apostolar. Com a responsabilidade de quem atuava no Estado natal da cirurgia plástica brasileira - desde Hermenegildo Vilaça, no século 19, Afonso Pavie no início do século 20, até Ivo Pitangui, chegando ao século 21 - Jairo fez o trabalho inverso do que era e é vezo entre especialistas ávidos de fugidia notoriedade, sobretudo no sub-ramo cosmético da especialidade. Não sonegou conhecimentos atualizados, técnicas preciosas e atitudes corretas. E os disseminou por hospitais, cursos e congressos. Fez de seu serviço particular, o modelo onde sua pregação foi plenamente praticada e toda essa vivência profissional está em bela coerência com suas lutas pessoais, as quais também primam pelo timbre da bravura e da superação.



 

JOÃO AMÍLCAR SALGADO

Como primeiro no exame vestibular e orador da turma, assumiu a missão de fazer o perfil de cada colega


Sebastião N. S. Gusmão

Os amigos e admiradores do médico e historiador João Amílcar Salgado, professor titular de Clínica Médica da Universidade Federal de Minas Gerais e criador do Centro de Memória da Medicina de Minas Gerais, não escondem o contentamento por afinal poderem percorrer as 600 páginas do livro autobiográfico que ele acaba de publicar, em comemoração ao centenário de nascimento de seu pai, o farmacêutico e poeta João Salgado Filho.

           Sendo amigo e estudioso de Pedro Nava, João Amílcar Salgado não quis seguir a linha proustiana do grande memorialista. Muito menos ambicioso, optou pela memória humorística do período entre 1940 e 1960, entremeada de flashes de antes e de depois. Trata-se dos chamados anos dourados, intensamente vividos do ponto de vista pitoresco de sua cidade: Nepomuceno, a antiga Vila de S. João Nepomuceno de Lavras.

           Além de sua querida Vila, ele focaliza o colégio marista de Varginha, bem como a ainda pequena capital Belo Horizonte, nos nostálgicos anos dos governos estadual e federal de Juscelino Kubitschek. Sendo também especialista em ensino médico, faz bem humorada análise da educação que viveu. Teve, aliás, privilegiada maneira de observar, sem recalques, a escola do primeiro ao terceiro grau, aluno continuamente louvado e premiado que foi. Não bastasse isso, foi o primeiro estudante a passar em primeiro lugar em ambos os vestibulares das duas escolas médicas belorizontinas de então, sendo sua turma excepcionalmente pequena, já que foram aprovados apenas 44 candidatos!. Tal drástica elitização foi imposta pela Fundação Rockefeller, que estava americanizando o ensino em São Paulo e em Minas (antes prevalecia o modelo francês), onde graduou várias turmas apelidadas de Rockefeller generation (admitidas de 1955 a 65) Diante disso, o autor encerra o livro com trechos de seu crítico e profético discurso de orador muito jovem daquela turma de escassos 44 doutorandos, em dezembro de 1960.

Até então os alunos distintos primavam por incensar o establishment do ensino e da profissão. Daí que sua irreverentíssima oração, saudando o paraninfo Javert Barros, foi ouvida, com perplexidade, entre outros, pelos saudosos e inesquecíveis mestres Baeta, Feldman, Bogliolo, Rivadávia, Mendes Campos, Melo Campos, Negrão de Lima, Resende Alves, Rubens Monteiro, Hilton Rocha, O. Magalhães, O. Costa, A. Lodi, Hermínio Pinto, Amílcar Martins e Aparício Assis – dos quais agora focaliza o mérito e o folclore. Com isso, consegue também preservar parte preciosa de nosso anedotário escolar, principalmente das repúblicas de estudantes.

           Como cientista, obteve repercussão internacional já logo após a formatura, ao fazer a surpreendente revelação de que estava ainda viva a paciente Berenice, na qual Carlos Chagas descobrira, décadas antes, a doença de seu nome. Além de pesquisador em medicina tropical, aposentou-se como respeitada autoridade em pedagogia e semiologia médicas. Alguns de nossos melhores clínicos foram seus alunos e/ou residentes nos anos 60-85.  Se tivesse acontecido o governo federal de Tancredo Neves, teria sido marcado, nas áreas da saúde e da educação, pela lucidez do pensamento original desse raro homem de enciclopédica cultura. E é admirável que sua tão bem sucedida carreira estudantil, científica e docente tenha sido percorrida, sem que, para isso, tenha transigido com seus corajosos e influentes posicionamentos no campo político-social, expressos em sua tese de doutorado e em tantos célebres panfletos e debates.  

Fanático nepomucenense e fanático sulmineiro, João Amílcar Salgado formula neste livro a teoria de que sua Vila é o umbigo do mundo, enquanto descobre que vários personagens de sua infância e juventude são incríveis sábios disfarçados de caipiras. Assim usa, desta vez por escrito, os recursos que o fizeram requisitado conferencista e aplaudido orador. Demais tem prontos para publicar livros do pai e do avô, bem como a história inicial de sua cidade, graças ao acervo que deixou de utilizar no presente texto. Igualmente finaliza um manual de pedagogia médica e outro de história da medicina, além do estudo completo sobre o caso Berenice.

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Sebastião N.S. Gusmão é rofessor titular de Neurocirurgia da UFMG e ex-coordenador do Centro de Memória da Medicina de Minas Gerais

 

 

 


JOÃO AUGUSTO MOREIRA TEIXEIRA

Intelecto privilegiado, orgulho dos familiares e dos colegas

         

        Em meu livro O RISO DOURADO DA VILA há o seguinte trecho. No exame vestibular me lembro dos familiares do João Augusto Moreira Teixeira como se fossem uma torcida acompanhando cada prova do menino-prodígio dos Teixeiras. Foi uma pena que ele não tenha feito carreira científica e o Baeta Vianna deveria ter sabido segurá-lo na bioquímica. Assim, quem melhor usufruiu de sua inteligência e da bela formação cultural que acumulou foram os que tiveram o privilégio de ser seus amigos do dia-a-dia, seus clientes e seus familiares, assim mesmo não por muito tempo, já que nos deixou.

           Já à Ieda, outra minha forte concorrente ao primeiro lugar no vestibular, me refiro no seguinte trecho. Todo primeiranista sente o impacto do cadáver. O nosso foi impressionante, porque o DiDio, querendo fazer-nos anatomistas, antes de tudo nos pôs a descarnar dezenas de cadáveres não formolizados que, cozidos, tiveram seus ossos desarticulados e preparados para a montagem da maior coleção do mundo de esqueletos íntegros dos próprios indivíduos. Jamais o odor desses cadáveres sairá de nossas narinas. A propósito, onde estarão tais esqueletos? Neste episódio uma bela garota de 18 anos chamou a atenção de todos, era a Ieda de Barros Siqueira. Com que frieza e seriedade ela se entregou ä desagradável tarefa! Aquela sim anunciava vir a ser a Curie brasileira, dona de uma cabeça brilhante. Foi um raríssimo talento que Minas perdeu, pois ganhara antes um prêmio nos EUA e, sem completar um semestre de curso, foi-se para não mais voltar, deixando os 44 abandonados pela musa e duplamente diminuídos a 43

           O João Augusto, apelidado carinhosamente de Gugu, e a Ieda Siqueira são, pois, dois colegas que tiveram diminuída sua convivência conosco, o primeiro por ter falecido prematuramente e a segunda por não ter mais regressado dos EUA. Têm também em comum o estigma de inteligências prodigiosas desde crianças, com parentes de mesma reputação. Ela parece que passou a trabalhar para o governo estadunidense e ele veio a ser importante oncologista, tendo sido médico da Neusa, minha irmã. A oncologia nessa época ainda não contava com os promissores recursos atuais. Assim, Álvaro Ozório de Almeida e o João Augusto Teixeira são talentos raríssimos que, de certa maneira,  malharam em ferro frio no momento errado dessa especialidade. 

           O Edir Siqueira, irmão da Ieda, foi para os EUA e de lá também não retornou. Isso a deve ter influenciado. Ele se tornou assistente do maior neurologista de lá, Paul Bilsen, o maior do mundo em sua época. Conversei com o pianista Edir na festa dos cinqüenta anos de sua formatura, em 2008. Sua turma em nossa Faculdade é conhecida pela plêiade de figuras de renome, dois deles meus diletos amigos, Luiz de Paula Castro e José Sílvio Resende.

           Já do João Augusto o parente importante é seu pai, o médico Carlos Martins Teixeira, era um dos que acompanhavam nossas provas orais no vestibular. Muitos o adjetivam como clínico pessoal de Juscelino Kubitschek. Mas sua importância ultrapassa esse fato, por ser autor de estudo clássico sobre a silicose no Brasil. Seus textos passaram a raridade, daí que se suspeita alguma ação das empresas mineradoras. Carlos Martins Teixeira publicou HIGIENE DAS MINAS DE OURO – SILICOSE – MORRO VELHO (1940), e HIGIENE DAS USINAS SIDERÚRGICAS – SABARÁ (1944). O Gugu é primo do Márcio de Castro e Silva, outro médico de invejável cultura e o talento hereditário desta família veio a ser comprovado com o filho deste, Marcio de Castro e Silva filho, cujo brilho como cientista encheria de orgulho seu primo João Augusto e o próprio Baeta Viana.

           O Gugu e eu ficamos entusiasmados quando o Razuk conseguiu instalar no Diretório Acadêmico um aparelho de som de alta qualidade. Os discos adquiridos foram selecionados por dois critérios: aqueles que seriam aproveitados para o show medicina e aqueles que o Gugu listou com a carta branca que lhe demos. Apesar de nossa turma contar com adeptos autorizados tanto da música popular como de composições eruditas, todos concordaram que nestas ultimas ninguém o superava. Ele me punha sentado a seu lado e exigia um comentário sobre cada composição. Eu falava uma frase bastante prudente e deixava que ele falasse longamente sobre a obra, o autor e fofocas respectivas. E cada sessão terminava invariavelmente sobre as afinidades musicais de Baeta Viana.

           Numa das vezes ele ficou indignado comigo. O assunto tinha recaído sobre Ludovico da Baviera. O Gugu esbanjou seu completo saber sobre esse monarca e suas relações com obras incríveis na música, no teatro e na arquitetura, e particularmente sua devoção a Richard Wagner. Caí na tentação de dizer ao Gugu: vou escrever no pH7 um artigo com o título BAETA VIANA – O BÁVARO LUDWIG DA BIOQUÍMICA. Ah! pra quê! Ele ficou uma fera comigo. E disse: esqueça isso!, o Juca pra mim é intocável! Se você insistir eu e o Armando vamos te aplicar uma surra! Ergui os dois braços bem altos e falei: Calma, Gugu, onde foi que errei? Mas não me diga agora, deixa para me dizer quando estiver mais calmo...

            


JOÃO CÂNDIDO DOS SANTOS

Sua fraterna amizade foi meu terceiro trofeu do curso médico

           

O primeiro lugar no vestibular e a eleição esmagadora para orador da turma são dois troféus inestimáveis que recebi em meu curso médico. Lembro isso não por vaidade, mas para dizer que considero a amizade fraterna do inesquecível João Cândido uma terceira distinção, de valor equivalente. O fato de sermos dois Joões nos colocou lado a lado nas provas do vestibular e aí teve início nossa ao mesmo tempo marcante e hilariante convivência. Suponho que a primeira coisa que em mim chamou a atenção do João foi minha fleugma nos exames, ainda mais que acompanhada de comentários humorísticos a respeito de tudo e todos, os quais, para sua delícia, assumiam caráter satírico quando referentes a professores e fiscais.

           Na prova oral de física tínhamos sido advertidos de que o examinador, um dermatologista, era um carrasco. Depois de acompanharmos duas argüições, cochichei ao João: já percebi que esse professor não sabe nada de física! Isso lhe causou tão grande surpresa que engoliu em seco, mas o fato transformou nosso medo em incontido riso. E ao longo do tempo o João não se cansava de relembrar essa prova oral, dizendo-me: você deu um calor sobre CALOR no mestre - foi a primeira vez num vestibular em que um vestibulando argüiu o examinador...

           Hoje concluo que o capixaba João Cândido veio tentar o vestibular em Minas com triplo temor de discriminação: era negro, pobre e não-mineiro. E acho que ele encontrou em mim seu herói anti-preconceito. E mais: fui para ele uma espécie menor de seu guru e conterrâneo Rubem Braga. Com a compensação de que eu era de sua idade e sentava a seu lado no banco escolar. Rubem é quem o aconselhara a vir para Minas, argumentando que sua passagem por aqui lhe fora muito importante.

E não é que, logo após o início do curso, o João me pediu para ir com ele ao encontro do cronista Jair Silva, amigo do tempo belorizontino do Rubem. O Jair nos recebeu muito bem e o João disse: só vim aqui porque o seu amigo me exigiu, por isso já estamos indo e deixo o amplexo do Rubem para você. O Jair ficou meio abalado com aquela palavra amplexo, mas se recuperou e deu um abração no João. Na saída perguntei a meu colega: que negócio é esse de “amplexo”?  Resposta do João: fui ao dicionário buscar uma palavra que fosse melhor do que “abraço” e que estivesse à altura dos dois importantes literatos...

Dois outros colegas foram apoio ao João: o Emir Soares, também capixaba, e Jairo Guerra da Silva, que, mesmo sem seguir conosco, manteve a estreita amizade com aquele que apelidou de João, o bom. Outro apelido que lhe demos foi João Ham, cuja origem relato em meu livro O RISO DOURADO DA VILA (2003):

Durante o sexto ano, enquanto eu residia no pequeno hospital da previdência estadual, o João Cândido aproveitou o fato de que o José Aloysio tinha a casa materna na Capital e passou a dormir no alojamento deste no Hospital São Vicente. Foi nesta época que abraçou a pediatria e abriu mão de seu primeiro desejo de ser cirurgião.

Em nossa festa de formatura descobrimos um talento escondido do João Cândido: a declamação. Na recepção que nos deu o homenageado Hilton Rocha, o João coroou a festa declamando o célebre poema do médico alagoano Jorge de Lima intitulado ESSA NEGRA FULÔ: Ora, se deu que chegou / (isso já faz muito tempo) / no bangüê dum meu avô / uma negra bonitinha, / chamada negra Fulô. / Essa negra Fulô! / Essa negra Fulô! / Ó Fulô! Ó Fulô! / (Era a fala da Sinhá) / — Vai forrar a minha cama, / pentear os meus cabelos, / vem ajudar a tirar / a minha roupa, Fulô! / Essa negra Fulô! / Essa negrinha Fulô! / ficou logo pra mucama / pra vigiar a Sinhá, / pra engomar pro Sinhô! / [... ... ...]

O João foi tão aplaudido que exigimos dele outro poema e ele recitou do mesmo autor 0 ACENDEDOR DE LAMPIÕES: Lá vem o acendedor de lampiões da rua! / Este mesmo que vem infatigavelmente, / Parodiar o sol e associar-se à lua, / Quando a sombra da noite enegrece o poente! / [... ... ...] / Ele que doira a noite e ilumina a cidade, / Talvez não tenha luz na choupana em que habita, / Tanta gente também nos outros insinua / Crenças, religiões, amor, felicidade, / Como este acendedor de lampiões da rua!

Nesses mesmos dias, o João me confidenciou que estava pensando em se juntar ao notável médico sertanista Noel Nutels - o ucraniano formado no Recife, que, três anos antes, havia criado o SUSA (Serviço de Unidades Sanitárias Aéreas), de proteção à saúde indígena. E foi para o Rio de Janeiro com esse objetivo, participando do regime pioneiro de residência ali esboçado, em pediatria.. Mas veio a crise da renuncia de Jânio Quadros e depois a ditadura. Ele foi preso e torturado. Talvez como conseqüência disso, acabou entrando em insuficiência renal (1980), recebeu transplante (1990) e escreveu o primeiro depoimento de um médico transplantado: DEPOIMENTO DE UM PACIENTE TRANSPLANTADO RENAL (1991).

Ele me entregou seu texto como se me oferecesse uma jóia rara. Depois, em sua última internação, ele chamou sua filha ao centro de tratamento intensivo. Ela, linda e também médica, ouviu dele que queria gravar uma mensagem a seus colegas de turma. Quando, aqui na casa do Razuk, vimos e ouvimos a mensagem, nossa emoção foi tamanha que ninguém quis falar para não cair em prantos. O Gilberto Lino, no entanto, julgou-se calejado o suficiente dos muitos dramas vividos junto a seus pacientes. Então seria capaz de falar sem chorar. Ele de fato falou, mas para cada silaba falada houve três soluços de incontido choro e um rio de lágrimas despejou-se por seu rosto.

Se ali presente, o próprio João Candido dos Santos sussurraria poemas sublimes ao ouvido do Gilberto. E afinal diria a famosa frase de seu ídolo, o médico Ernesto Guevara: Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás.

 


JOSÉ ALOYSIO DA COSTA VAL

De degustador de ácido a proeminente microbiologista

 

           O José Aloysio foi meu vizinho alfabético no exame vestibular. Aquele jovem espigado e de óculos instáveis, em nariz adunco, me foi tão amigável e tão isento de qualquer atitude competitiva que era com ele que eu preferia conferir acertos e lamentar mancadas entre as provas. Quando estava saindo os resultados, ele, que era o primeiro excedente na Faculdade de Ciências Médicas, me disse que procurava quem poderia abrir-lhe a vaga naquela lista. Foi nítido o desafogo que lhe causei, quando lhe assegurei poder contar com minha vaga, pois eu supunha ter saído melhor na Faculdade Federal. Para alegria de nós dois ele também se saiu melhor nesta. De qualquer modo, até hoje ele se recorda da garantia que lhe dei, em voz pausada e sedativa, naquele instante incerto. E até hoje também nossa enorme amizade é a mesma, somada recentemente a algo muito importante: a entrada de sua esposa Vanda em minha Irmandade Propagadora do Mangarito.

           Logo após o resultado do vestibular, minha tia Maria Gabriela confidenciou-me que lera no jornal um Costa Val entre meus colegas e disse ter sido apaixonada por um de nome Rui, galã de sua juventude. Respondi-lhe: já sei, é o Rui, ele é irmão do Zé Aloysio, mas este só tem de parecido com o irmão apenas a inteligência... E descobri tempos depois que o José Aloysio é muito mais parecido com seu pai, cristão-novo, do que com sua mãe, linda italiana. 

           Sobre o mangarito aproveito para divulgar ser iguaria variante do inhame comum e alimento precioso dos índios puris. Sendo o Gilberto Lino confrade da referida irmandade, ele, o Zé e eu somos autenticadores de suas virtudes afrodisíacas -muito maiores que as do conhecido elixir de inhame Goulart - e hoje suspeitadas como decorrentes de pré-hormônios contidos no núcleo amarelo do tubérculo.

           O pai do Zé Aloysio era o juiz Costa Val (João Braz da Costa Val - nome de logradouros na Capital e em Viçosa). Ele faleceu em 1957 quando éramos terceiranistas e fiquei impressionado com a tristeza de meu colega. Isso me fez reviver minha própria perda paterna e pensei: o pai dele ainda o alcançou na universidade, enquanto o meu me deixou quando eu terminava o ginásio – talvez o impacto sobre o Zé seja mesmo maior...

Ao ler seu necrológio, fiz várias descobertas. João Braz tem comovente história de menino pobre que teve de custear seus próprios estudos para subir tão alto que chegou a governar a progressista cidade de Viçosa por mais de uma vez. Ele deve ter testemunhado a criação da hoje poderosa Universidade Federal de Viçosa e decerto foi forte apoio às tremendas lutas em que se meteu Artur Bernardes. Seu sogro italiano era dono de uma alfaiataria, cujo nome, deliciosamente mineiro, era A TESOURA INFALÍVEL. Isso me lembrou minha cidade, onde o Zico Tonelli, dileto amigo de meu pai, era também filho de italianos e dono da alfaiataria São José (pai, aliás, do grande infectologista Edward Tonelli).

           Para mim, que cultivo o hobby de caçar parentescos, a melhor dessas descobertas foi deduzir que meu fraterno Zé Aloysio é meu contraparente. Ele teve um tio e uma tia casados na família Gomide, sem dúvida consangüíneos de minha bisavó Laura Gomide, que tinha primos em Piranga. Os tios Gomide do Costa Val são também parentes próximos de Antônio Gonçalves Gomide, nascido em Piranga, um dos gigantes da medicina brasileira: entre os séculos 18 e 19, estudou em Edimburgo, foi constituinte, senador e considerado o pai da psiquiatria brasileira.

           O colega de turma Costa Val se tornou meu colega de docência na Faculdade de Medicina, ele na microbiologia e eu na semiologia. Como microbiólogo, participou ativamente da grande virada cientifica representada pela era Noronha Peres nesta ciência entre nós. Fomos a última turma do catedrático Almeida Cunha, que, bem devagar, dava o curso no estilo europeu tradicional. Foi substituído por Peres, em ritmo revolucionário. O próprio Cunha, já em nossas aulas, abriu caminho a tão drástica mudança, pois nos permitiu participar do “projeto gastroenterite”, onde, aliás, o Costa Val e o Paulo Lener começaram a namorar as duas Vandas. Nos intervalos do serviço, íamos para o Diretório Acadêmico jogar pingue-pongue com as moças do projeto. Tal esporte, além de catalisar os dois casamentos, catalisaram também uma sociedade comercial. Sim, ali o Zé e eu éramos fanáticos mesatenistas, mas não tínhamos vergonha de confessar a inveja do estilo acrobático dos campeões pelo Minas Tênis Clube, Walter Ozório e Carlos Pitella, este futuro sócio do Zé em laboratório privado.

           Tanto o Paulo como o Zé Aloysio, sob influencia do tema gastroenterite, ficaram em dúvida entre a microbiologia e a pediatria. Durante o sexto ano, o Zé chegou a ser interno de pediatria do Hospital São Vicente, juntamente com os colegas de turma Penha Campos e João Cândido, mas, um mês após a formatura, já se comprometia com a microbiologia, atraído pela perspectiva docente. Já o Paulo continuou pediatra.

           Quando o sulmineiro José de Noronha Peres assumiu a cátedra, nós pedimos para freqüentar o primeiro curso dado por ele à turma seguinte – o que foi facilitado pelo pequena soma de alunos. O professor tinha chegado dos EUA e veio a ser o primeiro virologista brasileiro treinado na nova metodologia para vacinas antivirais, que levou seu mestre em Harvard, John Enders, a ganhar o Nobel em 1954, pelo cultivo do vírus da poliomielite.

Nosso Noronha Peres chegou exatamente quando grassava forte gripe, denominada asiática, e ele confeccionou a primeira vacina antigripe no país. José Aloysio acompanhou toda essa revolução pelo lado de dentro, mas se recusa a escrever história tão crucial, da qual é rara e imparcial testemunha. Sua recusa é compreensível, diante da complexa e arriscada tarefa a ser desdobrada, talvez mais própria para futura equipe de historiadores. Mesmo assim, por gratidão ao Peres, ele me confessou que, logo após a formatura, em janeiro de 61, foi encaminhado por este para estagiar no Instituto de Microbiologia, na Praia Vermelha, no Rio de Janeiro. Diz o Costa Val: O Peres me emprestou dinheiro, com o qual me mantive no Rio, e saldei o empréstimo, referente aos meses de janeiro a abril, no primeiro pagamento que recebi em maio – sendo que o  extraordinário mestre mais tarde confessou não se lembrar dessa generosidade.

Enquanto isso, nosso José Aloysio da Costa Val, antes e depois de aposentado, é repetidamente apontado como referência segura, quando se trata de controle de qualidade no delicado lado microbiológico dos serviços de análises clínicas. Daí a homenagem que recebeu no 43º Congresso Brasileiro de Patologia Clínica. No mais, consome sua aposentadoria seja recebendo homenagens como esta, como a dos colegas de turma e outras, seja tentando resolver outro problema e muito pessoal: descobrir de que maneira ele teve condições de superar o pavor de ter aspirado ácido nítrico pela pipeta, na aula do Baeta Viana. Só para se ter idéia, ele nunca foi o mesmo. De Zé Aloysio passou, para nós definitivamente, a Zé Nitrato da Costa Val. E o mais incrível: mesmo assim manteve-se fiel a sua inclinação laboratorial.

A explicação para tal paradoxo talvez se encontre no fato de que aquele trauma lhe foi inóculo para ficar imune a aspirar e a deglutir sapos e micróbios pela vida afora.


JOSÉ CARLOS CARNEIRO DE MENDONÇA

Do sertão roseano a único candango de nossa turma

             

O prestígio do colégio de franciscanos holandeses de São João Del Rei desceu o Rio São Francisco, pois a família do futuro médico Flávio Neves, em Caitité, Bahia, mandou-o para este colégio e a família de outro futuro médico, José Carlos Carneiro de Mendonça, em Pirapora, Minas, mandou-o também ao mesmo colégio. Faço esta observação porque meu pai, o pai do Fábio Reis, o próprio Fábio, o professor Osvaldo Costa e o presidente Tancredo Neves são ex-alunos dessa matriz cultural. Isso mostra que a excelente formação intelectual e moral do José Carlos veio tanto dessa experiência escolar como dos pais Manoel e Luzia, primos entre si - sentinelas dos valores cultivados na tradição da família. O pai de Manoel era de Paracatu, origem dos Carneiro de Mendonça ligados aos Melo Franco, parte dos quais se radicou no Rio de Janeiro.

           Em Pirapora, Manoel, além de fazendeiro, era dono de importante armazém na cidade. Havia ali uma charrete para entregas e o menino José Carlos exigiu encarregar-se de parte das entregas. O risco a que ficou exposto levou a uma reunião familiar cuja conseqüência foi o colégio interno. Esse fato me foi relatado pela tia dele, minha queridíssima amiga Lourdes Carneiro Abreu, irmã de sua mãe. A Lourdes foi a chefe da secretaria da Clínica Propedêutica Médica da Universidade Federal de Minas Gerais, da qual o Razuk e eu fomos docentes. Ali ela era o braço-direito administrativo do catedrático João Galizzi, graças à sua. capacidade de organização e à enérgica disciplina que imprimia a tudo. O pai Manoel Carneiro de Mendonça adquiriu um apartamento para o Zé Carlos em Belo Horizonte. Como o filho escolheu morar em Brasília, o imóvel me foi vendido por sugestão da Lourdes – e o vendedor me disse que era a venda mais tranqüila que fez na vida, pois o comprador era colega de turma e grande amigo de seu filho. De fato estou lendo agora a dedicatória que o José escreveu em meu álbum de formatura: Ao João Amílcar, com a amizade do José Carlos.

Desde os primeiros dias do curso médico o Zé Carlos e eu chamamos a atenção dos colegas, sobretudo dos mais ansiosos diante das exigências docentes, exatamente pela nossa calma. Nossa serenidade chegava a irritar alguns, mas o Elias, que era um poeta, observou: não é que eles sejam muito estudiosos para serem tão tranqüilos, mas é por terem vida interior - esta é que transmite a aparência tranqüila desses dois. Se isso valia para nós dois de alguma maneira - valia muito mais para o José Carlos, que, ao longo dos seis anos, jamais exteriorizou a temida braveza dos Carneiros do norte de Minas.

Quando chegamos a quartanistas, o José Carlos e o Pérsio me disseram que eu iria gostar de ser estagiário na cadeira de Terapêutica Clínica do professor Romeu Cançado, onde junto com o Luciano estavam começando a auxiliar o assistente Oto Mourão no respectivo laboratório de análises clínicas. Ajuntei-me a eles e ao Ely da Conceição, quando tivemos ali a oportunidade de mais uma vez comprovar como o José Carlos era compenetrado, dedicado e competente em tudo que fazia. Pelos fundamentos laboratoriais e clínicos que ele absorveu, só desse estágio que se prolongou diariamente do 4º ao 6º ano, pode-se medir a excepcional capacitação profissional desse pertinaz aprendiz.

No começo do 6º ano, o presidente Juscelino deveria inaugurar o novo prédio da Faculdade com a aula magna inaugural de 1960. Todo o dinheiro foi desviado para a construção de Brasília, atrasando o prédio e ele acabou inaugurando apenas o salão nobre. Antes que Kubitschek chegasse para proferir a aula, o José Carlos lembrou que o presidente poderia nos arrumar uma visita às obras de Brasília.  Fui para o Diretório Acadêmico e datilografei uma ordem pela qual a Força Aérea Brasileira (FAB) recebia a determinação presidencial de levar a turma de doutorandos, cujo curso coincidiu com seu governo, para conhecer Brasília, quase pronta. Quando o presidente (do Diretório) Gilberto Lino Vieira foi pedir a assinatura do outro presidente (do Brasil), este já estava no ar erguido por puxa-sacos e ia para o palco. Não tivemos dúvida, reunimos o Paulão, o Fabão e o Ruizão para erguer o Gilberto ä mesma altura e o outro assinou no ar. A FAB não podia levar a todos e eu, o datilógrafo, não fui sorteado. 

A sugestão da viagem feita pelo José sem dúvida decorreu do fato de que seu pai percebera a oportunidade oferecida por Brasília e transferira seu armazém de Pirapora para a Cidade Satélite da nova Capital. Este espírito contaminou o filho, que, unido aos goianos de origem – Dilair, Penido e o Rui Esteves – fizeram com que nossa turma marchasse para o oeste como pregou Kubitschek. Mas o maior mérito coube ao José Carlos, que, sendo mineiro, seguiu para a própria Brasília recém-nascida. Daí que de todos ele é o único candango de nossa turma. Sabendo que os colegas mencionados tiveram privilegiado ensino médico nos seis anos dourados de 1955 a 1960 seria inevitável que concorressem para erguer bem alto o nível da medicina do Centro Oeste brasileiro.  Fiz a confirmação disso, pois passei a acompanhar a trajetória que cumpriram, inclusive ao lado de outros mineiros que fizeram a mesma opção, como o bioquímico meio-mineiro Dejano Sobral, o pediatra Carlos Antônio Lisboa e o notável cardiocirurgião André Esteves de Lima (cujo fillho brasiliense Leonardo fez o primeiro atendimento à princesa Diana, quando do acidente que a vitimou). A essa lista somam-se dois nomes que me são muito queridos: meu primo, o cardiologista Iran Veiga Costa, e meu sobrinho, o patologista Júlio Salgado Antunes.

Nosso José Carlos foi para Brasília, em 1961, já noivo de sua quase conterrânea, Maria Aparecida e os filhos, Manoel e Mônica, foram criados na nova Capital brasileira. Ali ele ingressou no Hospital de Sobradinho onde ficou por apenas um ano, porque foi logo chamado ao Hospital Distrital, para ocupar a chefia da auditoria e da clínica médica. Mais tarde exerceu também atribuições de médico do trabalho junto à Companhia Energética de Brasília. Ainda tendo muito por realizar, faleceu precocemente, em pleno e profícuo exercício da função de diretor do Hospital Distrital.

Quando a avó Idalina do José Carlos adoeceu gravemente, os familiares lhe remeteram os exames e encareceram para que viesse a Pirapora acompanhado do melhor especialista para o caso dela. Ciente do diagnóstico, José, em vez de alto especialista, chegou com um grande violeiro. Ficou longo tempo conversando com a avó e gastou o dobro desse tempo ouvindo ao lado dela as canções preferidas conhedidas por ele desde criança, antes combinadas com o violeiro. Bastaria nada mais que este episódio para retratar o raro ser humano e o sábio clínico que foi meu querido colega José Carlos Carneiro de Mendonça.

Sendo eu sulmineiro, pouca coisa ou nada me poderia relacionar a Pirapora e região. A amizade de dois colegas, José Carlos e Orion Álvares (ambos amigos de juventude em Pirapora), cuidou de me transformar num norte-mineiro honorário, o que foi, logo após a formatura, reforçado pelo estudo que fiz da paciente Berenice da doença de Chagas, bem como da ligação com a Lourdes e seu pai. Mais tarde me fiz amigo do Levínio Castilho e de Saul Martins, dois outros barranqueiros, em decorrência de minha devoção a Guimarães Rosa, cuja obra tem tudo a ver com essa gente. Assim, minha ligação com o José Carlos Carneiro de Mendonça tem o magnífico respaldo da obra roseana.

Estando Pirapora e o grande sertão a meio caminho entre Diamantina e Brasília, posso dizer que a Faculdade que nos diplomou, o José Carlos e eu, e que também graduou Juscelino e João Rosa, fez entre 1927 e 1960 um nexo simbólico, coerente com melhor tradição da medicina mineira.


JOSÉ MARIA MORAES

Sensível saxofonista, hábil cirurgião e excelente clínico – tudo isso num mineiro autêntico

           

O Zé Maria e eu estávamos batendo um papo, quando passa o Zeferino, professor de ginecologia. Ele gritou para o Zé: Eta Açucena!, aquilo ainda existe? O Zé ficou vermelhinho e gritou de volta: Aquilo ainda existe, sim, e é muito melhor que sua terra, que nem nome tem! Foi assim que não mais esqueci o nome da cidade onde nasceu o José Maria Morais, inclusive por ser um bonito nome. E até aparece na letra de um dos mais ternos boleros que este refinado médico extrai de seu saxofone.

           Outra lembrança que trago do José foi quando o professor Santiago Americano nos ensinava farmacologia aplicada à tireóide. Ele disse que nós mineiros éramos irremediavelmente marcados pela falta de iodo destas montanhas, daí a irritante calma dos mineiros, enquanto os cariocas como ele viviam do excesso de iodo, daí a inteligência e a vivacidade que ele trouxe do litoral. Ah! prá quê!, o Zé Maria ficou uma fera, levantou-se, trepou nas tamancas e danou a protestar contra aquela provocação – enquanto nós estávamos achando graça naquela briga de um atrevido pseudo-inteligente contra um valente cripto-inteligente. Este, a partir daí passou a ser taxado de o mais mineiro dos doutorandos de 1960.

           Esse rompante de indignação vem do lado Menezes do Zé. É mendelianamente dominante e remonta aos Menezes fidalgos da Ibéria, tanto espanhola como lusa. Já a inclinação para cuidar dos outros e de todo o mundo - forte no Zé - está muito bem antecipada no boticário Deusdedit Menezes Morais, seu avô, que manipulou remédios providenciais, clinicou com carinho para pobres e ricos e dirigiu com desvelo a cidade vizinha de Joanésia. A pintora e escritora Nilza Lentz, esposa do Ernesto e prima do Zé Maria, zela, em textos oportunos e nostálgicos, para que a memória de Deusdedit, de sua esposa (a marcante Vó Biela) e dos demais familiares se perca. Eu, que sou de família de boticários dos dois lados, me fiz fã automático deste varão, que tanto honrou seu prenome - dado que foi por Deus a sua grei.

De outro neto dele, o Esdras - talentoso discípulo de Guignard que conheci amigo do Jarbas Juarez - me fiz admirador, nos anos dourados. Depois de me ouvir tecendo loas a Xica da Silva, ele pintou desta para mim linda aquarela, que contemplo agora diante de mim. Só depois de seu falecimento eu soube que era o irmão boêmio da Nilza e primo de meu dileto colega Zé Maria. Todos são autênticos “viras-saias” apelido conveniente àqueles das obscuras paragens onde a lenda diz que para ali um órfão jurado de morte, mas salvo sob a saia da rainha lusa, veio sobreviver e se virar.

           Sim, é verdade: Açucena e Joanésia surgiram dos mistérios e tropelias do Doce. Este é o segredo de Minas: ser capaz de, de um passado genocida e devasso, apurar seres humanos do bem e da arte. Isso impõe aos herdeiros dessa gente a coragem para revelar a verdade histórica, como fez o historiador Vani de Freitas Medeiros. Logo no início de seu precioso livro (que me foi gentilmente cedido por Maria Morais, minha tia adotiva), intitulado  JOANÉSIA DUZENTOS ANOS DE HISTÓRIA (2008), não hesitou em transcrever, na íntegra, a espantosa Carta Régia de 13 de maio de 1808, assinada por João 6º e redigida pelo terrível Conde de Linhares, que ordena o extermínio dos insubmissos indígenas donos dessa região. Curiosamente esta data nunca é lembrada para nossos escolares, como sempre o é aquela outra, de mesmo dia e mês, de oitenta anos mais tarde, referente à lei assinada pela bisneta do mesmo rei.

           Diz a desumana carta-régia: Sou servido, por estes e outros justos motivos que ora fazem suspender os efeitos de humanidade que com eles tinha mandado praticar, ordenar-vos, em primeiro lugar: que desde o momento em que receberdes esta minha carta régia deveis considerar como principiada contra estes índios antropófagos uma guerra ofensiva, que continuareis sempre em todos os anos nas estações secas , e que não terá fim senão quando tiverdes a felicidade de vos assenhoreardes das suas habitações (...) de maneira tal que, movidos do justo terror (...) peçam a paz (...) sujeitando-se ao doce jugo (... de ) ser vassalos úteis (...).

           Essas terras situadas no adentro do mato-dentro afinal consolidaram uma subcultura da matriz mineira, de temperamento e costumes próprios, e ligados a esta até por parentescos inesperados, como é o caso do poeta Carlos Drummond de Andrade. Num poema ele relembra, sendo menino, OS TIOS E OS PRIMOS  que chegam de Joanésia com três cargueiros pejados de canastras e alforges ... batalhão invasor. / Pisam duro, de botas, / batem portas-trovão a toda hora, / soltam gargalhadas colossais / e comem, comem, comem aquele peito / de galinha, que é meu de antiga lei. Finalmente os tios volumosos, os primos estrondeantes se despedem / num triturar de abraços, prometendo / voltar ano que vem. O pequeno Carlos, no entanto, quer é que um breve terremoto / afunde cavaleiros e cavalos / na descida da serra... ... Mas poupe aquela prima / bonita ... que deixou no lençol a dobra do seu corpo.

José Maria Morais formou-se e foi clinicar em Coronel Fabriciano, onde fez tudo certo. Pôs em prática a correta medicina que recebeu em período áureo, único, de nossa Faculdade. Naquela cidade constituiu bela família Disputa com vários de nossa turma o título de mais versátil na prática não só clínica como cirúrgica, incluindo pediatria, ortopedia e obstetrícia. Aqueles de nós que se formaram capazes de prática abrangente devem ser distinguidos daqueles que de fato a exerceram ao longo de largo tempo. Pois o José Maria Morais a exerceu em Coronel Fabriciano, desde janeiro de 1961 até hoje, quase octogenário, e com tal sucesso que os fabricianenses o elegeram, com toda justiça, cidadão honorário. O hospital da Belgo-Mineira que o recebeu nos primeiros dias de recém-formado foi comprado em 1966 por ele e mais quatro colegas. Com verdadeiro trabalho em equipe vem beneficiando, por décadas, a comunidade da região. Quando formulei a proposta de uma equipe mínima destinada a cidades médias, estudei o esboço aproximado da mesma acontecido em várias cidades, como Cruzília, Nepomuceno, Campanha, Varginha, Fabriciano e Mineiros (GO) – havendo em quatro delas o envolvimento de colegas de minha turma.

Ao longo desse caminho, não deixou de mitigar as tribulações próprias à vida de um profissonal-líder com intermezzos de acordes de seu sax e doutros recursos musicais que sei de seu domínio. Sim, ele tem a felicidade de fazer parte de uma família de músicos, desde longínquos ancestrais, sendo o avô e o pai clarinetistas. Um irmão, também médico, é guitarrista; um irmão dentista é violonista de sete cordas, enquanto um primo é cavaquinista. Todos eles, junto com o Zé saxofonista, formam o pitoresco e tradicional conjunto da cidade de Fabriciano denominado MUCHIBA’S BOYS, do qual o mais jovem acaba de aniversariar seus 64 anos.

Fino observador dos seres humanos e por isso mesmo fino humorista, é como tal que hoje sabiamente substitui e exterioriza sua permanente, admirável e sempre lembrada capacidade para indignar-se contra os absurdos do mundo e da vida.

           

 


LUIZ ANTONIO LUCIANO

Herói máximo com a equipe mínima

 

        Wilson Abrantes sentencia que Luiz Antônio Luciano, seu ex-estagiário, é muito bem lembrado porque era ao mesmo tempo craque na cirurgia, na bola, na lavoura, na república Querosene e na equipe mínima - mas inusitadamente craque como sósia do Tojo. Ele foi um dos privilegiados de nossa turma a ter treinamento, desde antes de se formar, com dois gigantes da cirurgia mineira e brasileira: Wilson Abrantes e José Sílvio Resende. Como craque na bola aparece numa foto, no Centro de Memória da Medicina de Minas Gerais, que aponta a equipe de futebol de sua turma como merecedora de registro numa galeria de times e jogadores célebres na Universidade e mesmo em Belo Horizonte.

É craque na lavoura porque, antes, durante e depois do curso médico, nunca abandonou a aparência e o jeitão de fazendeiro de uma das fronteiras agro-pecuárias mais ricas do país. É também ex-morador, junto com o Fábio Ribeiro Monteiro e o José Carlos Carneiro de Mendonça, da legendária república estudantil do Querosene, onde a iluminação vinha deste combustível - situada próximo ao Hospital Raul Soares e campeã em escorpiões. Para coroar, entrou para a história da medicina brasileira como a principal figura da experiência vitoriosa de uma equipe mínima de três médicos, que organizou, com marcante pioneirismo, na cidade de Mineiros, em Goiás. E, mesmo goiano típico, impressionou Abrantes como sósia do general Hideki Tojo, herói japonês da segunda guerra mundial, apelidado de o último Shogun,

           Antes de chegar a isso tudo, ele foi estagiário da enfermaria e do laboratório do professor Romeu Cançado (onde atuei a seu lado) e da enfermaria do professor João Afonso Moreira Filho (onde atuou ao lado de Sérgio Almeida), de cujo estilo de clinicar se tornou adepto entusiasta. Tais oportunidades lhe conferiram irretocável formação geral em medicina, obtida em acréscimo ao tão falado super-treinamento em anatomia e e demais ciências biológicas, peculiar à nossa turma. Aquinhoado com tão sólidas bases, partiu para o citado treinamento cirúrgico. Assim pronto para tornar-se expoente da medicina em qualquer lugar, não teve dúvida em voltar a sua terra natal e beneficiar sua gente com tão singular preparo. Ele tinha profética razão em assim decidir, porque aquele sertão, abençoado com irradiantes vertentes fluviais, estava às vésperas de se projetar na pecuária, na agricultura, no turismo, na agroindústria e também na medicina, sendo que nesta exatamente graças a ele próprio.

           Como historiador de Minas Gerais e de minha família, pouca coisa me traz mais orgulho do que a cidade de Mineiros. Para a história de Minas o próprio nome da cidade já é referencia à diáspora de sulmineiros rumo ao oeste e à bacia do Paraná. Para a minha família, nomeadamente o ramo Carrijo-Vilela, é grato saber que descendentes deste, provindos de locais entre as cidades hoje de Santana do Jacaré, Candeias e Campo Belo, ficaram para sempre ligados à construção da grandeza de Goiás. Vale lembrar que no deslocamento daí ao sudoeste goiano, o meio do caminho foi também colonizado por consangüíneos daqueles. Por exemplo, Alfredo Taunay revela que, no deslocamento das tropas mineiras rumo à guerra do Paraguai, foram acolhidas na fazenda de um nepomucenenese, que veio a ser um dos fundadores da cidade de Mococa, em São Paulo. Por outro lado, se o romance INOCENCIA do mesmo Taunay se passa nas imediações de Mineiros e se a personagem principal é um médico, não erraremos em especular que este doutor, que clinicava com o apoio do Chernoviz, não representava nada mais que a visão profética da missão cumprida um século depois por Luiz Antônio Luciano.

           Que missão é essa?   Em 1965, cinco anos depois de nossa formatura, o diretor de nossa Faculdade cometeu o erro de reduzir o curso para cinco anos, com aumento do número de alunos por turma. Ele pensava que com isso ele se projetaria como reformador histórico do ensino médico, aumentando-lhe a produtividade. Hoje se sabe que a Congregação da época, composta por vários cientistas e clínicos ilustres, estava desnorteada pela ditadura recém-implantada no país e talvez por isso mais atenta à ameaça comunista com que os golpistas justificavam sua violência. Como docente de semiologia, passei da preocupação com o aperfeiçoamento didático da disciplina para a busca de inovações de âmbito pedagógico, capazes de neutralizar pelo menos parte dos efeitos danosos facilmente previstos diante da atitude irresponsável desse diretor.

           Em 1967 publicamos a proposta de uma equipe mínima de três médicos para resolver a maioria dos problemas de saúde das cidades médias e, em conseqüência, das cidades pequenas a seu redor. Isso porque as pequenas cidades, que comportavam apenas um médico geral, teriam que contar com uma cidade média, nas vizinhanças, para ter aonde encaminhar os casos não resolvidos localmente. Havendo alta resolubilidade nas cidades médias os pacientes não seriam encaminhados das pequenas cidades diretamente para os grandes centros, os quais passariam a receber apenas aqueles poucos casos não resolvidos nos dois primeiros níveis.

           A equipe mínima de três médicos consiste em reunir um PEDIATRA, que seja ao mesmo tempo anestesista, um CIRURGIÃO, que seja ao mesmo tempo obstetra e traumatologista, e um CLÍNICO GERAL, que seja inclusive capaz de bom atendimento cardiológico e psiquiátrico. Essa proposta foi publicada, em colaboração com Cid Veloso, na Revista da Associação Médica de Minas Gerais, em 1967, com o título EQUIPE MÍNIMA PARA A ASSISTENCIA MÉDICA EM CIDADES DO INTEIOR: Diante da grande repercussão obtida, novo texto foi publicado na Revista da Associação Médica Brasileira, em 1971, com o título MINI-EQUIPES COMO BASE PARA UMA SISTEMÁTICA DE GRADUAÇÃO /PÓS-GRADUAÇÃO EM NOSSAS ESCOLAS MÉDICAS. Ainda em 1967, logo após a circulação da revista mineira, recebemos uma carta do ilustre médico José Nunes Maciel, do Hospital Dr. Cândido Junqueira, da cidade de Cruzília, que diz: O interesse principal que nos proporcionou sua leitura [a do texto citado] foi constatar que realizamos aqui em Cruzília, há dez anos, tudo aquilo que vocês aconselham e que vem funcionando satisfatoriamente. Nossa equipe é de quatro médicos que trabalham num hospital particular e que já atingiu alto nível de eficiência. A distribuição de atividades é a descrita por vocês e há o entrosamento muito útil com os serviços médicos oficiais da unidade sanitária. Também na área pública o pediatra Edward Tonelli, como dirigente da Fundação de Assistência Médica de Urgência de Minas Gerais, aproveitou a sugestão para organizar seu trabalho pioneiro de implantação da residência médica entre nós. Lamentavelmente a corporação dos anestesista se opôs à idéia e chegou mesmo a ameaçar de apelar ao boicote contra a direção de nosso Hospital das Clínicas caso esta oficializasse adaptar o treinamento de anestesista à formação de tais equipes. O tempo vem revelando a persistência  até o presente de numero considerável de anestesistas com dupla atividade, especialmente a indicada na proposta, a de pediatra anestesista.

           Para minha maior satisfação, meu colega de turma Luiz Antônio Luciano foi o herói da melhor experiência concreta com tal equipe (veja-se texto em separado sobre o tema). No caso de Mineiros, ele foi o cirurgião, seu primo João Batista Paniago Vilela foi o clínico e o peruano Clodomiro Anaya Rojas foi o pediatra-anestesista. Para abrigar tal equipe construíram o Hospital Nossa Senhora de Fátima e logo a população da redondeza verificou o significado para sua saúde do serviço ali prestado. A expansão da cidade começou exatamente por pensões e hotéis dos que obtinham ali excelente atendimento. Hoje Mineiros é um centro comercial e industrial florescente e também importante centro médico já que médicos e hospitais vieram sobre o rastro do pioneirismo do Luciano.

           Hoje nosso querido colega está aposentado e contempla com comovente humildade sua façanha gigantesca. A prova disso é a carta que me enviou nos seus cinqüenta anos de formado:

Prezadíssimo colega João Amílcar, por motivo de acerto com o leão do imposto de renda, fiquei parado em casa e, para minha grande satisfação, a maior alegria não poderia acontecer: [o seu telefonema]. Fico muito agradecido pela sua prestimosidade e atenção. Já me sentia muito isolado pois [perdi o contato com meus colegas]. Há cerca de seis anos [tive um problema de saúde] e quase fui para o brejo. Obtive melhoras o suficiente para viver, porém fora da medicina. Hoje dedico a minha vida a serviços braçais: machado, enxada, foice e doma de potros bravos – mentira não!... Hoje sou um modesto criador de gado nelore. Temos que admitir que às vezes Deus escreve certo por linhas tortas, pois, até meus 15 anos de idade, eu só conhecia de fazenda. Esse aprendizado me ajuda hoje. É um bom passa-tempo. 

Luciano, acrescente a seu passatempo, que seja compartilhado pela Maria Luiza e toda a família, a leitura desta minha homenagem.

           

           





LUIZ FÁBIO ROCHA

Dava notícia de tudo, principalmente todas as dicas sobre clínica, cardiologia e samba

         

No cursinho pré-vestibular um futuro colega me chamou a atenção. Alto e magro, nos intervalos das aulas passava a fornecer preciosas dicas colecionadas por ele para cada prova. Era o Luiz Fábio Rocha que, depois de formado, veio a ser docente como eu na área de clínica médica. Para minha alegria, seu filho Eduardo veio a ser colega de meu filho Carlos, tanto no colégio como no curso médico, diplomando-se na mesma faculdade dos dois pais.

           Nos bate-papos entre as aulas, mais de uma vez a turma pedia ao Luiz Fábio e a mim que descrevêssemos nossos entreveros com a célebre turma da Savassi. De minha parte eu descrevia como os JTs (juventude transviada) invadiram um aniversário onde eu estava e que consta de meu livro de memórias. Da parte dele ele contava episódio semelhante passado com ele e no final descrevia a morte do líder Brilhantina

           O Luiz Fábio, durante todo o curso, se caracterizou como nosso amenizador de tensões, pois volta e meia, lá estava ele com uma caixa de fósforos na mão iniciando um samba e seu samba inicial era Ai Que Saudades da Amélia, seguido obrigatoriamente pelo Trem das Onze. Nossa turma é tão extraordinária que dois colegas, Luiz Fábio e Geraldo Coutinho, nascidos muito perto um do outro no Sul de Minas, em Jacutinga e em Ouro Fino, respondem por tendências diferentes como adeptos da música brasileira: o Luiz, sambista da Amélia, e Geraldo, o cantor sertanejo do Menino da Porteira;

           Além de sulmineiros e fãs de samba autentico, outra circunstância me une ao Luiz Fábio. Somos parentes, em separado, de dois pioneiros da cirurgia cardíaca brasileira, os quais estagiaram nos EUA na mesma época e se tornaram amigos. De meu lado sou consangüíneo de Adauto Barbosa Lima, o clínico da equipe que, em São Paulo, fez a primeira cirurgia com circulação extracorpórea total, no Brasil, em 1956. E o Luiz é irmão da Rute Rocha, ex-esposa de nosso professor Sebastião Rabelo, que realizou as primeiras cirurgias cardíacas em Belo Horizonte. Estão, pois, reunidos nessa circunstância três cardiologistas mineiros – Adauto, Sebastião e Luiz Fábio - que permanecerão na história da cirurgia cardíaca brasileira.

           Adauto Barbosa, Sebastião Rabelo e Arnaldo Elian, respectivamente das turmas de 1946, 1947 e 1948, da atual UFMG, foram bolsistas nos EUA no pós-guerra imediato e são co-responsáveis pela decolagem da cardiologia brasileira no rastro do brilho ianque. Essa importante participação de médicos brasileiros contou com eminentes médicos cariocas e paulistas, projetando-se entre estes o humanista Luiz Décourt, junto ao qual Luiz Fábio Rocha fez seu estágio de pós-graduação.

           Luiz Fábio e Sebastião trabalharam juntos durante toda a vida profissional de ambos, a partir de quando, na Cadeira de Técnica Operatória da Faculdade de Medicina da atual UFMG, esboçava-se o desenvolvimento da cirurgia cardíaca em Minas Gerais. Lembro-me do professor João Rezende Alves da porta nos observando no exato momento em que cortávamos a aorta de um cão para a seguir suturá-la sob a orientação de Rabelo. Estávamos ali três quartanistas: o Luiz Fábio, o Sérgio Almeida e eu. Perguntei ao Sebastião quando passaríamos da cirurgia em animais para a feita em seres humanos e ele disse que quando estivéssemos no sexto ano. Até lá ele esperava que não deixássemos de participar do treino dos professores com animais, pois estávamos vivendo, como alunos, um momento histórico em que se quebrava nova barreira na história da cirurgia.

           De fato essa vanguarda em indivíduos humanos começou a ser feita no hospital da Cruz Vermelha onde se localizou a enfermaria da Cadeira de Resende Alves. E logo Rabelo montou equipe completa no Hospital Vera Cruz. Ali passaram a atuar ex-alunos da turma anterior, como Homero Geraldo de Oliveira, mas principalmente da nossa turma, como o clínico Luiz Fábio Rocha e os cirurgiões Sílvio Ribeiro e Gilberto Lino Vieira. Por mais de duas décadas o Luiz Fábio foi o chefe do setor de cardiologia desse Hospital, quando foi responsável pela alta qualidade da atenção médica aí prestada e pela excelente formação de dezenas de cardiologistas de renome regional e nacional.

           Essa docência em hospital privado foi harmonizada com sua docência sob as luzes de um dos maiores clínicos da história médica de Minas: Osvaldo de Melo Campos. Na Cadeira de Clínica Médica deste luminar, Luiz Fábio Rocha formou, com seus colegas de turma Maurício Kalil e Celso Dias Avelar, um trio seleto, que reproduziu, em gerações de estudantes de medicina, a marca da integral formação clínica da turma de 1960. Junto aos três, atuou outro modelar cardiologista, José Moreira Santiago, da turma de 1953 de nossa Escola – responsável por forte influência clínica e ética em grande parte de nossa turma.

           Vale lembrar aqui um episódio significativo. No começo de 1974, Luiz Fábio e Mauricio Kalil foram fazer um treinamento no hospital da Beneficência Portuguesa em São Paulo, junto ao Sérgio Almeida, outro colega de turma, que acabara de se radicar ali. Ao amanhecer do dia 1º de fevereiro, ambos já de avental saem para o hospital, quando deparam com pavoroso incêndio no edifício Joelma, vizinho ao hotel onde se hospedavam. Não vacilaram e heroicamente e se misturaram aos que procuravam socorrer as vítimas. Nessa tragédia morreram quase duzentas pessoas.

           Na última vez que encontrei o Luiz, ele e a esposa Maria José estavam no supermercado de um shopping. Hoje, ao evocar esse fato, me comove admirável coincidência, pois ele e ela passaram espontaneamente a nos dar dicas, a mim e à Leila, para bem comprar isso e aquilo. Ora, as dicas me dadas pelo Luiz, para as melhores compras, desse nosso último encontro, não são mais do que perfeitas réplicas daquelas dicas, de como passar no vestibular - naquela saudosa expectativa que vivíamos no apinhado salão-de-aula do cursinho!


MARCELO CARVALHO FERREIRA

Deixou o brilho da vida universitária para servir a sua Divinópolis

        No manual de fisiologia do professor Wilson Beraldo, o Lineu Freire Maia incluiu uma foto em homenagem ao professor Otávio Magalhães. Trata-se de um flagrante da célebre decerebração do cão criada por Charles Sherrington e ali, além do homenageado, aparecem os segundanistas Marcelo Carvalho Ferreira e eu, além do primeiranista Renato Dani e apenas o braço do terceiranista Guilherme Cabral. O Magalhãezinho, de cabelos alvíssimos, perguntou quem iria explicar o experimento. Todos apontaram para mim e eu apontei para o Marcelo. Este, então, para espanto de todos, falou como se fora veterano neurofisiologista.

Marcelo Carvalho Ferreira expôs que aquele experimento, efetuado em 1896, ocupava lugar especial na história da medicina, porque era o coroamento da descoberta do neurônio, feita por Santiago Cajal, em 1890. Era a elegante evidência de que os reflexos nervosos eram coordenados e, portanto, de que o sistema nervoso funcionava como um todo. Sherrington, ao transeccionar o mesencéfalo, entre os corpos quadrigêmeos e o tálamo óptico, produziu pela primeira vez o que estávamos vendo ali: a rigidez da decerebração, a partir da qual descobriu, em 1893, a inervação recíproca: a excitação de um centro nervoso é simultânea com a inibição de outro correlato.  

No procedimento preciso de transeccionar o encéfalo, orientado por Cabral, o Marcelo antecipava o excepcional cirurgião que viria a ser em Divinópolis, mas infelizmente ali cedo falecido. Hoje defendo que o Marcelo e o Rui Paolucci deveriam ter ficado como docentes na Faculdade, tal era a vocação científica de ambos. Em minha opinião existia na Universidade a incapacidade, que persiste, para reter vocações verdadeiras. E o pior é que esta incapacidade para identificar e reter futuros cientistas ocorre como a inervação recíproca, citada pelo Marcelo: a incapacidade para reter os bons é recíproca com a facilidade para reter os medíocres.

Marcelo Ferreira estagiou na enfermaria do professor Rivadavia Gusmão, na Santa Casa, onde começou a operar com os assistentes Rivadavia Filho e José Silvio Resende. Seu treinamento passou a ser intenso sob a orientação próxima de Resende, quando este assumiu o serviço. Relata José Sílvio que ficou surpreso com a impressionante base pré-cirurgica dos aprendizes oriundos de nossa turma: Marcelo, Ernesto, Gilberto e Luciano, todos com amplo preparo, não só em diferentes cursos de anatomia como no de histologia e fisiologia, onde operávamos animais de laboratório.

Esse encontro providencial entre aqueles aprendizes inaugurais com o treinador Resende, ávido de gente assim, foi o início do histórico desempenho deste exímio mestre na formação de numerosos outros discípulos. Com ele, Marcelo trabalhou por mais de um ano, período hoje equivalente à residência médica de primeiro e segundo anos. José Sílvio se recorda saudoso dessa época e não tem dúvida em ver no Marcelo uma das mais raras vocações cirúrgicas que conheceu. Aponta nele três qualidades que até hoje recorda: pontualidade, responsabilidade e especial dedicação aos pacientes, além de excelente mão cirúrgica.

Entre seus colegas na Santa Casa, Marcelo prosseguiu mais ligado a Gilberto Lino Vieira, que era convidado a comparecer a Divinópolis quando cirurgias mais complexas exigiam sua colaboração. É com enorme saudade que o Gilberto lembra dessa convivência que cimentou a amizade iniciada desde os primeiros dias da Faculdade, fortalecida ao longo de todo o curso e robustecida no treinamento pós-graduado. Já seu instrutor José Sílvio foi levado também até lá para palestras, quando o Marcelo o apresentava aos médicos locais com toda a pompa, orgulhoso de sua filiação acadêmica.

Recentemente, pedi a meu preclaro amigo Cícero Bittencourt que ministrasse uma aula no curso de História da Medicina sobre a Medicina em Divinópolis. Prometeu transformar os dados de seu levantamento cuidadoso, resumidos nessa aula, em precioso livro, no qual nosso Marcelo estará devidamente focalizado. Diz Cícero: Marcelo era excelente pessoa, profissional de ótima formação em medicina e de primoroso desempenho como Cirurgião Geral em Divinópolis, sua terra natal. Inteligente, estudioso, com exemplar dedicação aos seus pacientes, formou invejavel clientela no Oeste de Minas, nas décadas de 1960, 70 e 80, sempre atuando com profundo respeito à ética.

Em Divinópolis, Marcelo foi pioneiro no atendimento cirúrgico realizado no Hospital São João de Deus. Certamente ficou muito feliz quando se diplomou o clínico Alair Rodrigues de Araújo. Um dos pioneiros no Brasil em tratamento intensivo, Alair, de enorme dinamismo, reorganizou todo o serviço do hospital, permitindo ao Marcelo desenvolver todo o seu potencial como médico e como cirurgião. Alair Rodrigues foi meu residente e repete as mesmas referencias a Marcelo que ouvi de Cícero e de Resende.

Cícero Bittencourt observa que houve nessa época fundamental mudança no atendimento médico no Brasil e que chegou a Divinópolis de maneira rápida. A assistência previdenciária se estendeu à classe média empobrecida, cada vez menos capaz de demandar atendimento particular, sobretudo cirúrgico. Marcelo, desapercebido da mudança em curso, apostou na medicina liberal de alto nível, que se mostrou inviável. Ficando doente, sua morte trágica interrompeu uma carreira que se iniciou extremamente promissora.

TRANSECCIONOU OS PEDÚNCULOS CEREBRAIS ENTRE OS CORPOS MAMILARES E

HOJE HOMENAGEADO ALI QUANDO DERAM SEU NOME A UMA UNIDADE SANITÁRIA

Caro Joao, seguem os dados que vc me solicitou sobre o Dr Marcelo Carvalho Ferreira.......Logo apos a formatura, fez residencia em cirurgia geral no serviço do prof Rivadavia de Gusmao, com participaçao intensiva com o Prof Rivinha filho do Rivadavia.Terminada a residencia, transferiu-se pra Divinopolis, tendo começado imediatamente a sua atividade clinico-cirurgia...Iinicialmenta ATUOU NO hOSPITAL n s aPARECIDA, HOJE JA NAO MAIS EXISTENTE.Logo apos, transferiu-se para o Hospital Sao Joao de Deus, onde atuou durante toda sua vida profissional..Foi Diretor do Hospital por tres anos, nao remunerado e participou ativamente na montagem e direçao do Pronto Socorro Municipal que foi instalado naquele Hospital.Alem de suas atividades medicas, paritcipava ativamente daa atividades sociais da cidade, tendo sidoPresidente do Conselho do clube Social mais querido de Divinopolis, que eh oEstrela do Oeste Clube. Apesar de pertencer a Diretoria do Hospital Sao Joao, tinha livre transito em outos Hospitais da cidade onde com frequencia era chamado a resolver os casos mais dificeis e problematicos.aAte hoje ainda se vcomenta no meio medico de divinopolis o caso de uma paciente que fou encaminhada a BH para uma cirurgia dificil e que o cirurgiao daqui, apos examina-la , lhe disse que a encaminharia a um cirurgiao de mao cheia e enviou-a a Divinopolis para ser operada pelo MarceloFoi o primeiro cirurgiao em Divinopolis a realizar uma cirurgia de esofago, em um chagasico,com deslocamento de parte do delgado paraa regiao esofagiana, o que constitui em fato de grande repercussao em todo meio medico da regiao.Postriormente realizouum curso de cirurgia toraxica e passou a realizar cirurdia de torax com frequencia, tendo inclusive sido membro do Colegio Brasileiro de Cirurgioes.Casou-se e teve 3 filhos mas nenhum deles quis seguir a carreira do Pai.Na decada de oitente, dedicou-se a politica, tendo sido eleito suplente de vereador na primeira eleiçao em que disputou.Nao quis, desiludido com a politicacandidatar-se novamente.Foi um dos cirurgioes de maior prestigio durente o seu curto tempo de exercicio da Medicina, pois veio a faleceremmarco de 1989, em plena atividade profissionalt


MÁRCIO LUIZ TORNELLI

Este craque na bola e no parto é dorense adotivo e sulmineiro convicto

           

Parecia tudo calmo na sede do Clube Atlético Mineiro, mas a coisa mudou quando entrou aquele homem alto, robusto e grisalho, que exibia, no andar, o passivo genu-traumático de grandes embates futebolísticos. Seu jeitão de homem importante fez com que o atendente viesse logo para recebê-lo. Falou bravo e autoritário: tem alguém da diretoria aí?, chame-o aqui! Com uma palavra de ordem tão perempta, o rapaz não vacilou, entrou e voltou com um diretor. Este veio com cara de contrariado, mas, diante do porte e do semblante do recém-chegado, ficou apreensivo e se desculpou: o presidente não está, mas sou um dos diretores, pois não ... E o Márcio Tornelli, que era o tal importante, falou bem alto, para que todos ali ouvissem: Estou aqui me apresentando para jogar no meu clube, o Atlético; sou um craque do passado, mas na minha idade e com este joelho, juro que jogo melhor do que qualquer um desses pernas-de-pau que estão sendo escalados para enterrar meu time do coração! O diretor tentou responder à altura tanto da voz quanto dos impropérios e o sururu foi inevitável. O incidente só foi desfeito com a chegada de alguém que conhecia e era amigo dos dois litigantes.

           Eis aí o perfil indignado de nosso Márcio, que, afora seu fanatismo pelo time do Galo, é calmo até demais, um cavalheiro, um boníssimo médico e um leal amigo. E ele estava com a razão, pois não há dúvida de que foi um dos melhores futebolistas dos anos dourados e é assim que pode ser visto numa foto que ilustra meu livro O RISO DOURADO DA VILA, de 2003. Márcio Tornelli está ali de calção, camiseta e chuteira, ao lado dos colegas João Candido, Luiz Fábio, Fábio Reis, Geraldo Coutinho, Marcelo Ferreira, José Maria, Ruy Esteves, Carlos Eduardo, Osvaldo Garcia e Paulo Dias. Este foi o inesquecível e imbatível time de nossa turma de 1960 e o flagrante foi feito no campo de futebol dos alunos, onde hoje é o estacionamento da Faculdade. E, cá prá nós, o tumulto citado teria sido pior se alguém soprasse àquele diretor que o atleticano nervoso era ex-craque, mas do Cruzeiro. Sim, o Márcio não perdeu a chance que teve no time da Raposa, certamente por ser de família italiana. De nascença deveria ser cruzeirense, mas, desde menino o Atlético entrou em sua vida.

           Nesse meu livro o Márcio aparece numa cena ocorrida já no clima de nosso final de curso: “Nos dias da formatura, amanheci no plantão obstétrico e havia um almoço ali para nós, especialmente para o Márcio Luiz Tornelli, que então já escolhera não só ser ótimo obstetra mas a noiva, a belíssima e culta Diva, filha do erudito guapeense professor Hermínio Pinto. Quase estrago a festa pois a Diva entrou em náuseas ao ver-me aproximar de avental com a tinta sangre do último parto. Da obstetrícia saiu a homenageada da turma na área administrativa, a gentil, bonita, inteligente e meiga Élcia Queiroz Guimarães.”

           Assim como foi jogador cruzeirense sendo atleticano, também na especialização médica o Márcio fez coisa parecida. Sendo sobrinho do catedrático de dermatologia Olinto Orsini, desejou por certo tempo especializar-se em pele, mas, sendo futuro genro de Hermínio Pinto, optou pela tocoginecologia. Nesta, ele se saiu excepcionalmente bem, por dois motivos. Primeiro. porque nossa turma teve formação anatômica, clínica e cirúrgica nunca igualada e, segundo, porque ele, em sua habilidade operatória, fundiu a técnica magistral do sogro com a elegância de Clóvis Salgado. Nos serviços em que trabalhou, o Márcio passou a ser a referencia máxima quando ocorria uma apresentação transversa de feto, para o que era frequentemente chamado. O livre-docente Pinto regeu a cátedra para a nossa turma, exatamente como substituto de Salgado, este então ministro de Kubitschek em Brasília – mas que, mesmo assim, vinha operar com freqüência em seu serviço na Universidade.

           A família que o Márcio passou a integrar é de minha região e de minha amizade – daí a fraterna convivência que nos une. Em meu livro, falo da braveza e da bravura dos Maias de Boa Esperança, Coqueiral, Guapé e Passos. Sou fã de vários deles: os legendários Urias e Tião Maia, o imensurável pianista Nelson (Maia) Freire, a líder feminista Marta (Maia) Nair Monteiro, o senador, escritor e médico Passos Maia, os cientistas internacionais Newton e Lineu Freire Maia, o querido farmacologista Murilo Maia, o renomado oto-rino-laringologista Amélio Maia e o mestre Hermínio (Maia) Ferreira Pinto, que, além de tudo, era homem de letras, tendo sido um dos ativistas da revista estudantil RADIUM.

Hermínio Pinto sofreu vários dramas em sua vida, sendo o principal a perda do filho engenheiro, em plena selva amazônica: ferido e perdido, ali mesmo faleceu de inanição. A revista O CRUZEIRO cobriu com sensacionalismo o episódio. Tudo isso impediu que o destacado professor, fortemente abalado, frustrasse sua aposentadoria, a ser gozada com a chave-de-ouro das belas letras. Mesmo assim, seu canto de cisne foi uma original crônica sobre a morte de Tancredo Neves, lida com excepcional interesse por todos os médicos cultos do Brasil.

           Momento sempre lembrado por nós aconteceu quando fui recebido com minha família para o almoço de gala que o Márcio, a Diva e a dona Áurea (segunda esposa e então viúva de Hermínio) nos ofereceram em Boa Esperança, também relatado em meu livro. Nossa gostosa conversa sulmineira começou por relembrarmos o intrigante pouso de jatos da Força Aérea Brasileira ali perto, em plena rodovia entre Três Pontas e Boa Esperança, onde teria desembarcado Aureliano Chaves, então vice-presidente da República, em 1980.

Os palpites sobre o motivo do fato foram interrompidos pela chegada de um senhor muito simpático e brincalhão. Então percebi que me prepararam surpresa das grandes e um privilégio único: tive o imenso prazer de entreter ali gostoso bate-papo com Carlos Netto, irmão da dona Áurea e personagem decisiva na trama com Lamartine Babo, que resultou na canção SERRA DA BOA ESPERANÇA. O maestro e compositor dorense me perguntou quantas versões eu conhecia dessa estória. Respondi: esqueci todas, pois agora vou ouvir a verdadeira ...


MARCOS VINÍCIUS DE AGUILLAR AZEREDO COUTINHO

Já no primeiro ano nos mostrou a que veio

 

Nos primeiros dias do curso médico, o Marcos Vinícius me chamou a atenção pelo interesse diferenciado com que dissecava. Comentei com o Sérgio Almeida que previa o futuro do Marcos como grande anatomista. Ele ouviu e me disse: engano seu, se eu for grande, quero ser grande cirurgião. E é o que ele de fato veio a ser.

Já nas primeiras aulas de histologia, o professor Belchior Santana, querido de todas as turmas, ficava acalmando alguns de nós, aflitos por causa de uma ou outra chave classificatória de tecidos em aberto. O Marcos apoiava o professor, mostrando que o ritmo da coisa era aquele mesmo, mas apontava também um ou outro item faltante. Com isso, tínhamos duas referencias para interpretarmos as lâminas em nossos microscópios: o Ângelo Machado, terceiranista, e o Marcos Vinícius, nosso próprio colega. Isso era o prenúncio do legendário professor de histologia que ele veio a ser, não em nossa Faculdade, mas na de Ciências Médicas. A gratidão de seus ex-alunos não é apenas pela aprendizagem fácil e sólida da histologia em si, mas porque aquele professor nato, por meio desta, incutia em cada um a metodologia científica que estava por trás da nomenclatura e dos critérios diferenciais de células e tecidos. Sim, o Marcos fez a iniciação científica de vários pesquisadores como professor de primeiro ano médico. 

Quando ele se desentendeu com o Mauro Tostes sobre o verdadeiro estilo Feldmaniano de percutir o tórax, nós todos vimos no episódio apenas o lado pitoresco. Hoje posso garantir que a admiração que o Marcos tinha pela elegância do Feldman era o prenúncio de sua própria elegância operatória, na medida em que ele veio a ser, por sua vez, admirado em seu estilo cirúrgico, ao longo de sua militância em nosso Pronto Socorro (hoje Hospital João 23). Com isso foi paradigma e metódico instrutor na formação de várias gerações de hoje excelentes cirurgiões.

Em política, contudo, se desentendia comigo sobre Juscelino Kubitscheck, presidente da república ao longo de nosso curso médico. A família Azeredo tinha ligação íntima com o governante. Assim, o Marcos trouxe do berço a admiração pelo médico diamantinense, enquanto eu trazia a intransigência udenista de minha família. No ano anterior eu tinha tentado impedir Kubitschek de ser meu paraninfo no Colégio Estadual. Reconheço que o Marcos tinha toda a razão, pois hoje admiro Kubitschek tanto quanto ele e o declaro por escrito num capítulo do livro JUSCELINO KUBITSCHEK - O MÉDICO (2000) de Fernando Araújo. Entregando minha mão à palmatória, faço deste gesto minha melhor homenagem ao Marcos Vinícius – virtuose da didática e da arte cirúrgica.


MARIA DO CARMO CALMETO DE CASTRO

Veio-lhe da Itália o fino gosto pela música

 

A barbacenense Maria do Carmo se formou e nunca mais se encontrou conosco. Há notícia de que ela teria migrado para São Paulo. Se isto é certo, ela, a Marie Louise e o Sérgio Almeida são os da nossa turma que foram oferecer aos paulistas os serviços de seleto trio de primorosa formação. Desde logo após o exame vestibular, notei que ela ficou um tanto chocada com os colegas piadistas. Suponho que estava sempre alerta, como que infundadamente temerosa de que alguma piada se referisse ou se aplicasse a ela. Mas descobri a verdadeira Maria do Carmo no dia em que me deu verdadeira aula sobre música erudita, sua paixão. O Paulo Dias falava sobre a genialidade de Villa-Lobos e a Maria do Carmo comentou que tinha ouvido de madrugada, pela Radio Ministério da Educação, uma música maravilhosa intitulada UMA SINFONIA ALPINA, de Strauss. Estranhei ser sinfonia e não valsa. Ela me ensinou que este era Richard e não Johann, sendo mais moderno e até revolucionário. E ela ainda acrescentou: - Por sinal, ele esteve no Brasil.  




MARIE LOUISE STEIN

O jeito acolhedor da gente mineira foi-lhe o antídoto para infortúnios tão cedo sofridos

 

Logo depois do exame vestibular, alguém observou que três colegas tinham ingressado no curso médico com apenas 17 anos: o Pérsio Godói, a Marie Louise Stein e eu, sendo que esta e eu éramos colegas desde o Colégio Estadual de Belo Horizonte. Filha do eminente patologista Joseph Stein, a Marie, tão jovem, vinha de uma trajetória impressionante, porque, sendo vítima do nazismo, em seu país, a Polônia, veio parar em Belo Horizonte, mas, por seu brilho como estudante, chegou com 17 anos ao curso médico.

Essa façanha é um elogio ao clima de liberdade vivido no Brasil, nos anos dourados, no intervalo entre duas ditaduras. Eu então fiquei a refletir sobre minha infância feliz, comparada com a tragédia que o hitlerismo impôs a sua família. Daí minha admiração a esta querida colega, que, demais, retirou de sua experiência a condição invejável de poliglota. Toda vez que eu passava pela Marie eu dizia: Marie rima com Curie, que você pretende fazer com esta rima?

Do tempo de Colégio Estadual, em referência à Marie, só me lembro de uma secção musical. A Berenice Menegale estava ao piano e um cantor, se não me engano, o Montalvo Monducci começou a cantar uma valsa brasileira intitulada CAPRICHOS DO DESTINO. Percebi que minha colega, com os olhos marejados, disse para sua amiga ao lado, a Norminha (Maria Norma Veloso Chaves): esta é a música mais linda que já ouvi! Era um segundo elogio que ela fazia ao Brasil, sendo conterrânea de Chopin.

Durante o curso médico, apareceu-nos um francês, vendedor da ENCYCLOPÉDIE MÉDICO-CHIRURGICALE, que logo começou a conversar em francês com a Marie. A enciclopédia era composta de livros pesados e enormes. Parecia que ele tinha vendido muito pouco em outros lugares e, com aquela aluna ali tão fluente, ele supôs que nós todos éramos adeptos da mesma língua e cada qual faria a compra. Foi uma decepção, porque o professor DiDio já nos tinha feito adeptos de livros ianques. Mais tarde, no Centro de Memória recebemos uma ou outra coleção da tal encyclopédie, oriunda da biblioteca pessoal dos poucos que a adquiriram, enviadas por viúvas ávidas de se livrarem daquele trambolho.

De minhas fotos estudantis guardo uma em que a Marie aparece ao lado da Dilair de Faria (nossa colega de turma) e da Eleuse Machado (da turma anterior), na estação de Cordisburgo, num passeio que empreendemos à gruta de Maquiné, em 1957, ainda pela estrada de terra. Revendo a cena, concluo que a foto flagra o prédio da estação que oculta o ex-armazém do sêo Clodoaldo, pai de Guimarães Rosa e onde este passou a meninice. Nessa época, nenhuma gente sabia da importância do escritor, que foi o orador da turma, em nossa Faculdade, exatos trinta anos antes de nossa formatura, da qual fui também orador, em discurso bem mais pobre que o dele.

Marie Louise Stein foi clinicar no Estado de São Paulo, na cidade de Ribeirão Pires em São Paulo onde se casou com Jorge Wisniewski. Escolhendo a pediatria como especialidade, ela surpreendeu os pediatras paulistas pela solidez de sua formação. Esta resultou das peculiaridades de nosso curso e, nessa especialidade, da precoce e ampla experiência ambulatorial que tivemos na medicina geral de crianças.  Em conseqüência, a Marie foi reconhecida como heroína do bloqueio à epidemia de meningite que se disseminou pelo país em 1973.

Além de a Marie e eu sermos caçulas da turma, há outra circunstancia de datas que me aproxima, com emoção, desta colega. Seu pai, Joseph Stein, nasceu em 1904, apenas um ano mais novo que meu pai. Ambos faleceram cedo, o pai dela com 39 anos, em 1943, mais novo ainda que o meu, com 48, em 1951. Tão jovem, Joseph Stein já era cientista de renome. .Ele foi descrito pelos que o conheceram como homem doce e gentil e dotado de ampla formação intelectual.

Tinha o título correspondente ao PhD em ciências biológicas e se graduou em medicina na Universidade de Varsóvia, em 1927. Antes da guerra, ele era reverenciado patologista na subárea da oncologia, sendo pesquisador no Hospital Espírito Santo. De família israelita, era, entretanto, católico e se considerava polonês autêntico. Nenhum argumento impediu que os invasores nazistas o confinassem no Gueto. Sua magnífica coleção de material e demais dados sobre salmonelose foi pilhada e distribuída por centros de pesquisas da Alemanha.

O Dr. Stein recebeu diversas ofertas de ajuda para escapar do Gueto. Aceitou-as para a família, inclusive a encantadora menina Marie Louise, levada a Paris, sob o amparo da Resistência Francesa, e depois a Belo Horizonte, para junto de sua tia materna, Elisabete. Quanto a ele, alegou que, como diretor do Hospital Czysta, tinha indeclinável dever para com seus pacientes e seu lugar era ao lado destes. Sua esposa e uma filha não quiseram deixá-lo. Nos últimos dias do Gueto, em seis de maio de 1943 (exatos dois anos antes do fim da guerra), o pai, a esposa e a filha foram conduzidos ao campo de concentração de Treblinka, onde foram vítima de assassinato cruel.

Como historiador, estudo de modo específico a presença judaica em Minas Gerais. Advogo que aqueles diversos traços israelitas que compõem a cultura mineira foram importantes no clima carinhoso com que a Marie Louise Stein foi aqui abraçada e aqui aceita como uma de nós. 


MAURÍCIO KALIL

A vida lhe aprontou reveses, mas ele só a via pelo prisma límpido da alegria

                                                                                    

         No livro O RISO DOURADO DA VILA (2003), relato que, em 1954, vindo de ônibus para o curso pré-vestibular do professor José Guerra (cursinho do Guerra), vi entrar um grupo falando alto e rindo das piadas de um rapaz gordo com um defeito na perna. Menos de um ano depois, viria a reconhecê-lo entre meus novos colegas de medicina, era o Maurício Kalil. Passou todo o curso nos encantando com seu modo espirituoso e brincalhão, um humorista nato, uma inteligência ágil e observadora, uma alma pura e sensível, que, após 35 anos de formado, nos deixou órfãos de suas tiradas engraçadas e de seu jeitão humano e competente de ser médico. Ele vinha de sofrer cedo adversidades físicas e sofreu outras, e não só físicas, ao longo do tempo. Nem por isso abdicou do humor, da alegria, da cerveja e da música. 

Certo dia, quando cheguei a sua casa ele me disse: que bom você ter vindo, porque estava ansioso para lhe mostrar minha banheira. Não fiquei atônito, porque vindo dele eu esperava qualquer coisa. Tratava-se do quarto-de-banho mais sofisticado jamais criado. Ele o projetou cuidadosamente. A banheira era dessas modernas, mas seu diferencial era o que o Maurício, imerso nela, poderia fazer: servir-se de cerveja e bebidas finas num pequeno bar escamoteável, escolher e ligar qualquer gravação musical, ter acesso a livro ou revista, adaptar a iluminação e usar outros mais comandos para outros mais confortos. Sim, havia uma alma de arquiteto embutida na alma do cardiologista Maurício. 

Eu disse então a ele e aos outros que tudo ali era coerente com a história da medicina, pois o primeiro grande arquiteto da história era médico. Sim, a primeira pirâmide, a de Sacara, fora arquitetada por Imotepe, o primeiro grande médico do Egito e talvez o primeiro grande escriba da História, no cargo de vizir do faraó Zozer, em 2650 aC. Ora como o Maurício era sírio e a Síria começou como extensão egípcia, aquilo, para quem crê na reencarnação, não comportava dúvida: meu querido colega era a reencarnação de Imotepe. Ouvindo isso, ele imediatamente tirou do gancho uma toalha-de-rosto vermelho-escura, pôs sobre a cabeça e fez uma pose de egípcio - entre gargalhadas de todos nós. A seguir ligou o som para ouvirmos seu xará Maurice Chevalier a cantar LOUISE. O rosto enternecido dele ao som desta música tinha uma razão: quando ele nasceu os pais queriam chamá-lo Sebastião, seu orago, mas seu irmão Temer, admirador de Chevalier, exigiu Maurício. E acertou em cheio, pois aquele bebê iria exibir logo o mesmo senso de humor e a mesma alegria do astro francês.

Em sua comicidade, Maurício Kalil era um tipo raro: aliava ao fluente humor verbal maravilhosa mímica. Isso ele usava na didática, conquistando e prendendo a atenção dos estudantes. Paradoxalmente ele, como docente de clínica, na mesma faculdade onde se formou, era da equipe do homem menos humorista de Minas, se é que isto é possível em Minas: o severo e notável professor Osvaldo de Melo Campos. Na cátedra de Melo Campos, militou um trio de nossa turma: Maurício, Luiz Fábio Rocha e Celso Dias Avelar. A estes podemos e devemos acrescentar um adotivo: José Moreira Santiago, da turma de 1953.

Quando conhecemos o Moreira Santiago, antes da formatura, ele, mesmo jovem, ombreava com os professores João Afonso Moreira e Arnaldo Elian na admiração dos estudantes, pela generosidade com que repassava todos os truques práticos da cardiologia, sonegados avaramente pelos demais especialistas. Por isso mesmo, estes, não podendo enfrentar o João e o Arnaldo, hostilizavam dos Moreiras o mais frágil, obstando o belo serviço que ele montava no Hospital das Clínicas. Foi então que nós, da turma de 60, nos unimos em torno dele, principalmente os três do Melo Campos e dentre estes sobretudo o Maurício. Pouca gente sabe que estava então para surgir não no Hospital das Clínicas mas no campus da Pampulha um grande centro de cardiologia, de dimensão nacional, comandados por André Esteves de Lima na cirurgia cardiovascular e por José Moreira Santiago na clínica cardiológica – sendo que o André estava à frente dos cirurgiões paulistas desta época. Eu mesmo especulo que, se o projeto não sucumbira à sabotagem, três astros mineiros, atuantes fora, seriam tentados a voltar para Minas: Domingos Junqueira, Adauto Barbosa Lima e Sérgio Almeida de Oliveira. 

Do que teria sido esse centro cardiológico podemos ter idéia pela produção cientifica desse grupo, inclusive sua fundamental pesquisa sobre esquistossomose pulmonar, premiada em congresso. Em 1973, Maurício, Moreira Santiago e Crisóstomo de Oliveira assumiram a direção do Hospital Nossa Senhora Aparecida, no Bairro São Paulo, onde, por 22 anos, mostraram que o mesmo padrão ético-científico da medicina universitária pode e deve ser dispensado à comunidade.

Em fevereiro de 1974, os colegas de turma Maurício Kalil e Luiz Fábio Rocha estavam fazendo um curso de aperfeiçoamento, junto ao Sérgio Almeida, outro da turma, no hospital da Beneficência Portuguesa, em São Paulo. Certa manhã, quando saiam para o hospital, vêem em chamas o prédio ao lado de seu hotel. Era o pavoroso incêndio do edifício Joelma, exibido pela televisão a todo o país, morrendo 188 pessoas. Pois bem, aqueles dois jovens senhores, por sinal já vestidos de médico, imediatamente se integram às equipes de socorro e ajudam a salvar vários moradores.

O Maurício fora vítima da poliomielite aos três anos e, naquele tempo do início da 2ª guerra mundial, a fisioterapia não lhe era disponível. Ele dizia que o único atendimento fisioterápico que recebeu foi quando teve de subir diariamente o morro-a-pique do bairro do Bonfim para freqüentar sua primeira escola. Com as seqüelas que lhe ficaram, ele também subiu galhardamente o morro-a-pique da vida e da carreira, apoiado pelo amor dos familiares, pela admiração dos colegas e por nossa imensa amizade.


MAURO TOSTES FERREIRA

O raro dom da memória fotográfica é a parte menor de seu talento

 

        O Baeta convidou a sua residência três de nossos colegas, exatamente aqueles que pareciam encaminhar-se para a bioquímica: o João Augusto Teixeira, o Armando Neves e o Mauro Tostes. Queria fazê-los fanáticos, tanto como ele, das composições de Richard Wagner. O Mauro que, além de já não gostar de Wagner, estava com algum problema no conduto auditivo externo, começou não suportando a altura com que o Baeta, de pijama, ligou sua aparelhagem de som. O Mauro se desculpou e quis sair. O Baeta tentou retê-lo: fique, Mauro, o som alto é para você imaginar as valquírias nuas em cavalgada pela sala!...

           A cena descrita ocorreu quando éramos segundanistas, em 1956, e o Mauro já era meu colega desde 1954, quando ele estudava no turno da manhã do Colégio Estadual e eu estudava ali no turno da noite. A única lembrança que tenho de quando éramos colegiais se refere à foto dos formandos numa escadaria, onde sua figura esguia e os óculos grossos foram marcantes para mim. Ainda ontem o encontrei no Mercado Central e ele me parece a mesma figura, exceto pelos cabelos não tão encanecidos.

           Há pouco o neurocirurgião Sebastião Gusmão me alertou que não perdesse uma apresentação do filho do Mauro, que acabara de chegar dos EUA com novidades do estudo do encéfalo, principalmente o uso modernizado da imagem em terceira dimensão. Quando avistei o jovem, fiquei impressionado com a semelhança física entre filho e pai. Perguntei-lhe se a semelhança era também intelectual e ele disse que achava que sim, exceto que era menos sistemático do que o pai.

Coincidentemente, nessa ocasião eu estava lendo o livro DOIS VELHOS TRONCOS MINEIROS: BENTO PINTO DE MAGALHÃES E FRANCISCO JOSÉ DE ALVARENGA (1999), escrito por meu amigo José Batista Alvarenga Coelho. Conheci-o quando me procurou no Centro de Memória da Medicina e se apresentou como juiz de direito, cujo lazer era a genealogia de sua família. Estava em busca de médicos que constam do livro que preparava. Disse-lhe que estudávamos coisa em comum, pois nossas regiões eram território de açorianos, que deixaram forte marca na zona da Mata e no Sul de Minas. A morte precoce em acidente desse meu recente amigo me causou grande dor. São de origem açoriana figuras de relevo no Brasil, como os escritores Machado de Assis e Oto L. Resende, os compositores Heitor Villa-Lobos e Ari Barroso, o presidente João Goulart, os cirurgiões João Resende e J. Sílvio Resende e mais de um Tostes, entre estes, o laticinista Cândido Tostes e os artistas Danilo, Dori e Nana Caymmi.

           Na festa de lançamento do tratado de TÉCNICA CIRÚRGICA de autoria de nosso colega Ernesto Lentz (em colaboração com Euclides Santana), a agradável surpresa foi a presença do Mauro Tostes, avesso a acontecimentos dessa natureza. Sua conversa com os colegas de turma ali presentes nos fez esperançosos de que outras reuniões da turma passariam a recebê-lo, mas ele nos exigiu para isso duas condições: que fosse vedado o consumo de álcool e que o encontro se desse sempre no centro de Belo Horizonte (há muito não se desloca além deste perímetro). Então perguntei ao Mauro se aceitava dar uma aula de sua livre escolha em nosso curso de História da Medicina e ele respondeu sorrindo que só se fosse de gramática, tema exclusivo para ele ultimamente.

           Logo após o vestibular, o Mauro fez sucesso no curso de anatomia, quando o professor Liberato DiDio descobriu nele uma raridade: a memória fotográfica. Vaticinou que ele viria a ser notável anatomista, mas o resguardado Mauro não se entendeu bem com aquele professor espalhafatoso. E a previsão deste poderia ter-se realizado por duas razões: primeiro, por que tivemos a maior carga horária de ensino anatômico “do mundo e da história” e, segundo, porque a inteligência do Mauro não se restringe à capacidade mnésica, mas se estende a um conjunto de atributos igualmente raros que lhe confere invejável argúcia crítica, no mais das vezes demolidora. Assim, quando se permite caminhar pela área humorística, ele pronto atalha pela via mais sarcástica possível.

           Em verdade, o professor DiDio tinha o faro próprio para descobrir talentos, mas não foi feliz nos meios de aproveitá-los, como foi o caso do Ângelo Machado, do Wilson Abrantes e de outros. Em nossa turma, os casos mais dignos de estudo são o Rui Paolucci e o Mauro Tostes.  Quando reencontrei o DiDio nos EUA, tivemos a ocasião e o ambiente propícios a estas considerações e ele não quis falar dos casos individuais, mas me confidenciou sua enorme esperança em nossa turma: ele sonhou para nós sermos professores nas 40 faculdades de medicina do Brasil daquela época, para nelas plantarmos a semente da escola anatômica de Bovero-Lochi-DiDio. Hoje, com pouca modéstia e sem medo de errar, garanto que cada um de nós poderia ter partido para qualquer escola médica e aí triunfar não só em anatomia, mas em qualquer área da medicina. 

Hoje sei que o fracasso parcial do DiDio se deveu à mineiridade dos talentos caçados por ele. A compostura cultural de cada mineiro é incompatível com a exibição circense de seu eventual talento, em geral reconhecido a custo pelo possuidor. O exemplo mais interessante ocorreu com o hoje vitorioso pediatra Nelson Luz Lobo, quando o DiDio descobriu nele a incrível capacidade de contrair qualquer um dos músculos da face, do resto da cabeça e do pescoço. O Nelson quase foi reprovado em histologia, porque teve de faltar a aulas e a uma prova, para acompanhar o DiDio, que o transformou em suporte audiovisual de suas palestras no Minas Clube, na Associação Médica, na Sociedade Dante Alighieri, etc.

Muitos sabedores de minha carreira estudantil pregressa deduzem que na formatura fui o ganhador do prêmio de aluno com a maior nota de final de curso. Isso é uma injustiça para com o Mauro Tostes, pois ele é o verdadeiro premiado. Nem sequer fui seu competidor, em virtude de eu ter escolhido engajar-me no movimento estudantil, opção incompatível com tal competição.  Nem por isso diminuo seu mérito, muito ao contrário.

O companheirismo que me prende ao Mauro data de nossa experiência de vestibulandos e se estende, para além da medicina, ao apego a nossos fuscas. Um dia avistei da esquina o Mauro, de mão contra o sol, tentando identificar meu fusquinha em minha garagem. Depois me disse que mais de uma fez tal fiscalização, zelando pela conservação de meu veículo e ainda me recriminou por não mantê-lo sobre cavaletes. No seu caso, seus dois fuscas são mantidos em cavalete e, para minha admiração, sobe neles para fazê-los funcionar diariamente. Respondi-lhe que já transferira o meu a filhos e netos, sendo por isso mantido sem muitos cuidados, ao passo que, na roça, maltrato outro fusca e uma kombi.

Em matéria de fusca, o Mauro e eu éramos malungos do Luiz Otávio Savassi Rocha e do Cid Sérgio Ferreira, dois queridos amigos que abandonaram a fuscomania. A eles costumo relatar algo espantoso que me sucedeu. Estacionando um de meus fuscas na Faculdade, fui abordado por um de meus alunos que me disse em tom repreensivo: Professor não fica bem para o senhor ser visto aqui com um fusca. Isto é incompatível com sua posição. Professor que se preze tem de andar no carro do ano. Está bem que o senhor não se importe com isso, mas nós seus alunos ficamos chocados...

Diante desse pito, concluí que não só o DiDio amargou fracasso como professor universitário: toda a nossa geração fracassou junto com ele.   

           

           


OMAR GUIMARÃES

Não era mineiro, mas é de estirpe mineira e também egresso do Colégio Estadual

 

Infelizmente é outro colega (paranaense de Londrina e outro formado no científico de nosso Colégio Estadual) de quem, depois da formatura, não tivemos notícia. Tivemos indicativo não confirmado que ele ou seu filho médico migrou para Ohio nos EUA, para atuar na área da ginecologia.


ORION LUZARDO ÁLVARES

De primo de Álvares ilustres a modelo acabado de médico comunitário

Emérito médico comunitário de Várzea da Palma, por longos anos atendendo também no hospital local Adolf Ensch - Orion Luzardo Álvares traduz maravilhosa competência em doação total à população de sua cidade, que o tem como filho, irmão, pai e protetor.

Logo nos primeiros dias do curso, aquele colega de comportamento retraído se aproximou de mim e disse que trabalhava com meu tio Aprígio Salgado no serviço sanitário. Respondi que meu tio me avisara de que um de seus funcionários, excelente pessoa, iria ser meu colega de curso. Daí em diante o Orion foi meu amigão por todos aqueles seis anos. Ele fazia um dueto comigo na análise crítica de pessoas e acontecimentos, em comentários que sempre findavam ou pelo riso furtivo ou aberta gargalhada.

Quando fizemos o curso de parasitologia, recebemos a triste notícia de que o professor Amílcar Martins não poderia nos dar as aulas tão aguardadas porque o Juscelino o chamara para sua equipe. Para amenizar a decepção, anunciei aos colegas que o Orion iria assumir aquela função docente, pois estava careca de fazer exames parasitológicos em seu serviço. Acontece que Martins providenciou substituo do mesmo nível que o seu: René Rachou. O Orion ficou eufórico pois conhecia a figura e de fato foi um curso inesquecível. Outro entusiasmado com a chegada de Rachou foi o Oswino Pena, aquele da amebíase gengival relatada em meu livro O RISO DOURADO DA VILA (2003). Depois de cada aula prática contávamos com uma happy hour,  propiciada pelos causos do Oswino, cuja memória era atiçada pelo Orion, que, de tão gostosa, resultou em homenageado na formatura.

O Rachou nos fez realizar inquérito coprológico nos escolares da Capital, a ser comparado com aquele executado pioneiramente pelo Oswino. Foi tão marcante este ensino extramural que influenciou a reforma curricular de 1975. Sem o Orion, esta inesquecível experiência não teria sido tão fácil e tão divertida. O professor René avisou: as aulas teóricas não serão extraídas de livro, serão ministradas somente por quem tem algo novo a dizer, ou seja, fatos recém-saídos de pesquisa ainda não publicada. Foram preleções notáveis dadas por cientistas que não puderam resistir ao convite daquele scholar. Quando falei pelo Brasil sobre ensino médico ficou conhecida uma frase que adaptei de Rachou: a aula teórica comum, tirada dos livros, dada pelo professor comum, deve ser banida; só há duas válidas, aquela tirada da literatura mas que só pode ser ministrada por um dos alunos, previamente escalado, ou aquela que apresente algo novo ainda não publicado.

O Orion logo foi clinicar em Várzea da Palma. Enquanto eu, também em seguida, reencontrei a paciente Berenice, o primeiro caso da doença de Chagas. Só de lembrar que Lassance e Pirapora são próximas ao lar do Orion, me senti em casa para estudar o caso sensacional. E, quando percorria os caminhos da descoberta da doença, fui bater à porta de meu querido colega, que não via desde a formatura.

Se havia alguma dúvida de que o Orion era meu fraterno amigo, ela se dissipou naquela total alegria com que me reconheceu ali. Ele ficou tão entusiasmado com a boa surpresa e tinha tanto a falar que entrou em nosso carro e foi conosco para Lassance. e de lá voltou de trem para casa. Que momentos agradáveis, que boas gargalhadas, que prosa sem fim! Contei-lhe que chegara ali vindo de Pirapora, onde me pus a revirar documentos da região. E no meio deles achei algo incrível: uma notícia do folião Orion. Dizia que nos anos 50 o carnaval piraporense era animadíssimo, sobressaindo um grupo denominado BLOCO PINGA PURA, formado pelos universitários Orion Luzardo Álvares, Charif Darwich e Arthur Lopes Filho. Meu colega ouviu isso em tríplice mistura: saudoso, vaidoso e desnudado. E sorridente, como sempre.

Nessa época já me interessava pela origem dos sobrenomes. Perguntei, só de brincadeira, se o Álvares do Orion não era o mesmo do Pedro Cabral. Ele então me confessou que não diria isso se não fosse perguntado. Mas tinha esse parentesco documentado por seu ramo paterno. Dias mais tarde me chega esta documentação, remontante à irmã do Pedro. Pensei: Aquele danado nos escondeu, o tempo todo, sua mais do que aristocrática linhagem! Saint Hilaire já tinha feito esta observação no sertanejo que encontrou em Minas no século 19: finge não ser ninguém para fingir que não é rico...

A história da medicina de Minas tem sido contada a partir de médicos das grandes cidades. A verdadeira história será escrita quando inclui também e der o necessário realce à vida e obra de médicos heróicos como este extraordinário colega Orion Luzardo Álvares.


OSWALDO GARCIA

Um craque de futebol e, ainda estudante, urologista com renome

 

Como historiador, no estudo que faço dos Garcias, desejo incluir o Osvaldo, mas me faltam os dados necessários. Sendo sulmineiro, co-munícipe do Ernesto Lentz, é quase certo pertencer à grande e importante família Garcia de origem açoriana que veio para minha região, o que parece confirmado por ter sido ótimo jogador de futebol em nossa turma. Foi interno de urologia do Hospital São Vicente onde dividia o quarto com o José Aloysio da Costa Val e com o João Cândido dos Santos

Era muito admirado pelo professor Aparício Silva de Assis, seja pelo domínio da anatomia, seja pela habilidade cirúrgica.. Depois de diplomado foi para São Lourenço e não mais manteve contato com os colegas.


PAULO LENER PEIXOTO DE ARAÚJO

Um dos inauguradores do Departamento de Medicina Preventiva e da imunização moderna

           

Quando a nossa turma chegou à disciplina de microbiologia tivemos mais um privilégio, em adição aos que vínhamos recebendo desde o exame vestibular: começou ali o projeto gastroenterite. Recursos materiais e humanos foram providenciados para, nos laboratórios recém-inaugurados na parte nova do prédio da Faculdade, efetuar-se a identificação dos causadores bacterianos da gastroenterite endemo-epidêmica de então. Além da experiência inédita que isso tudo nos propiciou, vieram as moças contratadas para o projeto. Nos intervalos do serviço, elas eram convidadas para jogar pingue-pongue, conversar e ouvir música no Diretório Acadêmico, também recém-inaugurado. Daí resultaram dois casamentos em nossa turma, coincidindo que as duas noivas tinham o nome de Vanda: a Vanda Pimenta casou-se com o microbiólogo José Aloísio da Costa Val e a Vanda Neves casou-se com o pediatra imunizador Paulo Lender Peixoto de Araújo. Eu era um dos aficcionados desse pingue-pongue e posso garantir que as Vandas não foram conquistadas pelo desempenho na raquete desses pretendentes.

           Logo após a formatura, o Paulo Lener foi integrar o novo Departamento de Medicina Preventiva criado por influencia da Organização Panamericana de Saúde (OPAS), órgão regional da ONU, que também influenciara o referido projeto gastroenterite. De fato, quando de nosso ingresso em 1955, fomos saudados como a primeira turma da chamada Rockefeller generation, ou seja os primeiros a cursarem integralmente o modelo Flexner de ensino, exportado ao Brasil pela Fundação Rockefeller.

Desde bem antes estava evidente que tal exportação de um país desenvolvido a países subdesenvolvidos carecia de ajuste. Entre nós ficou logo evidente o contraste entre nossa realidade socioeconômica e o elitismo rockefelleriano. Técnicos da Organização Panamericana de Saúde (OPAS) devem ter concluído que, diante do poderio da Fundação Rockefeller era mais prudente manter o modelo e apenas acrescentar-lhe um retoque, ou seja, a opção seria a busca de um complemento preventivo à medicina curativa.

No mesmo ano de nossa entrada na Faculdade foi realizado em Viña Del Mar, no Chile, um Seminário Sobre o Ensino da Medicina Preventiva. Para que esse novo ensino não fosse esvaziado dentro das antigas cátedras de Higiene recomendou-se a criação de dinâmicos e aparelhados Institutos de Medicina Preventiva que deviam substituir tais cátedras. Era como se verdadeiras Escolas de Saúde Pública (modelo Johns Hopkins) fossem embutidas nas escolas médicas. Os Institutos, contudo, não se mostrassem atrativos. Foi necessário algo mais drástico: os Ministros da Saúde do continente foram convocados ao Chile, em 1960, ou seja, quando já estávamos sendo diplomados. E a recomendação que receberam foi criar, em vez de Institutos, verdadeiros Departamentos de Medicina Preventiva - antecipando a organização departamental das universidades, adotada em 1968. 

            Assim Paulo Lener foi aquele de nossa turma que participou dessa tentativa de inovação pedagógica. O Instituto chegou a ser instalado no andar térreo, local depois ocupado pela Cooperativa Editora (por sinal, também criada por alguns de nós no Diretório Acadêmico). A OPAS vislumbrara que a medicina preventiva incidiria sobretudo na área da pediatria e assim as ações esperadas seriam a nascente expansão das imunizações, a melhoria da utilização da água (mais do que o combate às bactérias da gastroenterite) e de alimentos, bem como a atenção materno-infantil.

Em meio a divergências, ciúmes e vaidades, pouca coisa funcionou. A vaidade, por exemplo, fez com que o andar térreo fosse taxado de porão e daí o departamento foi guindado ao 10º andar, para bem distante de seu público alvo. Ali os serviços previstos, para espanto geral, foram substituídos por salas de aula destinadas a discussão-em-grupo. Resultado: o décimo andar foi apelidado pelos estudantes de péssimo andar. Um grupo docente, inclusive o Paulo Lener, decidiu efetivar em clinica privada parte daquilo que era previsto para a comunidade em geral e o resultado foi um sucesso, principalmente para os próprios médicos e para as famílias de seus respectivos clientes, que tiveram ali orientação segura e garantida para a imunização dos filhos. Nossos filhos e agora nossos netos são clientes fieis de Lener, ainda mais agora quando ocorre verdadeiro boom na imunização não só de crianças mas para todas as idades.

Cabe aqui lembrar que no lado específico das imunizações Minas Gerais alcançou bela projeção nacional. E não se pode esquecer que, em seus difíceis primeiros passos, encontramos as iniciativas pioneiras de que participou Paulo Lener. A vitória sobre a poliomielite contou com três pediatras mineiros atuantes em nível internacional: Archimedes Teodoro, Edward Tonelli e Elmo Perez dos Santos. Hoje, ainda com repercussão no exterior, o aplaudido Programa Nacional de Imunizações conta com o brilho e o dinamismo de nosso ex-aluno José Geraldo Ribeiro

           Para o estudioso isento, seria útil especular como deveria ter sido o Instituto ou o Departamento de Medicina Preventiva? Seria um conjunto multicêntrico de locais de treinamento-em-serviço e treinamento-em-pesquisa, onde o que menos deveria existir era sala para aula ou para discussão. Mas o fracasso e a distorção da coisa não deve ser atribuída às pessoas encarregadas, pois estas foram também vítimas de generalizada rejeição nas escolas médicas, na medida em que o poder acadêmico obedecia a outros interesses.. A coisa não funcionou não por incompetência das pessoas, mas em virtude do defeito original de criar um remendo preventivo ao modelo curativo. A prova disso é que em 1965, quatro anos decorridos de nossa formatura e da criação do malogrado departamento, os EUA deixaram de lado a Fundação Rockefeller e encarregaram a Fundação Ford de tentar recuperar o tempo perdido. Daí surgiu a idéia de conseguir os mesmos objetivos não no plano dos serviços, mas por meio de uma doutrina atraente: surgiu o modelo preventivista de Leavell & Clark.

           Nós, os formandos da primeira turma plenamente flexneriana, não fomos consultados ao vestibular sobre todas essas questões. De todos nós, o Paulo Lener foi o herói a atuar no ponto mais nevrálgico desse modelo. Daí que deve receber especial reconhecimento dos colegas e a homenagem dos estudiosos dos problemas da saúde.

 

Do jogo de pingue-pongue do diretório acadêmico saiiram dois casamentos em nossa turma e ambas as noivas são Vandas: o do Zé Aloísio com a Vanda Pimenta e o do Paulo Lener Peixoto de Araujo com a Vanda Neves. Ao Paulo e à Vanda me ligam três laços de especial estima: o Paulo vacinou meus filhos e vacina meus netos, a Vanda é filha de uma das mais altas figuras da medicina mineira, da qual sou admirador e estudioso, e, por fim mas não de menor importância, o filho do casal é grande amigo de meu filho, contemporâneos em nossa faculdade e, demais, companheiros de trabalho. O Paulo, na equipe inicial de sua clínica atual, é pioneiro em Minas em vacinação infantil. Quando tiveram a audácia de abrir caminho, nem eles sabiam do boom vacinal propiciado pela tecnologia atual – e espero que tal feito breve seja registrado em livro. Espero também que a Vanda e toda a família escrevam a biografia do professor José de Aroeira Neves, também pioneiro na micologia não só mineira mas brasileira, como me repetiu mais de uma vez Carlos da Silva Lacaz. Já Paulo Lener Filho - educadíssimo, competentíssimo e orgulho dos pais – vejo-o como uma espécie de irmão de meu filho Carlos Amílcar:

O complemento de Institutos de Medicina Preventiva não funcionou e veio a seguir o dos Departamentos de Medicina Preventiva, que se tornaram guetos curriculares. Isso tudo só fez mostrar que tínhamos razão quando dirigimos duas vezes o Diretório Acadêmico, mas a correção do elitismo teve de esperar pela inovação de 1975, de que também participamos.

           Neste mesmo ano foi realizado em Viña Del Mar, no Chile, um Seminário Sobre o Ensino da Medicina Preventiva. Para que esse novo ensino não fosse esvaziado nas antigas cátedras de Higiene recomendou-se a criação de dinâmicos e aparelhados Institutos de Medicina Preventiva, cujo perfil seria o de verdadeiras Escolas de Saúde Pública (modelo Johns Hopkins) embutidas nas escolas médicas. Como os Institutos não se mostrassem atrativos, os Ministros da Saúde do continente foram convocados, em 1960, quando já estávamos sendo diplomados, para algo mais efetivo e mais divergente das cátedras: em vez de Institutos, seriam criados Departamentos de Medicina Preventiva - antecipando a organização departamental das universidades, adotada em 1968. 


PAULO RAIMUNDO LOBO DIAS

O violinista, o cantor e o poeta tresdobram a herança caramuru

           

Certo dia, três segundanistas - o João Augusto Teixeira, a Maria do Carmo Calmeto e eu - falávamos sobre grandes compositores e concordávamos em que a música só podia fazer bem aos médicos. Nesse momento chega o Paulo Dias e confirma que seu ingresso no curso não o impedira de prosseguir no violino. E citou, a propósito, o ex-estudante de medicina Bertolt Brecht, que acabava de falecer. 

Nós, que nem sabíamos do passado médico do dramaturgo, ficamos sabendo pelo Paulo de que Brecht também era músico, tanto autor como intérprete. Pedimo-lhe, apontando seu violino no estojo, que tocasse Brecht e ele prometeu preparar algo para dali a um tempo. Mas posso recitar um eterno poema dele – e recitou AS MARGENS: Do rio que tudo arrasta / se diz que é violento / Mas ninguém diz violentas / as margens que o sufocam. Aplaudimos e pedimos outro. E o Paulo não vacilou em recitar OS QUE LUTAM : Há aqueles que lutam um dia; e por isso são muito bons; / Há aqueles que lutam muitos dias; e por isso são muito bons; / Há aqueles que lutam anos; e são melhores ainda; / Porém há aqueles que lutam toda a vida; esses são os imprescindíveis.

Seus próprio poemas, ele escondeu até hoje. Mas seu lado cantor não conseguiu ocultar na emoção de nossos encontros anuais, quando é inevitável ouvi-lo cantando MY WAY. E todas as vezes é sob lágrimas que ele canta o trecho: to think i did all that (pensar que eu fiz tudo isso); and may I say - not in a shy way (e eu poderia dizer - não de uma forma tímida), no, oh no not me (não, oh não, não eu), I did it my way (eu fiz disso o meu caminho).

No violino, nenhum colega se deu conta de que o Paulo pertence à aristocracia brasileira deste instrumento, a partir do ambiente seleto do Conservatório de Música, hoje da UFMG, onde teve o privilégio de ser iniciado por José Martins de Matos. Assim Paulo Raimundo Lobo Dias é neto musical de Paulina D´Ambrosio, a maior das violinistas brasileiras e participante da Semana de Arte Moderna de 1922. Por sinal, Paulina estava ali ao lado de um Lobo plural: Heitor Vila-Lobos - e o acompanhou também na criação da Academia Brasileira de Música. Em Belo Horizonte tive o privilégio de reunir o Paulo e meu primo Vinício Tiso, este discípulo direto da mesma Paulina. Hoje ambos participam do reagrupamento da escola paulineana mineira, em tertúlias violinísticas junto ao virtuose Aloisio Maia Saliba, discípulo de George Marinucci e da mesma Paulina.

Logo no início do curso médico, o Paulo, o Ely da Conceição, o Ernesto Lentz e eu entramos no Instituto Cultural Brasil-EEUU. As aulas ali eram divertidas e ficavam ainda mais por nossas críticas ao imperialismo norte-americano. Os alunos usuais do Instituto eram admiradores incondicionais dos padrões ianques, enquanto nós, principalmente o Paulo, tínhamos posição independente, que exasperava sobretudo o professor Karl Löwe, reduzido ali a conciliador, pois era judeu refugiado de Hitler.

O idioma inglês permitiu ao Paulo aperfeiçoar-se nas ilhas britânicas, no processo formativo que fez dele cirurgião, ginecologista, colposcopista e docente – sempre honrado em integrar a equipe de Clóvis Salgado – a quem relembra freqüentemente com grande admiração. Afinal ele acabou sendo, ao lado da Dilair Faria e do Márcio Tornelli, o interessante elo entre nossa turma, de excessivo preparo anatômico e a celebrada elegância da escola ginecológica liderada por Salgado: inigualável mineiro, que foi ministro, governador, estadista, médico e professor, mas, acima de tudo, habilíssimo cirurgião.

Sendo Lobo Dias, o Paulo cedo espicaçou minha permanente curiosidade com que cultivo linhas genealógicas, já que podia ligar-se a Caramuru e a Fernão Dias, respectivamente. Sendo Dias, qualquer um deste sobrenome em Minas se vincula ao bandeirante até prova em contrário. Sendo Lobo, com raízes em Conselheiro Lafaiete, o laço é quase certo com o fidalgo Diogo Álvares Corrêa, parente por sua vez de Nuno Álvares e de Pedro Álvares Cabral. Diogo foi o primeiro europeu a viver no Brasil, aqui foi apelidado de Caramuru pelos índios tupinambás e se casou com a princesa Paraguaçu, irmã de Moema – ambas lindas – daí os traços atraentes dos Lobos até o presente.

Meu interesse pelos Lobos, demais, me é também doméstico e científico. No lado doméstico, sou casado com a Leila Lobo, da mesma origem queluzina, e, no lado científico, faço o estudo biográfico da esposa do descobridor Carlos Chagas, dona Iris Lobo, filha de Fernando Lobo Leite Pereira, senador por Minas Gerais (da Zona da Mata Mineira e de origem mais uma vez lafaietense). Os mineiros Carlos e Iris se casaram no Rio de Janeiro, em 1904 (cinco anos antes da descoberta da doença de Chagas), a partir de namoro patrocinado por Miguel Couto. Meu estudo sobre a família Chagas iniciou-se quando, em 1961, estudei a paciente Berenice, em sua sobrevida de mais de meio século, tendo sido ela a criança que permitiu a Chagas descobrir a doença de seu nome, em 1909.

Com meus recursos de alfarrabista genealógico me é possível mostrar a dois admirados integrantes da turma de 1960, Paulo Raimundo Lobo Dias e Órion Luzardo Álvares (este descendente direto da irmã de nada menos que Pedro Álvares Cabral), que ambos são parentes - e não sabiam.

Enfim proponho que os colegas, ao ouvirem o Paulo cantar MY WAY, se solidarizem com ele, pois, a partir de agora, ele dirá a letra da canção em sentido individual e também linhagístico, traçando o CAMINHO da família LOBO, desde Caramuru a nossos DIAS.





PENHA FURTADO CAMPOS

A mais maternal das pediatras tem posição ímpar entre os pioneiros de nossa expansão pediátrica

Saiu do colégio interno para o vestibular, passou da primeira vez e entrou em pânico com o trote. Achou que ia ser atingida pelos veteranos, com mera agressão física ou coisa pior, e o veterano que mais a amedrontava era um sobrecenho espesso e que lhe pareceu feroz. Logo a seguir descobriu que ele era um dos sofredores e que sua postura era estratégia para ser poupado. Seu nome era Gilberto Lino, que nas primeiras aulas já começou a arrastar-lhe as asas o que acabou em casamento.

           O namoro facilitou o desempenho escolar de cada qual, porque a parceria do casal era perfeita. Os dois tinham inteligências excepcionais, mas diferentes e complementares. No final do curso, como o Gilberto se tornou presidente do Diretório Acadêmico, ela se tornou a primeira dama estudantil da faculdade. Isso deu a ela um desembaraço que era raro numa época em que as estudantes de medicina eram poucas e sofriam discriminação de machistas. Os machistas, médicos e não-médicos, sofreram o impacto de nossa primeira dama.

           No sexto ano ela foi interna de pediatria no Hospital São Vicente. Para isso foi alojada em quarto do primeiro andar, enquanto nos dois quartos do segundo andar ficavam os demais internos: Sebastião Lopes Pereira, José Aloysio da Costa Val, Osvaldo Garcia, João Candido dos Santos e Hugo Martins (este já formado no ano anterior).

           A presença feminina entre médicos, hoje tendente a majoritária, começou como proibida depois limitada e finalmente discriminada. O próprio Osler chegou a proibir mulheres entre os primeiros residentes. Agnodice, no quarto século aC é o símbolo desta luta milenar. Higino de Alexandria, biógrafo romano do 1º século, relata o caso de Agnodice, uma ateniense que desafiou a lei local segundo a qual à mulher era vedado ser médica. Cerca de 250 a C, disfarçou-se de homem, estudou com o anatomista alexandrino Herófilo (Calcedônia, 335 a.C. - 280 a.C). e praticou a ginecologia. Quando foi acusada de ser um médico que abusava das mulheres, revelou-se mulher. Foi submetida a julgamento no Areopago e perdoada. Maria Estrela nascida no Rio, formou-se em Nova Iorque em 1881. Rita Lobato foi a segunda latinamericana e a primeira mulher a se diplomar em medicina no Brasil, era gaúcha formou-se em Salvador em 1887. Dorothea Leporin Erxleben (1715-62) primeira mulher diplomada em medicina na Alemanha em 1754 escreveu: Thorough Examination of the Reasons Preventing Women from Study (1742). Pediu a Frederico o grande para cursar este concedeu apesar de lei contra e formou-se na universidade de Halle.

Em nosso curso de pediatria ela encontrou o acolhedor amparo do corpo docente chegando ao ponto de conseguir alojamento pioneiro para mulher, exclusivo para ela, no antigo hospital são Vicente. Ao lado de colegas como o José Aluizio, o João Candido e o Osvaldo Garcia. Nossa turma alcançou a época em que a pediatria era especialidade restrita como a endocrinologia ou a hematologia. Assim, todos os que tiveram excelente treinamento pediátrico não se tornaram pediatras exclusivo e principalmente os que foram para o interior incluíram o cuidado infantil na clinica geral.[ os pediatras da turma foram o joão Candido,o Jose Aluizio, a Marie Louise Stein, o Geraldo Evaristo Canabrava, eu, o Órion.]

Penha Furtado Campos seguiu inicialmente essa linha. Depois da formatura, fez atendimento de clinica médica para mulheres e crianças na cidade de Timóteo. Mas, após o casamento, passou ao atendimento pediátrico estrito, na área pública então em início de expansão, resultado da conjugação entre aumento da população periférica e saneamento precário. Ela então fez parte da equipe pioneira em pediatria clinica, quando atendeu desde junto ao Saúde Carlos Chagas, no Centro da Capital, até em postos periféricos, nos postos do Convento da Pompéia e da Ressaca.

Esta foi uma época heróica quando, pouco além da Avenida do Contorno, o esgoto a céu aberto era a regra. Ondas de gente paupérrima chegavam à Capital, pesando o ônus maior sobre as crianças, em nascimento explosivo. Entre elas dominava a pletora de situações agudas de desidratação. Foi a pioneira em montar o serviço de pediatria do hospital evangélico.

           


PENIDO DE OLIVEIRA

Magnífico exemplo de consagração comunitária

O curso médico que a turma de 1960 freqüentou na hoje Universidade Federal de Minas Gerais apresentou uma relação particularmente criativa com a pediatria. Quando chegamos à cadeira de clínica pediátrica, encontramos ali o professor Ênio Leão que imediatamente nos distribuiu pelos consultórios. Como éramos poucos cabia um paciente por estudante. Cada um de nós fazia o atendimento com total autonomia, inclusive o diagnóstico, os pedidos de exames complementares e a prescrição. Isso tudo em seguida era conferido pelo respectivo docente. Isso foi possível porque o catedrático Berardo Nunan concordou com o esquema, desde que estivéssemos todos presentes para a aula magistral, exclusividade dele. Seus assistentes adotaram com entusiasmo essa didática. Eram eles Celso Lobo, Aquiles Tenuta, Augusto Severo e Mario Moreira. Quando qualquer atendimento tinha desfecho na cirurgia infantil, qualquer um de nós, em vez de exigir a opinião de um docente desta área, convocávamos nosso próprio colega Penido de Oliveira, que, de pronto nos ministrava uma aula ambulatorial sobre o problema em pauta.

O professor Luiz Andrés tinha assumido uma das cadeiras de cirurgia e estava dando ênfase em duas subáreas: a cirurgia torácica e a cirurgia infantil, esta dando seus primeiros passos no Brasil, isenta das amarras da ortopedia. Nosso primeiro cirurgião infantil tinha sido Pedro Sales, colega de turma de Kubistschek, mas que não conseguira escapar do confinamento ortopédico-reumatológico, vigente em sua época. Na competição com outros grupos que pretendiam a hegemonia na nova especialidade, Andrés teve no ainda estudante Penido de Oliveira um aliado valoroso. Isso tudo preparou o Penido para o completo sucesso com que se saiu em sua cidade de Morrinhos, no interior de Goiás. De fato ele encantou seus conterrâneos com sua abrangente capacitação em medicina e cirurgia geral.

O Gilberto Lino foi seu colega de científico no Colégio Anchieta e me disse de sua admiração por aquele jovem fransino que viera do interior goiano para uma competição acirrada com estudantes vindos de toda parte. Era indiferente a tudo exceto ao preparo intenso nas matérias do vestibular. Para isso era dotado de impetuosa inteligência, muito bem contida num cérebro organizado, metódico e incansável.

Os Penidos brasileiros parecem ser originários de Minas e há evidencia de que também nosso Penido tem igual procedência, que em vez de honrá-lo nos honra. Admiro de modo especial o primeiro João Penido de Juiz de Fora e sua pertinacíssima aspiração de ser médico. Seu filho de mesmo nome em vez das agruras do pai foi um ditoso médico que teve para coroamento de sua vitoriosa existência a amizade do descobridor Carlos Chagas, de quem era habitual colega de caçadas. Dois outros Penidos são estudados pelos historiadores do Centro de Memória da Medicina de Minas Gerais: Penido Burnier, nascido na Bahia, que criou importante centro oftalmológico em Campinas, São Paulo, e dona Nieta Penido Nava, esposa de Pedro Nava, o maior memorialista do idioma, personagem constante de sua obra. Sendo, pois, um costume dos Penidos se disseminarem por estados vizinhos a Minas – no Rio, Bahia e São Paulo - nada mais natural do que encontrar em Goiás as realizações de Penido de Oliveira.

Ponto comum que divido com o Penido é o fato de que, enquanto nasci perto de Poços de Caldas, ele nasceu perto de Caldas Novas (antes distrito de Vila Bela do Paranaíba, atual Morrinhos. Daí minha aspiração de conhecer as plagas penidianas, (cujo nome referente a três pequenos morros é bela antífrase de minha Mantiqueira), ou seja, reencontrar e surpreender meu querido colega em seu habitat nativo e realizar ao vivo um paralelo entre a mineira Poços de Caldas e as Caldas goianas. Elas ocupam posição importante na história da medicina no Brasil. Essas duas áreas de jorros quentes sofreram, ao longo dos séculos 19 e 20, peculiar fenômeno migratório. Por força de conceitos homeopáticos, atraíram gente cujos males eram atribuídos ao excesso de umidade e de calor do corpo, cuja cura só poderia vir da umidade e do calor da água quente. A diferença entre as águas caldas mineiras e as goianas é que os pacientes que as demandavam vinham quase só a cavalo ou a pé para Goiás, enquanto para Minas vinham cada vez mais de trem. No esforço para dissociar o rendoso turismo de pessoas saudáveis do afluxo de enfermos indesejáveis foram cometidas violências e humilhações que estão sendo apagadas da história. Daí meu interesse em levantá-las a tempo.

Assim, em 2007, quando desfrutávamos o conforto e as delícias dos banhos na Pousada do Rio Quente nada lembrava esse passado - ainda mais que estávamos ali sendo embalados por ternas canções e pela magia da voz de outro goiano, o Ruy Esteves. Dali partimos para a fazenda do Penido, onde nos esperava inesquecível churrasco, sendo a vedete, entre os cortes, delicioso javali. Este veio ao lado de pratos em vários sabores goianos. Tudo isso foi coroado com um baile onde só dançamos canções de nosso tempo. Quando fizemos curto passeio pelos arredores, conclui que estávamos numa típica fazenda mineira, ciceroneados por um entusiasmado Penido, vestido de vaqueiro, a ditar minúcias de cada atividade ali desenvolvida. Eu, na verdade queria dormir ali e acordar com mugidos, relinchos e cacarejos, para logo beber leite no curral. A Leila queria o mesmo, porque ela e a Marinez pareciam ser amigas de longo tempo. Antes de retomarmos, posamos para uma foto batida pela Rosari, hoje exposta em minha sala, estando ali 

           Fomos conduzidos do aeroporto à pousada, ida e volta, por dois goianos bons de prosa, o Edinho e o Ataídes. Perguntei a cada um de onde eram e ambos eram de Morrinhos. Era a hora de saber da fama do Penido de Oliveira por essas bandas. Disse a eles que eu ouvira falar num tal doutor Penido: era boa gente? Se era!...Cada qual contou um caso de suas famílias atendido pelo Penido e, do jeito que contaram, pareciam falar não de um doutor daquela cidade, mas de verdadeiro deus. Pareciam até ter combinado o que dizer e, no entanto, todo o dito, da maneira dita, era verdadeiramente espontâneo e convincente. Cada qual não se continha em enumerar outras mais façanhas médico-cirúrgicas daquele médico. Só no fim é que revelei conhecer e ser seu colega. E lhes confessei esperar ouvir o que ouvi. Meu teste funcionou. Não houve melhor maneira de comprovar a autenticidade da consagração comunitária desse heróico Penido de Oliveira – legenda viva de Morrinhos.


PÉRSIO GODÓI

A ampla cultura em esplêndida moldura ética

           

Na turma de médicos de 1960 da UFMG os mais jovens eram o Pérsio Godói, a Marie Louise Stein e eu. Os três éramos calouros com 17 anos, mas, na aparência de mais jovem, levei vantagem injusta sobre o Pérsio, porque ele tinha jeito de adulto e, quando ria, era breve - logo se recuperando, em sua sempre grave compostura. Para completar, exibia no porte de galã a compleição de atleta, nadador-campeão que era do clube Minas. Disputou comigo o posto de orador da turma e de fato orou, a pedidos, na festa do clube Country. De relance, ouvi ali alguém comentar: que palavras bonitas disse aquele moço! Isso me fez sentir culpa de mais uma vez ocupar um lugar que era dele.

           Moramos juntos na REPÚBLICA REMANSO DE HIPÓCRATES e ali observei o quanto ele era estudioso e o quanto se dedicava a temas éticos, infenso à boemia de quase todos. Um dia cheguei e procurei por ele. Alguém me informou que todos tinham ido para a igreja. Era o casamento do Pérsio e eu, sempre distraído, estava cometendo o pecado de deixar de comparecer às núpcias de meu querido colega e amigo. Saí correndo e pedi rapidez ao taxista. Quando cheguei ao casório, ainda deu tempo de disfarçar e mentir que eu fizera questão de ser o último a cumprimentar o casal, para um abraço mais demorado...

           O Pérsio participou do grupo de minha turma que foi à Europa, enquanto eu deixei de ir por burrice. Na República, me viu chegar encharcado de um temporal. Vendo-me a tiritar, me deu seu agasalho para o frio europeu, dizendo: fique com ele porque você, com esse corpo magro, vai sofrer outras friagens como esta. Respondi: obrigado, bondoso atleta... Esse modo quase emotivo diante de premências alheias suspeito revelar no Pérsio seu ramo ascendente de Vilelas meus parentes que foram povoar o Triângulo e deve ter vergastado sua sensibilidade pelos anos em que militou em nosso Pronto Socorro.

           Quando o Luiz Otávio Savassi Rocha estava escrevendo o livro sobre a vida e a obra de Luigi Bogliolo, disse-me que pediria ao Pérsio o prefácio. Essa decisão poderia significar que outros discípulos, principalmente os mais veteranos, não prefaciariam melhor. Ao contrário, a razão é apenas uma homenagem ao companheiro partícipe de um pranto mudo tanto como o do autor, ambos precocemente carentes do mestre do qual sonhavam usufruir por muito mais tempo.

           Nesse prefácio diz Pérsio Godói: Tomando o homem sua existência como importante etapa no “caminho estreito” rumo à perfectibilidade, objetivo de todas as criaturas, e reconhecendo suas limitações e imperfeições como suscetíveis de aprimoramento e correção, desaparecerão muitas das suas ansiedades. A lei de progresso é uma fatalidade, porém a conquista é pessoal, intransferível, exige coragem, bom animo e otimismo - excluída, por conseguinte, qualquer “salvação barata”. Não parece necessário acrescentar, mas é bom que eu diga, por ênfase: eis aí o evangelho proposto e seguido fielmente pelo próprio Pérsio.

Mais tarde houve no estádio Mineirinho uma formatura onde o Pérsio era homenageado ao lado do mestre João Resende Alves. Este começou a ler em tom baixo um prolongado discurso. O público, composto em maioria por familiares dos formandos, começou a conversar em tom sussurrado. As vozes foram crescendo até chegar a um vozerio com gargalhadas e gritos, o que  transformou aquela intempestiva “confraternização” em flagrante desrespeito ao famoso cirurgião. Então aconteceu algo inesperado. O Pérsio pediu ao professor para interromper sua leitura por um momento e diante do surpreso público que se calou deu magnífica lição de civilidade a todos. Em seguida o orador interrompido  pôde finalizar suas palavras, sendo ambos o admoestador Pérsio Godói e o lente Resende Alves, prolongadamente aplaudidos.

           Recentemente nossa festa anual transcorria na fazenda do Geraldo Coutinho em Ouro Fino. Na seqüência dos discursos, a maioria humorísticos, foi intercalada a fala do Pérsio sobre os colegas falecidos. Mais uma difícil missão era atribuída ao vigor mental de nosso circunspecto colega. Fiquei comigo a imaginar donde ele extrairia energia e palavras para homenagear um por um - uma vez que sou totalmente incapaz de atribuição semelhante e invejo sinceramente qualquer um que a enfrenta. Foi então que todos entraram num enlevo sem par. O Pérsio, como que em transe, fez notável apreciação de cada um dos referidos colegas e em termos tão elevados e com imagens tão bonitas que, quando encerrou, todos exibiam expresso no semblante o desejo de continuar ouvindo tanta coisa sublime. Desde aí passei a denominar tão marcante momento de TABOR OUROFINENSE, pois nada foi tal acontecimento diferente daquela transfiguração mística ocorrida há dois mil anos, numa colina da Galiléia.


RENNY PÁDUA FERREIRA

Morreu de saudade dos anos dourados

Renny Pádua Ferreira é o otorrinolaringologista de nossa turma e um dos três capixabas que a honram, ao lado de João Cândido dos Santos e Emir Soares. Era tão autenticamente romântico que se recusava, em definitivo, a acreditar na maldade humana. Era tão repleto de senso de humor que seu lazer constante era ficar imaginando cenas para o show-medicina de sua época. Viveu o curso médico nesse ritmo e se transformou em refinado otorrinolaringologista.

Ele acompanhou, com esse seu dom humorístico, um episódio vivido por mim e que de algum modo o influenciou na escolha dessa especialidade. A coisa está descrita em meu livro de memórias O RISO DOURADO DA VILA (2003). Chegamos ao terceiro andar do Hospital das Clínicas para a aula inaugural de otorrinolaringologia e fiquei impressionado com a exposição do catedrático Ildeu Duarte sobre os perigos do espirro. Ele falava arregalando os olhos e suando muito apenas no queixo - o que nos fazia crer que espirrar era mesmo muito perigoso. Ao término da aula ele nos avisou que o curso prático seria dado por seus auxiliares em novas instalações com boxes, que permitiam o exame de vários doentes ao mesmo tempo.

Esses boxes evidentemente não permitiam o exame completo do paciente, contrariando o que aprendemos no curso de semiologia ministrado pelo professor Melo Campos: nunca deixar de fazer o exame completo do paciente. E na primeira aula prática, a que comparecemos ansiosos para aprender os truques do exame de nariz, ouvido e garganta – recebemos uma ducha d´água fria. Em cada boxe havia um paciente, também havia um especialista para cada paciente e cada qual estava com um espelho na testa, mas nenhum de nós foi chamado para o boxe. Peguei um espelho que estava sobre uma mesa e pedi a um assistente que me ensinasse a colocá-lo na testa. Ele disse: vocês não farão o exame, a aula prática consiste apenas em acompanharem a certa distância os exames feitos pelos especialistas. Mesmo assim tentei desajeitadamente ajustar a coisa em minha cabeça e, em vez de um deles me ajudar, todos caíram em sonora risada coletiva.

Com aquele aparelho na mão fui procurar o catedrático. Havia um corredor atapetado e no fim estava a sala dele. Pedi licença e disse: vim aqui para o senhor me ensinar a colocar este aparelho na testa e depois peço que me ensine a usá-lo num exame de verdade em um paciente. Para minha surpresa, ele me olhou paternal e ali mesmo me ensinou a ajeitar a coisa na cabeça. Depois se dirigiu comigo aos boxes. Escolheu um, por sinal, exatamente onde aquele assistente causador de minha indignação examinava o nariz de uma paciente. Ordenou que ele se retirasse e que trouxesse mais um banco, onde se sentou e ali, comigo no banco principal, me deu demorada aula prática de como fazer um exame completo.

Mais tarde o Renny me disse que nunca ninguém tinha visto aquilo antes e nunca viu depois. Havia um livre-docente, o Antônio de Lima Neto, que de nada disso participou. Com o tempo, ele, que gostava de pedagogia, passou a me procurar para conversar. Relatei o episodio para ele e ele me disse que isso era digno de registro, para apagar as injustiças de que Duarte fora vítima. Prometeu relatar-me outras injustiças, mas não o fez. Só recentemente fiquei sabendo da principal delas. O Ildeu Duarte tinha sido nosso primeiro otorrinolaringologista treinado nos EUA e chegou para disputar a cátedra. Acontece que, sem saber de sua volta, havia sido feito um arranjo em favor de outro especialista menos preparado. Para sorte de Duarte, Osvaldo Melo Campos teve de ser incluído na banca e não havia pactuado nada. Quando percebeu a trama, Campos deu zero ao outro e dez a Duarte, com isso dando a vitoria a este. E ainda passou uma descompostura na banca. Nada disto constou da ata.

O Renny ultimamente ia com freqüência ao Centro de Memória, para falar sobretudo de nossos tempos de estudantes. Quando mais uma vez lembrava que causei sua especialização, me disse que havia um antigo assistente da clínica que tinha grande antipatia por mim, a ponto de dizer que se pudesse me daria um tiro Perguntou se eu sabia a causa daquilo. Pelo nome não reconheci, mas quando o apontou passando no pátio em frente, me lembrei dele naquele episódio inicial com o catedrático. Curiosamente o Renny que presenciara tudo não relacionou quem com quem

Além do Renny, me fiz amigo de dois outros assistentes: Fernando Moreira e Jaor Menezes – eméritos contadores de causos. Riram muito do seguinte episódio com o Renny. Certo dia fui até este para que me olhasse um prurido úmido no ouvido externo. Ele deu um show de limpeza local, do que resultou uma das sensações de alívio inesquecíveis para mim. Não prescreveu nada e disse: o tratamento foi a limpeza. Reclamei que assim ele me estava ofendendo: estava me chamando de “ouvido sujo”. Ele então disse: ouvido sujo, não, mas cabelo sujo, sim. Que eu acabasse com o medo de gripar e lavasse a cabeça com mais freqüência. E acrescentou: com esse medo de gripar, você está se parecendo com os otorrinolaringologistas... Eles é que não lavam a cabeça por medo de pegar  faringite e vivem passando corticóide na orelha...

O Renny, por outro lado, me ajudou também no estudo dos pontos comuns entre as histórias das medicinas mineira e capixaba e ainda de outros temas, como imigrantes italianos vindos parte para minha cidade e parte para o Espírito Santo, nomeadamente os Lourenzoni e os Casagrande. Outro vínculo é o médico mineiro Aristides Alexandre Campos, que foi governador do Espírito Santo. Ele se formou em 1923, numa turma de apenas oito formandos, entre eles Júlio Soares, Hermínio Pinto e Mario Mendes Campos. Casou-se na família capixaba dos Vivacqua, da qual membros migraram para Belo Horizonte e se tornaram famosos e queridos entre nós. Seu filho, Henrique Vivacqua Campos é professor de arquitetura da UFMG e renomado arquiteto.

Entre os médicos capixabas de minha admiração, há um de quem sou fã desde a infância. Trata-se de José Madeira de Freitas, que, como escritor e humorista, usou o pseudônimo de Mendes Fradique. Eu, que herdei o humor e a biblioteca de meu pai, encontrei nesta livros de Mendes Fradique: HISTORIA DO BRASIL PELO MÉTODO CONFUSO (1922), GRAMATICA PORTUGUESA PELO MÉTODO CONFUSO (1926) e o romance DR.VORONOFf (1926). Tive grande emoção quando, mais tarde, encontrei na biblioteca de Júlio Soares, citado colega do citado Aristides Campos, o livro GREFFES TESTICULAIRES (1923) de Alexe Voronoff. A técnica cirúrgica contida neste livro subsidiou o cunhado de Juscelino Kubistchek para que realizasse implantes gonadais em gente importante de Minas. Freitas fez de Voronoff, que chegou a fazer implantes no Brasil, a inspiração para seu romance homônimo.

 Renny Pádua Ferreira ficou encantado com o fato de um médico aqui formado chegar a governador de seu Estado, cruzando caminho com ele, Renny, que veio de lá, formou-se aqui e aqui se tornou docente na mesma Faculdade. E mais ainda o fascinou o cabalístico e honroso pentágono formado por ARISTIDES – SOARES – FREITAS – VORONOFF – RENNY, ou seja, Aristides governou o Espírito Santo e foi colega de turma de Soares, que testou a proposta de Voronoff, por sua vez tema de Freitas, mas no lado do humorismo, domínio do Renny.

 

 


RUY CARLOS PAOLUCCI

Múltiplo sábio e raro artista da Renascença se vê súbito no século 20

        Aquele rapaz de óculos fundo-de-garrafa e de cabelos crespo-aloirados me chamou a atenção logo na primeira prova do exame vestibular, em 1955. Ele parecia estar em outro mundo, bem longe daquela movimentação tensa dos candidatos. Logo que saiu o resultado e o identifiquei na lista dos aprovados, percebi a estatura de sua capacidade mental. Desde então, quanto mais ele me demonstrava tantos saberes para tão pouca idade, mais eu invejava nele não isso, mas sua habilidade sem fim para o desenho.

           Seu modo de estudar era diferente do de todos nós. Era seletivo: em vez de seguir com o grupo, ele só dirigia sua atenção ao que lhe parecia fascinante - e esquecia o resto, principalmente a expectativa dos professores. Numa pedagogia inteligente ele seria logo identificado como caso raro de pesquisador nato, digno de ser estimulado e ser retro-alimentado no rumo que lhe aprouvesse. Ali, lamentavelmente, foi identificado como desatento e alvo de crítica e repressão docente. 

Sua primeira prova de anatomia ficou célebre. Eram quatro questões, mas ele selecionou uma delas, DEFINA OSSOS PNEUMÁTICOS, ignorou as demais e escreveu várias páginas ilustradas. Falou de tais ossos, sobretudo do ponto de vista da anatomia comparada, daí os magníficos desenhos de aves aquáticas, anfíbias, aéreas e terrestres. No dia seguinte, o professor DiDio perguntou: quem é Rui Paolucci?, é você?, meus parabéns,você me surpreendeu!  Acrescentou que aprendeu muito com tanta coisa inédita para ele, mas a prova totalizou apenas 2,5 (de 0 a 10), pois nas demais questões a nota foi zero. Esta encenação do DiDio acabou por impedi-lo de aproveitar o Rui em sua equipe de anatomistas-artistas

           O Rui ouviu isso com o rosto mais sereno do mundo, tal como um santo recebendo a bofetada de um ímpio. Meia hora depois, ele estava debruçado sobre um exemplar do SCHAEFFER-MORRIS’ HUMAN. ANATOMY - perseguindo algum tema que acabara de aguçar-lhe a curiosidade, talvez a inervação diferencial dos genitais de invertebrados e vertebrados. Seu apego a este livro valeu-lhe o apelido de Rui Chefermorris. Apelido análogo recebeu o seu e meu dileto amigo João Cândido dos Santos, alcunhado de João Ham, por seu apego ao tratado HAM'S HISTOLOGY. Diz a lenda que ambos foram vistos a dançar no Diretório Central dos Estudantes com os respectivos tratados pinçados ao sovaco.

           Um dia, quando éramos terceiranistas, avistei o Rui solitário na mesa de um bar boêmio da tranqüila Belo Horizonte dos anos dourados. Gostou de ver sentar-me diante dele para apreciar um desenho em papel manilha: era o esquema do livro MIDDLEMARCH da escritora britânica Mary Evans. Disse-me: ela adotou o pseudônimo masculino de George Eliot, mas não precisava, porque era muito feia e também genial. Você sabia que o médico nesta história existiu de fato? Na vida real chamou-se Thomas Allbutt e foi quem inventou o uso clínico do termômetro. O Rui disse que arranjara aquele livro na biblioteca do velho Mettelo lá em Barbacena.

Outra vez ele estava com um atlas aberto onde se via a enorme figura de um neurônio. Num desenho o Rui comparava a figura com outra. Explicou-me que deixara tudo de lado para ver se comprovava ter Lúlio intuído o neurônio muito antes de Cajal. Lembrei-lhe que estávamos às vésperas da temida prova de Anatomia Patológica e meu colega alegou que isso era secundário, pois nesses dias ele ia dedicar-se exclusivamente a estudar outros italianos mais importantes do que o Bogliolo: Giordano Bruno e Jerônimo Savonarola, além do catalão Raimundo Lúlio. E desabafou sua indignação contra o boicote que esses três sofrem dos falsos intelectuais que nos rodeiam.

Foi inevitável que no final do ano o Rui e eu fôssemos para a prova oral. Este era o destino dos que recebiam nota insuficiente na prova escrita. Os colegas ficaram surpresos com logo aqueles dois estudiosos na prova oral. Explicamos que fizemos ótima prova escrita, mas toda baseada em livros. E que nem tínhamos folheado sequer a apostila do severo professor. Era quase certo que nossa punição tenha tido origem na questão que pedia o conceito de nefrose, porque escrevemos o oposto do que constava da apostila. O Rui Paolucci, eu e o Fábio Monteiro (este estudava em livros e na apostila) liderávamos um movimento para que aqueles professores que eram autores de apostilas as transformassem em livros e que os alunos fizessem provas baseados em autores de várias correntes, em igualdade de condições com a doutrina do professor regente. Com o tempo ficou claro que nossa iniciativa, insubmissa e corajosa na época, frutificou em dois sentidos. Primeiro, porque vários professores editaram livros, dois destes, por sinal excelentes, do próprio Luigi Bogliolo. Segundo, porque criamos a editora de livros médicos, esta infelizmente logo distorcida em relação à nossa proposta. Por outro lado, o Rui foi excelente professor de cirurgia em Barbacena e nada autoritário - mas as circunstâncias da época não permitiram pleno aproveitamento de seu imenso preparo anatômico, cirúrgico, clínico e artístico.

Os Paolucci fazem parte daquele grupo de famílias italianas que migraram para a região de São João del Rei, Barbacena e Juiz de Fora, onde encontraram, além do clima europeu da Mantiqueira, a identidade inesperada e feliz com o jeito mineiro de ser. Entre os subprodutos mais gratos desse abraço cultural, sobressai o escol de médicos ilustres que passou a honrar a história de Minas. Rui Paolucci cuidou para que a memória de um desses extraordinários doutores não se perdesse e escreveu um livro que é visto em lugar especial nas vitrines do Centro de Memória da Medicina de Minas Gerais.: AGOSTINHO PAOLUCCI – O APÓSTOLO DA MEDICINA. A biografia que teceu de seu pai mostra a vida abnegada de um médico que viveu exclusivamente para o bem e cujo impressionante exemplo profissional deveria ser sabido de todos os atuais e futuros médicos. O filho Rui reproduziu, em sua dedicação à comunidade barbacenense, o inteiro e versátil paradigma médico absorvido do pai, no recesso da terna tradição peculiar à gente napolitana.

Agostinho diplomou-se no Rio de Janeiro, em 1925. Sua tese de final de curso versou sobre a SEMIOLOGIA DA LÍNGUA, tema que prenunciava o polivalente médico que veio a ser, incapaz de se afastar daquela medicina toda bondade e de se negar ao cuidado de desde pestilências tropicais até doenças mentais. Alcançou o período áureo da medicina carioca, junto a esplêndidos docentes, tendo sido, inclusive, contemporâneo de Agripa Vasconcelos, outro raro médico e humanista mineiro, depois escritor de fama e poeta. Enfrentou, com bravura, pioneirismo e o uso constante de quinino, os desafios do exercício profissional nos confins do pantanal mato-grossense. Depois clinicou em Campinas e por último em sua Barbacena natal, enfim reconfortado pelo benfazejo ambiente cultural desta matriz histórica de Minas.

Dou dele aqui altíssimo exemplo de clínico e herói comunitário, quando diagnosticou sugestiva seqüência de casos de febre tifóide em Barbacena. Observou que a moradia das vítimas seguia o trajeto do canal de esgoto. Alertou a autoridade sanitária, que reagiu com desdém, alegando mera coincidência. Insistiu no alerta até que se descobriu esgoto a vazar na rede dágua. Enquanto isso o desvelo dele pelos pacientes reduziu a zero as temidas complicações, as quais eram freqüentes nesse tempo precedente aos antibióticos. Tudo isso me foi recontado quando, voltando ao hotel, tomei o taxi do Luiz Turchetti e este falou de sua devoção ao Dr. Agostinho, que o salvou de morrer de febre tifo quando menino.

Alberto Paolucci - mestre da nefrologia mineira, irmão do Rui, formado apenas um ano antes dele, e a quem cabem todos os adjetivos que dirigi a este, inclusive o de exímio desenhista - certo dia chegou a mim sobraçando carinhosamente as LIÇÕES DE CLÍNICA MÉDICA de João Vicente de Torres Homem. Disse que meu apego à história da medicina me fazia merecedor daquele livro que era devoção de seu pai. Ao recebê-lo emocionado, me senti verdadeiro membro do nobilíssimo clã dos Paoluccis.

Além do pai e do irmão, outra influência forte na alma inquieta de Rui Paolucci tem sido Honório Armond, seu professor de ginásio. O tema dos poemas desse poderoso poeta mineiro é até hoje constante nas meditações existenciais de Rui Paolucci, que em 1956 me recitou um deles intitulado CICLO (de 1954, inédito e dedicado a Carlos Cruz Machado): Morrer em noite assim, silente e quieta e pura... / E em noite, como a de hoje, azul e constelada, / Aos pressagos clarões de Sírius e Cinosura / Lançar esta ânsia amarga aos abismos do Nada... // A vertigem do espaço a mente me tortura / E alguma coisa em mim perdida e enclausurada / Suspira pelo além... delira pela altura... / E entre os sóis localiza a suprema jornada... // Astros que a noite acende – Argol, Rigel, Antares, / Que, do obscuro sem-fim dos imanes algares, / Ignorantes de nós, pervagais e luzis!, // Astros, que sereis vós? Paraísos? Geenas?, / Conhecereis, também, as angústias terrenas?, / A estéril negação?... a dúvida infeliz?...  E a seguir perguntou: você conhece um soneto que supere esse? Foi assim que passei a compartilhar a admiração do Rui pelo Honório. E, como historiador, estendi minha curiosidade aos fidalgos da família Armond, sendo que hoje sou fascinado pelo enigma genealógico do médico Conde de Prados, autor do histórico ENSAIO SOBRE A VIDA. Chego mesmo a afirmar que o ensaio do Conde começa com ele, perpassa o estro de Honório Armond e culmina na filosofia densa - até agora apenas elocubrada e ainda não escrita - de Rui Carlos Paolucci.

Posso resumir os sentimentos confluentes de Honório e Rui, que dão continuidade metafísica às idéias do Conde, com a transcrição do final de outro belíssimo poema do primeiro: Mas [ó Nazareno!] se és Deus na verdade e se tu sondas / os corações e vês o tumultuário / combate que há no meu de sonhador, // desce a mim!... acalma o céu!... aplaca as ondas / e ajuda-me a levar ao meu Calvário / minha Vida... meus Sonhos... meu Amor!


RUY ESTEVES PEREIRA

Um paulista que é goiano, mas sobretudo mineiro – e brilhante

        

Alto, magro, educado e brincalhão era aquele jovem que conheci no início do curso médico. Nesse tempo ele nem sabia que ninguém estuda em Minas impunemente. Mas é verdade, assim ele já estava condenado à pena eterna de ser também mineiro. Meio mineiro já era de nascença, pois é de ascendência aimoré, pois em meu texto intitulado HISTÓRIAS SUBMERSAS NO RIO QUE NÃO QUER MORRER mostro que essa raça insubmissa nunca foi derrotada sofrendo sempre, por isso, o extermínio genocida. Ainda em 1850 eles lutavam por sua liberdade próximo a Itabira e suas mulheres foram as mais desejadas de todas, desde a Colônia até o turismo sexual mais recente.

           Sua bossa artística provém do pai, ferroviário autodidata, de surpreendente instrução, capaz de ler francês, escrever contos e versejar (tem o livro BOLHAS AO VENTO publicado) e capaz de desenhar e pintar a óleo, tendo pintado o teto da igreja de Bonfinópolis, GO, para onde se mudou de Cruzeiro, SP. Essa veia artística aflorou no Ruy fazendo-o instrumentista, cantor, ator e humorista, como atesta o sucesso que fez dentro e fora do Show Medicina. A um médico com tão fundas raízes artísticas nada mais providencial que unir-se a uma artista. Foi o que o Ruy fez quando se casou com a Rosari, exímia fotógrafa, que, com essa arte,complementa as artes do esposo e ainda memoriza os encontros com os colegas..

           Quando nossa turma esteve em Goiás, o Ruy, que antes era muito avaro de tocar e cantar, deu asas a seus dotes musicais ali no seu ambiente. Todos perguntaram: por que só agora ele embala assim nosso encontro, quando deveria ter sido obrigatório ouvi-lo em todos? Insisti que gravasse para mim exatamente aquelas canções que eu acabara de ouvir. Ele prometeu, não gravou, mas agora sei que no próximo encontro as receberei, sem dúvida nenhuma

           Tenho repetido que nossa turma recebeu a carga horária anatômica maior não só do mundo mas da história, quase fazendo de cada um de nós um anatomista e/ou um cirurgião. Não foi diferente com o Ruy que, operando desde antes, entrou como quintanista no serviço do professor João Resende Alves. Ali coincidiu que o professor José Mariano Lana So, assistente de Resende Alves, estava inaugurando a Cirurgia Pediátrica (no que se pôs em rivalidade com o professor Luiz Andrés, que pretendia o mesmo). O serviço iniciante contou com oito leitos para lactentes e para crianças até 12 anos. O Ruy, com largo preparo de clínica e de cirurgia geral, se apaixonou pela inovação e passou a ser presença quase permanente na enfermaria e na sala cirúrgica, com isso se transformando num dos nossos mais completos neo-especialistas.

Ao chegar a Goiânia, em 1963, com todo esse cabedal, causou surpresa e se impôs como o pioneiro naquele Estado nesta área. Mas no início teve de mostrar aos colegas que havia demanda para tal. Chegaram a duvidar que ele sobrevivesse economicamente com “tão pouco”. Começou atuando no serviço previdenciário estadual e depois na Santa Casa, onde a pediatria estava há 18 anos a cargo do abnegado doutor Wilson Carvalho. Quando este verificou a competência do recém-chegado e sua atenção para com as crianças e seus familiares, ele o procurou ao lado da irmã superintendente e lhe entregou, com postura solene, um estetoscópio. O Ruy, tomado de espanto, ouviu dele: entrego-lhe este estetoscópio que neste momento simboliza meu bastão de comando. E não é que o Ruy assumiu esse comando e levou avante o serviço por outros 18 anos?

           Ruy Esteves passou a ser admirado por sua invejável formação médica e manteve o contato com as escolas mineira e paulista de cirurgia pediátrica, iniciadas sob a influencia de Mariano Lana em Minas e Carvalho Pinto em São Paulo. Isso fez de sua figura uma liderança na medicina goiana, que se realçou quando passou a professor na Universidade Federal. Conseqüência natural disso foi conquistar liderança também na medicina privada, onde foi fator de incremento da qualidade no setor.

           Quando o professor Joffre Marcondes de Resende, epônimo da História da Medicina, em Goiás e no Brasil, inaugurou o Centro de Memória da Medicina de Goiás, distinguiu-me com a palestra da solenidade. Joffre, que nasceu em Minas, fez-me outra distinção: chamou para estarem presentes meus dois colegas de turma, Ruy Esteves Pereira e Dilair de Faria. Nós três e mais a Eleuse Machado (diretora da Faculdade), o Celmo Celeno Porto e o XX (estes dois também mineiros) entretemos gostosa conversa sobre os laços congênitos entre Minas Gerais e Goiás, na medicina e em tudo o mais – conversa tão prolongada que se estendeu pelo almoço e pela tarde.

           O Ruy aproveitou a presença ali de historiadores para dizer que comunga com Carvalho Pinto a proposta de que a cirurgia infantil não deva ser chamada de cirurgia pediátrica: ou o especialista é um pediatra cirurgião ou é um cirurgião pediatra. Comentamos que a controvérsia no nome da especialidade remonta a seu esboço, quando a cirurgia ainda não era medicina, na primeira metade do século 19. Sim, o nome mais primitivo era ortopedia, a arte de endireitar crianças tortas, arrebatado pelos que endireitam apenas ossos - e ossos não só de crianças, mas (contrariando a etimologia) de adultos também.

           Das lembranças do Ruy estudante, a que mais me marcou não é outra senão aquela das festas da formatura, quando, num coquetel, exigimos dele representar o abraço de namorados. Ele se pôs de costas para a platéia e, com as próprias mãos, simulava o abraço sensual de uma mulher, em torno de seu pescoço. Que realismo perfeito ele imprimiu àquela simulação!

A versatilidade, tão característica dos 44 que gloriosamente venceram o vestibular de 1955, não pode ser tão bem exemplificada como neste extraordinário e querido colega.

           

 



 


SEBASTIÃO LOPES PEREIRA

Soberano tanto no vernáculo como na clínica e na anestesia

O Sebastião Lopes Pereira é meu estimadíssimo amigo desde o cursinho pré-vestibular do Guerra (José Guerra Pinto Coelho, médico da turma de 1929 de nossa Faculdade, que veio a ser catedrático de biologia do Colégio Estadual, onde também fui seu aluno). O Bastião Lopes – como carinhosamente passamos a chamá-lo - foi ali o herói que obrigou o posudo professor de português Wilton Cardoso (também meu professor no Estadual) a pagar uma aposta. Em meu livro de memórias O RISO DOURADO DA VILA (2003) relato tal episódio:

Outro era o Sebastião Lopes Pereira, o aluno quietinho que surpreendeu o Wilton Cardoso com seu conhecimento gramatical, obrigando-o a pagar um cafezinho lá em baixo, pelo desafio que fizera a nós. O prédio do Cursinho continua lá, rua da Bahia com avenida Augusto de Lima, e o Sebastião continuou quieto e excelente na gramática e na medicina. Casou-se com parente nossa, bisneta do Manoel Marreco, de Campo do Meio.

Sebastião Lopes nasceu na mineiríssima cidade de Coimbra (da região entre Ponte Nova e Ubá) - nome que se refere ao fundador do lugar e não à cidade universitária européia. Se, contudo, a Coimbra sertaneja tem um filho com os atributos intelectuais do Tião, que, por sinal, recebeu o prenome do respectivo orago, todos nós cremos que o coimbrense mineiro acabou por impor necessária relação com a tradição culta acumulada às margens do Mondego, isto é, com aquela outra Coimbra do chopal, capital do amor em Portugal.

Após o vestibular, este colega foi indicado por mim para professor de português no curso pré-médico, criado por nós no diretório acadêmico. Ele ali foi uma das estrelas do esplêndido corpo docente, tendo a seu lado, Ângelo Machado, Marcos de Mares Guia, Armando Gil e Jáder Siqueira, cujos QIs somados chegavam a bem mais de 600. Esse nosso cursinho – público, democrático e destinado aos vestibulandos sem recursos - causava inveja não só ao Guerra, mas ao Mário de Oliveira (outro meu professor no Estadual), donos dos cursinhos privados de então.

A didática do Tião era de renomada clareza e tão eficaz que fazia a complicada gramática lusa assemelhar-se à simplicidade do esperanto. Nós mesmos chegamos a temer que ele ficasse retido pelo lucro promissor dos cursinhos, mas nada disso aconteceu. De tão interessado na própria medicina, nem escritor ele quis ser, exceto de prosa e poemas até hoje secretos. Certo dia ele me entregou um papel onde estava escrita uma frase de Cervantes, que guardo com o máximo carinho, manuscrita com sua bela letra: A pena é a língua da alma.  Quando comentamos esta sentença, o Sebastião Lopes me fez uma das revelações mais impensáveis que recebi: o autor da frase, o maior escritor espanhol, considerava a língua portuguesa muito superior e mais bela que a própria língua em que se imortalizou.

Se meu colega era esse excelente professor, não só na minha opinião, mas principalmente na de seus privilegiados alunos – cabe uma pergunta: como reagia à didática precária dos lentes da faculdade? Com humor! E só podia ser com humor, pois não era da índole desse expositor fluente e cordial ser destrutivo para com tão esforçado mas despreparado corpo de instrutores - salvo exceções. Ele, o João Cândido, o Rui Paolucci e eu nos divertíamos a valer daquelas aulas que cambiavam do espetáculo trapalhão à oratória ridícula. Isso significa que os professores que homenageamos em nossa formatura eram realmente excepcionais e a homenagem especial que fizemos a Oswino Pena Sobrinho iniciou-se no elogio do Sebastião Lopes, quando observou que este parasitologista fazia parte do raro grupo de didatas espontâneos, ou seja, eram bons de aula sem qualquer intenção de sê-lo, nem tinham consciência disto.

O interesse pela medicina e pela objetividade levou o Sebastião inicialmente para a clínica pediátrica. No sexto ano ele foi interno de pediatria do Hospital São Vicente, onde dividia o quarto com o Hugo Martins da turma anterior. Após a formatura, o Tião foi para Ponte Nova. Estudei a tendência que ocorreu e ainda ocorre de que os pediatras em cidades do interior e mesmo na Capital são solicitados ao exercício da anestesia. Foi o que ocorreu com o Sebastião Lopes, que retornando a Belo Horizonte passou a fazer apenas anestesia, a qual dominava com fluente desenvoltura, mesmo porque foi um colega marcante em farmacologia. Já que foi excelente nessa especialidade e era um erudito, projetei para ele documentar para o Centro de Memória da Medicina o singular papel de Minas na história da anestesia brasileira. Isso ainda não aconteceu porque o Sebastião, após aposentar-se, escolheu sabiamente morar na aprazível praia de Cabo Frio, aliás em belíssima residência,  nisso afastando-o das fontes primárias de nosso arquivo.

De fato, Minas figura em tal história com três contribuições notáveis. A primeira é do ex-estudante de medicina francês Afonso Pavie, que na França foi auxiliar adolescente de Paul Réclus na primeira anestesia injetável com cocaína da história e, no Brasil, em pleno sertão, fez uso da mesma cocaína, foi pioneiro com a novocaína e se tornou autoridade internacional em anestesia loco-regional. A segunda contribuição foi do médico sabarense Sinfrônio de Abreu que apenas três anos depois da divulgação da anestesia inalatória chegou à Santa Casa de Sabará e ali usou o clorofórmio, em 1849. A terceira é a segurança invejável exibida pela elite dos anestesistas mineiros, entre eles Sebastião Lopes, nas décadas de 50 e 60 do século 20, com o aplauso de seus colegas de todo o país.

Quando o Sebastião se casou com a Célia, esse fato me foi muito auspicioso. Ela é descendente do Coronel Manoel Alves de Azevedo, o legendário Mané Marreco da fazenda Ariadnópolis, em Campo do Meio, próxima a Nepomuceno - daí minha alegria de ser parente dela e contraparente do Tião. Como historiador do Sul de Minas, estudo a legenda do Marreco (digna de um livro), de quem meu avô João de Abreu Salgado era cumpadre e de cujas duas esposas era consangüíneo.

Por outro lado, para além de Ferreiras de Brito e de Azevedos, estudo as ascendências de qualquer Lopes e Pereira do mundo. Tenho dados que remetem os Pereira à família real e os Lopes a nada menos que Miguel de Montaigne, com quem, aliás, o Sebastião Lopes tem muitos pontos em comum.


SÉRGIO ALMEIDA DE OLIVEIRA

 Eminente sulmineiro de incomum brilho nacional

           

Uma das histórias de médico mais fascinantes é a da Clínica Mayo nos EUA. Um médico denominado William Mayo chega a este país como imigrante, faz dos dois filhos seus colegas de profissão e com eles constrói um dos mais consagrados centros médicos do mundo. Em vez de fundar a Clínica Mayo em alguma metrópole, estabeleceram-na em pequena cidade, que hoje é de grande importância, exatamente por causa da própria clínica. Nela foram realizados grandes avanços da medicina, sendo o principal a integração histórica entre clinica médica e clínica cirurgica, antes dificultada por preconceitos vigentes na tradição européia.

           Fenômenos análogos à epopéia dos Mayo ocorreram em outros lugares. No Brasil tivemos o exemplo do trio dos Paulino no Rio de Janeiro, em que o pai e dois filhos ocupam posição proeminente na história da cirurgia brasileira, sendo inclusive pioneiros no treinamento de futuros cirurgiões por meio do regime de residência. Em Minas, o exemplo vem da cidade de Campanha da Princesa, onde o Dr. Zoroastro de Oliveira, com os dois filhos cirurgiões, Cláudio e Sérgio, reviveram por certo tempo a saga dos Mayo.

           Cláudio Almeida de Oliveira é hoje o grande cirurgião de abdome e o admirado docente e ex-dirigente da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais. Sérgio Almeida de Oliveira é um dos dois maiores nomes da cirurgia cardíaca no país, também docente e dirigente de centro hospitalar, que inclui avançada pesquisa cientifica e tecnológica. Ambos contam também com a ascendência ilustre pelo ramo Vilhena, no qual brilha a figura impar de Matias de Vilhena, astro de intenso brilho nas medicinas mineira e paulista.

           Um dos traços da personalidade do Sérgio é seu bairrismo sul-mineiro, que compartilha com outros médicos desta parte de Minas, os quais, como ele, vêm brilhando em São Paulo: o próprio Dr. Vilhena, Ribeiro do Vale, Dante Pazzanese, João Batista Veiga Sales, Leal Prado, Wilson Beraldo, Carlos Diniz e Adauto Barbosa Lima. Ele e o irmão são ex-alunos do colégio marista de Varginha e ali foram meus companheiros de internato. A seguir o Sérgio e eu fomos colegas na turma diplomada em 1960 pela Universidade Federal de Minas Gerais, quando mantivemos ampla convivência estudantil, inclusive na república Remanso de Hipócrates, na avenida Bernardo Monteiro. Várias passagens dessa época são evocadas em meu livro de memórias O RISO DOURADO DA VILA, de 2003.

Esta turma de 1960 deve ser considerada beneficiária da maior carga didática de anatomia (sistêmica, topográfica, cirúrgica e patológica) já registrada, incluindo única disponibilidade de cadáveres (um para cada dois estudantes). Em pesquisa retrospectiva e internacional, nada igual foi encontrado. Era de se esperar dela cirurgiões com excepcional preparo anatômico. Quase todos praticaram a cirurgia, de tal maneira que os que a deixaram em favor da clínica médica, vieram a configurar o que caracterizei como ociosidade da competência. Tais estudantes tiveram o privilégio de alcançar, na anatomia normal, o modernizador Liberato DiDio, e na anatomia patológica, o grande patologista Luigi Bogliolo, ambos no auge de sua vida docente e científica. Como a turma era muito pequena, isto é, apenas 44 estudantes por série anual, ou seja, hoje seriam 22 alunos por período semestral, vários tiveram o privilégio de ser auxiliar do próprio Bogliolo nas numerosas necrópsias que nesta época eram sistemáticas, seguidas de frutíferas sessões anatomo-clínicas.

Outros marcantes professores desenvolveram estreita convivência com tais privilegiados aprendizes, entre eles o paraninfo Javert Barros, Baeta Viana, Eurico Alvarenga, Renato Locchi, Luiz Junqueira, Jorge Rabinovitch, Nelo Rangel, Belchior Santana, Alberto Caram, Wellerson Lourenço, Hélcio Werneck, Angelo Machado, Otávio Magalhães, Noronha Peres, Mendes Campos, René Rachou, Oswino Pena So, Melo Campos, Osvaldo Costa, José Mariano, Hilton Rocha, Rubens Monteiro, Antônio Zeferino, Newton Brandão, Otávio Guimarães, Hermínio Pinto, Iracema Baccarini, Renzo Antonini, José Feldman, Romeu e Caetano Cançado, Jaime Neves, João Resende, Luiz Andrés, Sebastião Rabelo, Alisson Abreu, Rivadávia Gusmão (pai e filho), José e Aparício de Assis, Henrique Mata-Machado, Garcia Pedrosa, Afonso Moreira, Nereu Almeida, Paulo Saraiva, Sílvio Cunha, J. Antônio Rodrigues, Wilson Abrantes, Paulo Resende, Moreira Santiago, Achilles Tenuta, e Berardo Nunan. A equipe de Nunan, tendo à frente Ênio Leão, foi pioneira, com esta turma, na ambulatorização do ensino clínico na graduação, que viria a tornar-se curricular em 1975. A partir daí, tal iniciativa veio resultar em outra singularidade: esta Universidade se distingue, na formação médica, como detentora da maior carga horária pediátrica do mundo.

Não bastando o contato íntimo de tão pequena turma com tão insignes docentes, a duração do curso coincidiu com o governo nacional de Juscelino Kubistschek, ex-aluno do mesmo, ou seja foi uma formação profissional transcorrida em plena democracia e em pleno desenvolvimentismo: eram os anos dourados. E esta turma não passou por isso passivamente, pois, sendo excepcionalmente pequena, é a única na história conhecida da faculdade que teve dois presidentes do Diretório Acadêmico Alfredo Balena: Eli da Conceição de Souza e Gilberto Lino Vieira. De tal inquietação estudantil brotou o esboço da interessante inovação educacional hoje conhecida como internato rural.

Sérgio Almeida de Oliveira pode ser considerado o elemento mais vitorioso desta turma sui generis. Ainda como residente, participou da equipe que implantou o primeiro marcapasso cardíaco bem sucedido no Brasil. Daí foi atraído para a equipe de Euclides Zerbini na Universidade de São Paulo. Ali passou a ser apontado como exemplo de quem reunia um conjunto de pre-qualificações desejáveis, mas jamais antes reunidas no mesmo aspirante a cirurgião completo: treinamento pré-clínico de alto nível, seguido de abrangente formação clínica, cirúrgica, obstétrica e traumatológica na graduação, diplomando-se com domínio terminal da prática geral. Submeteu-se, então, a treino pleno em cirurgia geral, complementando-o com segura experiência em cirurgia torácica, coroada com crescente habilidade na especialidade escolhida de cirurgia cardio-vascular. Para ornamento dessa invejável pirâmide formativa, era admirado pelo ágil uso de línguas estrangeiras em favor de pronta sintonia com o progresso científico. E nada disso inibiu o progressivo desdobramento da cultura geral que absorveu do pai e do ambiente de sua cidade natal, estendendo-a da literatura à música (especialmente Bethoven e Bach), da pintura à história e à boa mesa.

Sua triunfante carreira universitária, naquela grande universidade brasileira, foi mera consequência de tudo isso, culminando com o atual cargo de diretor do mais prestigioso instituto de cardiologia do país, bem assim com nobilitante lista de celebridades de todas as áreas e lugares, na qualidade de ex- e atuais clientes, convertidos todos em amigos muito gratos.


SYLVIO RIBEIRO

Nada menos que um senhor cirurgião

 

        Em nossos primeiros dias de Faculdade, nem ainda estávamos refeitos da alegria de ter passado no exame vestibular e o Sylvio Ribeiro já nos brindava com um baile de miss. Estávamos em 1955 e no ano anterior Marta Rocha, a estonteante jovem baiana de olhos verdes, tinha perdido o título mundial da beleza, por ter duas polegadas a mais do que era o padrão estético, estabelecido na América do Norte, para o quadril feminino. Devemos, pois, lembrar que naquela data a palavra miss não significava outra coisa a não ser a belíssima miss brasileira vítima de tremenda injustiça – maldade que desfez tudo que a cantora Carmem Miranda e os filmes de Holywood haviam feito para aproximar o Brasil dos EUA.

           Nas primeiras aulas de anatomia, o professor DiDio aproveitou o tema para ensinar sua matéria, recomendando a nós que não usássemos a palavra chula para a região desclassificanda, mas, como disciplinados calouros, usássemos uma (sic) elegante perífrase osteológica: região anatômica entre a crista ilíaca e o grande trocânter do fêmur. Esta não foi a trilha palmilhada pelo Sylvio. Ele, como galã da turma de galãs, saiu à busca de uma marta rocha mineira. Era uma linda garota não só trigueira como meiga, que morava na avenida Bernardo Monteiro, a quem o Sylvio revelou por conta própria que os primeiranistas da Faculdade de Medicina a tinham eleito MISS PRIMEIRO ANO DE MEDICINA - e que seria coroada num baile no Diretório Central dos Estudantes (recém-inaugurado), em data a ser marcada.

           A essa altura havia uns dois ou três colegas ainda alheios ao senso de humor que logo veio a caracterizar esta turma. Quiseram saber da origem da eleição, data, circunstâncias e tudo o mais. O Sylvio então se saiu dessa, exigindo meu testemunho legitimador e eu, já seu grande amigo, com a cara mais limpa, usei a frase dita naqueles dias pelo então notório prefeito Ademar de Barros, de São Paulo (este também com a cara mais limpa): foi uma eleição limpa, e está encerrado o assunto.

           Acompanhei o Sylvio de perto desde então e, logo que a maioria da turma passou a participar de cirurgias, ele passou a ser cada vez mais elogiado como cirurgião nato. Como aconteceu com os demais, ele poderia ter partido para qualquer especialidade ou ficar na cirurgia geral ou mesmo na clínica geral – uma vez que a excelente formação propiciada pelo curso encontrava em seu abrangente talento e em sua invejavel habilidade manual plenas condições de múltipla efetivação.

Um médico viu o Sylvio operar e veio cumprimentar-me por ter tão raro cirurgião como colega de turma. Respondi-lhe que minha turma produziu vários excelentes cirurgiões, embora isso não impeça que cada qual seja raro entre a generalidade dos médicos. Além disso, o Sylvio (também formado no científico do Colégio Estadual) é um médico completo e um homem de larga cultura. Sei disso não só por nossa convivência ao longo do curso médico, mas por termos sido colegas de república. A República REMANSO DE HIPÓCRATES recebeu só da nossa turma o Sérgio Almeida, o Ely da Conceição, o Pérsio Godói, o Sylvio e eu.  Deve ser incluído aí o Ruy Paolucci como republicano honorário, porque fez o logotipo apenso à porta de entrada. Era uma replica em desenho de O PENSADOR de Rodin, com a diferença de que o pensador do Ruy pensava sentado num vaso sanitário.

Nossas discussões sobre tudo, inclusive literatura e política, foram uma espécie de pós-graduação de alto nível, onde o Sylvio era um cético estimulante, que faria inveja ao filósofo Diógenes. Demais, veio a se casar com uma mulher brilhante, Laura Cançado, com quem convivi no âmbito pedagógico de nossa universidade. Quando passei a historiador e a genealogista, os Ribeiros do Sylvio foi igual estímulo a meus levantamentos, pois tenho por hipótese de trabalho que a genética dos Ribeiros mineiros ocupa lugar central na mentalidade desta província.

O Sylvio Ribeiro, logo após a formatura, foi bafejado pela hit cardiovascular, nesse tempo a escolha cirúrgica de maior glamour – sendo igualmente bafejados Gilberto Lino, Ernesto Lentz e Sergio Almeida. sendo este, além de vizinho alfabético, Na república tive a oportunidade de observar o Sylvio como ser humano e como dono de surpreendente cultura geral..

 Ele chegava de sua atividade cirurgica e vinha até onde eu lia algum livro. Nessa época minha leitura na biblioteca da Faculdade era só de artigos científicos, mas em casa era filosofia. E meu colega danava a me sabatinar sobre autor e obra. Lembro-me de um livro que eu estava lendo e que estava todo rabiscado de comentários manuscritos por mim nas margens de cada página. Criei o hábito de escrever comentários desaforados dirigidos ao autor. Esse livro era do divulgador Henry Thomas, popular na época, intitulado VIDAS DE HOMENS NOTÁVEIS. O Sylvio começou a ler os rabiscos, dando gostosas risadas. O Pérsio chegou e leu também alguma coisa. Em vez de acompanhar o riso do Sylvio discordou severamente do que leu. Ficamos nós três ali por duas horas em rica polemica, sendo o Sylvio o moderador.

           De outra feita o livro era OS SERTÕES de Euclides da Cunha. Rabisquei o livro a cada passagem que me parecia racismo do autor. Supus que o livro fosse sem dono, de um conjunto deixado ali por gerações de republicanos. Mas não era. Quando o dono chegou e viu a turma fazendo fila para ler meus comentários ficou uma fera. O Sylvio então lhe disse que aquele ali era outro exemplar. O tal dono passou a procurar o seu exemplar e não achou. No dia seguinte o Sylvio chegou com um exemplar sem rabisco e o entregou a ele.

           O Sylvio, na época do show medicina e nas festas oferecidas pelos homenageados na formatura, voltava a ser o galã de nosso tempo de calouros. Nossa turma aquinhoada com consideráveis galãs sempre admitiu a inconteste superioridade do Sílvio nesse território. Isso tudo nos causa saudade e também surpresa quando lembramos que hoje nosso Silvio, em tributo à religiosidade de sua querida São João Del Rei, passou a circunspecto varão plutárquico.




 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

HOMENAGEADOS DE 1960


 

PARANINFO DA TURMA

 

JAVERT BARROS

O primeiro radiologista paraninfo no Brasil

 

Na escolha do paraninfo também fizemos história, pois o professor Javert Barros é o primeiro radiologista no Brasil a receber esta homenagem. Impressionou-nos seu prazer em ensinar e seu esforço em reunir completa coleção de todas as variantes da patologia radiológica - e as mostrava uma a uma como se as estivesse diagnosticando pela primeira vez. E, quando soubemos da negativa da Faculdade em criar no papel uma cátedra, a de radiologia, que para nós tão eficazmente já existia, não tivemos dúvida em brindar seu regente com um título único no país, do qual se orgulhava em repetidas confissões de gratidão, até pouco antes de falecer.

Seis meses precedentes à formatura, sem saber que eu o defendia para paraninfo - não é que o Javert quase entra em colisão comigo? Ele era chefe da radiologia do hospital da previdência estadual e levou um pedido de raio-x feito por mim a uma reunião convocada para coibir exames pedidos a esmo. Ele, em vez de levar o pedido junto com a radiografia negativa, pegou a esmo apenas pedidos que julgou ilustrativos e mostrou o meu: este exame diz aqui que a hipótese diagnóstica é pneumonite por querosene e, olhem bem!, é pedido de um estudante – ora, este aluno deve ter lido sobre esta doença e pediu este exame para o primeiro caso de gripe que apareceu; eu, que sou professor de radiologia, recorro a diapositivo tirado de livro, porque eu próprio nunca vi um caso disso!

Na verdade, se o Javert tivesse procurado a radiografia para levar à reunião, teria acontecido um bode danado, pois ela estava irregularmente fora do arquivo. Eu a retirara dali exatamente para mostrar aos amigos, porque era uma imagem típica causada por querosene. A coisa começou assim: o Alberto Souto Maior me pediu para examinar um paciente que parecia estar com sintomas pulmonares da fase aguda de esquistossomose. Ao interrogá-lo, o homem me revelou que em sua cidade havia muita chistose, por isso o aconselharam a tomar querosene. Diante do quadro da ausculta, pedi o tal raio-x, pois havia claro fundamento para o exame. 

Naquela reunião, o Clarindo Cerqueira, supervisor dos estudantes, foi interpelado sobre aquele pedido. Ele disse: reconheço que estou alheio ao fato, mas se o pedido é do João, acho melhor a gente dar uma olhada na radiografia. Ele saiu da reunião correndo atrás de mim. Do armário ali mesmo lhe entreguei aquela imagem inquestionável. Parece que vi um arrepio de alívio e de alegria em seu rosto. Saiu outra vez feito uma flecha para ver se alcançava o Javert. Este, surpreso e sem graça, pediu-lhe desculpas e disse que também queria desculpar-se com o estudante caluniado, mas isso não aconteceu.

Quando foi informado de que o orador que iria saudá-lo era eu, não relacionou meu nome ao tal pedido de exame. Onze anos depois, na aula que nos deu na pós-graduação, ele mostrou a própria radiografia que o Clarindo lhe entregou e contou o ocorrido corretamente. Eu levantei a mão e disse: o senhor relatou tudo como aconteceu, só esqueceu de dizer o nome do estudante. E ele: não disse porque estou cometendo outra injustiça com ele, pois não me lembro. E eu: o senhor está falando com ele. Ele veio de lá e me deu um abraço emocionado: então era você?, que bom!

Seu discurso de paraninfo deveria figurar em livro sobre a história da radiologia no Brasil. O livro acaba de sair com o título X e não traz o discurso, mas o cita como primeiro paraninfo. Mais que isso, Minas acusa dois fatos interligados dignos de registro. Foi em Formiga, logo após a descoberta do raio-x, que o Dr. José Carlos Ferreira Pires se distinguiu, entre os primeiros clínicos gerais no mundo, a usá-lo regularmente na prática diária e em pequena cidade. Pois bem, Javert Barros, nascido em Cariacica no Espírito Santo, veio para Formiga com a idade de dois anos, pois seu pai estabeleceu-se ali com um hotel. O menino Javert foi colega de travessuras do futuro famoso botânico Camilo Assis Fonseca Filho, outro grande amigo meu. Não era o tranqüilo pai, mas a mãe enérgica quem punia com rigor as estilingadas de mamona do menino Javert, incômodas para os vizinhos.

Estudou no colégio Santo Antônio em São João Del Rei, onde também foram internos meu pai, farmacêutico João Salgado Filho e o pai do Fábio Araújo Reis, médico Oswaldo Reis. Isso quer dizer que nosso paraninfo (meu e do Fábio) foi colega de colégio de nossos pais. O Colégio Santo Antônio foi origem de vários craques de futebol, inclusive o goleiro Perigoso do Atlético Mineiro, mais tarde professor Oswaldo Costa, o maior dermatologista das Américas. Javert ali também se revelou excelente futebolista e ali se tornou amigo do futuro presidente brasileiro Tancredo Neves. Outras figuras importantes que ali estudaram foram o psiquiatra Flávio Neves, tio de nosso colega Armando Gil Neves, e, por pouco tempo, Guimarães Rosa. 

Javert Barros diplomou-se médico em nossa Faculdade em 1934. Certamente cresceu ouvindo a façanha de José Carlos Ferreira Pires em Formiga. Daí deve ter surgido sua opção pela radiologia, depois de breve exercício da clinica geral. Esta é a ligação entre o pioneiro Pires e o primeiro paraninfo radiologista. Muito me honra ter preservado, em nosso Centro de Memória, o acervo de Pires (com várias ampolas radiológicas primitivas e também um relógio cuco) e de ter saudado o paraninfo Javert em minha formatura. E o saudei também informalmente na festa que nos ofereceu no Clube Umuarama, quando, arrebatado pelo congraçamento ali atingido, acabei proclamando que nossa luta para que se criasse a cátedra de radiologia nos fazia guerrilheiros de uma espécie de Sierra Maestra do ensino médico.

Já as palavras que eu, orador da turma, dirigi a ele, paraninfo, são as seguintes: Doutor Javert Barros, nosso caríssimo padrinho e competente professor. Não existe constituída a cátedra de radiologia ... (e antes que seja criada, se o for), quisemos ser mais justos e vos elegemos, como paraninfo, o catedrático do idealismo, do nobre esforço e da amizade. Nós vos credenciamos a ensinar idealismo, ao lado do Prof. José Feldman, do Prof. Owino Penna e dos demais homenageados. Vós que, para usar palavras de Gilberto Freyre, “em vez do lugar macio e de honra entre os triunfadores, prefer(is) ficar de pé ao lado dos estudantes, não para adulá-los mas para adverti-los; de pé ao lado dos brasileiros de vinte anos e contra os falsos mestres de sessenta, os maus políticos de cinqüenta, os ministros ineptos de quarenta, que cada dia acrescentam, sorrindo ou discursando, alguma coisa de nova e de definitiva à desorganização do ensino superior do país”.

Depois de formado, acrescentei quatro novos vínculos a meu relacionamento com nosso querido paraninfo. Em primeiro lugar, tive o prazer de ser colega de docência de Javert Barros, na cadeira de Clínica Propedêutica Médica, regida pelo professor João Galizzi. A seguir fui seu aluno de radiologia em meu curso de pós-graduação, quando aconteceu aquele diálogo atrás relatado. O terceiro nexo foi a colaboração e a amizade do sábio agrônomo Camilo Fonseca Filho a nosso Centro de Memória, quando me relatou os mencionados dados da infância de Javert. Finalmente, há a circunstância de Javert ter sido colega de turma de meu ex-sogro e meu parente Carlos Caiafa Filho, o qual me relatou como o futuro astro da radiologia era estudioso e brilhante. Carlos Caiafa, no volume seguinte a seu livro VIDA DE MENINO ANTIGO (1986), cuja redação não chegou a finalizar, teceria pormenores do privilégio de ambos como contemporâneos de João Guimarães Rosa, enquanto este cursava o quinto e o sexto ano em nossa Faculdade.

No período em que Javert e eu colaboramos com João Galizzi vários membros dessa equipe se interessaram pelo aperfeiçoamento didático da semiologia. Foi daí que a didática de Javert Barrros inspirou seu aproveitamento sob a forma de módulos didáticos, para treinamento rápido, na inovação do ensino de 1975, em nossa Faculdade. Então foi criado o Laboratório de Simulação e Módulos, no oitavo andar, onde, entre outros dispositivos de treinamento, radiografias previamente selecionadas ficavam disponíveis para uso dos estudantes, em negatoscópios armados sobre mesas, cada uma delas com três amplas gavetas. Para cada órgão do corpo a ser estudado, um conjunto de radiografias normais (1ª gaveta) poderiam ser comparadas inicialmente com correspondentes imagens de anormalidades inquestionáveis (2ª gaveta) e finalmente com imagens de anormalidades menos óbvias (3ª gaveta). Este tipo de treinamento revelou-se surpreendentemente rápido, eficaz e prazeroso. Em outro texto revelo as razões escusas da interrupção de tão notável modalidade didática.

 Todos esses fatos me prendem a Javert Barros por laços tão estreitos que vão além do vínculo entre o orador-da-turma e o paraninfo. Foram resultado de nossa convivência posterior, plena de sua generosa amizade. Este é o nosso Javert, que ressurgiu das páginas de Vitor Hugo para nos apadrinhar, em versão que reflete a mais alta nobreza humana e o mais esmerado perfil de médico. Foi exatamente por isso que nossa turma o entronizou na historia da radiologia e na historia da medicina.


HOMENAGEADO ESPECIAL

 

JOSÉ FELDMAN

Fez-nos senhores da semiologia respiratória, da qual era impecável estilista

        

Javert Barros e José Feldman foram dois de nossos professores que aspiravam à carreira universitária, mas lhes faltou o apoio da direção da Faculdade. Os alunos que lhes deviam tanta aprendizagem perguntavam: será que querem só professores medíocres? A tentativa de barrar o Feldman falhou e ele, quando nos ministrou o curso, era um catedrático feliz, no auge de sua verve. Recebemos as aulas de semiologia da cátedra de Osvaldo Melo Campos exceto a semiologia respiratória, que nos foi ministrada pelo Feldman e seus colaboradores: Maurício Becker, José Ulpiano Campos e Júlio Klein Teixeira, respectivamente formados, nesta mesma Faculdade, em 1948, 1947 e 1944. Como não havia enfermaria de Tisiologia, as aulas eram ambulatoriais no Centro de Saúde Modelo. Isso era uma deficiência aparente, na época, mas de fato era a antecipação da modernidade. Os pedagogos avançados já defendiam o ensino ambulatorial e até nisso nossa turma foi privilegiada: recebemos a semiologia respiratória e, depois, a pediatria em aulas ambulatoriais.

           Tivemos, pois, dois cursos com o Feldman: semiologia e tisiologia. Fomos impregnados por sua personalidade de médico, de sanitarista e de didata. Entre alguns de nós houve disputa para se saber quem percutia o tórax como ele. Não entrei nessa disputa, mas me tornei professor de semiologia e multipliquei seu estilo para várias gerações de médicos. Como sanitarista, ele nos mostrou os bastidores da luta contra a tuberculose num momento histórico: quando se perguntava se a curva epidemiológica da doença milenar sofrera ou não a inflexão causada pelos medicamentos surgidos depois da segunda guerra mundial. Como didata, ele usava seu vozeirão invejável não para discursos tonitroantes mas para nos fustigar com observações cáusticas, mas refinadas, e conseqüentemente inesquecíveis.

           No ano seguinte à formatura eu trabalhava com João Galizzi, no quinto andar do Hospital das Clínicas, e o Feldman dava seu curso de tisiologia no quarto andar. Antes de ele ministrar sua primeira aula daquele ano, pedi-lhe para repetir seu curso. Ele ficou tão surpreso que perguntou: todas as aulas? E eu: todo o curso! Na expressão comovida de seu rosto li que este talvez tenha sido o maior elogio que recebera em sua carreira, talvez maior do que a eleição para nosso homenageado especial, da qual fui um dos proponentes.

O sanitarista Feldman necessita de estudo em separado. Foi um gigante no combate eficaz à tuberculose, como problema de saúde coletiva em Minas. Ao contrário dos burocratas rotineiros do serviço público, ele demonstrou privilegiada percepção da questão global. Ele foi o primeiro a dispor de algo que faltava aos heróicos pioneiros em favor da massa populacional em risco. Ele dominava tanto a epidemiologia como a clínica tisiológicas e ainda dispunha de armas farmacoterapêuticas eficazes. Esse domínio pode ser expresso em seu aforismo: Belo Horizonte é boa para a tuberculose mas não é boa para o tuberculoso

           José Feldman nasceu na cidade bíblica de Jerusalém, mas, segundo meu testemunho pessoal e de Nassim Calixto, sempre foi um mineiro genuíno, tendo sido o primeiro estrangeiro a se naturalizar brasileiro em Minas. Deve ser considerado discípulo clínico de Baeta Viana, inclusive membro do grupo de baetistas aficionados à música erudita, exceto as composições de Richard Wagner. Graduou três anos antes da descoberta da estreptomicina (feita aliás por um engenheiro agrônomo), saudada como responsável pela sobrevida de tuberculosos já em fase terminal, sendo destes mais conhecido o poeta Manuel Bandeira. Mas, quando foi nosso professor, cerca de dez anos depois da difusão dos chamados tuberculostáticos, ele era a voz da moderação diante da euforia. Ele nos recomendava que exigíssemos, em vez do entusiasmo pelo avanço terapêutico, dados concretos, sobretudo referentes não só ao acesso e à adesão aos medicamentos por parte de qualquer um que deles necessitasse, como do controle laboratorial. José Silveira, o grande tisiólogo baiano e memorialista de VELA ACESA (1980), me disse de sua especial admiração pelo Feldman. Comentou que o fato de um tisiologista ser nosso homenageado especial em 1960, quando o mundo desavisado considerava a tuberculose coisa do passado, o que para ambos era um erro, deve ser assinalado como altamente significativo para o ensino médico brasileiro. Nesse sentido, os exemplares do livro CURSO DE PNEUMOLOGIA, em suas sucessivas edições, devem ser considerados de valor histórico. E têm o valor adicional de significarem a concretização da vitória (embora tardia) de nossa turma, em favor da transformação das precárias apostilas em livros editados. Os livros de nossos professores seriam editados por uma editora estudantil, parcialmente concretizada pela Cooperativa Editora. Os livros mais reclamados eram o do Baeta Viana, nunca editado, o do Luigi Bogliolo, que veio posteriormente, e do Feldman, o primeiro.

José Feldman e Nereu Almeida são da mesma turma de 1940. Assim são dois colegas da mesma turma que homenageamos. Coincide que ambos são colegas de Décio Lourenção, meu primo poliglota, de João Sebastião Sinaen, o mais inteligente dessa turma, também nepomucenense, falecido ainda estudante, e de João Pereira Neto, nepomucenense adotivo e casado com Ivone Garcia Lima, também minha prima. Antes de eu ser aluno do Feldman, o primo Décio já fazia propaganda dele e depois, todas as vezes que me via, exigia que eu descrevesse as suas aulas e ficava feliz quando eu tecia os maiores elogios ao notável tisiologista.

Essa familiaridade foi completada pelo fato de que meu irmão Antonio Lívio veio a ser colega, no Colégio Estadual, do Boris, filho do Feldman (sendo ambos colegas de sala da marcante Elke Maravilha) e a seguir colegas no curso de engenharia. Depois, a filha do Feldman, a lindíssima Clara, ingressou como docente na Faculdade de Medicina, sob minha recomendação, quando era a psicóloga de maior autoridade em treinamento de RELAÇÃO DE AJUDA em nosso meio. Para completar, me tornei amigo fraternal de toda a família Becker, especialmente dos médicos Carlos e Celso, filhos de meu professor Maurício Becker.

José Sílvio Resende, que considero o maior cirurgião torácico do país, decidiu dedicar-se a historiar a tuberculose no mundo, no Brasil e em Minas. Dessa enorme empresa antecipou o livro HISTÓRIA DA PNEUMOLOGIA E DA CIRURGIA TORÁCICA EM MINAS GERAIS (2005). Nele ele diz que, em 1952, a Sociedade Mineira de Tisiologia, por meio de seu presidente Henrique Marques Lisboa, dirigiu-se a Luiz Adelmo Lodi, diretor da Faculdade de Medicina da então Universidade de Minas Gerais, encarecendo a necessidade do funcionamento da cadeira de tisiologia (que existia no currículo, mas até então não formalizada). Não houve resposta, por três longos anos. Houve rumores de que a direção da Faculdade, ligada à colônia italiana mineira, agiu assim por anti-semitismo, já que o Feldman era o único disposto a chefiá-la. Até entre estudantes verificou-se atitude semelhante. A coisa chegou ao ponto de se tentar incluir o desempenho cirúrgico na prova de concurso à cátedra, o que excluiria José Feldman. Em compensação, fez parte da luta pela oficialização desse ensino a eleição dele para paraninfo em 1954. Finalmente, em agosto de 1955, quando éramos primeiranistas, Feldman, vitorioso, tomou posse da Cátedra de Tisiologia, iniciando o curso no mesmo semestre, sem dispor de serviço hospitalar, que lhe foi negado até aposentar-se. Foi novamente paraninfo várias vezes e homenageado mais vezes ainda.

Alberto Cavalcanti (nosso primeiro especialista formal em tisiologia), José Feldman e José Sílvio Resende são o triunvirato augusto da pneumologia mineira. Minas, Belo Horizonte e nossa Faculdade, que ocupam posição única nesta especialidade no país, estão obrigadas a orgulhar-se de atores com tão distinto desempenho no que há de mais enobrecedor no cenário médico brasileiro.


HOMENAGEADO ESPECIAL

 

OSWINO ÁLVARES PENNA SOBRINHO

As lembranças que dele evocamos nos obrigam a gostosas gargalhadas

Quando íamos começar nosso curso de parasitologia, tivemos uma triste notícia: o tão aguardado professor Amílcar Martins, que, com Samuel Pessoa, fazia a dupla dos maiores parasitologistas do país, não nos poderia dar o curso de sua cátedra, em virtude de estar a serviço do presidente Juscelino. Ciente de nossa expectativa, ele providenciara ser substituído à altura e nos veio o surpreendente professor René Rachou.

           René Rachou formou-se em 1939 no Rio, especializando-se em malária. Em Florianópolis, cuidou da malaria do sul do Brasil e, quando voltou ao Rio, revelou-se excepcional formador de recursos humanos. A ele é atribuída uma legendária escola de entomologistas, com benefício ao país e ao exterior. Em cada treinando era incutido o espírito científico, de tal modo que Rachou se tornou perito e exemplo em iniciação científica.

Na primeira aula, Rachou nos explicou que se opunha às maçantes aulas teóricas de costume e prometeu que estas seriam ministradas por cientistas convidados dele, para nos transmitir não o que já estava nos livros e sim dados inéditos ou recentes do que estavam investigando. E, quanto às aulas práticas, seriam substituídas por nosso trabalho de campo em busca de parasitas flagrados a parasitar a comunidade. Esta experiência com René Rachou influenciaria a inovação curricular de 1975 e ele próprio só não foi nosso homenageado por não ter permanecido entre nós. Assim a homenagem a Oswino Pena deve ser considerada como estendida ao inolvidável René Rachou. Ficamos definitivamente gratos a ambos por nossa precoce iniciação científica.

           O trabalho de campo escolhido foi o inquérito parasitológico entre os alunos do ensino fundamental de Belo Horizonte. Os resultados seriam comparados com inquérito anterior feito pelo devotado parasitologista Oswino Pena Sobrinho, assistente da cadeira, o qual nos ajudaria pessoalmente na comparabilidade do método. Os resultados desse levantamento foi apresentado por nosso colega Gilberto Lino Vieira, na Semana de Debates Científicos, destinada exclusivamente à mostra de pesquisas feitas por estudantes, e teve larga repercussão. Foi publicada no periódico O HOSPITAL, sendo daí por diante referencia obrigatória em pesquisas análogas.

           O contato com o Oswino foi uma das mais gratas oportunidades de nossa passagem pela Faculdade, pois, além de sua experiência científica e de seu amplo conhecimento das dificuldades enfrentadas pelos verdadeiros pesquisadores, ele se revelou adepto do uso do riso em pedagogia. Desde quando fomos iniciados na pedagogia pelo riso junto ao Ângelo Machado, nosso incrível monitor de histologia, tivemos a sorte de encontrar professores adeptos dessa linha, especialmente o Oswino Pena, o dermatologista Osvaldo Costa, os ginecologistas Rubens Monteiro de Barros e José Zeferino e o cirurgião Wilson Luiz Abrantes. Eu próprio repito com freqüência que, se fui tão eficaz na transmissão de habilidades clínicas quanto fui capaz de provocar boas risadas, devo dizer que então a pedagogia do riso é válida. E para coroar minha militância humorística, não resisti em colocar a palavra RISO em meu livro de memórias: O RISO DOURADO DA VILA (2003).

           Nesse livro refiro flagrantes humorísticos oswinianos. O Basileu era um antigo auxiliar do tempo do professor Marques Lisboa. O Oswino pegou um copo d´água e o ofereceu ao Basileu, que não só o recusou, como começou a ter náuseas. O professor explicou que houve um tempo em que ainda havia dúvida sobre a patogenicidade da ameba coli, daí resultando uma discussão entre os parasitologistas. Para dirimir as dúvidas resolveram que o grupo, incluindo o Basileu para completar um número par, faria um experimento em si próprio. A metade ingeriria um copo de água diluída com essa ameba e a outra metade beberia água pura . O auxiliar ingeriu um copo com a ameba e os demais perderam a coragem e ingeriram água pura. E o coitado pegou uma diarréia de um mês, que depois foi interpretada como psicogênica.

Noutra aula, o Oswino nos mostrou lâminas com a Endamoeba gingivalis. O Sebastião Lopes observou que o professor Guerra, do cursinho prevestibular, dizia que aquela era uma ameba inócua e perguntou: Professor Oswino, que o senhor acha?  Aí o Oswino respondeu, abrindo a boca, onde os incisivos superiores estavam ausentes (nesse dia ele esquecera a prótese dental): Inócua?! Olha o que a danada me fez! Mas esta que me infectou é de uma raça que só foi encontrada até hoje em dois lugares: na zona boêmia de Belo Horizonte e em minha boca...! Três de nossos colegas esperaram o resto da turma sair e foram pedir ao Oswino um exame parasitológico oral.

           O Oswino nos retribuiu, imensamente sensibilizado, o título de homenageado especial. Deu-nos uma festa diferente das demais pela total informalidade. E, como não poderia deixar de ser, a ênfase ali recaiu em duas de suas devoções: cerveja e causos de Minas. 

           Hoje estudo, como historiador das famílias mineiras, os Álvares e os Penas. Descobri que o Álvares do Oswino é o mesmo de nosso colega Orion Luzardo, mas resta esclarecer se o Pena é da linhagem de Curvelo ou da gente de Santa Bárbara. Isso, contudo, não é necessário para que o Oswino continue inesquecível e para sempre querido no coração de seus afilhados.


HOMENAGEADO

 

ARMANDO ACHILES TENUTA

Mostrou-nos o precípuo lado social da pediatria

           

Na votação para os homenageados na formatura, meu candidato da pediatria foi o Ênio Leão, mas o Armando Tenuta venceu por pouco. Na verdade nosso treinamento pediátrico foi tão eficaz que deveríamos ter homenageado os dois. Nós já vínhamos do treinamento no projeto gastroenterite que nos dera um viés bacteriológico da gastroenterite. Diante disso o papel de Armando Tenuta, ao corrigir tal viés, nos foi fundamental.

Logo que começamos no ambulatório de pediatria, o professor Tenuta nos cercou no corredor para nos pedir apoio na denuncia que fazia a um escândalo de ingerência política na distribuição de leite em pó à população carente. Sua voz não estava repercutindo na imprensa por interesses escusos. Foi então que nós, por meio da liderança estudantil, lhe demos cobertura, com ampla ressonância. Ele sofreu ameaças e nós o transformamos em homenageado na formatura.

Em meu livro de memórias O RISO DOURADO DA VILA (2003) relato que Armando Tenuta, muito franzino, instigado por nós, [...] denunciou o corpulento deputado Valdomiro Lobo pelo chamado escândalo do leite em pó e Lobo respondeu que, se o Tenuta estava mesmo convicto do que dizia, então que decidissem a pendenga numa luta de boxe...! [...] A distribuição de leite e outras questões sociais mostravam claramente que estávamos sendo muito bem formados, mas para clinicarmos nos EUA, isto é, alheios ä realidade brasileira. E esta, por isso mesmo, se revelaria incapaz de encaminhar e absorver, ajustadamente, competências cuja utilidade desconhecia e que assim, no geral, se mostrariam mais ameaçadoras do que promissoras. Daí que o conforto e a satisfação de trilhar uma formação dourada nos anos dourados, em vez de alienarem muitos de nós, causaram o contrário. Na tranqüilidade desse trilho, nossa irreverência e nossa capacidade crítica se fizeram agudas e assim, por estarmos tão divergentes do Brasil real, nossas discussões sobre problemas sociais e políticos, nas aulas e fora delas, deram no que deu: assumimos o já referido controle do diretório acadêmico por duas gestões, com o Ely da Conceição e o Gilberto Lino. 

Sim, é notável que nossa turma, que experimentou o ensino mais elitista da história da Faculdade, tenha sido, logo ela, a pioneira em focalizar os fatores sociais da doença. Até então a irreverência estudantil era mobilizada para exigir meia passagem para os bondes e meia entrada para cinemas ou coisa semelhante, sendo que nos discursos de formatura se ouviam apenas proclamações melosas. As iniciativas de ênfase no lado social da saúde de que participamos foram: 1) a semana de debates medico-sociais que organizamos e que foi um sucesso, mesmo sabotada pelo diretor Oscar Versiani Caldeira; 2) a série de visitas medico-assistenciais ao interior, com ampla repercussão; 3) o apoio às denuncias de Armando Tenuta de corrupção na assistência nutricional à população carente; 4) as denúncias sociais que fizemos por meio do show medicina; 4) o contraponto independente aos catecismos comunista e jucista; e 5) meu próprio discurso de formatura, com denúncias contra os males da educação, da saúde e da política. 

           Cada item é auto-explicativo, exceto o 4º: a UNE (União Nacional de Estudantes), que tem sua bela raiz nos estudantes-de-medicina inconfidentes de Montpellier e Bordeaux, era na época disputada por dois grupos ideológicos rivais, a militância estudantil comunista, com diretrizes da Tchecoslováquia, e a Juventude Universitária Católica, com diretrizes do Vaticano. Exatamente a nossa turma, apesar de tão pequena, governou o diretório acadêmico por duas gestões, a de Ely da Conceição de Souza e a de Gilberto Lino Vieira, com uma linha que hoje chamaríamos de nacionalista independente. Em nome dessa independência é que de nosso Diretório surgiu a candidatura de Herbert José de Souza, o Betinho, à presidência da UNE, como candidato de conciliação de todas as três correntes. Quando tudo estava acertado, veio do exterior a orientação para que o Betinho fosse traído, sendo eleito um candidato baiano, de nome Raimundo Eirado, que, comparado ao líder mineiro, era totalmente inexpressivo. Há quem diga que, se em vez de Eirado, candidato de bolso do jovem líder Glauber Rocha, a Une tivesse eleito o Betinho, sua estratégia carismática se teria estendido até 1964 e não teríamos os 20 anos de ditadura. Interessante é que nossa idéia foi retomada depois, por influência do Henrique Santillo, nosso ex-companheiro no Diretório, mas para eleger presidente da UNE o Aldo Arantes, que evidentemente também não tinha nada do talento do Betinho.

Quanto ao ensino da medicina, os fatos citados tiveram prosseguimento no crescente contraste entre nossa realidade socioeconômica e o elitismo rockefelleriano. Quem percebeu isso foram estudiosos da Organização Panamericana de Saúde, donde se esboçou a busca de um complemento preventivo à medicina curativa. Mas, nada de sério poderia ser anteposto ao poder Rockefeller. Então só foram viáveis propostas mitigadoras. O complemento de Institutos de Medicina Preventiva não funcionou e veio a seguir o dos Departamentos de Medicina Preventiva, que se tornaram guetos curriculares. Isso tudo só fez mostrar que tínhamos razão quando dirigimos duas vezes o Diretório Acadêmico, mas a correção do elitismo teve de esperar pela inovação de 1975, de que também participamos. Daí os méritos de vanguarda autêntica que devem ser reconhecidos aos líderes estudantis Ely da Conceição de Souza, Gilberto Lino Vieira, Rubens Nery de Simões, José Ribeiro de Paiva Filho e Henrique Santillo, bem como aos professores Amílcar Viana Martins e Armando Achilles Tenuta.

Temos quase certeza de que o dia mais feliz da vida de Armando Tenuta foi quando lhe comunicamos sua eleição como homenageado especial em nossa formatura. Ele então anunciou uma recepção de gala no Clube Olímpico. Esta foi mesmo de gala, mas quase foi desfeita por um incidente, quando sócios do clube penetraram entre os convidados, como descrevo em meu livro de memórias: [a festa] foi invadida por provocadores (influenciados pelo filme Juventude Transviada com James Dean), daí surgindo conflito generalizado. A confusão foi precipitada quando o Sílvio Ribeiro saiu dançando de rosto colado com a namorada do chefe da gangue. O Sérgio de Almeida, o Penido de Oliveira e eu nos refugiamos debaixo da maior folhagem do jardim. A pior coisa que aconteceu aos invasores não foi sofrer sob o peso de braços cirúrgicos, ortopédicos e obstétricos, comandados pelo Ernesto Lentz: foi serem atendidos no Pronto Socorro pelos invadidos (idéia do Paulo Dias e do Celso Avelar), pois muitos de nós correram para lá, ao cessar o quiproquó.

Mas a coisa foi resolvida da melhor maneira pelo presidente do Clube que era nada menos que Alberto Caram, nosso querido professor e colega de futebol. Assim, no dia seguinte, tanto o Tenuta como nós, só tínhamos palavras já de saudades (e também gostosas risadas) pelos momentos felizes e de emoção daquele congraçamento.

           


HOMENAGEADO

 

EURICO ALVARENGA DE FIGUEIREDO

Epônimo gentil da medicina e da ciência de Minas

 

           Em meu livro de memórias, O RISO DOURADO DA VILA (2003), assim me refiro a Eurico Alvarenga de Figueiredo: Vivíamos rodeando o Baeta e o Eurico Alvarenga, ambos homenageados em nossa formatura. O catedrático falava atirando giz no chão (recolhidos logo pelo sêo João) e apagando o quadro com a manga, criticando Josué de Castro (para quem queríamos o prêmio Nobel) e falando mais do Brasil que de bioquímica (e nós interrompendo para saber quando faria das apostilas um manual ... mas o Brasil não deixava). Já o lavrense Eurico ... era o único que percorria para nós o circuito de Krebs como exímio piloto e dominava integralmente os tampões da homeostase. Imaginem minha emoção quando mais tarde fui apresentado ao próprio Hans Krebs, velhinho, nas portas da Radcliffe Infirmary, a mesma de Osler e Florey, em Oxford. Um padre alemão do colégio Arnaldo teria sido colaborador de Krebs.

           Em Lavras Eurico Figueiredo foi a coqueluche das colegiais de seu tempo, segundo a expressão de minha prima Iracema Lima, que nunca se curou da paixão adolescente pelo moço alto, bonito e gentil, verdadeiro galã de cinema – tanto é que ficou solteirona. Quando o Eurico se casou com a também cientista Delba Gontijo, nascida em Perdões, todos concordaram que o casal de fato era hollywoodiano, ainda mais que igualavam a bela aparência física a incomuns atributos da inteligência. Além de um trio de quase conterrâneos, o Eurico, a Delba e eu temos laços de parentesco, sendo meus filhos do mesmo tronco Figueiredo do dele, enquanto ela é Gontijo, talvez do mesmo ramo que o meu. No clube Umuarama, a cada manhã de domingo, o Eurico e eu sentávamos à beira da piscina e ficávamos numa conversa sem fim de sulmineiros. Por exemplo, pedíamos que ele dissesse do hábito divertido de apelidar seus sucessivos automóveis: os fuscas celinha, bernardino e milico, o galaxie geraldão e o fiat expedito

Certa vez mostrei uma lista de nomes e lugares sulmineiros a ele: Eurico Figueiredo – Lavras; Carlos Diniz – Luminárias; João V. Sales – Nepomuceno/Lavras; Leal Prado – Alfenas; Wilson Beraldo – Silvianópolis; Ênio Cardillo – Areado; Lineu Maia – Boa Esperança; Elógio Sales – Lavras; e Benjamim Guimarães – Bom Sucesso. Ele leu, sorriu e me devolveu, dizendo: não tenho nada com isso, só duas pessoas podem explicar isso, o Baeta e você. Quando mostrei a lista ao Diniz, ele falou duas horas seguidas, confessando seu bairrismo sulmineiro, mas concluiu que o Baeta recrutou sulmineiros sem identificá-los como tais. E não negou que tal correlação tivesse a ver com duas idéias dele, Diniz: a de uma super-universidade sulmineira e o costume de reuniões de cientistas em Caxambu. Note-se que essa lista poderia ser maior se fosse incluída mais gente que não pôde permanecer junto ao mestre ou então que, como eu, são discípulos de discípulos.

           Na universidade mantive, já como docente, íntima colaboração com o Eurico Alvarenga em três oportunidades: a primeira quando ambos participamos do Conselho (hoje Pró-Reitoria) de Graduação de 1972 a 1975, a segunda, na mesma época, quando ambos militamos na assessoria pedagógica, criada pelo reitor Marcelo Vasconcelos Coelho, especificamente em relação à reforma do ensino médico, e a terceira quando colaboramos na preservação da memória de Baeta Viana, junto ao Centro de Memória da Medicina de Minas Gerais, seja na criação da “Sala Baeta Viana”, seja na comemoração do centenário do mesmo.

           No Conselho houve feliz convergência de figuras já marcantes ou que vieram a ter evidência, o que bem caracteriza o inesquecível reitorado de Marcelo Coelho. Sim, estavam ali, em reuniões semanais, Beatriz Alvarenga (hoje estudo o possível parentesco entre ela e o Eurico, coincidentemente entre a melhor docência de física e a de química), Célio Garcia (o amigo íntimo de Michel Foucault, que o trouxe nesta época a Belo Horizonte), Oder José dos Santos (o pedagogo revolucionário), José Tavares de Barros (scollar do cinema), Rubens Romanelli (notável latinista e lingüista), Moacir Laterza (filósofo, esteta e poeta), Luiz de Paula Castro (que viria a ser o maior gastroenterologista brasileiro) e outros.

O Eurico era ali o respeitado decano e o sereno moderador, sempre a impedir que os insistentes vôos de tantas e tão diferentes inteligências desgarrassem da pauta do dia. Foi nesse Conselho que a Beatriz Alvarenga e eu tivemos a idéia de propor a organização da Associação dos Docentes da Universidade (ADUFMG), que, por erro político de maus estrategistas, foi fundada já ampliada para APUBh. Nossa universidade nunca foi tão universidade quanto sob tão feliz congraçamento.

           Na assessoria pedagógica, o Eurico foi fundamental em seu início. Este papel durou, suponho, até o Seminário de Integração Vertical de 1976. Houve aí radicalização entre os ciclos básico e profissional, que se agravou com a transferência das disciplinas básicas para o campus da Pampulha em 1978. Como era de seu temperamento, ele se afastava dos bate-bocas iterativos e suponho que, por isso mesmo, deixou de ser consultado e seguido. Inferi que tenha sofrido com as intrigas surgidas de ambas as partes.

           A busca do acervo sobre Baeta Viana foi o ameno retorno aos velhos temas. O que mais me surpreendeu, então, foi o Eurico aceitar minha sugestão de que, na abertura da solenidade, os discípulos baetianos cantassem um trecho de Wagner (compositor preferido de Viana), é claro que fazendo coro com a gravação de um coral filarmônico. Seria o CORO DOS MARINHEIROS de O HOLANDÊS VOADOR. O presidente da comissão homenageadora, João Galizzi, inicialmente topou a coisa, mas ambos depois acharam prudente substituir a cantoria por um trecho de TANNHAUSER. E deu certo, porque os acordes foram ouvidos envolventes e de súbito, como preâmbulo à fala do Eurico, que não teve outro jeito do que dizer as primeiras palavras entre soluços mal-disfarçados.

           Eurico Alvarenga de Figueiredo diplomou-se médico pela hoje Universidade Federal de Minas Gerais em 1944. Nos anos de 1958-59, foi enviado aos EUA para participar sob a chegia do cientista G.R. Greenberg, em Ann Arbor, Michigan, de um projeto que estudava a infecção da Escherícia coli por um macrófago, o qual permitia à bactéria infectada a síntese protêica de que era incapaz.  Assim, os dois discípulos lavrenses – Eurico Alvarenga Figueiredo e João Batista Veiga Sales – foram guindados por Baeta Viana a participar do início de uma revolução científica. Eram os primeiros passos da engenharia genética, que o Baeta muito bem vislumbrou, mas da qual não chegou a alcançar os resultados genômicos.

           Por uma vista d´olhos mais ampla, o Eurico esteve presente como íntimo colaborador em todas as realizações de Baeta Viana, a partir de 1940. Se hoje o Baeta é reconhecido como pioneiro em tecnologia simplificada, permitindo, naquela década, que as análises clínicas chegassem ao interior mais remoto, o Eurico foi aquele estudante estagiário da cadeira de Química Fisiológica que começou exatamente quando várias técnicas de fina química analítica eram re-elaboradas para tal fim. Se, em seguida, o catedrático foi feito secretário estadual de saúde pelo governador Miltom Campos, era o Eurico quem deveria suprir sua ausência e depois ele próprio feito secretário de saúde. Se a Fundação Rockefeller disponibilizou ao Baeta recursos para seu sonhado laboratório de ensino e pesquisa, foi o Eurico o projetista e o supervisor dessa obra requintada e invejável, da qual fui privilegiado debutante. Se o mestre se aposentou, também o Eurico foi chamado para não deixar a qualidade do ensino e da pesquisa se desfazer em crise. 

           Os cientistas Baeta e Eurico, na condição de dublês de sanitaristas, poderiam causar estranheza aos desavisados. Bem antes disso, contudo, Viana já havia aberto o caminho para a erradicação do bócio endêmico e formulado eficaz medicamento pré-penicilínico contra a sífilis. O certo é que cientistas compromissados com problemas sociais são apanágio da escola baetiana, sendo que o Eurico foi notável pioneiro (1957) em estudo bioquímico ligado à esquistossomose, no caso a estratégia enzimática da penetração cercariana. Foi, assim, sendeiro de elegante linha de pesquisa que, por meio do brilho de Giovanni Gazzinelli e colaboradores, produziu soma numerosa e altamente significativa de resultados.   

Não há qualquer dúvida de que Eurico Alvarenga de Figueiredo ocupa espaço de alta honra na história da ciência de Minas e do Brasil e, o que é de igual valor, lugar de imensurável carinho no coração dos que tiveram o privilégio de desfrutar seu jeito tão sulmineiro de ser.


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HILTON RIBEIRO DA ROCHA

A fluência do orador emoldurou seu triunfo clínico e cirúrgico

        

Bem antes de chegarmos às aulas de Hilton Rocha na cadeira de oftalmologia, tivemos a oportunidade de, já segundanistas, vê-lo como orador. O diretório acadêmico organizou um debate sobre aborto, entre o oftalmologista Hilton Rocha, o jurista Pedro Aleixo e o ginecologista Clovis Salgado, mas este não pôde comparecer. No final comentávamos que Pedro Aleixo expunha com facilidade seus argumentos jurídicos, mas que Hilton Rocha expôs seus argumentos éticos com entusiasmante retórica. Só que a liderança estudantil, sobressaindo nela o Eli Bonini, concluiu aos gritos que não houve debate nenhum, pois ambos os expositores defendiam o mesmo ponto de vista.

Isso retrata a época: exceto os líderes, a maioria dos estudantes não queria saber quem tinha razão, mas quem orava melhor. E a razão de aparecer o professor Hilton entre os homenageados em nossa formatura foi a mesma. O Emir Soares, sem nos consultar, tinha garantido a ele que seria nosso paraninfo. Quando tal candidatura não vingou, o Emir nos pediu candentemente para que Rocha fosse pelo menos homenagem especial, o que também não conseguiu. A turma concedeu que fosse simplesmente homenageado, desde que exibisse sua oratória.  

Assim, a festa que nos ofereceu foi na Associação Médica (e não no Automóvel Clube, caso fosse o paraninfo). Antes dos comes-e-bebes houve sua prometida oração, que empolgou a todos, a ponto de desinibir o João Cândido dos Santos para várias declamações. Hilton Rocha falou sobre o tema: OLHOS, JANELA DA ALMA, VITRINE DO CORPO, que é uma feliz adaptação oftalmológica da frase de Leonardo da Vinci: Olhos, janela da alma, espelho do corpo.

Com o golpe militar, ocorrido três anos após nossa formatura, ficou cada vez mais nítido um terceiro lado da personalidade do professor Hilton Rocha. Além do orador de temas amenos e do oftalmologista apontado como o principal do país, manifestou-se o político. O posicionamento do professor Hilton Rocha ao lado da ditadura tornou-se mais manifesto ainda pelo fato de que ele cuidava dos olhos do general Golbery Silva, eminência parda do regime. Assim, quando estávamos implantando o internato rural, inovação revolucionária no ensino em nossa faculdade, de repercussão internacional, ele tentou inviabilizá-lo junto ao Golbery, mas sua ação foi frustrada pelo governador Aureliano Chaves e pelo secretário Dario Tavares, sendo estes seus antigos companheiros udenistas.

Outra ação política de Rocha tinha acontecido antes e também foi frustrada. Ela passou a ser conhecida recentemente depois que pesquisadores do Centro de Memória da Medicina começaram a levantar a história da Associação Médica de Minas Gerais.  Quando surgiu o movimento para fazer de Juscelino, ainda governador, candidato a presidente, a Associação Médica, tendo Hilton Rocha à frente, tentou uma manobra para inviabilizar a candidatura do governador. Nessa oportunidade ele e Tavares estavam juntos, sendo mentor Bilac Pinto. Juscelino com habilidade contornou a conspiração e, como era de seu estilo, fez questão de tudo esquecer, tanto que a Associação Médica Brasileira, recém criada, realizou seu primeiro congresso no início de sua presidência. Era presidente da agremiação nacional o mineiro Alípio Correa Neto, que, sem saber do triste papel da afiliada mineira, pediu à mesma para obter de Juscelino facilidades de gala para aquela convenção. O pedido envergonhado foi feito e o presidente-médico Juscelino prazerosamente a financiou e a abriu com toda a pompa.

Esta faceta política do homenageado Hilton Rocha em nossa formatura, só conhecida quando me fiz historiador, não modificou minha admiração ao oftalmologista e ao orador Hilton Rocha. Tanto assim que, depois de tudo, na inauguração da Sala Oswaldo Costa, no Centro de Memória da Medicina, os oradores foram Hilton Rocha e eu. E fiz questão de ali dizer que eventuais divergências pedagógicas ou ideológicas estavam naquele momento postas de lado, por força da amizade e da reverencia comungadas por todos os presentes diante daquela personalidade que a tudo transcendia – o notável dermatologista ali consagrado.

Um desejo que alimentei desde estudante foi o de conferir a propalada habilidade de Hilton Rocha na cirurgia. A oportunidade chegou quando Carlos Caiafa Filho, que era colega de turma de Rocha, insistiu para que eu o acompanhasse durante a anestesia, quando foi operado por seu famoso colega. Percebi que Hilton Rocha fez aquela operação caprichando na técnica por causa de minha presença. Quando terminou, acho que também percebeu minha sinceridade, ao cumprimentá-lo, pois de fato me impressionou com sua ágil destreza.

Há, entretanto, uma quarta faceta de Hilton Rocha que até hoje estudo: o sulmineiro Hilton Rocha. Como historiador do Sul de Minas e conhecedor de quase todas as famílias dessa região, verifiquei que o sobrenome Rocha de Hilton Rocha não é dali, mas do Rio. Mas Ribeiro é dali, daí minha hipótese de que dos Ribeiros vem sua oratória. No capítulo sobre os Ribeiros, entrelaçados com os da Zona Mata e do Oeste, pretendo ainda esclarecer a participação de seu ramo, nisso auxiliado pelo sulmineiro Caio Manso Vieira, entusiasta confesso de Rocha. Aproveitarei para fazer um estudo comparado entre a oratória do oftalmologista e as de dois médicos-oradores: Carlos e Paulo Pinheiro Chagas. E também assinalar que as zonas Sul e da Mata (somadas no grande Sul de Minas) nos deram dois gigantes da oftalmologia brasileira: João Penido Burnier e Hilton Rocha.





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JOSÉ ANTÔNIO RODRIGUES

Sob protestos, nos fez completos neurologistas

        

Na excepcional carga horária em anatomia que nossa turma recebeu, inclui-se o primeiro curso de neuranatomia havido na Faculdade, que mais tarde se tornou uma disciplina separada. Para esse curso, não era suficiente o que de sistema nervoso havia no tratado geral de anatomia do Schaeffer-Morris ou no atlas geral do Spalteholz. Tivemos que estudá-lo especificamente no livro de neuranatomia de Ranson & Clark, que nessa época foi traduzido para o português. Era um livro que trazia a novidade de incluir os quadros clínicos referentes às estruturas nervosas estudadas (e, curiosamente, o nome dos dois autores corresponde ao nome Ramsom Clark, do único sobrevivente da maior batalha entre índios e brancos nos EUA).

           Quando chegamos ao prédio da neurologia, depois transferido para a dermatologia (segundo Osvaldo Costa, tudo era ectoderma), o catedrático Washington Pires estava às vésperas de se aposentar. Ele era do tempo dos neuropsiquiatras, quando um só especialista cuidava das duas especialidades. Daí que exigiu participar da prova oral de psiquiatria e sorteou para mim esquizofrenia. Comecei a citar Bleuler e ele perguntou donde tirei aquilo. Respondi que do livro do próprio Bleuler, que, para espanto dele, encontrei na biblioteca da Faculdade, em inglês. Ele se vangloriava de ser o único em Minas que tinha o Bleuler, nada sabendo da tradução.

Para aprender neurologia, nossa esperança era receber aulas não de Pires, mas do José Geraldo Albernaz, da turma de 1946, treinado por Bilsen, o maior neurologista do mundo. Mas Albernaz foi levado pelo Briggs Watson para os EUA e nós ficaríamos órfãos se ele não tivesse tido o cuidado de nos entregar ao excelente José Antonio Rodrigues. Este antes havia sido aprovado para especializar-se em Havard, mas não pôde ir. Sabendo de nosso preparo, ele se entusiasmou. Avisou na primeira aula que os que pudessem deviam trazer oftalmoscópios manuais. Para ele a oftalmoscopia integrava essencialmente o exame neurológico. Daí resultaram duas conseqüências: 1) o protesto de oftalmologistas e neurologistas contra a oftalmoscopia feita por estudantes e 2) como professor, a seguir, de semiologia, ensinei com desembaraço o mesmo exame neurológico que ele me transmitiu. 

José Antônio Rodrigues é da turma de 1955, daí que era sextanista quando éramos primeiranistas. Com isso era tão jovem que parecia um de nós. Ele exibia uma objetividade concentrada na realização do exame físico e uma segurança completa ao interpretar os sinais obtidos. Eu dizia que ele no fundo não se conformava com o contraste entre a precisão do diagnóstico de que era capaz e a impotência terapêutica de que padecia a neurologia de então. Nos anos seguintes acompanhei de perto a abertura de possibilidades terapêuticas nesta área.

Antes mesmo do curso de neurologia, acompanhei dois amigos de turmas anteriores, Ângelo Machado e Guilherme Cabral, em experimentos ligados ao sistema nervoso. O Ângelo ainda estudante era autoridade mundial quer em libélulas, quer em glândula pineal. Meu papel, em seu laboratório, sempre com música erudita ao fundo, era ser interlocutor sobre suas dúvidas e perspectivas no estudo, por exemplo, da pineal do tatu. O Guilherme Cabral, por sua vez, ainda monitor de fisiologia, nos ajudou a repetir a experiência de decerebração do cão feita por Sherrington.  

Tempos depois, várias circunstancias, principalmente por questões comuns nas áreas da pedagogia médica e da história da medicina, me mantiveram próximo da neurologia que aprendi com o José Antonio. Tornei-me adepto entusiasta de Jean Piaget e participei do grupo que quase o trouxe a Belo Horizonte. Por meio do Centro de Memória da Medicina, inclusive minha colaboração com o neurocirurgião Sebastião Gusmão, tive o privilegio de entrevistar Caio Líbano Soares, que em longas conversas nos revelou a versão real da legendária benta de Las Casas, e José Geraldo Albernaz, com quem gravamos longo depoimento sobre sua carreira.

E, em seqüência, fui visitar dona Lindéia Sette-Camara Pires, viúva de Washington Pires, quando nos ofereceu a biblioteca médica, objetos e arquivos referentes ao esposo e ao célebre radiologista, seu sogro, José Carlos Ferreira Pires Nessa ocasião, demos início à luta para preservar o palacete mourisco que Pires ergueu na esquina entre a avenida Augusto de Lima e a rua Rio de Janeiro. Recebemos também varios neurologistas e neurocirurgiões internacionais, como Edir Siqueira, Daniel Maitrot, Pierre Gallibert, X Tritilair, Guy Sandiner e Gazi Yasargil. Também se tornaram colaboradores do Centro de Memória, os amigos Gilberto Belisário Campos, líder na formação especializada entre nós, e Jair Leopoldo Raso, dublê de refinado neurocirurgião e finíssimo artista. Tais laços, todos remontantes a José Antônio Rodrigues, se estreitaram ainda mais na medida em que meu filho, João Vinícius Salgado, decidiu ser pesquisador nesta mesma área, nomeadamente em neurofarmacologia e psicose experimental, sendo hoje um dos sucessores do Ângelo na neuroanatomia. Já meu ex-alunos Tiago e Junia Rodrigues, filhos do José Antônio, optaram pela cardiologia e a oftalmologia, respectivamente, e vieram a ser os excelentes profissionais que todos aplaudimos.

           

           


           


HOMENAGEADO

 

JOSÉ BAETA VIANA

Ele nos fez cobaias de nós mesmos

           

Em nossa formatura houve um fato excepcional. Dos doze professores homenageados dois eram da mesma cadeira: José Baeta Viana e Eurico Alvarenga Figueiredo. Essa gratidão se deu porque nosso curso de bioquímica foi ministrado em condições ótimas, as quais significavam a concretização, em 1956, de um sonho de trinta anos, desde que Baeta Viana voltou dos EUA. 

           Na Norte-América, Viana teve contato com a proposta de Abraham Flexner de que o futuro médico, quando no ensino pré-clínico, em vez de aulas superficiais de disciplinas biológicas, havia de receber um treinamento efetivo em cada qual. Por exemplo, em bioquímica o aluno deveria receber um gabinete individual, que seria de sua responsabilidade durante todo o treinamento, no qual ele faria procedimentos químicos correspondentes a toda a química fisiológica. A Fundação Rockefeller autorizou que tais gabinetes fossem projetados em número de 60 e o Eurico Alvarenga foi encarregado pelo Baeta de especificá-los.

Quando chegamos a esse enorme laboratório as instalações estavam recém-terminadas e havia 60 gabinetes para nós que éramos apenas 44. Numa das primeiras aulas cada um de nós teve de colher sangue do colega ao lado e cada qual dosou a glicose e a uréia de seu próprio sangue. Na aula seguinte, cada qual teve de passar sonda nasogástrica em si mesmo e analisar o respectivo suco gástrico. Era a concretização do aforismo de Baeta Viana de que o aluno deve ser a cobaia de si mesmo.

Isso quer dizer que o Baeta tinha sido impedido por seus colegas de Congregação de dar o curso com que sonhara. Quando ele quis iniciar seu laboratório de ensino, ficou sabendo que a única área possível era o porão. Quando quis criar a biblioteca da Faculdade também lhe disseram que também seria localizada no porão. Ora, hoje se sabe que as duas estruturas que deram a esta Faculdade grande projeção entre as demais foram a biblioteca e o laboratório de bioquímica. A biblioteca foi por décadas a maior em coleções de livros atualizados e periódicos, sendo a única que não se fechava aos sábados e domingos. O laboratório foi a origem de docentes de bioquímica que foram ensinar nas faculdades de São Paulo e de Ribeirão Preto, ambas da Universidade de São Paulo, na Escola Paulista de Medicina (hoje Universidade Federal de São Paulo), na Faculdade federal de Recife e nas federais de Juiz de Fora e Uberaba. Esses discípulos e os discípulos deles respondem por publicações de peso na literatura científica, sendo uma delas, a descoberta da bradicinina por Wilson Beraldo e colaboradores, a maior realização da ciência brasileira depois da descoberta da doença de Chagas.

A pergunta cuja resposta não se encontra nos textos oficiais é a seguinte: porque Baeta Viana não implantou o modelo Flexner na época certa, o qual só nos chegou quando a época não era apropriada? Para respondê-la devemos lembrar que Baeta Viana e Carlos Pinheiro Chagas (apelidado de Carleto para distingui-lo de seu primo, o descobridor Carlos Chagas) chegaram dos EUA como se fossem os tenentistas da saúde, ou seja, defendiam a modernização revolucionaria do Brasil, no caso, adotando o modelo educacional e científico norte-americano. Os tenentistas, no lado propriamente militar, propunham mudança política análoga. A Revolução de 1930, que representava tal mudança, passou a decepcionar Viana desde o início, com sua crescente ojeriza a Getúlio Vargas, tanto que ele se posicionou, junto com os estudantes de medicina, ao lado dos paulistas no conflito de 1932. A última tentativa dos tenentistas autênticos, na área da educação e da saúde, foi comandada pelo médico Pedro Ernesto Batista. Ele aproveitou sua condição de prefeito do Distrito Federal e criou a Universidade do Distrito Federal, reunindo nela a intelligentsia nacional e empossando como reitor Baeta Viana. Vieram do exterior vários docentes de renome. Ministraram aulas ali ou estavam convocados para a montagem de cursos a serem criados, entre outros: Anísio Teixeira, Gilberto Freire, Antonio da Silva Melo, Mário de Andrade, Abgar Renault, Cecília Meireles, Hermes Lima, Josué de Castro, Gilberto Freyre, Lauro Travassos, Lúcio Costa, Heitor Villa-Lobos, Sérgio Buarque de Holanda, Antenor Nascentes, Cândido Portinari e Lourenço Filho.

Baeta Viana já vinha sendo hostilizado por getulistas em nosso Estado e, principalmente, em nossa Universidade. Com o golpe-de-estado de 1937 a coisa piorou, sendo fechada a Universidade do Distrito Federal. O Baeta voltou para Minas e passou a ser maldito entre os acovardados docentes, embora aclamado pelos estudantes e paraninfo sucessivo de várias turmas. A última turma de que foi paraninfo foi a de 1949 e a ultima em que foi homenageado foi a nossa. Ele era vigiado por espiões e chegaram a procurar pelo país um cientista de seu nível que lhe fizesse sombra dentro de nossa Faculdade. Chegou mesmo a ser afrontado em reuniões e nos corredores por outros catedráticos e também ridicularizado às escondidas. Vários de seus colegas davam a entender que a didática inovadora de Viana era muito trabalhosa e seria insuportavelmente cansativa. Preferiam prosseguir com sua sonolenta rotina de ensino.

Em meio a essa contenda, estava por ocorrer, em 1944, grande triunfo de Baeta Viana. Seria a inauguração do também inovador conjunto hospitalar da Baleia, outra iniciativa dele. Para empanar o brilho do feito, o interventor getulista, de surpresa, desviou o próprio ditador de uma exposição pecuária para a solenidade. O propósito era mais do que ferir o Baeta, mas neutralizar suposta trama em andamento, comandada pelo cientista, para dar fim à ditadura. Baeta Viana não modificou o discurso antes preparado, leu-o e se retirou. A única hostilidade que manifestou foi não saudar nem cumprimentar os representantes do poder ali presentes.

 Com isso seu modelo pedagógico não foi adotado pela Faculdade, sendo apenas parcialmente adaptado ao ensino clínico por uma nova geração de professores: Joaquim Romeu Cançado, João Galizzi, José Henrique da Mata Machado, José Feldman, Ênio Leão e Nassim Calixto - seus discípulos, apelidados de baetistas ou baetófilos. Essa adaptação, no início foi apenas parcial por causa da ausência de um hospital universitário. Com o fim da ditadura e a posse da maioria destes na Congregação, bem como a criação da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (de que Viana foi presidente e que lhe serviu de alto-falante nacional), as hostilidades se arrefeceram. 

Diante de tudo isso, podemos reafirmar que, na biografia de Baeta Viana, o ano de 1956, quando nossa turma ocupou pela primeira vez os novíssimos gabinetes do laboratório de bioquímica, deve ser salientado como a data da concretização de seu mais acalentado sonho.

 


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LIBERATO J. A. DIDIO

Brindou-nos com preciosíssima dádiva: a anatomia prazerosa e a intimidade com o método científico

 

Como a maioria dos agentes transformadores, o professor Liberato DiDio é personagem controversa na história da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais. Se é assim, aqui dou preferência a enumerar seus méritos, deixando de lado as diversas críticas que lhe vêm sendo feitas ao longo do tempo.

           Uma frase minha, repetida por várias pessoas, diz: o maior mérito do DiDio foi ter-nos revelado a figura extraordinária de Renato Locchi, porque as boas coisas do DiDio são de fato do Locchi. Mas este não possuÍa a extraordinária capacidade de comunicador que caracterizava o DiDio, daí que no mérito do mestre está embutido o mérito do discípulo, seu divulgador entusiasta.

           Locchi nasceu em Anhembi, de região paulista contígua ao sul de Minas – portador, portanto, do recato próprio dos sulmineiros. Tive o privilégio de acompanhar sua passagem por nossa Faculdade depois de aposentar-se e o considero um de meus iniciadores em pesquisa, ao lado de Lobato Paraense, Amílcar Martins, Marcelo Coelho, José Pellegrino e Ângelo Machado. Era um cientista da ilustre linhagem que remonta a Galileu e o método científico de que era severo cultor, foi-nos transmitido pelo DiDio, logo que assumiu a cátedra de anatomia, o que coincidiu com o início de nosso curso, em 1955. Dito assim, fica parecendo que ninguém aqui usava tal método, o que não é verdade. Havia aqui a bioquímica e determinadas áreas das doenças infectoparasitárias e da clínica médica, que bem antes usava o mesmo método, só que dissociado do ensino.

           Ora, como a novidade trazida pela Fundação Rockefeller era o modelo flexneriano de ensino, em que ensino e pesquisa devem estar estreitamente unidos, nós os primeiranistas passamos a nos misturar intimamente a vários médicos e mesmo a estudantes veteranos, recrutados pelo DiDio para pesquisas nos mesmos cadáveres em que aprendíamos a anatomia. Houve então um boom memorável de teses para o antigo doutorado, façanha que nenhum dos mais duros críticos do DiDio lhe podem negar. O principal produto foi o entusiasmo pela pesquisa que contaminou outras cátedras, principalmente com a chegada dos notáveis cientistas Wilson Beraldo na fisiologia e Noronha Peres na microbiologia. Ex-alunos dessa nova anatomia, quando chegaram a docentes de clínica de adultos e de criança, bem como de cirurgia, levaram consigo entusiasmo igual, preparando o melhor da pós-graduação formal, implantada a seguir.

           Assim como fez na pesquisa, DiDio inovou na didática. Além de ser capaz de aulas expositivas agradáveis, eruditas e claras – em contraste com seu antecessor, o livre-docente Otaviano Neves – ele as ministrava para servir de introdução a aulas práticas em estilo radicalmente novo. Com um laboratório anatômico requintado, com um cadáver inteiro em cada mesa e com dois estudantes para cada cadáver - dissecar era atividade tranqüila, feita com o apoio de um atlas portátil em inglês, sem qualquer medo de reprovação nos exames. Era uma atividade prazerosa, se é que isso é possível em se tratando de cadáveres. O fato é que chegávamos às sete horas e não raro saíamos às 23 horas. Esse tempo integral diário era incompatível com estudantes que necessitavam trabalhar para estudar - outro ingrediente, além do número diminuto de alunos, do elitismo do novo ensino.

Eram aulas de dissecção opostas às anteriores, em que os pesados quatro volumes, em francês, do tratado de anatomia do Testut, representavam orientação segura mas também ameaça constante e terrível para o aluno, pois qualquer pequeno trecho dessa obra enciclopédica poderia ser exigido quase ipsis litteris no exame escrito ou oral. Muitos estudantes chegavam ao sexto ano devendo a nota de anatomia, sendo que boa parte desistia do curso. Por sinal, em outro texto, interpreto o próprio estudo da anatomia e esta velha didática como componentes do rito iniciático ao curso e à profissão.

           Otaviano Neves foi anatematizado injustamente pelos que passaram a considerar sua saída da regência da cátedra como a substituição do ensino errôneo pelo ensino correto. Pensar assim é demonstrar ignorância pedagógica, pois o ensino exercido por Neves, no qual ele próprio foi educado, é aquele prevalente na Europa, particularmente na França e na Alemanha, por séculos. O surgimento da chamada escola ativa, na própria Europa e nos EUA, do qual o ensino flexneriano é exemplo, foi recebido com desconfiança e resistência em todos os países. O começo tímido e distorcido de sua adoção contava, em 1955, com menos de cinquenta anos e chegou a Minas, em 1927, antes do DiDio, com pedagogos europeus convocados para o ensino pré-universitário, sendo seu símbolo a notável Helena Antipoff. No ensino universitário chegou nesta mesma época com Baeta Viana à nossa própria Faculdade, mas, pela oposição de Viana a Vargas, ficou circunscrito à bioquímica e até ridicularizado pelo resto do corpo docente. E a hegemonia do antiquado ensino chegado ao Brasil no século 19 só foi abalada de fato após a segunda guerra mundial.

           Assim, nenhum juízo de valor cabe ao estilo do Neves. Curiosamente esse juízo sobrevive embutido no rico e delicioso folclore que engendrou. Mas é por isso mesmo necessário dizer que o afastamento de Otaviano Neves foi feito de modo agressivo e até cruel, cabendo aqui responsabilizar a direção da Faculdade e a congregação, mais do que o próprio substituto. Sim, a ingratidão aí havida é nitidamente institucional, já que DiDio era um recém-chegado. A prova de que sua substituição poderia ter sido feita de modo civilizado foi dada pelo gesto dramático protagonizado pelo notável cirurgião Dario de Faria Tavares. Dario foi procurado pelos dirigentes para que continuasse como assistente da cátedra. Ele perguntou se o Neves recebera a mesma proposta ou, ao menos, se este (ou ambos) seria deslocado para uma cátedra de cirurgia, já que era excelente cirurgião. Como a resposta foi negativa, assinou de pronto seu pedido de demissão em sinal de protesto. Quando, em aula no curso de História da Medicina, Dario Tavares, com os olhos marejados, relatou esse fato, foi aplaudido de pé pelo auditório repleto.

           Em 1986, em viagem por várias universidades dos EUA, tive a companhia em parte do professor DiDio. Foi a oportunidade para conversarmos sobre sua ligação especial com nossa turma, a primeira dele na cátedra. O diretor da Faculdade na época era Luiz de Paula Castro, por sinal seu colega de república e de quarto, quando ele era novato em Belo Horizonte. O DiDio então observou que eu, o primeiro aluno de sua primeira turma, estava ali a seu lado, sendo diretor aqui seu companheiro de república. Nestas circunstancias ele se sentia à vontade para manifestar seu desejo de regressar ao Brasil e voltar não para São Paulo, mas para nossa Faculdade. De volta ao Brasil, o Paula Castro e eu fizemos todos os esforços para que isso acontecesse e não foi possível satisfazer o desejo desse meu primeiro mestre.

           Algum tempo depois ele visitou o Centro de Memória, onde fizemos uma exposição sobre sua vida e obra que muito o emocionou, estando presente sua filha. A seguir, em 2000, aconteceu o Congresso de História da Medicina em Santos, no qual houve uma sessão exclusiva em sua homenagem, da qual, para sua evidente satisfação, participei falando o principal do que ora escrevo.

Nos EUA e depois no Brasil tentei tocar no assunto da escolha do paraninfo em nossa turma. Ele desconversou elegantemente, daí minha conclusão de que de fato alimentara por seis anos a esperança de nos paraninfar.

           


HOMENAGEADO

 

NELO MOURA RANGEL

Nossa homenagem foi a justa láurea pelos méritos que jamais lhe faltaram

        

Nosso professor de histologia foi Nelo Moura Rangel. No início de suas aulas me deu a impressão de que estava preparado para dar sua disciplina no estilo costumeiro e tranqüilo, aliás muito elogiado pelos alunos veteranos, tanto é que foi o paraninfo da turma dois anos anteriores à nossa. Mas, de súbito, a cadeira foi atropelada por uma espécie de furacão vindo de São Paulo que atingiu de cheio principalmente as aulas práticas. Essa comoção chegou personificada em Luiz Carlos Uchoa Junqueira, astro da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), faculdade, aliás, onde Rangel se graduou em 1934, data da criação da USP. Logo a seguir chegou outro docente de São Paulo para dar as aulas de embriologia: era Michel Rabinovitch.

Essa transformação era imposição da Fundação Rockefeller. Junqueira aceitou vir implantar a mudança, sem a pretensão de substituir o regente da cadeira que era Nelo Rangel. Assim, com este não aconteceu o mesmo que ocorrera com Otaviano Neves, na anatomia, em circunstancias lamentáveis. Mas Rangel foi de certa maneira obrigado a concordar com tudo aquilo. Os ianques têm por norma só confiar em quem é egresso de lá. Junqueira era um homem de Harvard. Ele exigia chegar para a aula só depois de uma sessão de natação no Minas Clube. Mas, a mim que sou do sul de Minas, ele não enganou: atrás do histologista americanizado estava o caipira sulmineiro. Nasceu em São Paulo mas era indisfarçavelmente um dos Junqueiras de minha cidade, tanto que, ao se aposentar, veio para Minas. 

Confesso que fiquei maravilhado com seu método: nós mesmos tínhamos que anestesiar o rato, tirar-lhe um pedaço do fígado, preparar histologicamente o fragmento, analisá-lo ao microscópio, esperar uns dias, matar o rato, retirar-llhe o fragmento neoformado, prepará-lo histologicamente e comparálo ao microscópio com a preparação anterior. Tínhamos de aprender fazendo (métodos que influenciou a inovação do ensino de 1975). Já com o Rabinovitch não manipulamos nenhum embrião. Então o que ele nos trouxe foi muito menos do que o deslumbramento do Junqueira. Mas ele era um cientista de verdade e talvez quem melhor sabia embriologia no país. Foi exilado para a França durante a ditadura e hoje, de volta ao Brasil, faz o que mais gosta: orientar as pesquisas de jovens vocações científicas.

Para o Rangel sobrou o lado menos teatral e mais operacional do regime rockefelleriano. Ele, acostumado a dar aulas em tempo parcial em cursos para outras profissões, foi desafiado a nos dar treinamento em laboratório, em tempo integral. Seus assistentes, Belchior Santana e Márcio Aroeira Vilela, atarantados com tanta azáfama, não dariam conta do recado, caso não existisse o monitor Ângelo Machado e seus asseclas – cujo dinamismo tornou tudo não só mais fácil e eficaz, mas muito divertido. Tenho para comigo que o Ângelo foi a melhor coisa que aconteceu na carreira do Rangel. Era como se, no subconsciente, o Rangel dissesse à Rockefeller: prá que nos mandar o Junqueira se o Ângelo é muito melhor? E o Ângelo era apenas um terceiranista!

Se Rangel tivesse ficado em São Paulo e com o tempo integral oferecido lá ele estaria destinado a se tornar um dos grandes geneticistas, ao lado de Brieger, Krug, Pavan, Miller Jr e outros. Isso por causa de sua ligação a André Dreyfus, o gaucho formado no Rio que ajudou a fundar a USP, um dos criadores de nossa genética animal, fator da vinda de Dobzhansky ao Brasil e o primeiro a propor a barriga de aluguel (que chamou Amas de Sangue na revista Anhembi) para o melhoramento genético do gado. Dreyfus era homem de cultura geral e conhecia bem os escritores Godofredo Rangel (pai de Nelo), Monteiro Lobato e Paulo Duarte (criador da Anhembi). Sem contar aqui com as facilidades paulistas, resolveu assim mesmo divulgar a genética por meio das traduções ELEMENTOS DE GENÉTICA (1947) de Edward Collin e GENÉTICA NA ERA ATÔMICA (1958) de Charlotte Auerbach.

Curiosamente, outro homem do sul de Minas, o geneticista Newton Freire Maia, irmão de nosso querido colega Lineu Freire Maia, sendo especializado em genética humana nos EUA, exigiu para sua linha tratamento igual dado pela Rockefeller à genética animal. Por isso seria acusado de causador do pouco tempo da permanência de Dobzshansky entre nós. Para se defender, Maia publicou um livro indispensável: A CIENCIA POR DENTRO (1991)

O papel de aglutinador desempenhado por Dreyfus em São Paulo foi assumido por Rangel em Minas. Rangel não se limitou à área da histologia e da morfologia. Vários de seus monitores se projetaram em áreas clínicas e cirúrgicas levando consigo o rigor científico tão cedo absorvido na histologia. Se na morfologia temos as escolas de Ângelo Machado (tanto na neuroanatomia como na biologia) e a escola de José Carlos Nogueira (outro sulmineiro, autoridade internacional em marsupiais americanos) podemos citar na área clínica, entre outros, os ex-monitores rangelianos Guilherme Cabral, líder de uma escola de neurocirurgiões no Brasil, e Edward Tonelli, eminente infectologista pediátrico de projeção internacional. Nessa invejável galeria, figura um representante de nossa turma: Marcus Vinicius de Aguilar Coutinho, que se distinguiu nas áreas básica e clínica, pois foi o inesquecível professor de histologia da Faculdade de Ciências Médicas, onde ao mesmo tempo foi iniciador científico de várias gerações, e também o habilíssimo cirurgião de emergências em nosso Pronto Socorro.

Guardo a esperança de comprovar que o escritor Godofredo, pai de Nelo Moura Rangel, encontrou-se com meu avô João de Abreu Salgado, professor de latim e português em Três Pontas. Fico a imaginar os dois humanistas a conversar nas tardes calmas daquele tempo. Ambos foram hostilizados pela minoria retrógrada dessa cidade - de bela história, entremeada, contudo, por episódios lamentáveis.

Nelo Rangel nasceu no mesmo ano da descoberta da doença de Chagas e numa cidade, Machado, não muito distante da cidade de Oliveira, onde nasceu Carlos Chagas. As justas comemorações dos cem anos do triunfo do mineiro Carlos Chagas, em 2009, prejudicaram a lembrança dos cem anos desse notável professor. Assim, em 2010, nos cinqüenta anos de nossa formatura, vamos realizar uma dupla comemoração: a de seu centenário recente e a da distinção que lhe conferimos de insigne homenageado de nossa turma.

 


HOMENAGEADO

 

NEREU DE ALMEIDA JÚNIOR

Osvaldo de Melo Campos fez dele nosso devotado mestre do dia-a-dia


           Osvaldo de Melo Campos deveria ser homenageado em nossa formatura, mas, no dia-a-dia das aulas, ficamos tão impressionados com o devotamento de Nereu de Almeida Júnior a nosso treinamento que a homenagem foi transferida a este. Nereu Almeida e José Feldman são dois nossos homenageados que pertencem à mesma turma de 1941. Pessoalmente, tenho ligação adicional aos dois, pois essa turma incluiu dois nascidos em minha cidade de Nepomuceno. São eles: o genial João Sebastião Sinaen, falecido ainda estudante, e o poliglota Décio Augusto Lourenção, meu primo. Demais, um terceiro, o itajubense João Pereira Netto, tornou-se nepomucenense adotivo, ao se casar com minha parenta Ivone Garcia Lima.

           Nereu pertence a um grupo de médicos que me inspirou estudar o fenômeno do PRAZER EM CLINICAR. Em minha experiência de professor e estudioso da semiologia médica, dividi os clínicos em quatro grupos: 1) aqueles que não têm facilidade para resolver problemas clínicos e nem têm inclinação para relacionar-se com os pacientes; 2) aqueles que têm a citada facilidade mas não têm a citada inclinação; 3) aqueles que não têm a facilidade, mas têm a inclinação; e 4) aqueles que têm tanto a facilidade como a inclinação. Só no último caso ocorre o prazer de clinicar. É este o caso do Nereu e de seu mestre Melo Campos, bem como dos demais homenageados da área clínica.

           Em nosso primeiro dia de semiologia médica, cheguei todo entusiasmado com um estetoscópio, novinho em folha, ao pescoço. Subi a escada do quarto para o quinto andar do Hospital das Clínicas e lá no alto estava o Melão (apelido dado pelos estudantes ao professor Osvaldo Melo Campos). Ele olhou para meu estetoscópio, aproximou-se de mim e o arrebatou de meu pescoço, dizendo: aqui só se ausculta com a toalha e o ouvido. Ouso confessar que depois disso vimos dois assistentes auscultando com o estetoscópio, mas só depois de se assegurarem de que estavam longe do Melão. Eram eles o Regozino Macedo, encarregado da semiologia respiratória, e o José Moreira Santiago, da circulatória. Já o Nereu só nos dava aula de abdome, quase sem necessitar da ausculta. Mas eu fiquei impressionado com a proibição do notável clínico. Daí que, todas as vezes em que ele estava na enfermaria, eu pedia que auscultasse um paciente, só pelo prazer de vê-lo usar apenas a toalha e o ouvido.

           O professor Nereu ficou tão feliz com nossa homenagem que exagerou no requinte da recepção aos afilhados. Com exceção da festa do paraninfo Javert, a dele foi a melhor. A quantidade de uísque estrangeiro, dos mais finos, foi de nos deixar boquiabertos, antes de embriagados. E os salgados e doces foram de igual quilate. Havia uma linda pernambucana fazendo estágio na Faculdade e nós pedimos à Dilair que a convidasse em nome da turma. E três de nossos colegas, depois do uísque, tiveram de ser contidos, porque queriam agarrá-la de qualquer jeito.

           Mais tarde me tornei colega docente do Nereu, quando transferiu-se para a equipe do professor Galizzi. Acompanhei seu concurso para livre-docente e para titular e achei incrível a quantidade de artigos que publicou. Quando ajudei no levantamento bibliográfico sobre esquistossomose para a tese de livre-docência do professor Arnaldo Elian, este me pediu: o Nereu vai ser meu examinador e nas referncias bibliográficas não pode faltar nada que ele publicou sobre o assunto. Ajudei também na preparação do concurso de livre-docencia de Arnaldo Elian. Só em esquistossomose eram muitos artigos. E pensei: o Nereu não deve ter tempo para dormir, pois, mesmo com sua enorme clínica privada, consegue toda esta lista de publicações!

O Fábio Ribeiro Monteiro foi entre nós o colega que ficou fã imediato do Nereu a ponto de passar a trabalhar com ele após a formatura. O Fábio me disse que estava em dúvida em que se especializar, mas, se continuasse em colaboração com o Nereu, ele só teria uma opção: ser outro Nereu. Logo o Fábio mudou-se de Belo Horizonte e fiquei a imaginar quanto o Nereu lamentou sua ausência.

Na época da mudança do ensino em nossa Faculdade, Nereu de Almeida Júnior, catequizado por Moisés Chuster (feroz adversário de qualquer inovação), passou a me contestar num debate na Congregação. Lembrei-lhe que as objeções de Chuster, que ele inadvertidamente repetia, incidiam exatamente sobre práticas inspiradas nas que tivemos no tempo do Melão, as quais fizeram dele, Nereu, homenageado em nossa formatura. Logo após esse debate o professor Nereu me procurou para reconhecer que, de fato, estava sendo levado a ser adversário de si próprio e brincou: o veterano Nereu estava contra o jovem Nereu.

Recentemente, em minha eleição, que foi unânime, para membro honorário da Academia Mineira de Medicina, o professor Nereu fez questão de dar-me seu voto. Pediu ao Cristiano Alvim Pena que o acompanhasse até seu consultório para que assinasse uma procuração com o voto. E disse a este: este voto para o João Amílcar é meu dever e, mais que isso, este gesto faz deste dia um dia feliz. E o Cristiano me disse: o Nereu, em 2010, na idade que tem, atende consultório diariamente e faz visita a enfermaria da Santa Casa religiosamente a cada manhã.

Nereu de Almeida Júnior é o único dos homenageados que sobreviveu para participar das comemorações de nossos cinqüenta anos de formados. E atende seus clientes como em 1960, quando a maioria de nós, seus afilhados, goza completa aposentadoria.

           

           

           


PAULO NOGUEIRA RESENDE

Encarnou o ideal de internista para cada um de nós

O catedrático Caio Benjamim Dias instalou a Primeira Clínica Médica da Faculdade de Medicina da atual Universidade Federal de Minas Gerais no quarto andar do Hospital da Cruz Vermelha. Os chefes das demais cadeiras de clínica preferiram não adotar sub-especialidades da medicina interna, alegando que cada membro do corpo docente poderia ser sub-especialista em seu consultório particular, mas na universidade deveriam atender como clínicos gerais. Caio Benjamim, ao contrário, a partir de 1959, estimulou a formação de equipes dedicadas a três sub-especialidades: reumatologia, nefrologia e endocrinologia. 

Caio era um internista polivalente que dominava de igual para igual com os sub-especialistas essas três áreas. Percebeu que seu jovem assistente Paulo Resende tinha a mesma versatilidade. Desafiou-o a que desse ênfase temporária à reumatologia no sentido de institucionalizar seu atendimento. Para o Paulo isso foi simples ainda mais que um quintanista seu xará, Paulo Madureira de Paula, se dedicou com a plena força de sua inteligência e com a solidez de sua formação ao atendimento. E logo nos primeiros atendimentos começaram a testar exames laboratoriais na época esboçados para especificar as doenças. Essa atitude científica dos dois Paulos foi o diferencial do início específico da reumatologia em nosso ensino médico.

Os dois assistentes do Caio Benjamin que brilhavam então eram o Paulo Resende, formado em 1955, e o Noel Moreira, em 19.., cuja militância clínica reproduziam os predicados do catedrático. Ao mesmo tempo havia chegado ao mesmo hospital da Cruz Vermelha, cedido por Clóvis Salgado à Universidade, uma estrela internacional da medicina: nada menos que o alemão Rudolf Schindler, o inventor do gastroscópio flexível. Ele foi trazido ao Brasil por Milton Mourão, seu estagiário nos EUA. Aqui foi recebido em nossa Faculdade por um gastroenterologia que era fluente em alemão: João Galizzi, em cuja cátedra passou a treinar futuros gastroscopistas dando primazia nacional a Minas. Como a enfermaria do Caio estava um andar abaixo do serviço do Galizzi, tanto o Noel como o Paulo Resende passaram a acompanhar os exames e os casos clínicos atendidos por Schindler. Eu próprio, como membro da equipe de Galizzi e ao lado do Celso Afonso de Oliveira, fui um dos que fizeram esse acompanhamento. Esses fatos levaram o Paulo Resende, o Noel e o Celso para a ênfase em gastroenterologia. Consequentemente o Paulo Madureira de Pádua, logo que se diplomou, se dedicou exclusivamente à reumatologia. Como sulmineiro muito me orgulha a participação nestas duas origens, a do ensino da reumatologia e a da endoscopia digestiva, de um grupo de doutorandos e médicos – Paulo Resende, Paulo Madureira, Noel Moreira, Milton Mourão e eu - nascidos em cidades muito próximas do Sul de Minas.

Quando Paulo Madureira de Pádua fez concurso para professor titular, fiz parte da banca examinadora e aproveitei para lembrar a fundamental participação de Minas na história da reumatologia brasileira. As estâncias hidro-termo-minerais de Minas madrugaram no cuidado aos reumáticos, preparando o caminho de dois juizforanos: Pedro Nava, fundador da reumatologia brasileira, e Antônio da Silva Melo, que complementou a balneoterapia montanheza com a balneotalassoterapia capixaba, impugnada pelo outro. Nava e Melo clinicavam no Rio, daí que em Minas a lista começa com Pedro Sales, colega de turma de Nava, e Geraldo Gama, discípulo de Nava. Vem a seguir Delcides Baumgratz, Caio Benjamin Dias, Paulo Nogueira Resende, Paulo Madureira, Achilles Cruz, Wires Horta, Fábio Lucca e Murilo Diniz. Paralelamente à expansão do atendimento reumatológico iniciou-se a fisiatria com Márcio de Lima Castro, sucedido por Armando Carneiro. Julguei por oportuno fazer tal enumeração, pois os reumatologistas divergem bastante em seu próprio histórico, sendo notória uma publicação de autoria de ex-discipulo e desafeto de Pedro Nava, que procura diminuir a importância do grande memorialista na gênese da reumatologia nacional.

Já Paulo Nogueira de Resende, tendo a glória desse pioneirismo, não se ligou à militância corporativa dos reumatologistas, embora continuasse a ser procurado todas as vezes em que casos reumatológicos exigissem um excelente internista para dar parecer. O mesmo acontecia em casos endocrinológicos, nefrológicos e nas demais sub-especialidades que vinham surgindo. Cada vez mais atendia gastroenterologia e, quando se fixou em Três Pontas, sua cidade natal, onde tinha fazenda, foi mais uma vez pioneiro. Mostrou que a endoscopia digestiva podia e devia ser interiorizada.

Desde Belo Horizonte, Paulo Rezende fez dupla com nosso colega de turma Fábio Araújo Reis, seu conterrâneo, parente e também fazendeiro. Transferiram-se juntos para Três Pontas e quem ganhou com isso foi esta cidade. Quem lamentou fui eu, pois me encontrava freqüentemente com o Paulo no lanche de Carmópolis, quando íamos de 15 em 15 dias a nossas cidades.

A presença de Paulo Nogueira Resende entre nossos homenageados na formatura não resultou de política minha e do Fábio, foi espontânea e unânime. Repito aqui o que disse em outro texto: Paulo, o virtuose da clínica, e o Wilson Abrantes, o ás da cirurgia, foram os inusitados jovens homenageados numa faculdade cuja tradição era reverenciar provectos docentes. No citado concurso de Paulo Madureira, Caio Benjamin, também na banca examinadora, se emocionou quando salientei a participação de seu discípulo Paulo Rezende na história da reumatologia, acrescentando que considerava este o internista modelar, com quem sempre sonhara: transitava com desenvoltura da reumatologia à gastroenterologia e da endocrinologia à nefrologia.



HOMENAGEADO


WILSON LUIZ ABRANTES

A culminância sinfônica da cirurgia

           

Wilson Abrantes diplomou-se em medicina em 1956 pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais e bem antes da formatura já se salientava na clínica cirúrgica criada por Eduardo Borges da Costa, um dos fundadores da faculdade. A cirurgia moderna - aquela decorrente da descoberta da microbiologia e da anestesia - foi introduzida em Minas a partir de três cidades: em Juiz de Fora pelo mineiro Hermenegildo Vilaça, em Belo Horizonte pelo carioca Borges da Costa e em Itamarandiba pelo francês Afonso Pavie.

           A escola cirúrgica criada por Costa, das três, foi a que teve, desde o início, o caráter universitário. Demais, viveu dois momentos históricos. Deslocou-se da Santa Casa de Belo Horizonte a Paris, onde, no final da primeira guerra mundial, causou excelente impressão, ao executar cirurgias de guerra no Hospital Necquer (cognominado bresilien). Depois, se instalou, em 1922, no novíssimo Instituto do Radium (hoje Hospital Borges da Costa), onde, circundada por cientistas como, entre outros, o bioquímico Baeta Viana e o patologista Carlos Pinheiro Chagas, passou a aperfeiçoar um modo de operar que harmonizava rapidez, precisão e elegância, o qual se prolonga até os dias atuais. Assim, a elegância, a precisão e a agilidade, admiradas hoje em Abrantes por quantos colegas acompanham sua atividade profissional, não são mais do que a culminância sinfônica, feita de talento e competência, apurada ao longo da invejável tradição desta aristocrática corrente da cirurgia mineira.

           Em meu livro de memórias, O RISO DOURADO DA VILA, descrevo o então estudante Wilson Abrantes, quando auxiliava uma cirurgia: No ano de 1956, o primeiro pavilhão do Hospital das Clínicas estava novinho em folha e ali, como já mencionado, tive de ser operado de varicocele. O doutor Emílio Castelar, ... ... pessoa queridíssima de todos nós, sugeriu ... ... o cirurgião Haroldo Pereira, compridão, óculos fundo de garrafa, sério. Será que ele vai enxergar direito, e se a máscara embaçar a lente e ele errar minha veia ou me castrar? A anestesia foi raquiana e, graças a ela, assisti toda a movimentação da equipe, famosa por sua rapidez e elegância. ... ... ... O Zé Elísio (Correia Lima) que era interno de clínica médica esteve na sala cirúrgica o tempo todo contando causos. O primeiro auxiliar foi o interno de clínica cirúrgica Wilson Abrantes, que a toda hora comentava com o Haroldo a técnica usada: a operação de Ivanissevich (apesar do nome, este era argentino, que a propôs em 1923). O Zé e o Wilson vieram a ser respectivamente consagrado anestesista e célebre cirurgião, grandes amigos meus pela vida afora.

           Antes que minha turma se formasse, tivemos a especial sorte de ser alunos do recém-graduado Wilson Abrantes. Os refinados cirurgiões que, modéstia à parte, surgiram de tal privilegiado grupo, como Sérgio de Almeida, Geraldo Coutinho, Sílvio Ribeiro, Rui Esteves Pereira, Dilair de Faria, Luiz Antônio Luciano, Jairo Guerra, Marcos Vinícius Aguillar, Orion Alvarez, Marcelo Ferreira, Ernesto Lentz e Gilberto Lino ficaram definitivamente marcados por sua saudável influência. Os dois últimos, em especial, pois foram como que residentes dele. Era natural, pois, que esse docente, ainda tão novato e já tão destacado nesta função, fosse homenageado na formatura, da qual tive a honra de ser o orador.

           Um horrendo pecado foi então cometido pela direção da faculdade e da universidade. Privaram-se a si mesmas do brilho daquele raríssimo profissional que haviam graduado. E esse homem que nasceu para ensinar foi criminosamente proibido de continuar docente. Mas sua vocação de professor era tão grande que ele, em vez de se abater, tanto fez que encontrou não outro mas outros meios de prosseguir ensinando pelo anos em fora, semeando competências e admiradores por Minas e pelo Brasil.

           Finalmente, mais de quarenta anos depois, a faculdade e a universidade se retratam e lhe reconhecem todos os méritos de que é credor. E lhe concedem a distinção tributada aos egressos que mais ilustram a alma mater. A propósito de tal galardão, quero fazer quatro registros que, a partir de agora, desejo que sejam do conhecimento de todos.

           Wilson Abrantes passou a exercer no Pronto Socorro (hoje Hospital João 23) a docência que lhe foi negada na faculdade. As demais equipes de plantonistas se pautaram pela requisitada equipe liderada por ele, de tal modo que gerações de médicos lhe devem esta pedagogia inestimável. E isso era tão patente que a faculdade, ao fazer a notória reforma curricular de 1975, formalizou o informal estágio no Pronto-Socorro, sob a forma de disciplina obrigatória. E foi assim que ele retribuiu, com generosa contribuição, a injustiça de que foi vítima.

           O mas significativo é que a retribuição se deu não só no fato em si, mas como origem do CONCEITO PEDAGÓGICO DE CURRÍCULO PARALELO OU CLANDESTINO, ou seja, aquele currículo desenvolvido extramuralmente pelo aluno, na busca desesperada para conseguir fora o treinamento que lhe é negado dentro da escola. E é notável que a concepção se inspira naquele que buscou exercer fora o ensino que lhe foi negado dentro da escola! Em 1986 tive a oportunidade de expor a idéia e o fenômeno de currículo paralelo ou clandestino em universidades dos EUA. Um conceituado especialista em ensino médico me aparteou dizendo que este conceito era o instrumento de análise mais interessante ouvido por ele nos últimos tempos. E eu lhe respondi que era, em grande parte, resultado de reflexões sobre tremenda injustiça cometida contra um notável médico de meu país.

           E isso não ficou por aí, pois tal inspiração levou a um conceito mais amplo, o de UNIVERSIDADE PARALELA. De fato, quando meu colega Cid Veloso foi candidato a reitor, incluí em sua plataforma a proposta de criar a Universidade Paralela da UFMG, que nada mais é que trazer ao público interno e externo de nossa universidade aqueles, como Wilson Abrantes, que jamais deveriam estar fora dela. Nisso incluiríamos uma gama enorme de gente, inclusive da cultura popular. Infelizmente não foi possível concretizar essa idéia, cujo único remanescente é esta premiação que ora se dá.  Além disso, temos no Centro de Memória da Medicina de Minas Gerais uma miniatura de como seria a coisa, pois ali historiadores, estudiosos e interessados, não pertencentes ao corpo docente, comungam com este, sem discriminação, o grato prazer de dialogar com a juventude.

           Se fui paciente do ainda estudante Wilson Abrantes, também testemunhei uma das últimas de suas inúmeras façanhas cirúrgicas enquanto ainda docente. Quarenta crianças abandonadas só tinham por elas no mundo dona Conceição Fernandes, que nada tinha de seu exceto a saúde. Pois bem, um tumor gástrico foi diagnosticado na extraordinária mãe adotiva. Eu disse ao cirurgião que da perícia dele, diante daquela lesão inicial (endoscopica e histologicamente identificada), dependia o futuro dos meninos. E acompanhei, com surpresa e crescente admiração, por mais de duas décadas, a sobrevida assintomática daquela magnífica benfeitora.

           Finalmente, quero salientar um traço desse mestre unânime do qual são testemunhas seus numerosos ex-residentes: é o uso do humor como instrumento didático. Esta é uma tradição mineira e de nossa faculdade, cultivada do Ângelo Machado ao Osvaldo Costa, e que no Abrantes adquiriu peculiaridades deliciosas. Trata-se de uma das marcas de sua grandeza, pois, em vez de travo amargo ou lamuriento, retribui com ensinamento e riso a supressão inominável da metade irredutível de sua vocação, a de professor. Daí a frase tão verdadeira que me proferiu emocionado: João, eu saí da escola, mas a escola não saiu de mim. 


HOMENAGEADA

 

HÉLCIA QUEIROZ GUIMARÃES

Linda, meiga e inteligente

 

           Não tivemos dificuldade nenhuma em escolher nossa homenageada na área técno-administrativa. De modo independente e espontâneo, vários colegas sugeriram a Hélcia da Obstetrícia. E, na reunião decisória, tão logo seu nome foi mencionado, foi aclamado por unanimidade. Tive a ventura de fazer meu último estágio na obstetrícia e ali conheci melhor aquela moça, que além da beleza, era de uma gentileza fora do comum para com todas as pessoas, desde o chefe e os docentes, até os estudantes, os funcionários, os serviçais, as pacientes e os familiares destas.

           Quando ela estava presente na secretaria da clínica, eu observava que médicos e doutorandos, e mesmo estudantes que não eram alunos da cadeira ou estagiários, pretextavam necessitar alguma informação, só para vê-la de perto, principalmente seus olhos perturbadores, e receber seu doce sorriso, já que este era inevitável, tal a sua prontidão em atender a qualquer um.

           Eu ia além, aproximava-me dela não para perguntar algo, mas para conversar. E nisso ela era surpreendente, pois era alto seu nível de conhecimentos gerais e, mais que isso, ela era dotada de rara capacidade crítica sobre qualquer assunto. Para completar tudo isso, possuía fino senso de humor, às vezes irônico, às vezes ferino.

           Dou um exemplo disso. Tínhamos de apresentar uma monografia ao curso. Ela passou os olhos por meu texto e se interessou por lê-lo na íntegra. O assistente encarregado de avaliar a monografia assinalou em vermelho uma frase e fez um sinal de interrogação sobre ela. Estava ali escrito o seguinte:. O homem moderno tem o mau hábito de ingerir sal, daí que, quando se engravida, pode desenvolver a toxemia da gravidez. Antes que eu me defendesse da interrogação do professor, a Hélcia fez ver a ele que o homem ali era o ser humano e não o masculino de mulher.

           Certa manhã ela foi à sala de partos para avisar-me que tinha ajudado a preparar uma festa referente a mim, que era formando. Um de nossa turma, o Márcio, estava noivo da filha do regente da cadeira. E a festa era para ele, extensiva a mim. Em meu livro de memórias O RISO DOURADO DA VILA (2003) descrevo o que aconteceu então: Nos dias da formatura amanheci no plantão obstétrico e havia um almoço ali para nós, especialmente para o Márcio Luiz Tornelli, que então já escolhera não só ser ótimo obstetra mas a noiva, a belíssima e culta Diva, filha do erudito guapeense professor Hermínio Pinto. Quase estrago a festa, pois a Diva entrou em náuseas ao ver-me aproximar de avental com a tinta sangre do último parto. Da obstetrícia saiu a homenageada da turma na área administrativa, a gentil, bonita, inteligente e meiga Hélcia Queiroz Guimarães.

Certo dia a Hélcia me disse: é verdade que você vai ser o orador da turma?, se você precisar, eu datilografo seu discurso. A datilografia caprichada que ela fez está aqui na minha frente, para melhor lembrar-me dessa sua especial delicadeza. Quando terminou a solenidade, ela me cumprimentou, dizendo que foi o mais belo discurso que já ouvira em sua vida. Todos os muitos elogios ficaram pequenos perto deste!

Logo que nossa turma começou a estagiar na obstetrícia, um dos colegas deixou por debaixo da porta uns versos para a Hélcia. Ela guardou o papel e, quando fui estagiário, me mostrou o papel. Disse que achava ser eu capaz de identificar o autor daquela mensagem, escrita em letra de imprensa. De fato o identifiquei de imediato e era alguém que ela também admirava. Mas menti, dizendo que ia levar os versos para investigar. O que eu queria era obter a autorização do remetente. Ele me proibiu de falar. É que, da data dos versos até aquele dia, ele já estava quase noivo... O papel, já amarelado, está aqui em minhas mãos e o que ele diz foi tomado emprestado de Vinícius de Morais:

Ó minha Hélcia,

Que olhos os teus.

São cais noturnos

Cheios de adeus.

São docas mansas,

Trilhando luzes,

Que brilham longe,

Longe dos breus...

Quanto mistério

Nos olhos teus!

Quantos saveiros,

Quantos navios,

Quantos naufrágios,

Nos olhos teus...

           E os olhos da Hélcia são tudo isso, sem tirar nem por!...



***